Indymedia. A rede anticapitalista. Entrevista especial com Rodrigo Ponce e André Takahashi

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18 Mai 2007

Rodrigo Ponce mora em Curitiba, André Takahashi em São Paulo. Em comum os dois são militantes anti-globalização e participam como voluntários da maior rede mundial anticapitalista, o Indymedia - no Brasil mais conhecida como CMI - Centro de Mídia Independente.

Rodrigo Ponce é estudante de filosofia na Universidade Federal do Paraná (UFPR), participa em Curitiba da banda Colligere. Uma banda hardcore punk. É ativista do movimento passe livre e de incubadoras de cooperativas populares. No CMI participa da cobertura de movimentos, impressos CMI na Rua, oficinas de comunicação e faz parte do coletivo editorial do CMI-Brasil, monitorando a coluna central do sítio.

André Takahashi é sociólogo e trabalha com pesquisas. Ativista do movimento anti-globalização em São Paulo, participa do coletivo editorial do CMI-Brasil, da articulação latino-america do CMI e mantém um blog na internet.

Rodrigo e André em entrevista especial para o IHU On-Line falam do surgimento do Indymedia, dos seus princípios, de como se organiza e funciona no mundo e no Brasil. Destacam ainda a concepção de mídia que orienta a rede mundial, as ações em que se envolvem  e como se faz para participar do CMI. A entrevista foi feita pelos colegas do CEPAT, parceiro estratégico do IHU.

Acompanhe a entrevista

IHU On-Line - Como você conheceu o CMI?

Rodrigo Ponce - Foi pouco depois de seu surgimento mesmo, durante as célebres manifestações de Seattle contra a OMC, em 1999. Não consigo me lembrar exatamente a ordem das coisas, mas eu estava acompanhando tudo aquilo que a grande mídia chamava de "movimento anti-globalização". Aqui no Brasil havia um número crescente de pessoas que se interessava por isso tudo, por uma forma diferente de se organizar e fazer política. Então, se trocavam informações pela Internet basicamente e algumas pessoas viajavam de uma cidade a outra também, para trocar conhecimentos. E procurávamos organizar atos simultâneos, sempre atentos ao que acontecia em outros lugares do mundo.

Eu não fazia parte do CMI ainda como voluntário. Isto demorou alguns anos. Mas lembro de estar trabalhando e escapar de vez em quando para ler o que estava acontecendo em alguma manifestação ao redor do mundo. Ler os depoimentos de quem estava do nosso lado e depois, quando chegava em casa, acompanhar os 30 segundos de destaque dados pelo telejornal e pensar "não é nada disso". O pensamento crítico falava sobre o desmascaramento da mídia comercial há tanto tempo e de repente as pessoas estavam construindo um (mais um) meio de realmente desmascarar, fazendo sua própria mídia.

IHU On-Line - Quando e em que contexto surge o CMI?

Rodrigo Ponce - O CMI ou Indymedia surge no meio de todo esse alvoroço que foi o ressurgimento de grandes mobilizações de massa organizados em todo mundo e ao redor do que se podia chamar de um ideal de esquerda. Um ideal bastante amplo, que reunia uma série de grupos lutando por demandas específicas, que haviam se fragmentado ao longo de algumas décadas. Depois do mundo caminhar a passos largos para o outro lado e os fulanos decretarem "o fim da história", a segunda metade dos anos 90 tem esse novo espectro rondando. Lendo o que algumas pessoas já escreveram sobre a história do Indymedia, você vai encontrar a revolução zapatista de 1994 como um ponto de partida. Sem dúvida o zapatismo representa até hoje um grande referencial teórico, simbólico e também de práticas, não apenas para o Indymedia.

Então, em 1999, acontecem os protestos contra a Organização Mundial do Comércio (OMC), em Seattle, que foi onde a coisa toda teve visibilidade mundial. Mas esses protestos foram o resultado de anos de luta de muitos pequenos movimentos que acabaram convergindo naquele momento. Embora com mais força nos Estados Unidos (antes do 11 de setembro) e parte da Europa, aquele foi realmente um acontecimento mundial; um momento onde palavras como "esquerda" ou "socialismo" estavam um tanto apagadas ou desacreditadas, mas havia um grande inimigo a ser combatido, que aparecia em diferentes partes do planeta e com diferentes nomes, como ALCA, NAFTA, OMC, G-8, etc.

Começaram então se organizar grandes protestos, que reuniam todos os movimentos, desde os sindicatos até ecologistas, feministas, povos originários, autonomistas, os movimentos de ocupação, enfim. E as pessoas convergiam para tentar parar as reuniões dos grandes organismos multilaterais, ou pelo menos mostrar para o mundo que aquilo que eles estavam assinando atrás de portas fechadas podia mudar o mundo todo e para muito pior! Era um momento também onde não havia os novos governos de esquerda ou de "esquerda" em quase nenhum lugar do mundo, então toda organização popular estava a margem e o inimigo, me parece, era muito mais fácil de ser conhecido.

Entre essas organizações, esses movimentos, havia muitos ativistas trabalhando com comunicação e cultura, fazendo pequenos jornais, fanzines, rádios comunitárias e produções de vídeo. Então já existia, claro, desde muito tempo, iniciativas isoladas que buscavam dar voz ao que as pessoas estavam fazendo. É claro que a comunicação popular não é uma coisa nova. Então o Indymedia surge especificamente em Seattle,
no processo de organização dos protestos, quando se resolve criar um espaço físico que possa receber comunicadores de todo o mundo para acompanhar e publicar o que iria acontecer no olho do furacão.

IHU On-Line - Mas por que o Indymedia se torna uma referência para o movimento anti-globalização?

Rodrigo Ponce - Bom, eu acredito que boa parte das novas resistências populares que temos hoje seria diferente sem a internet. Ainda que muitos lugares estejam ainda excluídos deste acesso, de alguma forma o fluxo de informações passa por esses lugares levando e trazendo idéias e solidariedade. Então, nos anos 90 nós temos o desenvolvimento da internet e da idéia de software livre, de conhecimento livre. Surgiram também nesse período novas ferramentas que colocavam as pessoas em contato e a resistência ganhava um pouco da mobilidade que o Capital já possuía. Nessa época começaram a se desenvolver os blogs e outras ferramentas de publicação aberta, banco de dados coletivo etc. Vários protestos foram organizados através de programas como esse ou de listas de e-mails.

Então, muitos sites foram colocados no ar para que as pessoas publicassem o que estava acontecendo nas ruas e foram esses sites que criaram o que o CMI é hoje no mundo inteiro. As pessoas publicavam fotos, ou textos, gravavam áudios ou vídeos e toda a informação era espalhada pelo mundo. As pessoas queriam se comunicar tanto para se organizar melhor, quanto para dizer para as pessoas que não estavam organizadas os reais motivos daquele protesto.

O site do Indymedia ou depois o CMI no Brasil servia para divulgar atos, reuniões, trocar idéias sobre como fazer um ato. Basicamente era isso no começo. Depois de um tempo eu acredito que as pessoas deixaram de se organizar tão abertamente através do CMI, porque hoje há muito monitoramento no site, muito ataque da direita, muita gente que poderia usar essas informações para destruir os atos. Então hoje eu acredito que há um novo contexto que é um desafio para a rede Indymedia: continuar sendo um centro de mídia independente, com uma plataforma de publicação aberta e democrática, que sirva para a organização popular e não se transforme em um palco para picuinhas, para idéias reacionárias, nem em um banco de dados para a repressão.

IHU On-Line - Quais são os princípios que orientam o CMI?

Rodrigo Ponce - Elas estão expressas em nossa Politica Editorial . O CMI Brasil é uma rede anticapitalista baseada no princípio da autonomia, ou seja, que cada pessoa ou grupo deve saber a melhor forma de se expressar e de atuar.  Para garantir esta autonomia como meio de comunicação, o CMI funciona com publicação aberta. Qualquer pessoa pode postar notícias, artigos, comentários, fotos, áudios e vídeos. "Esse mecanismo rompe com a mediação do/a jornalista profissional e com a interferência de editores/as no conteúdo das matérias." Isto é o que muitas pessoas e organizações não entendem em relação ao CMI. Embora existam voluntários e inclusive um coletivo-editorial que vai editar com destaque algumas informações (na coluna central do site), nós não somos como uma outra mídia para a qual você envia uma pauta e espera cobertura. Nós somos voluntários, militantes, e procuramos estar envolvidos nos acontecimentos tanto quanto qualquer militante. Então qualquer pessoa pode publicar no CMI tanto quanto nós.

IHU On-Line - Existe algum tipo de restrição?

Rodrigo Ponce - Certamente existe um "filtro", afinal temos um papel e uma posição, que é a dos oprimidos. Por isto são escondidas as publicações que contenham manifestações de racismo, sexismo, homofobia, etc., assim como ofensas ou ameaças pessoais;  propagandas comerciais, de candidato/a ou partido político; pregaçoes religiosas; entre outras.

IHU On-Line - Mas o CMI é apenas um sítio na Internet para dar visibilidade as lutas anticapitalistas ou ele se propõe a algo a mais?

Rodrigo Ponce - O principal é o sítio, o que mais aparece e articula as outras ações. Mas de acordo com o número de voluntários e seus conhecimentos, os coletivos também trabalham na produção e distribuição de vídeos; fazendo programas para rádios comunitárias ou mesmo criando as condições para que essas rádios operem; ou então com impressos que podem ser os chamados "jornais de poste", CMI na Rua, ou podem ser jornais como o Ação Direta ou O Independente. Também existem muitos coletivos fazendo oficinas de comunicação nas comunidades, participando de seminários e debates, etc.

IHU On-Line - Como funciona o trabalho voluntário no CMI?

André Takahashi - Bom, "no papel" o CMI trabalha somente com voluntários não remunerados. Mas a rede adquiriu proporções inimagináveis e como não temos uma instância de centralização de informações não podemos te garantir que, atualmente, não tenha um voluntário pago em algum coletivo do CMI. Recentemente iniciou-se um processo de discussão global entre todos os coletivos locais para discutir a questão do pagamento ou não de voluntários. Esse processo está sendo iniciado com uma pesquisa para termos um diagnóstico de como está a situação em cada coletivo.

Essa é uma questão muito sensível, pois para a maioria dos voluntários do Indymedia a não remuneração é um princípio fundamental para um projeto anticapitalista. Porém, as condições objetivas e as necessidades que o projeto passou a ter exigem cada vez mais trabalho dos voluntários, e uma dedicação quase integral para certas tarefas, como monitorar diariamente o que é publicado no nosso sistema de publicação aberta ou então serviços de secretaria em geral, como responder e-mails, agendar reuniões e outras atividades burocráticas. Além disso, muitos voluntários importantes que em 1999, 2000 e 2001 eram estudantes, e tinham tempo para ajudar integralmente, hoje em dia estão com quase 30 anos e com outras prioridades na vida, o que os impede de dedicar tanto tempo à um projeto não-remunerado como o Indymedia.

IHU On-Line - Vocês lembram de acontecimentos internacionais que através do CMI gerou mobilização?

André Takahashi - O Indymedia surgiu dentro do movimento anti-globalização, que tem como tática principal os chamados dias de ação global, que são protestos que ocorrem  simultaneamente em diversos locais do mundo nos mesmos dias de reunião das agências multilaterais como o FMI, o Banco Mundial, a OMC e o G-8. Além disso, também teve o histórico protesto global que tentou impedir o bombardeio do Iraque, em 15 de março de 2003. Nesse momento o Indymedia e as redes de mobilização criadas no Fórum Social Mundial colocaram mais de 10 milhões de pessoas nas ruas do mundo todo.

Rodrigo Ponce - A gente pode lembrar também de outros "pequenos" acontecimentos, ou de grandes acontecimentos que geram "pequenas" mobilizações em diversas localidades. Por  exemplo, os meses de revolta em Oaxaca foram certamente amplificados com apoio da rede Indymedia, por diversas manifestações em embaixadas, por palestras, exibições de vídeos, etc.; especialmente depois da morte do Brad Will
(americano, ativista do  Indymedia assassinado por paramilitares durante um confronto em Oaxaca). Podemos lembrar de atos pelo passe-livre, que tiveram muitas vezes no CMI seu principal  divulgador; atos de solidariedade e apoio a movimentos de ocupação urbana; etc.

André Takahashi - Em Oaxaca, foi o Indymedia que possibilitou a transmissão via internet da rádio APPO.

IHU On-Line - No Brasil há quantos coletivos do CMI funcionando?

André Takahashi - No Brasil temos 8 coletivos ativos (São Paulo, Joinville, Goiânia, Fortaleza, Florianópolis, Campinas, Vitória e Brasília), 4 coletivos em reestruturação por causa de esvaziamento (Salvador, Caxias do Sul, Rio de Janeiro, Ourinhos) 15 em formação (Aracajú, Camboriú, Belém, Blumenau, Campo Grande, Cuiabá, Curitiba, Maceió, Manaus, Mossoró, Pan-Amazônico, Presidente Prudente, Recife e São Luís) e 2 desativados por esvaziamento (Belo Horizonte e Porto Alegre)

IHU On-Line - Vocês poderiam explicar o conceito "mídia independente"?

André Takahashi - Para nós do CMI Mídia Independente significa ser independente do mercado, do estado, de partidos e de igrejas, mas isso não quer dizer "mídia imparcial". Somos independentes e estamos ao lado de lutas que ajudem a criar um mundo justo, igualitário e que respeite o meio ambiente.

Rodrigo Ponce - Eu acho que esse "independente", como o André coloca, é em relação a quem se apropria do resultado desta mídia, do conteúdo dela. Este é o problema central do  capitalismo, não é? Quem domina o meio de produção retém também seu resultado, tem controle sobre o que é produzido. Então o meio de se produzir notícias em um site como o nosso, em uma rede aberta, é de todas as pessoas. Não é "todo mundo manda", mas as decisões são abertas a quem quiser participar e a publicação é aberta a quem não quer decidir nada também.

Temos como horizonte garantir autonomia na ação das pessoas em relação aos coletivos e na ação dos coletivos em relação a toda a rede. Não existe uma estrutura hierárquica de poder dentro da rede Indymedia, então isto significa independência não apenas deste instrumento em relação a outras estruturas, como das pessoas e seus grupos dentro do próprio instrumento.

IHU On-Line - Muitos vêem o CMI como um sítio anarquista. Por quê?

André Takahashi - O CMI é tido por muitos como um sítio anarquista porque nós somos  independentes das forças políticas de esquerda tradicionais e nos organizamos de forma horizontal, sem hierarquias injustificadas. Somos de esquerda e anticapitalista, mas isso não quer dizer que apoiamos partidos ou governos de esquerda. Além disso, alguns dos primeiros voluntários do CMI vieram de grupos ativistas que realizam desobediência civil como os que realizaram os bloqueios da reunião da OMC em Seattle. Esses ativistas são anticapitalista e alguns são anarquistas, mas isso não quer dizer que o CMI é anarquista.

IHU On-Line - Quais são os critérios utilizados para determinar que um acontecimento é notícia?

André Takahashi - No CMI/Brasil nós temos um coletivo editorial do site que é composto por membros indicados por cada coletivo local. Nesse coletivo editorial os indivíduos ou os coletivos locais enviam propostas de editorial para colocarmos na coluna do meio do site. Não existe um script sobre o que é notícia, cada coletivo ou membro do coletivo editorial que avalia se é relevante ou não estar na coluna do meio. Além disso, a coluna de publicação aberta é livre, qualquer um pode publicar o que quiser desde que siga a nossa política editorial.

IHU On-Line - A Internet vai acabar com a mídia impressa?

André Takahashi - Não sei, espero que não.

IHU On-Line - Na experiência de voluntário do CMI, poderia relatar algum fato interessante?

André Takahashi - Poderia relatar diversas experiências como varar a madrugada cobrindo uma ação de ocupação do movimento sem-teto, fugir de pedras e balas de borracha para cobrir uma manifestação, horas e horas de discussão visando atingir o consenso, amizades que são construídas ou perdidas durante todo esse processo. Sei lá, agora não me vem nada especial à cabeça. A experiência de ser voluntário do CMI é um fato interessante em si, não dá para descrever em poucas linhas.

IHU On-Line - Se alguém quiser participar do CMI como é que se faz?

Rodrigo Ponce - - A primeira forma de participação é a publicação aberta no sítio. Mas se quiser fazer parte do coletivo, basta mandar um e-mail para um dos contatos da lista: Cada coletivo tem sua maneira de funcionar e de integrar novas pessoas.

 

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