"O jornalismo imparcial é uma utopia". Entrevista especial com Isabel Travancas

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03 Julho 2007

A pesquisa realizada por Isabel Travancas de como se dá o processo de recepção de jovens universitários do Rio de Janeiro pelo noticiário do Jornal Nacional resultou no livro Juventude e Televisão (Rio de Janeiro: FGV Editora, 2007). Na obra, Isabel revela o profundo enraizamento do Jornal Nacional entre a população brasileira, assim como a centralidade do noticiário no universo da imprensa. Sobre o tema, a IHU On-Line entrevistou Isabel, por e-mail. Durante a conversa, ela fala sobre a relação da juventude com a televisão, sobre a classificação televisiva e sobre os impactos que a televisão pode ter nos futuros adultos profundamente ligados a esse meio de comunicação.

Isabel Travancas é graduada em Comunicação Social pela PUC-Rio. Seu mestrado em Antropologia Social foi realizado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). No doutorado pela UERJ, focado em Letras, Isabel pesquisou “O livro no jornal”. Isabel concluiu o pós-doutorado na UFRJ, em 2004.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quando você realizou a pesquisa "Juventude carioca e televisão: ouvindo jovens universitários e vendo com eles o Jornal Nacional", que tipos de reações percebeu? Os jovens são os receptores que as teorias da comunicação prevêem em seus estudos?

Isabel Travancas -
Percebi muitas reações diferentes, e nenhuma dessas reações mostrou passividade. Ao contrário do que muitas teorias afirmam, não acredito que o telespectador seja passivo (1). Minha pesquisa demonstrou que os jovens têm muitos sentimentos em relação ao Jornal Nacional, em especial. Os jovens pesquisados e todos nós sentimos amor, ódio, no entanto jamais indiferença. É uma relação de muita intimidade e interesse pela televisão, de um modo geral.

 

IHU On-Line - Em relação à juventude contemporânea, você acha que a televisão contribui ou prejudica a formação psicológica e educacional?

Isabel Travancas - Acho que a formação psicológica e educacional é muito complexa. Muitos elementos atuam. A televisão faz parte da vida social. No caso do Brasil, a TV tem um papel de muita importância tanto na formação psicológica quanto educacional. No entanto, não podemos idealizá-la nem demonizá-la. Em muitos momentos, a TV contribui, enriquece, estimula e em muitos outros estereotipiza e trata de forma superficial temas profundos.

IHU On-Line - A medida do governo de classificar os programas televisivos é uma forma de diminuir o risco de um jovem receber uma informação que não é propícia para sua faixa etária? Você acha que essa medida funciona? Os pais estão sabendo lidar com isso?

Isabel Travancas -
Esse é um tema polêmico. Os meus entrevistados estão na faixa de 20 anos, portanto não estão tão submetidos à autoridade dos pais nem à classificação por faixa etária. Estão, digamos assim, liberados para assistir qualquer tipo de informação que a televisão apresenta. É importante ressaltar que, com a televisão, posso ter algum tipo de controle, não autoritário, mas um tipo de controle que ajuda os pais a avaliarem os programas e sua adequação para seus filhos, principalmente as crianças.

IHU On-Line - Quais são os prós e os contras que você encontrou, em sua pesquisa, no enraizamento do Jornal Nacional na cultura brasileira?

Isabel Travancas -
O Jornal Nacional é uma espécie de instituição nacional. Está no ar há mais de 35 anos, tem uma enorme audiência e uma força muito grande. E, em muitos momentos, comete erros, equívocos e exageros. Não foi meu objetivo analisar o Jornal Nacional, mas avaliar a sua penetração e a sua recepção entre os jovens. O que ficou evidente, para mim, é o quanto os jovens vêem este noticiário e como têm muito a dizer sobre ele, tanto contra quanto a favor.

IHU On-Line - Que tipos de impactos a TV brasileira poderá causa nos futuros adultos?

Isabel Travancas -
A televisão, no Brasil, tem um lugar capital na sociedade. Não é à toa que o jornalista Eugênio Bucci (2) afirma que “talvez não seja mais possível pensar o Brasil sem a televisão”. Ela faz parte da sociedade e funciona como um elo de ligação entre pessoas mais distintas possível.  Mas, em relação ao futuro, não creio que possamos fazer previsões com segurança. Tudo é muito complexo, ainda mais em um país como o Brasil. O ideal seria que a população não se informasse apenas por este meio de comunicação, mas também lesse jornal, ouvisse rádio, entre outras coisas. Nem sempre isso acontece. Há uma enorme parcela da população que não tem acesso a outros meios de comunicação, e nem tem o hábito de leitura. Mas volto a dizer que, mesmo assim, há espaço para reflexão e o receptor tem sempre algo a dizer sobre o que assiste.

IHU On-Line - Você acha que o jovem entende o papel do jornalista e sabe criticar quando esse papel não é bem desempenhado? Se sim, de que formas esse jovem faz essa crítica?

Isabel Travancas -
Penso que os jovens percebem que o jornalista tem um papel importante na sociedade. Muitos fatos só alcançam repercussão quando chegam aos jornais.  E muitos jovens entrevistados têm um olhar bastante crítico, tanto em relação aos veículos de comunicação quanto aos jornalistas. E esse olhar crítico ganha força com a entrada na universidade. Muitos afirmam que passaram a ver o mundo de outra forma, bem mais crítica.

IHU On-Line - Qual é a identidade social que o jornalista tem hoje?

Isabel Travancas -
Creio que o jornalista ainda é visto por muitos como um profissional que luta pela informação, pela divulgação da verdade, de forma isenta. No entanto, sabemos que a maioria não age dessa forma e muito menos é vista dessa forma entre seus colegas. O jornalismo imparcial é uma utopia.

Notas:

(1) Teoria Hipodérmica é um modelo de teoria da comunicação, também conhecido como Teoria da Bala Mágica. Segundo este modelo, uma mensagem lançada pela mídia é imediatamente aceita e espalhada entre todos os receptores, em igual proporção.

 

(2) É jornalista, secretário editorial da Editora Abril e diretor de redação da revista Superinteressante. Publicou os livros O peixe morre pela boca - Oito artigos sobre cultura e poder (São Paulo: Editora Scritta, 1993) e Brasil em tempo de TV (São Paulo: Boitempo Editorial, 1996).

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