A eclesialidade das igrejas cristãs. Teólogos debatem documento do Vaticano. Entrevistas especiais com José Comblin, Walter Altmann e Faustino Teixeira

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11 Julho 2007

Muitas são as opiniões sobre o documento que o Vaticano lançou nesta segunda-feira, definindo que a Igreja Católica é a única igreja de Cristo. A IHU On-Line ouviu o teólogo Pe. José Comblin, que está participando do congresso anual da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião – SOTER; o Presidente da IECLB Walter Altmann; o teólogo presbiteriano Antonio Carlos Costa;  e o teólogo e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora Faustino Teixeira.

José Comblin, entrevistado pessoalmente, é um teólogo, exímio conhecedor da América Latina. É autor, entre outros muitíssimos livros,  de A ideologia da segurança nacional: O poder militar na América Latina (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978). Nos últimos 30 anos, dedicou a maior parte do seu tempo à formação de leigos.

Walter Altmann, entrevistado por e-mail, é pastor e presidente da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. Formado em Teologia pela Escola Superior de Teologia (EST), em São Leopoldo, Altmann é Doutor em Teologia pela Universidade de Hamburgo, Alemanha.

Faustino Teixeira, entrevistado por e-mail, é professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora, em Minas Gerais. É autor de vários livros sobre a teologia do diálogo inter-religioso.

No dia de ontem, publicamos uma entrevista com Luís Carlos Susin sobre o mesmo tema.

Confira as opiniões.

IHU On-Line – Qual é o significado deste documento para todas as religiões e seu impacto ecumênico?

Walter Altmann – Ao tomarmos conhecimento do Documento da Congregação para a Doutrina da Fé, do Vaticano, a primeira sensação que temos é de desalento. A Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil expressa em sua Constituição ter um “vínculo de fé” com todas as igrejas que confessam a Jesus Cristo como Senhor e Salvador e tem mantido relações estreitas com as igrejas que compartilham seu compromisso ecumênico. Conseqüentemente, a IECLB não nega a classificação de igreja a nenhuma das igrejas centradas na fé em Cristo, e tampouco passará a fazê-lo em relação àquelas igrejas que, em sua autodefinição, não a reconhecem como Igreja em sentido pleno.

Em segundo lugar, o desalento deve vir acompanhado, ainda que com dificuldade, do pleno respeito à definição eclesiológica de cada igreja. A IECLB registra ainda que as respostas do novo documento se voltam, a rigor, ao público interno da Igreja Católica Romana, um indicador inequívoco de que há em seu interior um processo de reflexão teológica em torno da natureza da Igreja e das relações ecumênicas entre as confissões cristãs. Não pode surpreender, porém, que posições internas de cada igreja tenham também repercussão nas demais igrejas, e estas, por sua vez, podem e devem externar suas próprias preocupações com o futuro do ecumenismo.

Por fim, embora o documento classifique que na Igreja Católica ocorrem “desvios geradores de dúvidas”, o diálogo acerca da natureza da Igreja se faz indispensável hoje não apenas no interior de cada igreja, como também entre as igrejas. É por isto que o movimento ecumênico tem chamado, com razão, as igrejas a uma reflexão conjunta e fraterna acerca do seu próprio “ser-igreja”. Esse chamado se torna, pois, ainda mais necessário e urgente.

Faustino Teixeira – O recente documento da Congregação para a Doutrina da Fé (CdF) é mais um instrumento a ser utilizado pelo magistério oficial da Igreja católico-romana para marcar uma posição específica na disputa em favor de uma dada recepção do Concílio Vaticano II (1962-1965). Não é nenhuma novidade para os historiadores da Igreja, que trataram este evento conciliar, a incisiva disputa que se travou ali em torno de duas eclesiologias: uma jurídica e outra de comunhão. E isto aconteceu sobretudo no  processo de elaboração da Constituição Dogmática sobre a Igreja: Lumen Gentium. Em alguns documentos do Concílio, é evidente a presença de textos de compromisso entre estas duas eclesiologias. Não se conseguiu, no Concílio, uma síntese das duas visões eclesiológicas, o que é visto por alguns autores como um dos limites do Vaticano II.  O que hoje estamos assistindo é um movimento decisivo em favor de uma interpretação do Concílio, ou uma leitura do Concílio marcada pela “reafirmação da tradição”. E isto não é, propriamente uma novidade, mas uma cantilena reiterada desde o início dos anos 1980, ou para ser ainda mais preciso, desde o momento em que o então cardeal Ratzinger foi nomeado Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, em novembro de 1981.

Como mostrou, com acerto, o historiador da Igreja, Giuseppe Alberigo, este nosso momento pós-conciliar é, em grande medida, “uma projeção das tensões que percorreram a assembléia e não por acaso os protagonistas são personagens do mesmo Concílio”. Alberigo assinala que o que hoje se assiste é uma nítida retomada de “posicionamentos que o Vaticano II tinha desautorizado ou superado e que estavam circunscritos a núcleos nostálgicos”. Nesta retomada, vigora uma avaliação pessimista da história e a afirmação de uma eclesiologia fechada , típica da estação pós-tridentina.

O documento da CdF, recém-publicado, que trata das “respostas a questões relativas a alguns aspectos da doutrina sobre a Igreja”, não tem propriamente novidade com respeito a outros documentos publicados pela CdF nos últimos anos. Vale aqui indicar sua continuidade com a “Carta aos bispos sobre alguns aspectos da Igreja entendida como comunhão” (1992) e a Dominus Iesus (2000). Estes dois documentos foram publicados quando o cardeal Ratzinger era ainda prefeito da CdF. O mais novo documento vem assinado pelo Prefeito da CdF, cardeal William Levada, e pelo Secretário da CdF, o arcebispo Angelo Amato. Mas é reluzente a linha de continuidade entre os três documentos.

Na apresentação que Angelo Amato faz do livro com os documentos da Congregação para a Doutrina da Fé, já há uma sinalização de algumas “áreas mais sensíveis”, que chamam a atenção do dicastério romano e que exigem dele uma maior vigilância disciplinar. Entre os temas apontados, estão as questões trinitárias, cristológicas e eclesiológicas. Menciona-se também a teologia das religiões. O secretário da CdF chama a atenção para os riscos presentes nas obras de certos teólogos, que estariam produzindo “doutrinas errôneas”, em campos como o da eclesiologia, por exemplo, no âmbito de uma “eclesiologia de comunhão”, com certa carga “horizontalista”. A reflexão que ele faz sobre a Dominus Iesus (DI) vai bem na linha do documento agora divulgado sobre a Igreja. Assinala que a DI “oferece um quadro de referência essencial para a teologia das religiões, o diálogo inter-religioso e o ecumenismo” e retoma a discussão sobre o  subsistit in da Lumen Gentium.

O Documento da CdF busca responder a cinco questões eclesiológicas específicas: o lugar da doutrina sobre a Igreja no Concílio Vaticano II, o significado da afirmação de que a Igreja de Cristo subsiste na Igreja católica, a razão da utilização da expressão  “subsiste” em lugar da forma verbal “é”, o recurso de nominar as Igrejas Orientais como Igrejas e a não utilização desta mesma expressão para identificar as comunidades cristãs nascidas da Reforma do século XVI. O documento da CdF retoma as pistas da Dominus Iesus (cf. DI 16-17). Sublinha-se a “plena identidade da Igreja de Cristo com a Igreja católica”. Uma identidade que não se dá de forma plena nas outras comunidades eclesiais “separadas” em razão de carecerem  da “sucessão apostólica no sacramento da ordem” e da “íntegra substância do Mistério eucarístico”. Segundo o documento, a palavra “subsiste” da Lumen Gentium 8 “só pode ser atribuída exclusivamente à única Igreja católica”, estando as outras comunidades eclesiais privadas de “um elemento essencial constitutivo da Igreja”, ainda que animadas por “elementos de santificação e verdade” que as “impelem para a unidade católica”.

A linha teológica adotada no documento é claramente a do “acabamento”, ou seja, as outras comunidades cristãs são convocadas a uma inserção na “unidade católica” e só assim podem partilhar a comunhão na verdadeira Igreja de Cristo. A lógica que preside o texto, em sintonia com a DI, expressa uma visão claramente exclusivista e absolutizadora do lugar da Igreja católico-romana. Não há espaço para sensibilidade ecumênica e nenhuma plausibilidade para o sadio exercício da diversidade. Permanece distante qualquer possibilidade de aceitação do pluralismo religioso no desígnio unitário de Deus. Não se reconhece o valor de uma “diversidade reconciliada” e a idéia de unidade professada é problemática. Há hoje uma tendência na reflexão ecumênica de sublinhar que a unidade visada pelas Igrejas cristãs não é uma unidade já adquirida, mas uma “unidade inédita” que procede do exercício dialogal e é capaz de integrar a diversidade legítima de cada Igreja.

Igualmente “forçada” é a interpretação da Lumen Gentium. Não há como justificar plausivelmente a idéia de que a substituição do “é” pelo “subsiste” não altera a visão tradicional que identificava sem mais a Igreja de Cristo com a Igreja Católica. Como mostrou com acerto o teólogo Francis Sullivan, estudioso da questão, “o único fato que é absolutamente certo é que a decisão de não dizer mais ‘é’ - decisão ratificada pelo voto do Concílio - é uma decisão de não afirmar mais aquela absoluta e exclusiva identidade entre a Igreja de Cristo e a Igreja católica que tinha sido sustentada nos esquemas precedentes”. Ao alterar os termos, o Vaticano II reconhece o valor de eclesialidade das outras Igrejas cristãs, que se encontram também envolvidas pelo mistério da Igreja de Cristo.

Não há dúvida de que vivemos tempos “invernais” na Igreja, quando o “espírito” do Vaticano II se vê ameaçado pelos ventos impetuosos de uma restauração romana problemática. Mas as inúmeras resistências que se fazem sentir por toda parte são expressões vivas de que é muito difícil barrar a “irreversibilidade” do caminho ecumênico e dialogal.

José Comblin – Nós não sabemos qual foi a intenção do documento; não é claro o que realmente estão querendo com isto. Parece necessitar de mais entendimento, pois fundamentalmente apresenta a quem se aplica o nome de Igreja.O documento procura explicar que a doutrina do Concílio permanece e mostra, ainda, que não nos podemos afastar do Concílio Ecumênico Vaticano II. Eu me pergunto: qual é o alcance disso? Por que não se pode falar de “Igreja” Anglicana quando isto entrou no linguajar comum? Ou seja, isso não quer dizer que existem várias igrejas e uma só é válida, enquanto várias não o são. O Concílio Vaticano II diz que a Igreja de Jesus Cristo subsiste na Igreja Católica. O que indica que na Igreja Católica há coisas que são da Igreja de Jesus Cristo, mas elas não identificam ou abrangem tudo. Por isso, não se pode dizer que a Igreja Católica é a Igreja de Jesus Cristo. O documento atual lembra que não se pode afirmar esse tipo de coisa. É um problema de interpretação.

Então, o documento não explicita essa posição, salvo no que diz respeito à desaprovação às aproximações teológicas de sentido ecumênico ou de uma prática ecumênica que tende a colocar tudo no mesmo plano. Não é apresentada, como afirmei, a intenção. A única coisa que irá acontecer é que isso passa a desagradar a todos os protestantes. Não sei se esta era a intenção, mas este será o resultado. Porém, na prática, todo mundo vai continuar falando de Igreja Anglicana, de Igreja Luterana, de Igreja Batista, porque isto entrou no linguajar comum.

A Igreja de Jesus Cristo está presente em todas as comunidades cristãs e, muito além das comunidades que se dizem cristãs, também em outras religiões. Ela é mais ampla do que a parte visível. E existe, também, na Igreja Católica, sem que faça a identificação, assim como existe também nas Igrejas Protestantes.

É bastante incompreensível o alcance de documento desse porte. Talvez o Vaticano faça, mais tarde, uma explicação sobre a intenção, o projeto, o que procurou com isso. Mas no texto da Congregação não há possibilidade de entender o que se quer.

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