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Entrevistas

O novo mapa da família que emerge do Censo 2010. Alguns traços característicos. Entrevista especial com Sócrates Nolasco

"O censo de 2010 enumerou 19 laços de parentesco, para que fosse possível cobrir todas estas mudanças. Já o censo de 2000, listou apenas onze. Os novos lares somam 28,647 milhões, 28.737 a mais que a formação clássica", cosntata o professor da UFRJ.

“O imaginário que povoa os lares brasileiros é tradicional, estimula o enriquecimento, o consumo e a fama, como parâmetros de sucesso, mais do que educação, trabalho, compromisso e respeito com o público”, pontua Sócrates Nolasco. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Nolasco afirma que no Brasil assistimos a formação de grupos familiares distintos, “porém, isso não quer dizer que dentro de cada um deles valores tradicionais não continuem imperando”. Estas novas famílias, para ele, têm crescido em torno delas mesmas e dialogam muito pouco com aquelas que têm um formato diferente do seu. “As ‘novas’ famílias estão cada vez menos preparadas para inventar formas de coletivização e vinculação com outras famílias, cujo modelo seja distinto do seu. As novas famílias brasileiras compraram o preceito individualista, mantendo o ranço de valores tradicionais no que tange a falta de respeito ao outro, e uma pretensão de superioridade herdada das classes altas”.

Para o psicólogo, maternidade e paternidade se diluem diante das demandas de trabalho e produção de dinheiro. “Ambos passaram a ter funções secundárias diante de uma ‘nova’ família, na qual os filhos são independentizados cada vez mais cedo, passando de modo precoce a ter a mesma estatura dos seus pais”, frisa. E completa: “Antes de existir um pai ou uma mãe, deve haver dois sujeitos com disponibilidade para cuidar de um outro. Sem isso não surgirá nem pai, nem mãe, mas máquinas de reprodução in vitro, de fecundidade sem sexo, de cuidado sem vínculo, de conforto sem afeto”.

Sócrates Nolasco (foto) é graduado em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio, mestre e doutor em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS e pela PUC-Rio, respectivamente. Sua tese intitulou-se De Tarzan a Homer Simpson: banalização e violência masculina em sociedades contemporâneas ocidentais (Rio de Janeiro: Rocco, 2001). Escreveu A desconstrução do masculino (Rio de Janeiro: Rocco, 1995) e O mito da masculinidade (2ª. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1993). Leciona na Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como conceituar família em nossos dias, principalmente depois dos dados apresentados no último censo?

Sócrates Nolasco – O perfil das famílias brasileiras mudou em relação aos dados do último censo. A chamada família tradicional, modelo composto por pai, mãe e filhos, agora convive com famílias cujo núcleo familiar é formado por crianças de uniões anteriores, de pessoas sozinhas, casais sem filhos e uniões constituídas por pessoas do mesmo sexo. O casamento, tanto religioso como civil, se reduziu diante das uniões consensuais, que aumentaram consideravelmente. Redução da taxa de natalidade, mulheres tendo filhos mais tarde e aumento da estimativa de vida, são fatores que corroboraram para este cenário de mudança. O censo de 2010 enumerou 19 laços de parentesco, para que fosse possível cobrir todas estas mudanças. Já o censo de 2000, listou apenas onze. Os novos lares somam 28,647 milhões, 28.737 a mais que a formação clássica. O que podemos pensar a respeito destes dados? Há uma crescente individualização da família, agenciada pela busca de prazer imediato e aquisição de bens. O individualismo como crença perpassa cada vez mais o cotidiano das pessoas, que usam suas teses para decidir o que fazer de suas vidas. Esta nova família que se “descoletiviza” não assume todos os credos individualistas, principalmente aqueles que se referem ao respeito às individualidades. O imaginário que povoa os lares brasileiros é tradicional, estimula o enriquecimento, o consumo e a fama, como parâmetros de sucesso, mais do que educação, trabalho, compromisso e respeito com o público.

IHU On-Line – Que valores sociais e culturais refletem a nova família brasileira retratada nos dados do último censo?

Sócrates Nolasco – No Brasil, se pensarmos que saímos de uma sociedade tradicional para uma que se consolida como individualista, deveríamos nos ater à ideia de acesso, ou seja, a democratização do consumo e dos serviços que usufruem as classes abastadas. Se olharmos sem pensar, poderíamos acreditar que esta família múltipla e mais reduzida é nova. Porém, nela encontramos valores tradicionais que a vincula às formas de poder vigente – a hierarquia social pautada no enriquecimento, a valorização pela aquisição de bens. As iniciativas culturais, apesar de terem aumentado, ainda são tímidas se considerarmos o potencial de contribuição que elas têm para promover mudanças de mentalidade. No Brasil, assistimos a formação de grupos familiares distintos. Porém, isso não quer dizer que, dentro de cada um deles, valores tradicionais não continuem imperando. Essas novas famílias têm crescido em torno delas mesmas, e dialogam muito pouco com aquelas que têm um formato diferente do seu. As “novas” famílias estão cada vez menos preparadas para inventar formas de coletivização e vinculação com outras famílias, cujo modelo seja distinto do seu. As novas famílias brasileiras compraram o preceito individualista, mantendo o ranço de valores tradicionais no que tange a falta de respeito ao outro, e uma pretensão de superioridade herdada das classes altas.

IHU On-Line – O que podemos entender por maternidade e paternidade no século XXI?

Sócrates Nolasco – Hoje, a paternidade deixou de ser uma questão de fé, como se dizia nos anos 1970, passando a ser valorizada e estimulada. Por sua vez, a maternidade que, anteriormente, era um exercício que se fazia dentro do doméstico e associado ao cuidado dos filhos recebeu outra configuração por conta da mulher ter ampliado suas demandas na vida. Pai e mãe se encontram cada vez mais na cena pública, do trabalho, que na doméstica. Essas funções no Brasil estão cada vez mais terceirizadas. Babás, creches, transporte escolar, ou ainda filhos cada vez mais cedo sendo autorizados a cuidarem de si mesmo, mostram-nos o quanto que há uma delegação de tarefas por parte dos pais. Maternidade e paternidade se diluem diante das demandas de trabalho e produção de dinheiro. Ambos passaram a ter funções secundárias diante de uma “nova” família, na qual os filhos são independentizados cada vez mais cedo, passando de modo precoce a ter a mesma estatura dos seus pais. A gravidez na adolescência e os indicadores de mortes de homens jovens por causas externas descrevem um cenário de solidão, no qual estes filhos ficam sem ter a quem recorrer, já que em suas casas o que se manteve presente foram os eletrodomésticos. Antes de existir um pai ou uma mãe, deve haver dois sujeitos com disponibilidade para cuidar de um outro. Sem isso não surgirá nem pai nem mãe, mas máquinas de reprodução in vitro, de fecundidade sem sexo, de cuidado sem vínculo, de conforto sem afeto.

IHU On-Line – O que os homens têm feito diante das mudanças atuais da família para tentar encontrar mais espaço no ambiente familiar?

Sócrates Nolasco – No Brasil, apesar de a mulher ter saído do espaço doméstico, tradicionalmente este tem sido considerado sua área de competência e poder. Permanece o tradicional, lá onde deveria existir a premissa de que o individuo é o valor, e, portanto, homem e mulher deveriam ter os mesmos direitos. Nas varas de família, as mulheres continuam sendo favorecidas em relação aos homens, caso se separem. Muitas famílias acreditam que a mãe tem mais importância que o pai, mesmo quando a criança já tenha deixado o peito. Para que um homem não se intimide com este panorama, ele deve ter clareza de que a paternidade é uma ampliação de sua possibilidade de ser homem no mundo. Uma criança precisa de um cuidador, seja ele pai ou mãe.

Homens e a paternidade

No Brasil, os homens não têm demonstrado interesse por uma reflexão mais séria e profunda no que tange a paternidade, bem como nas maneiras que ela transforma a vida de cada um deles. Os homens brasileiros têm uma resistência para sair desta área de conforto em que tradicionalmente se colocaram. Segundo essa perspectiva, a mãe é aquela que sabe como cuidar, porque foi ela quem gerou o bebê. As sociedades tradicionais concedem à mulher o direito de usar a intuição, aplicando-a no cuidado dos filhos. No consultório, percebo que são muitas as razões que levam uma mulher desejar a ter filho. Ser mãe nem sempre é o principal motivo. No Brasil, os grupos de homens que têm procurado discutir a paternidade têm usado o ponto de vista das mulheres sobre o assunto, mais do que os homens têm a dizer a respeito. Segundo tais grupos, a divisão das tarefas domésticas e a prevenção da violência contra a mulher são temas recorrentes.

IHU On-Line – Em que medida o seriado Os Simpsons reflete a realidade familiar brasileira atual?

Sócrates Nolasco – Nos dias de hoje, a mídia quando se refere à mulher, o faz através da palavra “poderosa”. Nas últimas décadas do século passado, a mulher vem investindo na conquista de poder. No seriado Os Simpsons encontramos histórias de uma família na qual as mulheres são as politicamente corretas, sendo que pai e filho são pessoas equivocadas. O mesmo acontece com Os Silva, da família dinossauro. Essa representação de família tem no imaginário dos países da América do Norte e Europa um impacto maior do que no Brasil. Porém, a desvalorização dos homens aqui passa por uma dúvida que gera um estado de vigilância em torno da masculinidade, como se a qualquer momento um homem pudesse perder a sua, quer seja de forma financeira, sexual ou por fraqueza física. Isso tem levado muitos homens jovens a lançar mão da violência e do sexo como ferramentas que atestam masculinidade. Para a mulher, o modelo que serviu para o empoderamento foi o do homem, branco e heterossexual. Esse sujeito é considerado o grande beneficiado na história do ocidente. Por essa razão, as mulheres passaram a reivindicar paridade de direito com os homens, os gays com o hétero e as demais etnias com os brancos. Homer Simpson é branco, heterossexual e homem. É desta representação que estamos falando. Muitos homens brasileiros podem estar identificados com Homer, mas dificilmente irão partilhar este sentimento uns com os outros, por medo de serem vistos como fracassados. No Brasil, Homer se traveste de valentão, bombado, sedutor irresistível, esperto, malandro e todas as insígnias do estereótipo do homem tradicional. A derrota ronda cada um destes tipos, fazendo-os serem quem são.

IHU On-Line – Que impactos a nova configuração familiar terá sobre as novas gerações?

Sócrates Nolasco – As novas gerações crescerão convivendo como diferentes arranjos familiares, o que favorecerá uma compreensão sobre o que seja multiplicidade e possibilidade de se viver a vida. Todavia, isso só não basta, é importante que o modelo tradicional seja identificado e problematizado, mesmo dentro dos novos arranjos familiares. Nem tudo o que é tradicional é ruim. Uma crítica deve ser feita, mesmo dentro das novas famílias, que, me parece, vem perdendo a capacidade de serem críticas em relação a elas mesmas. Fazer parte de um novo formato de família não atestar que as representações tradicionais tenham sido problematizadas. É preciso ter cuidado quando se fala do que seja o novo, quando as representações sociais de homem e mulher, pai e mãe, não mudaram, mesmo que a família em questão seja formada por pessoas do mesmo sexo. A quantidade de separações tem deixado uma impressão ruim a respeito das uniões. As relações duram cada vez menos. É um desafio ser jovem na cultura do divórcio, onde não se acredita que seja possível formar e fazer durar um vínculo, sem comprometer a sede de prazer imediato.

IHU On-Line – O ditado “quando o pai falta, o filho manca” se aplica à família do século XXI?

Sócrates Nolasco – Em uma época de reprodução assistida, liberdade sexual e direito ao aborto, a paternidade tem deixado de ser algo de valor. Isso acontece menos pelo valor que ela tem para os filhos, e mais por conta de uma compreensão limitada que se tem dela, em tempos de consumo e entretenimento. Escrevi uma matéria para um jornal do Rio de Janeiro sobre adoção realizada por casais do mesmo sexo. Fui aos Estados Unidos cobrir eventos que tratavam deste assunto. Dentre as entrevistas que fiz, uma delas me chamou atenção. Uma mulher de 20 anos nasceu em uma família formada por duas mulheres. De uma delas foi retirado um óvulo que, depois de fecundado in vitro, foi inseminado na outra mulher, que gerou uma filha. O sêmen foi pego em um bando de doadores. Estávamos no final dos anos 1990. Quando conversei com essa mulher, ela me contou que suas mães haviam se separado, e que ela já não morava mais com nenhuma delas, porque estava na universidade. Eu perguntei o que estava escrito em sua certidão de nascimento, e ela me disse que aparecia o nome das duas mães. E no do pai? Ela me respondeu: no lugar do nome do pai está escrito D.I. (donor insemination). Creio que isso revela uma parte do que vem acontecendo com a representação paterna nos dias de hoje.

IHU On-Line – Que análise pode ser feita do fato de que a maioria dos casais gays é formada por mulheres?

Sócrates Nolasco – O imaginário atravessa todos que fazem parte de uma cultura. Não importa qual seja o tipo de classificação que ela atribua aos indivíduos. No Brasil, maternidade e feminilidade estão associadas ao sujeito empírico mulher. Creio que a ideia de ser mãe passe de algum modo pela mulher, de tal maneira que a mulher acaba desejando ter filhos, mais do que ocorre nas uniões formadas por homens.

Experiências

Estava em São Francisco, EUA, para um curso. Conheço a cidade, e sei que ela tem uma ambiência de diversidade, no mais extenso que esta palavra possa representar, e não apenas do ponto vista sexual, como ficou associada no Brasil. Castro é o nome do bairro onde a comunidade gay vive. O que me chamou atenção foi o fato de que, na parte do bairro onde moram os homens, era raro encontrar uma mulher. O mesmo acontecia com a parte reservada às mulheres. Lá não se via homens. Bem, até aí, nada demais. Contudo, as imagens que a cultura usa para representar masculinidade e feminilidade estavam lá. As mulheres andavam e se vestiam, em sua grande maioria, como homens, e os homens lançam mão do que havia ficado estabelecido como feminino. Quando existia alguma alusão à masculinidade, esta se referia ao mundo tradicional dos homens: cowboy, couro, militares eram vistos nas ruas e vitrines. O que percorre o imaginário de uma cultura, atribuído a homem e mulher, continua existindo tanto em uniões do mesmo sexo como de sexo diferente. Com todas as mudanças ocorridas na última década, não houve uma reinvenção do que signifique ser homem e mulher. O que encontramos é uma autorização social para que cada qual possa experimentar o que tradicionalmente estava atribuído ao outro sexo.

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