Um novo mundo do trabalho. Entrevista especial com Magda de Almeida Neves

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29 Abril 2011

Um mundo novo do trabalho surge e agrega antigas gerações de trabalhadores e jovens com um perfil bastante diferente. No entanto, velhos problemas continuam neste novo cenário, somando-se a novos problemas que a situação atual traz. Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por telefone, a professora Magda de Almeida analisa as novas configurações do trabalho, o papel desempenhados por mulheres e homens e como os jovens são inseridos nesse novo ambiente. "É evidente que o perfil desse jovem é muito diferente daquele do trabalhador anteriormente integrado ao mundo do trabalho. Isto porque esse jovem já entra num processo em que as premissas são de muita concorrência, de muita competição", diz.

Além disso, Magda analisa o papel dos sindicatos e organizações representativas nesse cenário. Para ela, "o papel do sindicado mostra que ele deve ser relevante, que ele tem que atuar. Porque uma representação sindical é fundamental a fim de dar respostas para tais questões que permanecem. No entanto, eles demoraram a responder aos novos problemas, porque estão distantes dessas questões".

Magda Maria Bello de Almeida Neves é graduada em Serviço Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora com mestrado em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais e doutorado em Sociologia pela Universidade de São Paulo. É professora na PUC Minas.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como você analisa as novas configurações do trabalho?

Magda de Almeida – O trabalho no século XXI adquiriu uma dimensão muito heterogênea. Essas mudanças já vinham se processando desde o final do século XX, a chamada Terceira Revolução Industrial, a partir da criação da microeletrônica e da entrada da informática no mundo do trabalho. É evidente que esses pontos provocaram uma mudança não só na forma do trabalho, mas também no conteúdo do trabalho. Então, hoje nós podemos dizer que trabalho não é igual a emprego, como era anteriormente.

Existem inúmeras formas de trabalho e, dentro desse contexto, nós temos desde o trabalho muito qualificado, de altos salários, até o trabalho precário, flexível e de baixo salário. Cresceu nesse contexto o trabalho informal. A informalidade adquiriu uma nova roupagem, que muitos autores chamam de a "nova informalidade", ou seja, ela é uma forma de trabalho que faz parte da cadeira produtiva hoje. O trabalho muitas vezes começa numa empresa ou instituição extremamente qualificada, mas a sua cadeia leva, frequentemente, a um trabalho informal com péssimas condições de trabalho, baixos salários, etc. O informal e o formal estão bastante articulados.

IHU On-Line – De que forma essa nova realidade no mundo do trabalho transformou a geração de emprego e renda?

Magda de Almeida – Evidentemente o trabalho hoje não é mais baseado exclusivamente no chamado trabalho produtivo e industrial. As múltiplas formas de trabalho tomaram conta das metrópoles, das cidades, do campo. Nós temos inúmeras formas de realização do trabalho. Eu nem falo de emprego; falo de trabalho e renda.

Estão tentando criar oportunidades para integrar uma força de trabalho que ficou bastante excluída dessas mudanças que o mundo do trabalho sofreu. Por exemplo, uma das formas de políticas públicas, que nós temos hoje de geração de trabalho e renda, são as chamadas cooperativas ou as experiências de economia solidária. Estas constituem uma forma de integrar um grupo da sociedade mais pobre em atividades a partir das quais eles possam gerar renda para a sua sobrevivência.

IHU On-Line – Essa nova realidade do mundo do trabalho é marcada pelo essencial uso das tecnologias. Há, pelo menos, duas gerações trabalhando juntas. Que cenário se cria com isso?

Magda de Almeida – Um cenário que mostra justamente essas mudanças que vêm se processando. Porque, evidentemente, tem uma geração que carrega um saber profissional e também um saber desenvolvido muito no dia a dia do trabalho, no cotidiano e que não aceita as novas tecnologias de forma fácil, ainda assim teve que passar por mudanças, por reciclagens, etc. Existe também uma geração de jovens que vem com toda uma formação nessa área tecnológica, nesse novo mundo que se abre no século XXI, com tantas mudanças ocorrendo. É evidente que o perfil desse jovem é muito diferente daquele do trabalhador anteriormente integrado ao mundo do trabalho. Isto porque esse jovem já entra num processo em que as premissas são de muita concorrência, de muita competição.

O jovem tem que estar sempre se requalificando para se manter no emprego e isso está no novo jogo das relações de trabalho, que exigem deles um renovar constante, atingir metas, ter uma alta produtividade. Isso tudo modificou bastante o perfil dos trabalhadores como um todo nesse início de século XXI.

IHU On-Line – Em que setores as mudanças são mais evidentes?

Magda de Almeida – Essas mudanças se processaram de diferentes maneiras, em diferentes setores. É claro que, hoje, nós estamos falando em cadeias produtivas. Então, a cadeia produtiva, por exemplo, da indústria, é bastante diversificada e heterogênea. A chamada primeira empresa ou a empresa mãe tem alta tecnologia, trabalhadores bastante sofisticados, altos salários, muitos benefícios, etc. Porém, na medida em que a cadeia produtiva vai "caindo", chegando a médias e pequenas empresas, encontramos uma performance diferente, com uma mão de obra menos qualificada, com menos benefícios, piores condições de trabalho, trabalhos bastante precários.

É preciso salientar que o setor de serviços – por exemplo, os bancos – sofreu uma transformação muito grande do ponto de vista tecnológico, isso desde o final da década de 1980 e, principalmente, na década de 1990. As inovações tecnológicas, a microeletrônica, entraram com muita força nos bancos e isso modificou o perfil dos trabalhadores, desempregou muita gente e criou outra geração de trabalhadores nessas instituições.

Dentro desse contexto da cadeia produtiva nós encontramos uma divisão sexual do trabalho. E o que eu quero dizer com esse conceito é que, em muitas dessas empresas mais qualificadas, os homens estão presentes e nas empresas mais de ponta, com menos qualificação, com menos condições de trabalho, as mulheres estão presentes, em termos quantitativos.

IHU On-Line – Então, qual o papel que o homem e a mulher desempenham no atual mundo do trabalho?

Magda de Almeida – O percentual de mulheres no mundo do trabalho vem crescendo muito. Elas adquiriram uma qualificação profissional importante e, principalmente, uma alta escolaridade formal. As mulheres, hoje, estudam mais do que os homens estudam. Essa questão colocou a mulher no mundo do trabalho.

Mas qual a questão que ainda perdura? As mulheres ainda recebem 70% do salário masculino para o mesmo cargo. Segundo, ainda permanece um olhar duvidoso sobre o trabalho da mulher por parte de muitas empresas. Ainda olham a qualificação profissional da mulher muito em termos dessa qualificação chama de os "dons femininos", que algumas empresas relacionam com disciplina, limpeza, delicadeza.

Isso ainda permanece para contratar algumas mulheres, ou seja, é uma qualificação que diz respeito muito menos à qualificação profissional da mulher. Por outro lado, se algumas mulheres entraram no mercado do trabalho, entraram em condições que antes eram muito mais masculinas como, por exemplo, a de juízes, de médicas, de engenheiras. Estamos vendo uma crescente entrada das mulheres nessas profissões.

Observamos também outra questão: existe um grupo de mulheres muito mais pobres, que não consegue entrar no mercado formal de trabalho. Elas ainda são de situações de exclusão ou de precariedade no mundo do trabalho. Com relação aos homens, evidentemente que eles mantiveram seus empregos. Num determinado momento cresceu muito o desemprego masculino, mas eles permanecem nesse mundo do trabalho, sem qualificação para muitas das profissões almejadas.

É claro que eles também sofrem, como vimos na construção de Jirau. Sofrem com as péssimas condições de trabalho, de assédio moral e todos esses fatores desse chamado novo mundo do trabalho.

IHU On-Line – As centrais sindicais foram criticadas por demorarem a intervir no conflito que ocorreu em Rondônia, no canteiro de obras da hidrelétrica de Jirau. Como vê esse caso no mundo do trabalho atual?

Magda de Almeida – O sindicato ainda tem uma resposta retardatária aos acontecimentos: eles ainda não se aparelharam, não se organizaram para atender a tantas mudanças e tantas heterogeneidades do atual mundo do trabalho. Eles têm que dar conta dessa grande diferença no mundo do trabalho. O caso de Jirau foi um exemplo muito importante, porque mostrou que no Brasil as condições de trabalho em muitos lugares são extremamente penosas.

Nós ainda temos trabalho escravo em algumas regiões do Brasil. Nós temos uma precarização do trabalho forte, que traz consequências para a saúde do trabalhador. Nesse ponto, o papel do sindicado mostra que ele deve ser relevante, que ele tem que atuar. Porque uma representação sindical é fundamental a fim de dar respostas para tais questões que permanecem. No entanto, eles demoraram a responder aos novos problemas, porque estão distantes dessas questões.

IHU On-Line – Qual o papel dos sindicatos nesse novo cenário do mundo do trabalho?

Magda de Almeida – O papel dos sindicatos não tem sido fácil. Primeiro porque, com essa mudança na organização do mundo do trabalho, com empresas terceirizadas, a precarização do trabalho, a classe trabalhadora se tornou bastante heterogênea e diversificada. Isso dificulta fortemente a ação sindical. Ela tem que dar conta dessa diversidade. Não só a diversidade no perfil dos trabalhadores, mas diversidade em termos de salários, de condições de trabalho, de contrato de trabalho. Aquele conceito que explica tão bem essas mudanças – que é o conceito de trabalho flexível – mostra justamente que o mundo do trabalho, atualmente, é um mundo flexível. Isso dificulta enormemente a ação sindical. No entanto, os sindicatos estão apegados a questões anteriores de organização do trabalho e custaram muito a dar conta dessas mudanças.

IHU On-Line – Como você analisa a forma como as novas gerações que estão entrando no mundo do trabalho se relacionam com as organizações representativas?

Magda de Almeida – As novas gerações estão muito distantes também. Tem-se a dificuldade muito grande de sindicalização dos novos que entram no mundo do trabalho. É evidente que, a partir dos anos 1990, principalmente no Brasil, os sindicatos se tornaram muito frágeis do ponto de vista dessa representação, por todas essas características do mundo do trabalho e essas transformações que expliquei anteriormente.

Se os anos 1980 foram anos de muita luta e de muita mobilização da classe trabalhadora de maneira geral, em forma de greve e de grandes mobilizações, a década de 1990 irá mostrar o arrefecimento dessas lutas e uma dificuldade dos sindicatos de se organizarem e se mobilizarem para enfrentar a reestruturação produtiva, essa fragmentação da classe trabalhadora, a precarização, a terceirização. Eles não conseguiram dar uma resposta a essas novas dinâmicas e as empresas demitiram muito dos antigos trabalhadores e empregaram novos, com perfis diferenciados, mais qualificados e não julgam muitas vezes importante uma representação sindical.

IHU On-Line – Ainda é importante ser sindicalizado?

Magda de Almeida – Sim. Acho que o sindicato é um ator político importante na consolidação da democracia. O sindicato tem um papel fundamental, assim como a representação sindical, de maneira geral. O sindicato é um ator importante de fortalecimento da democracia. Tem a ver com a legislação trabalhista; tem a ver com defesa do direito dos trabalhadores; com uma constante vigilância da saúde do trabalhador, sobre o assédio moral nas empresas, sobre a precarização do trabalho.

O sindicato tem este papel: de denunciar e de procurar meios de negociação e de mudanças no mundo do trabalho. O que ocorre é que ele tem que se adequar aos novos tempos e, nisso, eles ainda estão procurando o seu caminho. Ainda não encontraram uma forma necessária para enfrentar todos esses embates e mudanças no mundo do trabalho.

 

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