Jovens pobres e o novo mundo do trabalho. Entrevista especial com André Langer

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27 Abril 2011

"A ausência de uma perspectiva profissional, marcada mais pela ruptura do que pela continuidade, faz com que o trabalho fique desprovido de um sentido", analisa André Langer na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, em que fala sobre as perspectivas e experiências dos jovens pobres em relação ao atual mundo do trabalho. Langer traz como os jovens, principalmente os mais pobres, absorvem a reorganização do trabalho e questões relativas ao trabalho imaterial, capitalismo e novas tecnologias. Sobre este último ponto, diz que "por ser uma revolução muito recente, esses jovens que já cresceram dentro dela, intuitivamente conhecem a realidade em que pisam. Por exemplo, sabendo que o domínio básico de noções de informática é importante para ampliar as chances de acessar o mercado de trabalho, muitos jovens pobres fazem cursos nessa área".

André Langer é graduado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná e em Teologia pelo Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus. É mestre em Ciências Sociais pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos e doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná. É pesquisador no Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores – Cepat, parceiro estratégico do Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Hoje, dia 28, André Langer apresenta no evento IHU ideias a palestra Mutações no mundo do trabalho: a concepção de trabalho de jovens pobres, onde vai lançar o Caderno IHU ideias com o mesmo título.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual é a concepção de trabalho para jovens pobres estudados por você?

André Langer – A impressão que se tem é que há algo se movendo em relação à maneira como estes jovens encaram o trabalho. Em primeiro lugar, eles não se recusam a trabalhar. Querem trabalhar, precisam do trabalho, mas também não se submetem a qualquer trabalho. Apesar das dificuldades de encontrar um emprego, que é maior ainda entre os jovens dessa camada social, eles resistem a aceitar a primeira oportunidade de trabalho que aparecer. Poder-se-ia pensar que, dada a situação de necessidade econômica, abraçariam o que aparecer. Dentro dos limites, são criteriosos.

As incursões pelo mercado de trabalho são marcadas pela precariedade. A ausência de uma perspectiva profissional, marcada mais pela ruptura do que pela continuidade, faz com que o trabalho fique desprovido de um sentido. Assim, vão passando de trabalho em trabalho, na busca não tanto de uma realização pelo trabalho, mas atrás daquilo que ele pode lhes proporcionar. Voltam, talvez, a fazer do trabalho um meio. Suportam as condições precárias de trabalho pelo que pode oferecer em termos de pequenos consumos, acessos... Prima uma relação instrumental com o trabalho, o que acaba tendo consequências sobre a "ética do trabalho", tão cara na sociedade industrial, enfraquecendo-a.

IHU On-Line – Em que sentido o capitalismo reorganiza o trabalho imaterial e como essa mudança é transferida para o mundo do trabalho?

André Langer – O último quartel do século XX presenciou uma profunda, impactante e irreversível mudança na organização da produção e do trabalho, alavancada pela revolução tecnológica informacional. Esta matriz tecnológica, através de suas inúmeras e infindáveis materializações, está cada vez mais onipresente na vida das pessoas. O sistema produtivo necessita de menos trabalhadores para uma produtividade sempre maior. O mercado de trabalho tornou-se mais restrito e competitivo. O trabalhador precisa de novas qualificações, assim como necessita desenvolver novas habilidades.

Com a revolução tecnológica em curso, há uma mudança de acento, que vai do material para o imaterial. No novo estágio do capitalismo o valor é dado pelo conhecimento, pela criação e reside, antes, nos chamados bens intangíveis, tais como símbolos, signos, códigos, marcas... A comunicação torna-se fator preponderante no processo produtivo integrando-o em todos os processos. Há, pois, uma integração entre comunicação e produção.

O imaterial como subproduto ou como consequência direta da revolução informacional, requer um novo tipo de trabalhador, com níveis maiores de qualificação e novas posturas. Exige-se uma força de trabalho altamente polivalente e polioperativa.

IHU On-Line – Como os jovens pobres se inserem na reorganização do capitalismo e das novas exigências do mundo do trabalho?

André Langer – Inserem-se de maneira marginal neste processo. As empresas integram de maneira desigual a força de trabalho de que necessitam. Para as atividades mais centrais, trabalhadores mais bem preparados, com condições melhores de trabalho, com uma flexibilidade que é mais positiva que negativa, que gozam de uma maior estabilidade na empresa e com remunerações de qualidade. Ao passo que, quanto mais se se afasta deste núcleo central de trabalhadores, mais se caminha rumo à precarização de todas estas condições. E é onde se encontram os jovens pobres. Circulam nesta área cinzenta da realidade em que trabalho precário, temporário, parcial, desemprego e pobreza constituem uma força gravitacional difícil de se escapar.

Por ser uma revolução muito recente, esses jovens que já cresceram dentro dela, intuitivamente conhecem a realidade em que pisam. Por exemplo, sabendo que o domínio básico de noções de informática é importante para ampliar as chances de acessar o mercado de trabalho, muitos jovens pobres fazem cursos nessa área.

IHU On-Line – As dificuldades para jovens ingressarem no mercado de trabalho, hoje, são maiores em função do avanço tecnológico, da falta de experiência e escolaridade? É possível fazer uma comparação com décadas anteriores?

André Langer – Sim. As exigências em termos de qualificação são maiores. Na medida em que setores sempre mais amplos da produção avançam na implementação de tecnologias e o conhecimento torna-se fator sempre mais preponderante, é natural que o tipo de trabalhador ou trabalhadora que este mercado queira e necessite seja diferente. De modo geral, ter o ensino médio completo faz parte dos processos de seleção, e os jovens têm consciência deste fato. Além disso, alguma qualificação na área da computação é passaporte mais garantido para um emprego. É verdade que nos anos 1990, algumas exigências de qualificação eram meramente requisitos de seleção. Mas essa tendência, penso, está refluindo. Há, hoje, no contexto também de uma economia reaquecida, nichos de mercado em que falta mão de obra qualificada.

A qualificação em termos de escolaridade e/ou de experiência é dramática para os jovens das camadas mais pobres da sociedade. A qualidade do ensino fundamental e médio é altamente criticável. Não bastasse, uma parcela dos jovens entrevistados se recusa a retornar aos bancos escolares para concluir o ensino fundamental ou para cursar o ensino médio, por não encontrarem compensação nisso. Por outro lado, a experiência – ou sua falta – é sentida por eles como um nó difícil de desatar. Não entendem por que ninguém quer desfazer o círculo vicioso entre a falta de experiência e a falta de oportunidade. "Como obter experiência se os empregadores não dão uma oportunidade?", perguntam-se.

IHU On-Line – De que maneira os jovens pobres se apropriam das novas tecnologias e que uso fazem delas?

André Langer – Se considerarmos a tríade das materializações mais difundidas das tecnologias da informação e da comunicação, ou seja, a telefonia celular, o computador e o acesso à internet, veremos que o acesso não se dá por igual. O telefone celular é o instrumento mais encontrado e seu acesso é praticamente universal. Em relação aos outros dois, a figura muda um pouco. A posse de um computador e, além disso, o acesso a uma linha de internet, são mais difíceis. Mas, certamente, a tendência é que estes instrumentos vão se popularizando cada vez mais. No entanto, mesmo não tendo os equipamentos em casa, acessam-nos muitas vezes nas lan houses ou em casa de amigos. Mesmo entre os próprios jovens pobres entrevistados, pode-se ver uma diferença no acesso a essas tecnologias. Os mais jovens, por exemplo, têm um contato maior do que os que já estão na faixa dos 24-25 anos.

O uso mais frequente diz respeito ao celular. Usam-no para conversar, passar e receber mensagens escritas, ver a hora, servir de agenda, jogar, fazer fotografias que podem ser enviadas instantaneamente para amigos ou mesmo imagens que são postadas nas redes sociais ou no YouTube, por exemplo... Mas também serve para estar "conectado", no caso de uma procura de emprego... Ou seja, fazem do celular um uso multifuncional, flexível, muito diferente daquele do telefone fixo. O computador é usado para as coisas corriqueiras, mas também para se relacionar nas redes sociais.

IHU On-Line – A partir da sua pesquisa e das entrevistas realizadas com esses jovens, qual seu sentimento e perspectiva em relação ao futuro deles?

André Langer – A impressão que me deu é que vivem um paradoxo. Se, por um lado, há um pessimismo quanto ao futuro da vida nesse planeta, as grandes instituições tradicionais mostram suas fraquezas diante dos graves problemas sociais e ambientais. Por exemplo, eles são, em relação ao seu futuro, otimistas. Se o presente não é nada animador, os jovens projetam-se sempre numa situação melhor no futuro. Não são pessimistas. Desejam apenas condições mais favoráveis e menos desiguais para lutarem e levarem uma vida decente. Não querem as coisas de mão beijada. Não estão de braços cruzados, até porque é uma situação que não se podem permitir, num contexto em que precisam travar a cada dia a sua luta.

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