Criação e consumo de animais ocupam 75% de todas as terras aráveis do planeta. Entrevista especial com Cynthia Schuck

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19 Novembro 2015

“Os 70 bilhões de animais terrestres criados e abatidos todos os anos também geram uma quantidade de resíduos sólidos, líquidos e gasosos imensa, responsável pela poluição das águas, do solo e da atmosfera”, diz a pesquisadora.

Foto: www.uagro.com.br

O efeito devastador da pecuária sobre o meio ambiente está relacionado à “ineficiência energética associada à produção de alimentos de origem animal”, diz Cynthia Schuck, uma das autoras do dossiê “Comendo o Planeta: Impactos Ambientais da Criação e do Consumo de Animais”, à IHU On-Line, na entrevista concedida por e-mail.

Segundo a pesquisadora, entre os principais impactos causados ao meio ambiente por conta da produção de carne para alimentação está o fato de que, “para alimentar os animais criados para consumo, são necessários muito mais calorias do que as disponíveis na carne – ou seja, há um grande desperdício das calorias e proteínas provenientes dos cultivos vegetais usados para a alimentação destes animais. Também há, consequentemente, um grande desperdício de água e outros recursos naturais. Por exemplo, grandes extensões de terra são necessárias para pastagem, ou para produção de ração”.

Cynthia destaca ainda que as áreas destinadas à pecuária correspondem atualmente a “75% de todas as terras aráveis do planeta. Perda de habitats, de espécies e desmatamento são consequências naturais deste processo”. Ela frisa ainda que apesar de o consumo de alimentos de origem animal não ser o “único responsável pelas crises ambientais”, sua contribuição é “inequívoca e resulta da demanda gerada por nossas escolhas alimentares”. Assim, sugere, “a substituição de alimentos de origem animal por alimentos vegetais equivalentes, ou superiores, é a forma mais eficiente de permitir que nossa jornada neste planeta seja a melhor possível do ponto de vista ecológico, ético e social”.

Cynthia Schuck é mestra em Ecologia pela Universidade de São Paulo e doutora pela Universidade de Oxford (Reino Unido), tendo se especializado também em análise de dados nas áreas de ciências ambientais, biológicas e biomédicas. Atualmente leciona no curso de Metodologia Científica para a pós-graduação do Instituto de Ensino e Pesquisa Albert Einstein (São Paulo) e é Coordenadora do Departamento de Meio Ambiente da Sociedade Vegetariana Brasileira.

Confira a entrevista.

Imagem: loja.svb.org.br

IHU On-Line - De que maneira o dossiê Comendo o Planeta: Impactos Ambientais da Criação e do Consumo de Animais compreende a atual crise ambiental?

Cynthia Schuck - O Dossiê “Comendo o Planeta” discorre sobre as principais crises ambientais atuais, incluindo a escassez hídrica, as mudanças climáticas, a acidificação dos oceanos e expansão das zonas oceânicas mortas, a perda de habitats, a extinção em massa de espécies que já estamos vivenciando, dentre outras. No dossiê, explicamos como, e por que, a pecuária contribui de forma decisiva para todas estas crises.

IHU On-Line - Quais são as evidências de que as crises ambientais que nos ameaçam são profundamente ampliadas pelo consumo de carnes e derivados? Quais são os impactos ambientais do consumo de animais?

Cynthia Schuck - O principal fator que faz com que a pecuária tenha um efeito tão devastador sobre o ambiente é a ineficiência energética associada à produção de alimentos de origem animal. Para alimentar os animais criados para consumo, são necessários muito mais calorias do que as disponíveis na carne – ou seja, há um grande desperdício das calorias e proteínas provenientes dos cultivos vegetais usados para a alimentação destes animais. Também há, consequentemente, um grande desperdício de água e outros recursos naturais. Por exemplo, grandes extensões de terra são necessárias para pastagem, ou para produção de ração. As áreas destinadas a estas atividades ocupam atualmente 75% de todas as terras aráveis do planeta. Perda de habitats, de espécies e desmatamento são consequências naturais deste processo. Os 70 bilhões de animais terrestres criados e abatidos todos os anos também geram uma quantidade de resíduos sólidos, líquidos e gasosos imensa, responsável pela poluição das águas, do solo e da atmosfera. As evidências que mostram esses efeitos são diversas, em escala local, nacional e global. No dossiê, os dados apresentados são embasados em pesquisas científicas e técnicas publicadas em meios reconhecidos internacionalmente pela sua qualidade e idoneidade.

IHU On-Line - Qual é o custo da criação de animais para o consumo?

Cynthia Schuck - Os custos da criação de animais para consumo são diversos. Há o custo ético e moral, já que a atividade implica na morte e sofrimento crônico de bilhões de seres sencientes (ou seja, capazes de sofrer, sentir dor, prazer, felicidade e outras emoções como medo, ansiedade e tristeza) todos os anos. Há também o custo para a saúde dos consumidores, já que o maior consumo de carnes, ovos e leite está associado a maior incidência de problemas cardiovasculares, diabete e alguns tipos de câncer. O custo para a saúde também se aplica à segurança alimentar das gerações atuais e futuras: se não criássemos animais para consumo, a produção de cultivos vegetais em terras agrícolas já existentes permitiria alimentar 3,5 bilhões de pessoas a mais no planeta. Há também o custo ambiental, já que a criação de animais tem papel decisivo na maioria das crises ambientais que enfrentamos atualmente. Finalmente, há também um custo financeiro que não está embutido no preço de venda da carne. Um estudo recente, apresentado pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável - CEBDS e pela Agência Alemã para a Cooperação Internacional - GIZ, mostra que para cada R$ 1 milhão de receita da pecuária bovina são gerados R$ 22 milhões de impactos ambientais, principalmente em desmatamento e emissão de gases estufa. Mas ao invés de pagar pelos danos e uso de recursos ambientais, o setor pecuário no Brasil é amplamente subsidiado pela receita pública.

“Ao invés de pagar pelos danos e uso de recursos ambientais, o setor pecuário no Brasil é amplamente subsidiado pela receita pública

IHU On-Line - É possível reverter esse quadro de crise através de alternativas ao consumo de carnes e derivados? Em que consistiria essa alternativa?

Cynthia Schuck - Sim, é possível reverter este quadro mudando os padrões de consumo alimentar. Os macro e micronutrientes presentes nas carnes e derivados estão amplamente disponíveis nos cultivos vegetais. Por exemplo, o grupo dos feijões e outras leguminosas (como lentilhas, grão de bico, soja e ervilhas) são ricos em proteínas, ferro, zinco e outros nutrientes. As folhas escuras são ricas em cálcio e ferro. E assim por diante com diversos outros cultivos. Como declarado pelos conselhos de nutrição e descrito nos Guias Alimentares da População de vários países, incluindo o Brasil, uma alimentação vegetariana é adequada em qualquer fase da vida. Além disso, hoje em dia há diversos substitutos para os alimentos de origem animal feitos exclusivamente com proteínas vegetais, como hambúrgueres, salsichas, sorvetes e até queijos vegetais.

IHU On-Line - O que seria um padrão de consumo alimentar adequado para os dias de hoje? Quais as condições de colocá-lo em prática?

Cynthia Schuck - O consumo alimentar adequado deve contemplar uma alimentação saudável, sustentável e ética. Aos que querem colocá-lo em prática, sugiro conhecer e se inscrever na Campanha 21 Dias sem Carne, lançada recentemente através de uma parceira da Sociedade Vegetariana Brasileira, Instituto Luisa Mell, Instituto Ampara e VegGo. Durante 21 dias, quem se inscrever recebe por email toda informação necessária, suporte de especialistas e nutricionistas e uma grande variedade de receitas fáceis e acessíveis.

IHU On-Line - Quais são as principais conclusões do dossiê Comendo o Planeta: Impactos Ambientais da Criação e do Consumo de Animais?

Cynthia Schuck - As informações apresentadas no Dossiê revelam alterações ambientais em escala global cujas consequências podem afetar a forma como viveremos em futuro próximo. Mas como discutido no Dossiê, a possibilidade de testemunharmos colapsos ambientais não é irreversível se formos capazes de mudar nossos padrões de consumo alimentar. Embora o consumo de alimentos de origem animal não seja o único responsável pelas crises ambientais atuais, sua contribuição para a maioria delas é inequívoca e resulta da demanda gerada por nossas escolhas alimentares. Assim, a substituição de alimentos de origem animal por alimentos vegetais equivalentes, ou superiores, é a forma mais eficiente de permitir que nossa jornada neste planeta seja a melhor possível do ponto de vista ecológico, ético e social.

Por Patricia Fachin

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