Autonomia e hipermodernidade. Entrevista especial com Gilles Lipovetsky

Revista ihu on-line

Planos de saúde e o SUS. Uma relação predatória

Edição: 541

Leia mais

Hans Jonas. 40 anos de O princípio responsabilidade

Edição: 540

Leia mais

Do ethos ao business em tempos de “Future-se”

Edição: 539

Leia mais

Mais Lidos

  • 23 razões para participar da Greve Climática desta sexta-feira

    LER MAIS
  • Às leitoras e aos leitores

    LER MAIS
  • Cisma: uma noção que mudou ao longo dos séculos. Artigo de Massimo Faggioli

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

06 Junho 2007

Na última semana, durante o Simpósio Internacional O futuro da autonomia, o filósofo francês Gilles Lipovetsky apresentou a conferência “O futuro da autonomia e os tempos hipermodernos”. A IHU On-Line aproveitou sua participação e entrevistou-o pessoalmente, com o apoio da irmã Suzana Rocca e do professor Benno Dischinger. Durante a conversa, Lipovetsky relaciona seu livro A sociedade da decepção(Editora Manole, 2007) e a desigualdade no Brasil.

Gilles Lipovetsky é filósofo e professor na Université de Grenoble, na França. Lipovetsky foi o criador do conceito de hipermodernidade para definir os tempos de hoje.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Em seu livro “A sociedade da decepção”, o senhor afirma que ninguém mais deseja a emancipação dos indivíduos, uma vez que tal conquista já é um terreno conquistado. Como podemos pensar em emancipação e autonomia num país com tantas desigualdades como o Brasil?

Gilles Lipovetsky - Creio que não estamos mais na época da emancipação, que aconteceu nos anos 1960 e 1970, quando ainda havia regras muito fortes. Um bom exemplo é que antigamente, no caso da sexualidade, havia a luta pela emancipação das mulheres, envolta em diversas problemáticas que não são mais cabíveis. Hoje, eu falo em autonomização e não de emancipação. Quando pensamos na questão da autonomia numa sociedade extremamente desigual, cria-se uma frustração social muito forte. Com efeito, atualmente, os modelos de satisfação e consumo existem em todo o mundo e com uma desigualdade extrema, evidentemente. Parcelas de uma grande parte da população são rejeitadas, mas acredito que elas não aceitarão esta situação por muito tempo. Um exemplo é a grande criminalidade no Brasil. Eu creio que, no futuro, não haverá o igualitarismo, pois a competição e as desigualdades são legítimas. Inexiste, portanto, uma igualdade global.

Não há dúvida de que que as desigualdades existam, mas não fortes o suficiente para impedir a dignidade humana. Por outro lado, é preciso que ela seja compatível com um certo progresso dos menos favorecidos, dos mais debilitados. Então, acredito que nós devemos edificar uma democracia que combine, ao mesmo tempo, as liberdades, a autonomia e as iniciativas, esperando que essa democracia não seja desumana. Podem-se imaginar democracias cada vez mais não-igualitárias. O modelo brasileiro, por exemplo, é levado ao extremo. Esse modelo não é desejável, à medida que ele implica numa sociedade vigiada, a ser protegida.

IHU On-Line - Qual é o limite para essa velocidade dos tempos hipermodernos? A sociedade hipermoderna vive um processo de autofagia (1)?

Gilles Lipovetsky - Eu falo de uma lógica do excesso. Mas é verdade que isso envolve toda a questão dos limites. A necessidade dos limites está em toda parte, como, por exemplo, no caso da proteção ao meio ambiente. Sabemos que é preciso limitar. Em todo o caso, a degradação e a poluição ainda perduram. Existem limites também em outras questões, como aquela referente à procriação, por exemplo. Eu não sou inteiramente pessimista, porque, quando se considera o consumo, há toda uma categoria de consumidores que se ocupam, atualmente, é verdade, em esbanjar, que acham legítimo sobressair-se. No entanto, esses consumidores são uma minoria.

Creio, pois, que há uma lógica do excesso, mas há também uma lógica da regulação. De um lado, há pessoas que comem demais, mas, de outro, há aquelas que consomem ao contrário, ou seja, cuidam para comer apenas alguns alimentos. Em todo o caso, hoje há mais clareza. Há o culto do espetacular, mas há também toda uma massa de pessoas que chamam atenção e que não negligenciam a saúde. Por isso, eu acredito nos mecanismos de freio. Atualmente, eles não são, certamente, suficientes e, certamente, tarefas de regulação devem ser impostas. Eu creio que, num mundo de desregulação, há uma nova necessidade de regulamentar.

IHU On-Line - Como seria possível realizar o contrato social e o cumprimento de leis numa sociedade em que o prefixo “hiper” é uma realidade nos mais diversos domínios, ou seja, como obedecer às leis numa tal sociedade?

Gilles Lipovetsky - Na obediência à lei, não há trotskismos (2) impositivos. Numa grande sociedade são necessárias regras que precisam ser respeitadas. Mas isto não basta. Eu acredito que as democracias “hiper” vão exigir novas formas de autoridade.  Há, ainda, diversas democracias liberacionistas que só pretendem atingir total liberdade e nenhuma forma de coação. Eu acredito que, neste momento, isso está mudando. Hoje há, em toda parte, a necessidade não de autoritarismos, mas de autoridade. Isso ocorre justamente porque a globalização desatualizou todos os antigos contratos. É preciso, portanto, restituir um sentido à autoridade, sem recair no antigo autoritarismo. No meu entendimento,  esta é a tarefa das novas democracias.

IHU On-Line - No caso brasileiro, o aumento da violência, cada vez mais grave, pode ser atribuído a essa decepção à qual o senhor se refere em A sociedade da decepção? Por quê?

Gilles Lipovetsky - Não, esta não é a causa brasileira. Aqui a situação é mais complexa e a decepção é apenas um aspecto. A violência tem causas múltiplas, por exemplo. Acredito que, num sentido mais profundo, numa sociedade em que não há mais utopia, há mais controle coletivo que reprime os indivíduos e, ao mesmo tempo, há aqueles que desejam as coisas imediatamente. Conseqüentemente, cada um pensa ter direito a todo tipo de coisas, o que cria um universo de ameaças, à medida que surgem mais novos aspectos no mundo, novos contextos sociais, por exemplo, nos quais o enquadramento familiar não mais existe, pelo menos na maioria dos casos. Isso gera indivíduos desestabilizados. Então, indivíduos com certas ansiedades e depressões, além de outros, com problemas diferentes, procuram se afirmar pela violência, o que ocorre particularmente entre os jovens.

Notas:

(1) É um processo essencial para o funcionamento da célula. A autofagia pode ser estimulada em determinadas situações, como, por exemplo, durante o jejum prolongado, aparecendo numerosos autofagossomos nos hepatócitos, com o objetivo de converter os componentes da célula em alimento para prolongar a sobrevivência do organismo.

(2) Leon Trótsky foi um intelectual marxista e revolucionário bolchevique. O trotskismo é a doutrina do político russo, formulada como teoria política e ideológica e apresentada como vertente do comunismo por oposição ao stalinismo.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Autonomia e hipermodernidade. Entrevista especial com Gilles Lipovetsky - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV