Morte, amor e saudade. Entrevista especial com Luiz Carlos Susin

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02 Novembro 2011

A vida após a morte já foi representada de várias maneiras, mas, hoje, estamos num "enorme vazio de representações", diz Luiz Carlos Susin à IHU On-Line, em entrevista concedida por e-mail, dos EUA. Entre as interpretações sobre como será a vida após a morte, destacam-se atualmente duas visões distintas que tentam explicar esse momento misterioso da vida. De um lado, estão os que creem na ressurreição e, de outro, os que acreditam na reencarnação. De acordo com o teólogo, "a reencarnação, segundo o espiritismo moderno, é um processo evolutivo que está inscrito na própria natureza humana e da vida em geral. Por isso é resultante do modo de vida, depende das ações humanas e não da ação divina". A ressurreição, explica, "aponta para uma ação divina, uma nova criação, uma graça que supera todo esforço e mérito humano, um ato de fidelidade do Criador em relação às suas criaturas mortais. E do ponto de vista humano, a ressurreição requer um ato de confiança e de entrega".

Na entrevista a seguir, ele explica que, para os reencarnacionistas, "esta vida elabora a próxima reencarnação, e por isso é necessário empenho para que seja melhor". Para os cristãos, no entanto, a vida é "consequência do que Deus faz de melhor em nós, portanto, em correspondência a um dom que não precisa de muitos ensaios e que é vivido na forma de gratidão, de bondade sem busca de mérito, de reconhecimento e difusão desse mesmo dom".

Independentemente da crença, todos os anos, no dia 2 de novembro, muitas pessoas têm o hábito de ir ao cemitério rezar pelos mortos e levar flores. Este costume, explica o teólogo, "são sinais de nosso luto, de nossa saudade, que é a fidelidade de nosso amor na ausência da pessoa amada. Mesmo que tenha um aspecto doloroso, é uma dor que não queremos abandonar, justamente por este impulso de fidelidade a uma relação que a morte não separou".

Luiz Carlos Susin é frei capuchinho, mestre e doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, Itália. Leciona na PUCRS e na Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana – Estef, em Porto Alegre. É também secretário-geral do Fórum Mundial de Teologia e Libertação. Dentre suas obras, destacamos Teologia para outro mundo possível (Paulinas, 2006). Atualmente está cursando um semestre sabático nos EUA.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que é a morte do ponto de vista cristão e espírita?

Luiz Carlos Susin – A morte é, biologicamente, o término de uma vida, mas, humanamente, é um final dramático que clama interpretação: nela eu não perco o que eu tenho simplesmente, eu perco a mim mesmo, o meu ser vivo. As tradições religiosas provam a sua vitalidade justamente no sentido que encontram para a morte. A tradição cristã se fundamenta na Páscoa de Jesus e nos escritos do Novo Testamento bíblico. O espiritismo "moderno", que se refere aos ensinamentos de Allan Kardec, tem também raízes cristãs, mas busca algumas explicações evolucionistas que estavam em ebulição naquele mesmo período e recupera um padrão gnóstico que é estranho à Bíblia: o ensinamento sobre as almas que migram de um corpo para outro, chamado em grego "metempsicose". É a reencarnação.

IHU On-Line – Qual a diferença e o que há de aproximações entre reencarnação e
ressurreição? Por que elas são colocadas de formas tão opostas, como se uma anulasse a outra?

Luiz Carlos Susin – A palavra "ressurreição" é muito estreita; ela anuncia apenas um aspecto da Páscoa de Jesus e nossa. A palavra, em grego "anástasis", tem também o sentido jurídico de fazer melhor justiça ao réu que era inocente e foi punido. Mas há outras, complementares, como "exaltação", "glorificação", "transfiguração", "elevação", "arrebatamento". Em confronto com a reencarnação, a ressurreição aponta para uma ação divina, uma nova criação, uma graça que supera todo esforço e mérito humano, um ato de fidelidade do Criador em relação às suas criaturas mortais. E do ponto de vista humano, a ressurreição requer um ato de confiança e de entrega, portanto de "encomendação" a Deus como a de Jesus: "Pai, nas tuas mãos entrego a minha vida". Já a reencarnação, segundo o espiritismo moderno, é um processo evolutivo que está inscrito na própria natureza humana e da vida em geral. Por isso é resultante do modo de vida, depende das ações humanas e não da ação divina. Deus, nesse caso, sanciona com o seu sistema lógico de funcionamento da natureza, o que cada ser humano vai constituindo em seu ser com seu modo de vida.

IHU On-Line – Qual é a visão de vida após a morte para quem acredita na reencarnação e na ressurreição?

Luiz Carlos Susin – A representação ou visão da vida após a morte sofreu modificações ao longo do tempo. Nós tivemos uma forte influência do dualismo zoroástrico, persa, que passou para o mundo grego pós-clássico. O céu foi representado com a leveza quase incolor e suave de anjos, música e sorrisos, ou de jardins e pastagens pacatas. Já o inferno em cores vermelha e preto, pesado e angustiante, com a violência dos demônios, o oposto do céu. Nos últimos séculos, estas visões se concentraram em pessoas e relações recuperadas: na plateia do teatro celeste, o mais importante seria sentarmo-nos ao lado de quem amamos nesse mundo. Mas hoje estamos num enorme vazio de representações. É o que nos diz de modo magistral o historiador Jean Delumeau em "O que sobrou do Paraíso?", editado no Brasil pela Companhia das Letras. Nós sabemos que nossas representações são imagens de nossos desejos ou temores. O ato de fé, de confiança e de entrega, exige hoje uma pureza muito grande, centrada simplesmente na fidelidade de nosso Criador, que, segundo o livro da Sabedoria, é "amante da vida" (Sb. 11). É ele que cuida, ou seja, "ressuscita os mortos", mesmo que saibamos que não há túmulos que se abrem ao som de trombetas, sobretudo depois da incorporação da cremação.

IHU On-Line – Qual é o sentido desta vida se considerarmos que há encarnação ou ressurreição?

Luiz Carlos Susin – É importante observar que o espiritismo moderno operou uma modificação na ideia do processo de reencarnação em confronto com a antiga crença ariana que dominou a Índia e até hoje está profundamente enraizada nas tradições hindus. Por efeito do evolucionismo, o espiritismo moderno não vê possibilidade de regressão no processo de evolução. As almas podem "estacionar" em seu processo evolutivo, mas a reencarnação de um humano em um animal não humano é descartada. Há nisso um otimismo idealista típico do século XIX, e cada vida é uma nova chance de continuar o processo de evolução. Os hindus e os budistas são tremendamente mais realistas em relação à experiência humana, pois a história testemunha que podemos involuir e nos tornarmos até piores que os animais. O processo de reencarnação é chamado de "samsahra", um círculo tremendo de retribuições a perder de vista nos bilhões e bilhões de ciclos reencarnatórios.

Mas todos os reencarnacionistas concordam em algo básico: esta vida elabora a próxima reencarnação, e por isso é necessário empenho para que seja melhor. Os cristãos podem ser taxados de folgados e até relaxados, já que tudo é graça de Deus. Mas isso seria um mau entendimento de que o amor opera nas pessoas amadas: os cristãos vivem a vida não como causa de algo que será melhor, mas já como consequência do que Deus faz de melhor em nós, portanto, em correspondência a um dom que não precisa de muitos ensaios e que é vivido na forma de gratidão, de bondade sem busca de mérito, de reconhecimento e difusão desse mesmo dom.

IHU On-Line – Por que muitos cristãos acreditam na reencarnação, considerando que a Igreja rejeita esse conceito? O que lhes possibilita conciliar em suas convicções religiosas reencarnação e ressurreição?

Luiz Carlos Susin – De fato, encontramos muita confusão. Uma delas é que se pode acabar com a impressão de que a ressurreição é uma reencarnação, ainda que seja uma só. Isso se deve às próprias representações da ressurreição, alguém levantando de túmulo. A falta de clareza, para os cristãos, de que tudo é dom de Deus escorrega para a angústia diante de uma vida "incompleta", em que seria necessário ter mais tempo, mais chance, mais sorte. Portanto, a reencarnação seria a justiça para com uma vida curta demais ou pesada demais. De certa forma, a reencarnação parece ter mais "lógica", e a ressurreição é um puro ato de confiança. O lugar por excelência da experiência antecipada da ressurreição é o perdão: o dom de um relacionamento de bondade e de fidelidade mesmo quando não merecemos isso, quando na verdade merecíamos o contrário. Na lógica não há perdão, o que aqui se faz aqui se paga. Mas como hoje o acento está nesta vida terrena e não além dela, muitos prefeririam pagar para ficar por aqui outra vez.

IHU On-Line – Qual é o sentido de rezar pelos mortos? Como explicar o fato de as pessoas levarem flores ao cemitério no dia de finados?

Luiz Carlos Susin – Flores e outros símbolos são sinais de nosso luto, de nossa saudade, que é a fidelidade de nosso amor na ausência da pessoa amada. Mesmo que tenha um aspecto doloroso, é uma dor que não queremos abandonar, justamente por este impulso de fidelidade a uma relação que a morte não separou. Nesse mesmo sentido está a nossa oração, que tem mão dupla: não só rezamos pelos mortos, mas esperamos e pedimos a intercessão deles por nós, porque a fidelidade amorosa é mais perfeita nos mortos do que nos vivos, segundo um célebre ensinamento de Santo Tomás: eles estão mais perto de Deus, tem uma visão e um relacionamento mais próximo do modo de ver e de se relacionar de Deus, e por isso se ocupam mais conosco do que com eles mesmos, enquanto nós precisamos nos ocupar com tantas coisas. Isso pode soar de forma um tanto fantástica, mas tem sua fundamentação num artigo central da fé, que está no Credo: a "Comunhão dos Santos".

IHU On-Line – Quais são os maiores dilemas que uma pessoa enfrenta ao se deparar com uma situação de morte na família, por exemplo? Por que, de maneira geral, as pessoas não estão preparadas para lidar com este momento da vida?

Luiz Carlos Susin – Sinceramente nunca se está preparado suficientemente para o momento de morrer, nem em nosso caso pessoal e nem na morte das pessoas que amamos. A morte é uma perda, é tempo de luto, da obrigação de ter que curtir uma perda importante. Por isso é uma grande prova e uma decisão para a fé e para a esperança. Há quem tente se distrair, não pensar ou então se enrijecer numa lógica ou numa filosofia religiosa que camufla a morte. Jesus é nosso modelo, mas ele passou pela angústia e pela oração dolorosa, e aprendeu a colocar o seu destino nas mãos do Pai em momento de tal perda. Fez seus últimos gestos como distribuição de si mesmo, de seu amor transformado em herança. No meio do horror morreu com uma oração. Nós morremos com ele.

 

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