Relações de gênero na indústria automotiva. Entrevista especial com Darli de Fátima Sampaio

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09 Fevereiro 2008

“Relações de gênero na indústria automotiva: um estudo de caso na Renault Paraná” é o título da dissertação feita por Darli de Fátima Sampaio. Na pesquisa, realizada desde 2005, Darli relaciona temas como gênero, tecnologia e poder. Em entrevista à IHU On-Line, feita por e-mail, Darli conta que este trabalho teve como objetivo a análise da ordem simbólica em relação à mulher inserida em uma indústria de automóveis. Para isso, Darli entrevistou as trabalhadoras de “chão de fábrica” e administrativas da Renault do Paraná.

Darli revela, ainda, as diferenças no mundo do trabalho entre esse dois tipos de mulheres dentro da empresa: a produtora e a administrativa. Fala também do preço que as mulheres com cargos mais elevados tiveram de pagar para chegar a este patamar e de como os homens as vêem como colegas de trabalho. “Os homens acham que a mulher é mais paciente, mais concentrada, mais carinhosa, com mais senso estético entre outros e as mulheres acham que os homens são mais racionais, estão mais relacionados à força física”, relata.

Darli de Fátima Sampaio é graduada em filosofia pela PUC-PR. Realizou aperfeiçoamento em diversas áreas, tais como orçamento público, história da filosofia e fé e política. Darli realizou, também, especialização em Economia Solidária na Universidade Federal do Paraná. Em seu mestrado, também realizado na UFPR, produziu a dissertação em razão da qual foi entrevistada pela IHU.

Confira a entrevista que foi publicada, originalmente, em 18-07-2007.

IHU On-Line - Quais são as principais conclusões a que você chegou em sua dissertação?

Darli de Fátima Sampaio - O objetivo do trabalho foi analisar em qual ordem simbólica referida a gênero se dava a inserção das mulheres em uma indústria automotiva no Paraná, e como elas experienciavam e se apropriavam de tais representações em dois setores específicos nessa indústria: o produtivo e o administrativo. Vale dizer que quando pensamos em ordem simbólica, tomamos em conta a análise das relações de poder que constituem, transitam e permeiam as inter-relações e as articulações entre as mulheres dentro de um processo de interação social. Constatou-se que a empresa interagia sob perspectiva de gênero essencializada e dualizada nos setores analisados. Muda-se apenas o seu conteúdo e inviabiliza-se a relação com o empoderamento, no caso do setor administrativo, já que para o setor produtivo esta perspectiva parece já não existir. Outra conclusão é que a divisão sexual do trabalho na fábrica é extensão da divisão de gênero, incorporada e cristalizada no mundo doméstico e na sociedade em geral.

IHU On-Line - Você afirma que a divisão sexual do trabalho na fábrica é extensão da divisão de gênero, incorporada e cristalizada no mundo doméstico e na sociedade em geral. Como isso ocorre?

Darli de Fátima Sampaio - Percebemos a sociedade em constantes, aceleradas e profundas mudanças. Mas, estranhamente, diante de tantas transformações, permanece, surpreendentemente sólida, a histórica divisão sexual do trabalho, presentes nos séculos que antecedem à Era Cristã, segundo teóricas feministas. Estudos nesse campo compreendem e contextualizam a divisão sexual do trabalho não como resultado de um “destino biológico”, mas como construções sociais e culturais, forjadas nas relações humanas. Segundo autoras como Kergoat (1), por exemplo, homens e mulheres são mais que uma coleção de indivíduos biologicamente distintos. Eles formam grupos sociais que estão engajados em uma relação social específica: relações sociais de sexo. E essa relação social tem uma base material, que é o trabalho.

Mas a divisão sexual é muito anterior ao trabalho, pois já existia em comunidades que não eram de classe e as razões de seu início foram referidas à reprodução e ao controle da fecundidade. Essa divisão é decorrente das historicidades das relações sociais e determinou as ditas funções masculinas e femininas, sacralizando uma situação de desigualdade para as mulheres em relação aos homens. Definiu e delimitou, entre outras coisas, o que se julgava “o papel” feminino com características impostas de fora, supostamente únicas, enfim o que a mulher deve ser e fazer. Esta situação foi transferida para o interior da fábrica, que, da mesma forma que ocorre na família, em escala de apropriação, usa e abusa dessa divisão, significando prejuízo para as mulheres.

Essa dinâmica da divisão sexual do trabalho, que não é nova, continua interagindo na produção dos bens e na reprodução da vida e dos valores marcados pela desigualdade dos processos de inserção de homens e mulheres no mercado de trabalho. É benéfica para a empresa a apropriação de uma visão essencializada da mulher, pois se você parte do pressuposto que determinadas funções são naturais e mais “adequadas” a ela, tais como a minuciosidade, paciência para esforços repetitivos entre outras, nãos se precisa agregar valor, afinal esses elementos são "naturais". Agora, se há um entendimento de que é trabalho altamente qualificado e que as mulheres foram preparadas e treinadas para tais qualidades desde muito pequenas, é preciso remunerá-las. Então, é mais barato e confortável garantir a continuidade da divisão sexual do trabalho.

IHU On-Line - Você entrevistou mulheres do chão-de-fábrica e da administração. Como estes dois mundos se relacionam e se diferenciam?

Darli de Fátima Sampaio - Foram analisadas mulheres de setores bem diferenciados, mas sem tornarem centrais as possíveis diferenças existentes entre elas, o que poderia tornar a análise homogeneadora e uniformizante. A questão central era saber qual ordem simbólica permeava o trabalho delas. São mulheres evidentemente com trajetórias de vida bastante diferenciadas. No setor produtivo, especialmente, observou-se o grande pavor do desemprego. A preocupação central é a permanência na empresa e a ascensão profissional. Para isso, elas se submetem às triplas jornadas de trabalho, procuram estudar, fazer muitos cursos. Na família, estabelecem uma relação de solidariedade e de troca de favores, no que diz respeito aos afazeres e cuidados domésticos, que são colocados sob a sua responsabilidade. São os chamados arranjos familiares. Elas contam com a ajuda da mãe, da irmã, da filha, da tia, enfim. Têm também um número maior de filhos.

No setor administrativo, encontramos executivas altamente qualificadas que falam vários idiomas e têm salários altos, com um excelente padrão de vida, mas são bastante frustradas do ponto de vista profissional, pois percebem que, dentro da organização de trabalho enxuta e puxada pela demanda de uma automotiva, não há perspectiva de crescimento. Elas enfrentam critérios segregadores e, além disso, estão em desvantagem numérica. Evidentemente que algumas mulheres conseguiram quebrar o chamado “teto de vidro” da ascensão profissional e alcançaram cargos na diretoria da empresa. Todavia, estar na diretoria não significou estar nos cargos de decisão. Há outros “tetos de vidros” no caminho da ascensão profissional. No mínimo, é muito questionador o fato de mulheres extremamente qualificadas, capacitadas, não ocuparem o lugar de seus respectivos chefes. É esta ordem simbólica, estabelecida na empresa, que se buscou evidenciar no trabalho.

Quanto ao relacionamento, embora tanto as mulheres do produtivo e administrativo sejam submetidas a uma intensidade de trabalho assustadora, atingindo-as física e psicologicamente, em cada setor de trabalho, e enfrentem, por exemplo, programas de qualificação que apresentam diferenças segregadoras, não há e não é estimulado nenhum relacionamento estabelecido entre elas. As mulheres do produtivo não devem ser vistas; são invisíveis, inclusive no uniforme que usam. Devem produzir numa capacidade cada vez maior. As mulheres do administrativo são mulheres que devem ser vistas, apreciadas e mesmo desempenhar funções de “aparamento” nos conflitos trabalhistas internos, antes que estes cheguem às chefias correspondentes, visto que há uma percepção que trabalham melhor as frustrações. Enfim, tudo o que some no aumento da venda do produto. No entanto, são também invisíveis do ponto de vista dos cargos de decisão.

IHU On-Line - Em sua dissertação, você afirma que as mulheres que ocupam postos de relevância dentro da empresa pagaram um preço alto para chegar lá. Por quê? Que preço foi esse?

Darli de Fátima Sampaio - Para chegar aos postos de trabalho que ocupam, essas mulheres tiveram que se dedicar 100% à empresa. Não havia linha divisória entre o espaço profissional e o privado, ou seja, o doméstico. A empresa vinha para dentro de seus lares, nos quais o trabalho continuava estabelecendo uma nova e extenuante jornada. Elas tiveram que estar sempre à disposição da empresa, sendo acessadas a qualquer momento, precisando mostrar disposição e comprovar mais ainda seu potencial produtivo. E também, para permanecerem empregadas, o que é um desafio cotidiano, precisam constantemente pesquisar, se atualizar, ser bastante reflexivas, enfim, precisam se qualificar e se constituir nessa perspectiva. Claro que nesse ritmo imposto, cuidados com crianças, afazeres domésticos, cobranças de maridos, namorados ou companheiros, atrapalhavam. Muitas abriram mão de relacionamentos permanentes, de laços familiares, de amizade, de ter filhos, entre outras coisas. Vivem sozinhas. Outras até têm um companheiro, mas formaram um lar sem filhos. Estabeleceram uma relação comercial com outras mulheres para o cuidado e afazeres domésticos. E se reconheceram frustradas nas escolhas realizadas em vista da ascensão profissional.

IHU On-Line - Como os homens vêem as mulheres dentro da fábrica e qual é a visão que as mulheres têm dos homens?

Darli de Fátima Sampaio – Os homens as vêem a partir de uma visão essencializada que define o papel de homens e mulheres, ou seja, acham que as mulheres são mais pacientes, concentradas, carinhosas, com mais senso estético entre outros. Por sua vez, as mulheres acham que os homens são mais racionais e estão mais relacionados à força física. Constata-se, então, uma situação de “cegueira e de silêncio”, no que diz respeito a gênero. O sujeito corporificado e individualizado não é visto e nem pensado. Quem não sofre as desigualdades na primeira pessoa tende a se silenciar sobre o cotidiano enfrentado.

IHU On-Line - No seu trabalho, você explora o fato de que a montadora tem interesses específicos na contratação da mão-de-obra feminina. Quais são eles?

Darli de Fátima Sampaio - É fato que as montadoras vêm percebendo a importância e a diferença que vem da mão-de-obra feminina. No caso específico da Renault (2), as mulheres entram numa situação de desigualdade, mas buscam a superação constante, até mesmo nos seus limites físicos. Precisam manter-se no emprego e também almejam novas funções. Como estão acostumadas a longas jornadas de trabalho, à polivalência, reclamam menos e cumprem metas. Então, o rendimento delas é muito bom. A empresa se apropria das características desenvolvidas nas mulheres, tais como paciência, delicadeza, concentração, senso estético, entre outras, pois nesse setor altamente competitivo se concentram chefias estressadas. Assim, as mulheres são utilizadas como “aparadoras” ou “anestesiadoras” para as tensões estabelecidas. Há uma apropriação do que Kurz (3) chama de “capital emocional” relacionado às mulheres, ou seja, se o homem está relacionado ao uso da força física, elas estão ligadas aos relacionamentos humanos. No trabalho, as mulheres são consideradas de mais fácil diálogo, trabalham melhor em equipe, com as frustrações, e são mais maleáveis. Características benéficas para a empresa, em sua busca constante pelo lucro.

IHU On-Line - A montadora que você pesquisou, a Renault, é avessa a pesquisadores. Você poderia nos contar como conseguiu entrevistar as trabalhadoras?

Darli de Fátima Sampaio - Não foi fácil. Via instituição não deu. A Renault se mostrou realmente avessa à pesquisa e preocupada com seus segredos tecnológicos e organizacionais. Exercem pressão sobre os funcionários, com a tentativa de garantir deles muita discrição. A Renault se mostrou gentil nos contatos iniciais realizados, mas não cedeu. Buscamos contatos por meio dos trabalhadores da empresa e demais referências recolhidas. Outra coisa que também trouxe bons resultados foram os plantões realizados na porta da fábrica. Estabeleceram-se, nesse local, bons contatos e convencimentos para a participação na pesquisa, pois especialmente as mulheres do setor produtivo demonstravam grande preocupação em revelarem alguma informação, eventualmente sigilosa, e com isso pudessem inclusive sofrer mais pressões ou demissões. A partir do momento que estabelecemos contatos com as próprias trabalhadoras, especialmente as do setor administrativo, abriu-se um bom leque de possibilidades para as entrevistas. Todas as mulheres do setor produtivo foram entrevistadas nas suas próprias casas, pois não havia outra possibilidade para realizar as entrevistas. No administrativo, entrevistamos algumas executivas na própria empresa em suas próprias salas de trabalho ou de reuniões e outras em suas respectivas residências. Esse fato foi muito importante, em termos de análise.

IHU On-Line – Quais foram as novidades que a dissertação trouxe para você na abordagem do conceito de gênero?

Darli de Fátima Sampaio - Falar em gênero é falar no aspecto relacional: é um método de análise, que revela e questiona situações tomadas como “naturais”. Não acho que o caminho seja, por exemplo, a simples renúncia das características construídas, desenvolvidas e estimuladas, mas se faz importante que sejam percebidas e entendidas como qualificação, ou mesmo alta qualificação, e não apropriadas numa visão essencializada e dualizada que permite a manutenção de uma exploração. Não existe uma mulher, mas existem várias possibilidades de ser mulher.

É absolutamente possível que os homens desenvolvam outras características que vão de encontro ao relacionamento humano, além daquelas tradicionalmente estimuladas. No trabalho desenvolvido, reforça-se a tese de Helena Hirata (4) de que, do ponto de vista de uma saudável e necessária mudança na sociedade no que diz respeito a gênero, será possível quando houver alteração na divisão sexual do trabalho. O mundo do trabalho não é formado por apenas um sexo e coloca enormes desafios para homens e mulheres, mas atualmente, infelizmente a carga maior está sobre os ombros das mulheres.

Notas:
(1) Danièle Kergoat é socióloga, diretora de pesquisa no GERS (Gênero e Relações Sociais) na Unidade mista de pesquisa CNRS da Universidade Paris, na França. Suas pesquisas tratam da divisão do trabalho e as relações sociais de sexo e sobre a centralidade do trabalho na constituição do sujeito sexuado.
(2) A Renault S.A. é um fabricante francês de veículos que produz desde automóveis pequenos, médios e grandes. Foi fundada em 1898 pelo industrial francês Louis Renault e seus irmãos Marcel e Fernand, pioneiros da indústria automobilística e introdutores do taylorismo como forma de organização do trabalho na França.
(3) Robert Kurz é um filósofo e ensaísta alemão, autor entre outros de "O colapso da modernização". A área dos seus trabalhos abrange a teoria da crise e da modernização, a análise crítica do sistema mundial capitalista, a crítica do iluminismo e a relação entre cultura e economia.
(4) Helena Sumiko Hirata é doutora em sociologia pela Universidade de Paris. Atualmente, é diretora do Laboratório de Ciências Humanas do Centro Nacional de Pesquisas Científicas da França e professora da Universidade Paris VIII. É autora de obras como "Uma nova divisão sexual do trabalho? – Um olhar voltado para a empresa e a sociedade" (São Paulo: Editora Boitempo, 2002).

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