"Assumir-se como negro no Brasil significa assumir um ônus". Entrevista com Petrônio José Domingues

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20 Julho 2007

O protesto negro no Brasil pós-abolicionista durou três fases, que se estenderam de 1889 a 2000. Essa é a constatação do professor da Universidade Federal do Sergipe, Petrônio José Domingues, que participou da 24ª edição do Simpósio Nacional de História, na Unisinos. Na manhã desta quinta-feira, 19-7-2007, Domingues apresentou o minicurso O negro no pós-abolição: organização e luta.

No decorrer dessas três fases, explica o pesquisador, o movimento negro passou por mudanças significativas. Na primeira fase do protesto negro no País, ocorrida entre 1889 a 1937, o movimento tinha um caráter mais nacionalista, que persistiu na segunda fase, entre 1945 e 1964. Somente a partir de 1978, quando inicia a terceira fase, o movimento abraçou o projeto internacionalista, considerando o preconceito um problema internacional, e relacionando-o com os problemas ocorridos nos Estados Unidos e na África.

De acordo com o professor, o negro brasileiro era distante de alguns símbolos da sua cultura. Essa posição mudou a partir de 1945, mas, mesmo assim, a postura dos movimentos era ora favorável, ora contrária a sua cultura. “Embora alguns negros tivessem contato com seus objetos culturais, eles não faziam defesa pública”. Segundo Domingues, uma mudança radical a esse respeito só correu no final da década de 1970. A partir deste momento, eles “passaram a defender a cultura negra veementemente”.

As mudanças do protesto negro ocorreram também em relação as alternativas pensadas para acabar com o preconceito. Antes da década de 1980, o movimento considerava que as soluções poderiam ser possíveis através da educação e da cultura. No entanto, atualmente, essa posição mudou. As soluções, segundo os estudos do professor, se darão pela via política, com o negro no poder, e numa sociedade socialista. “Só o socialismo irá acabar com todos os tipos de opressões no País”, destacou o pesquisador.

IHU On-Line esteve presente no minicurso e conversou com o professor Petrônio José Domingues.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual é a importância dos movimentos negros para a comunidade negra?

Petrônio José Domingues – Os movimentos negros e ONGs que trabalham com a questão racial contribuem, em primeiro lugar, para a construção de uma identidade negra no Páis, para a elevação da auto-estima e do orgulho negro; em segundo lugar, contribuem pela luta dos direitos e da cidadania do negro; e, em terceiro lugar, alertam a população brasileira para o fato de que existe o problema do racismo.

IHU On-Line – Quais as principais reivindicações dos grupos negros, hoje?

Petrônio José Domingues – Hoje, o eixo dos movimentos negros luta para defender políticas de ações afirmativas. Essas políticas não se reduzem a um programa de cotas. Elas devem ser mais amplas, promovendo a igualdade no emprego e incentivando a formação educacional.

IHU On-Line – A escola é um meio para mudar a visão histórica do negro no Brasil?

Petrônio José Domingues – A história cumpre um papel estratégico na luta da população negra no País. Cumpre um papel estratégico porque a escola é um local em que se dá a formação cultural do indivíduo, é um local de sociabilidade e de exercício da cidadania. Então, é nela que se pode trabalhar conteúdos que prezem por respeitar a diversidade racial e o multiculturalismo.  Isso passa por valorizar a história dos vários grupos étnicos que contribuíram para a formação do País, pois é na escola que se dá a diversidade racial.

Ao pensar em escola, temos que pensar também na figura do professor, na grade curricular e nos livros didáticos. A figura do professor é fundamental. Se ele tem uma prática pedagógica que passa a respeitar a diversidade racial, numa sala de aula, os alunos terão um aprendizado de como conviver com o outro. Então, de fato, o professor é o condutor desse processo.

É importante lembrar que a grade curricular e os livros didáticos são preponderantemente eurocêntricos, pois são pensados à luz da cultura ocidental e, particularmente, européia. Há pouco tempo, a grade curricular está sendo apresentada, também, a partir do ensino da história da África e da cultura afro-brasileira. Mas essas mudanças ainda não se concretizaram em âmbito nacional.

Lembro que na escola os alunos têm contato com conteúdos através do livro didático, e esse material ainda apresenta uma visão estereotipada do negro. Então, para haver essa mudança em âmbito escolar, precisa ser produzido um material didático pautado no respeito à diversidade racial.

IHU On-Line – Por que demorou tanto tempo para se inserir a história do negro na escola?

Petrônio José Domingues – Essa demora deu-se, em primeiro lugar, porque a sociedade brasileira foi formada a partir da concepção de que no Brasil não havia problema racial. Esse é um dos mitos fundadores do Brasil: o da democracia racial. A idéia que se tem no Brasil é a de que o único problema existente é a pobreza. Esse mito fundador da sociedade foi bastante eficaz e impediu que as pessoas reconhecessem a existência do racismo. Então, ele impediu que, por diversos anos, a sociedade não se sensibilizasse com essa questão. Eu entendo que tal quadro começou a se alterar a partir da década de 1990. Aos poucos, a sociedade brasileira está se conscientizando de que o problema não é só social, mas também racial.

IHU On-Line – O que o senhor pensa sobre as cotas para negros nas universidades? Elas podem gerar mais preconceito?

Petrônio José Domingues – Eu, particularmente, sou favorável aos programas de cotas. Nós temos que partir do princípio que o negro não se encontra em pé de igualdade no ensino superior ao que não é negro. Na verdade, não só no ensino superior, mas em toda a sua etapa do processo educacional. Então, não há igualdade de oportunidades na educação brasileira. Como reverter isso? As cotas representam apenas uma das medidas que podem contribuir. Não é a única, mas é um paliativo que permite um ingresso de negros no ensino superior em todos os cursos. Eu falo isso porque sou professor da Universidade Federal de Sergipe, e o fato de termos muitos negros e mestiços no Estado se reflete na universidade. Lá, argumenta-se que não há a necessidade de cotas, porque o negro já está inserido na faculdade. Eu utilizo um argumento contrário: o de que encontramos, sim, muitos negros nos cursos de Ciências Humanas. Mas não se encontram negros na Universidade Federal do Sergipe (que é um estado eminentemente negro e mestiço), nos cursos da elite, como Direito e Medicina. Então, as cotas devem permitir o ingresso de negros em todos os cursos.

Particularmente, acredito que não haverá preconceitos. Mas, se isso acontecer, vão cair por terra as características da sociedade brasileira, no que diz respeito às relações raciais, de que o racismo se dá de forma mascarada. Se isso ocorrer, as pessoas vão mostrar que são realmente racistas.

IHU On-Line – Como o golpe de 1964 influenciou no protesto negro na época? As conseqüências do golpe refletem nos dias de hoje?

Petrônio José Domingues – O golpe de 1964 baniu a democracia e se caracterizou aos movimentos sociais de um modo geral. O movimento negro também passou a ser perseguido. Sempre que se fala das perseguições se esquece daquela que houve por parte dos dirigentes negros. Eles nunca são lembrados e mencionados nessa memória nacional que se construiu em torno das vitimas da repressão brasileira, após o golpe de 1964. Então, o golpe desestruturou o movimento negro. Alguns grupos conseguiram sobreviver, mas sem o potencial de protesto, de contestação, sem poder fazer denúncia pública do preconceito racial. Assim, o golpe retardou o processo que estava crescendo no país, de conscientização da sociedade brasileira.

IHU On-Line – As lutas dos jovens universitários negros do década de 1970 influenciaram os universitários do século XXI? Como o senhor avalia a militância universitária atual?

Petrônio José Domingues – Nunca se militou tanto pela causa negra quanto agora. O grau de conscientização atual é superior ao que se dava no final da década de 1970, que foi o período em que jovens negros iniciaram nas universidades do Brasil. Atualmente, esses jovens universitários são ávidos por discutir a questão racial. Mas não podemos estereotipar esse jovem, achando que ele deve fazer discurso político. Ele, muitas vezes, defende a questão do negro a partir da cultura, do visual, do comportamento. Hoje, o engajamento do negro universitário se dá em maior escala do que na década de 1970.

IHU On-Line – Que medidas são necessárias para abolir o racismo da sociedade brasileira?

Petrônio José Domingues – Essa pergunta exigiria uma reflexão mais aprofundada. Mas, em primeiro lugar, para banir com o problema do racismo, são necessárias medidas de ordem legal. Temos que fazer valer as leis que criminalizam o racismo. Em segundo lugar, só isso não resolve, pois as medidas legais e punitivas não educam culturalmente o povo. Assim, precisam existir medidas voltadas para reeducar a sociedade brasileira.

É preciso lembrar que a família cumpre um papel importante nessa história. Muitos dos preconceitos são fomentados num espaço intrafamiliar. E, para invadir esse espaço privado, os meios de comunicação também cumprem um papel estratégico na luta pela superação das desigualdades raciais do Brasil. Penso que a TV, por trabalhar com a imagem, poderia desenvolver um papel mais educativo. Nesse caso, a temática negra deveria ser sempre pautada, desde a escolha de filmes com personagens negros até a reprodução de desenhos. Isso ajudaria a desenvolver o imaginário infantil.

IHU On-Line – Como estão os estudos da historiografia negra na academia?

Petrônio José Domingues – Esse tema veio ganhando espaço no mundo acadêmico e, atualmente, está mais valorizado. Durante muito tempo, esse estudo foi desprezado pela academia.
Em função da atual mobilização que está acontecendo no País, sobre os negros, o tema tem refletido no mundo acadêmico. De modo que muitas pessoas estão desenvolvendo pesquisas sobre ele. Aliás, nunca se publicou, no Brasil, tantas publicações sobre essa temática.

IHU On-Line – Por que existe a autodenominação da cor? Por que os negros se autodenominam como indivíduos de cor morena, mulata, cor cuia etc .?

Petrônio José Domingues – Entendo que o mito da mestiçagem no Brasil emplacou no sentido de que muita gente no Brasil não se assume a partir de uma identidade racial, optando pelo uso dos termos mestiço, pardo e moreno. Tudo isso serve para esconder a identidade racial. O discurso oficial de que no Brasil todos nós somos mestiços triunfou durante muito tempo. Isso, com certeza, influenciou os negros, de modo que eles passaram a ter dificuldade de uma auto-identificação.
Evidentemente, o negro nunca foi visto de forma positiva, nunca foi valorizado e, por isso, fica muito difícil para ele, que sempre ouviu que no Brasil todos são mestiços, assumir-se como tal. Assumir-se como negro no Brasil significa assumir um ônus.

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