Dengue no Rio Grande do Sul. Entrevista especial com Milton Strieder

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04 Maio 2007

Nas últimas semanas foram confirmados casos de dengue no Rio Grande do Sul. Como a doença é favorecida por climas quentes, os registros causaram espanto e surpresa na população que imaginava o Estado como local improvável para a proliferação da doença. O Governo do Estado já toma as primeiras providências em relação ao problema, que já é considerado por alguns especialistas como epidemia. Para esclarecer o assunto a IHU On-Line entrevistou, pessoalmente, o professor doutor Milton Strieder.

Na entrevista a seguir, Milton fala da situação do Estado, da preocupação que devemos ter com outro mosquito transmissor da dengue, além do Aedes aegypti, e das campanhas preventivas. Quanto à erradicação do problema, Milton é enfático: "Acredito e defendo a erradicação do mosquito transmissor da dengue".

Milton Strieder é graduado em Ciências e em Biologia pela Unisinos. Fez especialização em zoologia na PUC-RS, onde também conclui o mestrado e o doutorado na mesma área. Atualmente, Milton é professor do curso e do PPG de biologia na Unisinos.

Confira a entrevista

IHU On-Line – Como está a situação da contaminação de dengue no Rio Grande do Sul?

Milton Strieder – Recentemente, tivemos o registro, aqui no Rio Grande do Sul, de mais de 300 casos de dengue. O mais preocupante é que dentre esses registros, alguns são de contaminação local, ou seja, autóctones (1). O problema hoje é mais grave na cidade de Giruá (2), seguida por Erechim (3). De fato, toda a região das Missões e Alto Uruguai é o centro do problema em relação à entrada do dengue aqui no Estado. Isso, de certa forma, não é uma surpresa, porque já a partir do final de fevereiro houve casos no norte da Argentina e em grande parte do Paraguai. No Paraguai, tivemos uma situação muito grave, pois, dentre as pessoas infectadas com a dengue, houve relatos de dengue hemorrágica visceral.

A situação de proliferação do mosquito transmissor da doença no nordeste do Estado é mais crítica, pois o clima de lá é favorável, à medida que prefere climas tropicais e subtropicais. Um outro problema que agravou a situação foi a total falta de cuidados que tínhamos em relação à dengue, porque acreditávamos que o Aedes aegypti (4) está muito associado aos centros urbanos, como Porto Alegre, Rio de Janeiro etc. Foi nesses centros urbanos, onde normalmente se encontram alguns focos, que as campanhas se concentram. Até porque o Aedes aegypti é uma espécie altamente associada às instalações humanas, por isso a preocupação maior com os centros urbanos, que permitem a existência dos criadouros, a partir de frascos jogados no ambiente que vão reter águas de chuva, ampliando-os gradativamente.

Aedes albopictus x Aedes aegypti

O Aedes aegypti é um pouco diferente do Aedes albopictus (5), que tem uma distribuição mais ampla, inclusive nas áreas silvestres, como áreas do interior. Aqui em São Leopoldo já encontramos grande quantidade de Aedes albopictus, mas não temos encontrado Aedes aegypti. Mas precisamos lembrar que o Aedes albopictus não é a principal espécie transmissora e não está envolvida com as epidemias de dengue. No entanto, também poderia vir a estar relacionado com o problema da dengue. O que ocorre de fato é que o Aedes aegypti tem características próprias.

Diferença social

No norte do Estado há um grande problema que é o da grande diferenciação social, e esta situação favorece a proliferação do mosquito. O êxodo rural, que proporcionou grandes concentrações de vilas, cria condições de proliferação do Aedes aegypti em termos de acúmulo de lixo e frascos, os quais, por sua vez, se transformam em criadouros de mosquito. Giruá, por ter essas condições mesmo sendo um centro urbano não muito grande, apresenta todas as condições favoráveis à dengue. As condições de saneamento não são muito adequadas, há concentração de vilas etc. Às vezes, podemos ter até mosquitos em bairros também de classe alta, mas de fato todas as orientações e campanhas foram mais intensivas nas áreas mais pobres.

Cidades e epidemia

Nesse último final de semana, estive na região de Cerro Largo, no norte do Estado, e lá também encontrei o Aedes aegypti no interior da cidade, ou seja, numa localidade mais afastada dos centros urbanos. Isso significa que provavelmente nos centros urbanos há uma população mais significativa do mosquito. Sempre é necessário ter a presença desse mosquito em certa quantidade para surgir a possibilidade de epidemia.

IHU On-Line – Para a população é fácil diferenciar o mosquito mais comum do mosquito transmissor da dengue?

Milton Strieder – É possível diferenciar. Talvez nós tenhamos um pouco mais de dificuldade, porque é raro ver essa espécie por aqui, por ser exótica. O Aedes albopictus apareceu pela primeira vez no Brasil nos anos 1980. Já o Aedes aegypti já estava em outras épocas aqui. De certa forma, através de campanhas, ele praticamente foi erradicado aqui nas Américas, mas, a partir dos anos 1990, começou a ter uma dispersão, aumentando a população do Aedes aegypti e do Aedes albopictus. O mosquito mais comum aqui na região tem uma picada dolorida ou faz um zunido chato. O Aedes aegypti é mais sutil.

Erradicação

Acredita-se que existe uma certa possibilidade de diminuição da população e possivelmente até a erradicação desses mosquitos do Aedes aegypti. O Aedes albopictus não deve ser muito fácil de exterminar. O aegypti está muito relacionado às condições dos centros urbanos e dos criadouros proporcionados pelas pessoas. Se colaborarmos no sentido de evitarmos esses criadouros, nós poderemos diminuir a população, minimizando a possibilidade de epidemias e surtos de dengue. Além disso, a intenção é até de erradicação, ou seja, de eliminação dessa espécie. Eu pessoalmente acredito nisso. Já as outras espécies estão muito associadas a áreas silvestres, e nesse sentido se torna muito difícil, praticamente inviável, a possibilidade de erradicação. Isso depende muito das condições climáticas, do aumento de chuvas, das temperaturas e de tudo mais. Ao longo do ciclo anual, todos esses mosquitos, inclusive os envolvidos com a dengue, também estão associados às condições de temperatura. Então, se acredita que aqui no Sul isso faz alguma diferença, pois durante o período do inverno podemos haver uma diminuição, e depois, logo no período de verão, acontece um aumento.

Aquecimento global

Até se tem como perspectiva, de agora em diante, em função das alterações das condições climáticas globais, que esse problema possa sofrer uma interferência no sentido de nós termos que nos preocupar constantemente também aqui no Rio Grande do Sul. Será preciso manter constante vigilância sobre o aumento populacional destes mosquitos, porque possivelmente podemos ter períodos maiores períodos de calor, como temos agora.

Costumes

Parece-me que em relação ao Aedes aegypti, que tem as suas condições peculiares em relação a criadouros em pequenos recipientes muitas vezes proporcionados pelos homem, sua proliferação está muito associada a costumes. Por exemplo, em cemitérios vamos ter, talvez, de criar uma condição para não expor vasos de água, a fim de que não se instalem neles mosquitos dessa espécie. Precisamos trabalhar visando ao extermínio do Aedes aegypti.

Rio dos Sinos

Agora, em relação ao episódio da proliferação de mosquitos na região do Vale dos Sinos eu tenho uma versão e explicação diferente daquela que foi associada à mortandade dos peixes do Rio dos Sinos. Aquele surto de mosquitos que houve neste verão de fato está relacionado com uma determinada espécie que é a do gênero Psorophora. É uma espécie com características peculiares da sua própria biologia: os ovos são extremamente resistentes à dissecação (6), podendo ser postos no ambiente e aguardar meses até que as condições favoráveis apareçam. No período de dezembro até a metade de fevereiro, em que choveu pouco, as chuvas encobriram esses criadouros e rapidamente tudo isso se desenvolveu, resultando numa explosão populacional dos mosquitos. Um fenômeno semelhante aconteceu em 1996, quando também houve perturbações de alguns locais de forma semelhante. Talvez agora tenha sido um pouco mais intenso, mas naquela época nós não tivemos a mortandade dos peixes. Essa espécie não tem relação com transmissão de dengue, mas pode transmitir um vírus que transmite encefalite venezuelana.

IHU On-Line – As campanhas de esclarecimento à população são eficientes?

Milton Strieder – Eu sempre digo que a questão da dengue é uma questão de coletividade, tanto na questão de termos um determinado número de mosquitos em certa quantidade como termos uma pessoa contaminada que rapidamente pode transmitir para um grande numero de outras pessoas. Mas, principalmente, a ação para evitar a dengue exige um senso de coletividade, pois todos devem colaborar em suas residências e possíveis criadouros. Porque isto está muito pulverizado, principalmente em áreas urbanas, de acordo com as condições que são proporcionadas por cada residência.

As campanhas contra a proliferação da dengue, portanto, estão dentro da questão da coletividade. As ações individuais não são suficientes e eficientes. Existe a necessidade de os órgãos públicos coordenarem programas que direcionem para as ações que precisem da participação de toda a população. Esses programas devem, também, fazer uma vistoria ampla de toda área urbana permanentemente, com participações maiores, como a dos militares, fazendo um pente fino também em locais como cemitérios, depósitos irregulares de lixo etc. Isso deve ser feito tanto nas pequenas cidades quanto nos grandes centros urbanos. Com certeza isso pode exterminar o problema da dengue.

IHU On-Line – Como as pessoas devem proceder em relação ao combate à doença?

Milton Strieder – As pessoas devem saber como proceder em relação à dengue e, efetivamente, colaborarem, além de manterem culturalmente essas ações preventivas. Tivemos um exemplo, nos Estados Unidos, onde aconteceu uma grande campanha contra a dengue. Mais tarde, um pessoal da vigilância resolveu fazer uma vistoria, pois novos focos da doença foram conhecidos. Em certo momento chegaram numa casa e tinha uma senhora que estava preparando o almoço. Até que ela abriu uma lata, retirou o alimento e depois abriu o outro lado da lata. Daí a pessoa da vigilância perguntou por que ela havia aberto o outro lado da lata, e a mulher respondeu que havia aprendido, quando criança, por meio de uma campanha, que era importante fazer isso. Assim, foram mantidas na cultura dela as ações preventivas contra a dengue. Às vezes, as campanhas existem apenas durante o problema e depois são esquecidas, mas, se continuarem sendo divulgadas, podem ser inseridas na nossa cultura. Isso não deve ser direcionado apenas ao problema da dengue, mas também a todas as outras zoonoses (7) e doenças que se dão a partir de animais de áreas urbanas, com problemas relacionados a ratos, morcegos, baratas, moscas ou outros insetos, que proliferam doenças quando estão em desequilíbrio causado e favorecido pela ação do próprio homem.

Notas:

(1) autóctones: doenças contraídas no próprio território.
(2) Giruá: é um município do estado do Rio Grande do Sul, Brasil. Pertence à Mesorregião Noroeste Rio-Grandense e à Microrregião Santo Ângelo.
(3) Erechim: O município localiza-se ao Norte do Rio Grande do Sul, na região do Alto Uruguai, sobre a cordilheira da Serra Geral.
(4) Aedes aegypti: mosquito que é popularmente conhecido como mosquito da dengue, é uma espécie de mosquito da família Culicidae proveniente de África, atualmente distribuído por quase todo o mundo, com ocorrência nas regiões tropicais e subtropicais, sendo dependente da concentração humana no local para se estabelecer. O mosquito está bem adaptado a zonas urbanas, mais precisamente ao domicílio humano, onde consegue reproduzir-se e pôr os seus ovos em pequenas quantidades de água limpa, isto é, pobres em matéria orgânica em decomposição e sais, o que lhes concede características ácidas, que preferivelmente estejam sombreados e no peridomicílio. É considerado vector de doenças graves, como o dengue e a febre amarela, e por isso mesmo o controle das suas populações é considerado assunto de saúde pública.
(5) Aedes albopictus: é um mosquito de origem do sudeste asiático, ocorrendo naturalmente em clima temperado e tropical, que se espalhou nas Américas, cujas formas imaturas desenvolvem-se em criadouros de vários tipos. O homem é sua vítima mais freqüente, junto com as aves, habitando preferivelmente no peridomicílio do domicílio humano e tendo facilidade de se espalhar para os ambientes rural, semi-rural e silvestre. No entanto, sua população é independente da grande densidade humana. Esta espécie transmite vários vírus, e se supõe que possa servir como ponte entre a floresta e as áreas urbanas para a transmissão de vírus de febre amarela, podendo ter importância na transmissão de vírus da dengue. No entanto, estudos recentes demonstram que as suas taxas de infecção por este último vírus são baixíssimas, em áreas em que o mosquito Aedes aegypti existe em taxas bem mais altas. É um mosquito muito agressivo, que pica durante o período diurno, em várias partes do corpo humano, e ataca outros animais.
(5) dessecação: procedimento de enxugar.
(6) zoonose: designação genérica das doenças dos animais ou provocadas por animais.

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