A proposta do decrescimento é debatida em Cuiabá. Entrevista especial com Luiz Augusto Passos

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26 Novembro 2011

"Serge Latouche não se limitou a reconstruir e explicar em que consiste o projeto de uma "sociedade de abundância frugal’, mas tentou, pela primeira vez, achar a possível filiação entre a obra merleau-pontyana e os precursores do pensamento do decrescimento", disse Luiz Augusto Passos à IHU On-Line ao comentar a participação do economista francês no Simpósio Internacional Merleau-Ponty vivo aos 50 anos de sua morte: Percursos ao redor da fenomenologia aos 90 anos do nascimento de Paulo Freire, que aconteceu entre os dias 10 e 12 de novembro, em Cuiabá. De acordo com o professor da Universidade Federal do Mato Grosso – UFMT, o evento e as relações estabelecidas entre os teóricos mexeu "com a obra merleau-pontyana e com suas ramificações".

Segundo Passos, na entrevista a seguir concedida por e-mail, Latouche enfatizou que a herança merleau-pontyana não deve ser buscada nos discípulos de Ponty, Claude Lefort e Marcel Gauchet, porque "Merleau-Ponty seria muito mais radical do que o último Lefort e Gauchet, na medida em que o primeiro conserva – diferentemente dos últimos dois – uma "aspiração socialista’, uma "visão crítica do liberalismo’, do "materialismo do Ocidente’". A herança merleau-pontyana, acrescenta, "com relação ao pensamento do decrescimento, deveria ser buscada, afirma com decisão Latouche, em Cornelius Castoriadis. No livro principal desse pensador, L’institution imaginaire de la société. Para Latouche, é na obra de Castoriadis que se manifesta uma "crítica radical da sociedade de consumo".

Latouche esteve no Brasil entre os dias 12 e 25-11-2011, ministrando uma série de palestras a convite do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Luiz Augusto Passos possui graduação em Filosofia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Nossa Senhora Medianeira, São Paulo; graduação em Teologia pelo Colégio Máximo Cristo Rei, de São Leopoldo-RS; mestrado em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso; doutorado em Educação Pública pela Universidade Federal de Mato Grosso; e doutorado em Educação (Currículo) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Atualmente leciona na UFMT e é um dos autores de O eu e o outro na escola: contribuições para incluir a história e a cultura dos povos indígenas na escola (Cuiabá: EdUFMT, 2010) e escreveu Filosofia para educadores (Cuiabá: EdUFMT, 2008). Seu site pessoal é http://gempo.luizaugustopassos.com.br/.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais foram os principais temas debatidos acerca da obra de Merleau-Ponty no "Simpósio Internacional Merlau-Ponty vivo aos 50 anos de sua morte. Percursos ao redor da fenomenologia aos 90 anos do nascimento de Paulo Freire"? Quais as contribuições do filósofo para nossos dias?

Luiz Augusto Passos – O professor Dr. Fabio Di Clemente abriu o Simpósio expondo a linha gnosiológica e epistemológica que acompanha a interrogação do filósofo Maurice Merleau-Ponty, visando mostrar dessa fecunda interrogação algumas das mais interessantes e atuais recaídas nos âmbitos antropológico, pedagógico, sociológico, ético, político, enfim, da pesquisa científica (com enfoque nas questões biológicas, ambientais, da manipulação artificial da vida, das nanociências, do chamado "universo sintético" da era digital).

A palestra de Serge Latouche perseguiu dois objetivos. O primeiro objetivo foi o de reconstruir e explicar em que consiste o projeto de "prosperidade sem crescimento"; o segundo, de enfocar a "possível filiação" entre a obra merleau-pontyana e os precursores do pensamento do decrescimento.

Retomando o ensaio de Bernard Sichère ("Merleau-Ponty ou le corps de la philosophie"), a professora Creusa Capalbo percorreu as três fases teóricas e históricas que marcaram as posições políticas de Merleau-Ponty: as do humanismo revolucionário, da dialética tensional (remontante a Heráclito e visada para a crítica do estalinismo) e, enfim, da crise profunda do mundo comunista. Avaliou a importância da interrogação merleau-pontyana no sentido de uma reflexão que combateu "a subserviência da filosofia à política", assim como no sentido de uma tomada de distância da ideia de justiça em si, objetiva, a saber, colocada fora do contexto histórico. Desse caminho político de Merleau-Ponty, ela ressaltou também a base gnosiológica e epistemológica, visada a criticar a "mecanização" e a "cientificização", o determinismo social, o dogmatismo: trata-se de formas de reducionismo que empurram para que o homem seja mais um "objeto" da investigação e da ação do que um sujeito capaz de ser protagonista da investigação e da ação. O homem conheceu esse destino, enfatizou Capalbo, tanto na política comunista do então Partido Comunista Francês – PCF, e da ex-União Soviética estalinista, como nas várias ciências humanas e sociais (psicologia, psicanálise, psiquiatria, sociologia). Naturalmente, muito mais extenso e denso foi o terreno de reflexão da professora Creusa Capalbo.

Fenomenologia

O professor Dr. Gabriel Mograbi falou da relação entre o cérebro, o corpo-sujeito e o mundo. Frisou como a fenomenologia, que foi "varrida do vocabulário psicológico sob a égide behaviorista, vem fortemente voltando à baila no âmbito das ciências cognitivas, neurociências e filosofia da mente". A conferência tratou da atualidade de algumas teses da fenomenologia de Merleau-Ponty sob o ponto de vista das atuais pesquisas empíricas da neurociência e de considerações de filósofos da mente e cientistas cognitivos. Em particular, ao visar o tema da cognição encorporada e situada, Mograbi retomou o filósofo Evan Thompson, o qual fala da chamada visão enativista: trata-se da crítica das visões representacionais da mente e da ênfase da importância do corpo e da ação para a cognição.

A professora Dra. Regina Popim falou do seu encontro com a fenomenologia, a partir da sociologia de Alfred Schütz, mostrando algumas contribuições da fenomenologia para a área da saúde. Ao refletir sobre a contribuição da fenomenologia à área da saúde, ela enfatizou a maneira pela qual se possa afirmar que essa contribuição passa por diferentes perspectivas, como também pela área da educação. A fenomenologia foi abordada como método de investigação, que mostra como a saúde precisa tornar-se uma "vivência" e possa abrir possibilidades de intervenção no campo da gestão e prática de cuidado. Como procedimento didático-pedagógico, Popim destacou como a fenomenologia é um modo excelente de trabalhar a realidade da saúde, de cuidado, envolvendo as relações humanas dos profissionais-pacientes e familiares. Assim, ela concluiu que, enquanto proposta, a fenomenologia se mostra apropriada à saúde, pois ela traz consigo um trabalho com as vivências, buscando a compreensão do que somos e fazemos, sem a imposição de teorias preestabelecidas.

O professor Dr. Edebrande Cavalieri desenvolveu brevemente a temática da gênese passiva que retrocede à dimensão hilética, campo anterior a qualquer determinação egológica, sobre a qual se constitui a cultura; ademais, partindo dessa temática, estimulou uma reflexão sobre a questão do sagrado, elemento essencial da experiência religiosa. Nesse sentido, retomou suas pesquisas desenvolvidas nos últimos anos sobre a relação entre teleologia e religião na fenomenologia genética de Edmund Husserl, entre fenomenologia transcendental e análise do fenômeno religioso.

O professor Dr. Jovino Pizzi retomou o conceito husserliano do "mundo da vida" para criticar a "filosofia da idealização" e insistir sobre a recuperação da doxa, assim como da linguagem, a ser pensado como expressão de uma verdadeira vida, e não como instrumento exterior nem como lugar de erro. Pizzi insistiu na relação geminada entre o silenciamento cultural dos setores populares, com ênfase à América Latina, e a progressiva afirmação posta em marcha, por interesses políticos, de um processo hegemônico deslegitimador da fala e da intervenção ativa das organizações, impondo uma colonização cultural imposta aos setores marginalizados, portadores de diferença cultural, visto que possuem um projeto político diferenciado.

O professor Dr. Fleuri falou da interculturalidade. Alimentou as suas reflexões sobre essa noção tão complexa e polissêmica voltando para o tema fenomenológico da vivência, lugar de encontro da crítica merleau-pontyana dos dualismos (alma/corpo, sujeito/objeto, mundo interior/mundo exterior, etc.) com a crítica de Freire, na vertente da educação individualista e, especificamente, bancária.

IHU On-Line – Qual a importância de aproximar o debate ambiental da educação? Nesse sentido, como o tema tem sido abordado no Brasil?

Luiz Augusto Passos – Antes de tudo, a esse resguardo gostaria de destacar algumas das provocações que fez o professor Fabio Di Clemente durante a palestra. Trata-se, diria, de provocações rigorosas. Não diferentemente de como o próprio Merleau-Ponty definiu a ciência como lugar de "provocações" para a filosofia, provocações que precisam, contudo, ser objeto da vigilância crítica da filosofia, Di Clemente delimitou, não sem uma boa dose de autonomia crítica, as instâncias de unidade e diferença que acompanham o tecido da interrogação merleau-pontyana; e tudo isso remontando às provocações da ciência (as internas às tendências dialéticas da biologia, levadas em conta por Merleau-Ponty), inclusive às atuais provocações das nanociências e do mundo digital. Ao manter juntas essas duas instâncias, mostrou de que forma a vida, a natureza, a sociedade, a história são lugares que acolhem um único movimento de expressão, não previamente dado.

E somente nesse tipo de unidade, que escapa ao "dilema do ser e do não ser", e, correlativamente, de cada princípio posto no interior ou no exterior de qualquer fenômeno, é possível pensar a diferença, definida por Merleau-Ponty como "não coincidência", ponto de passagem das metamorfoses entre um sistema de expressão e outro. Nessa visão antidualista e antirreducionista, Di Clemente enfocou a fecundidade crítica contida na recuperação merleau-pontyana da Natureza como "solo" (Boden) das metamorfoses, das passagens reversíveis de carne entre organismo e meio ambiente, entre mundo vegetal, animal e humano, enfim, entre natureza e cultura. Assim, Di Clemente falou de uma eminente reversibilidade entre o vir a ser natureza do homem e o vir a ser homem da natureza, à luz também de um significativo liame com uma obra de Karl Marx, apreciada particularmente por Merleau-Ponty: os "Manuscritos econômico-filosóficos".

Ora, saber repensar a natureza a partir desse quiasma, dessa reversibilidade entre seres, enraizados na dimensão sensível corpóreo-comportamental, significa – conforme interpretação de Di Clemente – poder criticar e superar através de Merleau-Ponty tanto o adultocentrismo como o etnocentrismo, tanto os binarismos dos chamados conflitos de civilização como os da biopolítica e da bioética. Com relação a esses dois âmbitos, a crítica cai sobre os poderes que a vida (humana, animal, vegetal) padece, sem ser, contudo, nunca reduzível a uma dominação nem a uma normalização, plenas e determinadas. Enfim, o respeito dessa eminente reversibilidade, expressão de uma fundação "em duplo sentido", indireta, lateral, oblíqua, ajudaria a compreender, acrescentou Di Clemente, de que forma a natureza não é uma caixa necessariamente em vias de esgotamento dos recursos, mas ultimamente objeto da dialética de conservação-reprogramação dos recursos, lugar de uma possível aliança saudável com a ordem material-produtiva. Paralelamente, a mesma reversibilidade auxiliaria a compreender de que forma a ciência formula "conceitos ilegítimos" quando, através de seus profetas, acredita, por exemplo, na existência de um "universo sintético", lugar de uma presuntiva total descorporificação dos seres humanos, anúncio da volta de modalidades de dualismo e de reducionismo.

IHU On-Line – Qual foi a contribuição de Serge Latouche no simpósio? Quais foram as temáticas mais expressivas que ele debateu no encontro?

Luiz Augusto Passos – Conforme palavra do coordenador científico do evento, professor Di Clemente, pela primeira vez Serge Latouche pronunciou-se sobre a obra de Maurice Merleau-Ponty com relação ao pensamento do decrescimento. Podemos considerá-lo um evento único para toda a literatura crítica que mexe com a obra merleau-pontyana e com suas ramificações. Como adiantei, conforme palavra Di Clemente, Latouche não se limitou a reconstruir e explicar em que consiste o projeto de uma "sociedade de abundância frugal", mas tentou, pela primeira vez, achar a possível filiação entre a obra merleau-pontyana e os precursores do pensamento do decrescimento. Então, cabe frisar essa tentativa no resumo do professor Di Clemente.

Apesar de ser uma fonte distante e problemática com relação ao decrescimento, a obra merleau-pontyana exibe, como acontece com os grandes "clássicos", uma excedência crítica e histórica surpreendente. No caso em questão, segundo Latouche, não devemos buscar em Claude Lefort, discípulo de Merleau-Ponty, nem em Marcel Gauchet, discípulo de Lefort, a herança merleau-pontyana. Merleau-Ponty seria muito mais radical do que o último Lefort e Gauchet, na medida em que o primeiro conserva – diferentemente dos últimos dois – uma "aspiração socialista", uma "visão crítica do liberalismo", do "materialismo do Ocidente". A herança merleau-pontyana, com relação ao pensamento do decrescimento, deveria ser buscada, afirma com decisão Latouche, em Cornelius Castoriadis. No livro principal desse pensador, "L’institution imaginaire de la société ", haveria – palavra de Latouche – um forte "rasto" da fenomenologia de Merleau-Ponty. Se olharmos também os últimos textos de Castoriadis, temos uma "crítica radical da sociedade de consumo". Essa crítica alimenta a tese da "descolonização do imaginário", elaborada notoriamente por Latouche, qual parte central do projeto do decrescimento. Assim, argumenta esse último pensador, na medida em que essa "descolonização do imaginário" é "diretamente inspirada pela concepção da filosofia de Castoriadis, ela poderia ser "reenlaçada à tradição de Merleau-Ponty". Enfim, ele acrescenta, seria o caso de procurar também a influência que a concepção merleau-pontyana da educação, da formação, do papel social, recebeu de uma outra fonte do pensamento do decrescimento, a representada por Emmanuel Mounier e pelo movimento personalista. Desse movimento participaram representantes do decrescimento: por exemplo, Jacques Ellul, crítico da moderna sociedade técnica, e Bernard Charbonneau, ecologista crítico do développement exponentiel. Em definitivo, apesar de estar numa posição certamente longe e lateral a respeito da formação do pensamento do decrescimento, a obra de Merleau-Ponty – conclui Latouche – permaneceria uma sua "fonte não ilegítima".


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