O 2º turno e os evangélicos. Entrevista especial com Leonildo Silveira Campos

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21 Outubro 2010

Apontados como os responsáveis por levarem as eleições presidenciais para o segundo turno, os evangélicos são tema de análises e reflexões sobre os caminhos dessa fase do pleito desde que a apuração dos votos apontou uma disputa entre Dilma Rousseff e José Serra. A IHU On-Line entrevistou, por e-mail, o professor Leonildo Silveira Campos que discorreu sobre como os evangélicos adentraram a pauta dos debates eleitorais e como este grupo religioso tornou-se um fenômeno sociológico importante na política atual. “Acredito que os evangélicos foram usados como `bucha de canhão` numa guerra facilmente apresentada a eles numa retórica que sempre foi muito bem aceita: a luta do `bem` contra o ‘mal’”, escreveu.

Leonildo Silveira Campos é graduado em Filosofia, pela Universidade de Mogi das Cruzes, e em Teologia, pela Igreja Presbiteriana Independente do Brasil. É mestre em Administração e doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo, onde atualmente é professor. Também leciona na Faculdade de Teologia da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil. É autor do livro “Teatro, templo e mercado: organização e marketing de um empreendimento neopentecostal” Petrópolis - São Paulo, Vozes – Simpósio - Umesp, 1997. Recentemente a revista IHU On-Line publicou uma entrevista com ele sob o título IURD: teatro, templo e mercado.


Confira a entrevista.

IHU On-Line – A questão das religiões, principalmente entre os evangélicos, tem ganhado força nos debates para o segundo turno dessas eleições. Como o senhor analisa a forma como os evangélicos têm entrado nessa discussão?

Leonildo Silveira Campos – O termo “evangélicos” abrange uma boa parcela (de 20% a 30%) da população brasileira. Trata-se de uma população portadora de uma homogeneidade discutível da qual fazem parte pessoas pertencentes às camadas mais pobres (classes “D” e “C”) até os que estão na baixa classe média. Os evangélicos mais tradicionais pertencem às classes médias (baixa e média, principalmente). De uma maneira geral os evangélicos têm assumido uma postura conservadora. Em certos meios eles votam de acordo com as solicitações de seus líderes, considerados por alguns deles como os “homens de Deus”. Porém, há ocasiões em que essa fidelidade às diretrizes emanadas dessas lideranças não funcionam à contento. Por exemplo: em 2006, a representação evangélica na Câmara Federal caiu pela metade (de pouco mais de 60 para pouco mais de 30 deputados), apesar da solicitação de pastores e bispos para que os fiéis votassem em seus candidatos (muitos deles estiveram envolvidos com escândalos como o do Sanguessuga ou Mensalão).

No primeiro turno, os evangélicos foram atingidos por outra discussão, não por envolvimento de seus representantes em esquemas de corrupção, mas foram “aliciados” ao lado dos que não aceitam o aborto e o casamento de pessoas de mesmo sexo. Acredito que os evangélicos foram usados como “bucha de canhão” numa guerra facilmente apresentada a eles numa retórica que sempre foi muito bem aceita: a luta do ‘bem’ contra o ‘mal’. Em alguns templos evangélicos um telão foi instalado às vésperas das eleições de 3 de outubro, e o pastor projetou um pequeno filme com cenas de aborto, maus tratos de crianças indígenas e outros temas mais, todos explorados por essa nova direita (evangélica ou católica).

Depois, eles afirmavam: “se você quer um país em que um governo ‘iníquo’ irá impor essas coisas, restringindo a liberdade religiosa, votem na Dilma e no PT”. Penso que a multiplicação via internet desses boatos influenciou o voto dos evangélicos levando-os a votarem na Marina (evangélica pentecostal) ou no Serra. Os evangélicos que mudaram a direção do voto na última hora podem ter repetido o fenômeno Collor, em 1989. Certamente, se essa mudança tivesse ocorrido no segundo turno, Serra teria se elegido, como Collor o foi em 1989. A questão será: no segundo turno tal retórica conseguirá manter a sua eficiência?

IHU On-Line – O pastor Silas Malafaia participou do programa eleitoral de Serra apoiando o candidato. Ele, inclusive, tem usado seu programa pago em diferentes canais para dizer aos fiéis para não votarem em Dilma. Como o senhor encara isso?

Leonildo Silveira Campos – Silas Malafaia é um conhecido “atirador para todos os lados em que o vento soprar” alavancado pelo dinheiro. Malafaia e o pastor Caio Fábio sempre estiveram digladiando em nome da “verdadeira fé evangélica”. Agora que o Bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), está ao lado do PT, Malafaia entrou em rota de colisão com ele. Em outras épocas, segundo Caio Fábio, a retórica de Malafaia, favorável à IURD e à “liberdade do povo de Deus” (durante a campanha de Collor, de FHC e após o “chute na Santa”), foi estimulada por milhares de reais para os cofres de seu movimento que está inclusive se tornando autônomo em relação a Assembléia de Deus brasileira. Penso que o apoio de Malafaia a Serra não ajuda tanto quanto um posicionamento de Edir Macedo ou de outros líderes neopentecostais a Dilma e ao PT. Mesmo em relação a Assembleia de Deus (um conglomerado de igrejas com cerca de 10 milhões de fiéis) o apoio de Silas Malafaia não carrega tantos votos como ele imagina. A questão é quem detém um capital religioso maior e um maior domínio das massas. Parece que, Macedo e outros pentecostais favoráveis a Dilma, representam a maioria dos votos “de cabresto”.

IHU On-Line – Que razões fazem dos evangélicos um fenômeno sociológico importante na política atual?

Leonildo Silveira Campos – Sem dúvida, a visibilidade demográfica, midiática e política dos evangélicos fizeram desse ex-“pequeno povo mui feliz” (como eles cantavam em uma de suas canções) uma confortável e decisiva cifra de aproximadamente 30 milhões de brasileiros. A quase totalidade é alfabetizada, tem um senso de “conversão religiosa” muito aguçada; seus membros foram tocados no passado pelo fundamentalismo, anticomunismo, anticatolicismo, têm um enorme respeito pela palavra de seus líderes, quer sejam eles “pastores”, “missionários”, “bispos” ou “apóstolos”. A maior parte desses evangélicos é pentecostal e participam de grandes empreendimentos religiosos (que os estadunidenses chamaram de “denominações”) proprietários de mídias.

Os evangélicos que estão localizados nas camadas com mais emprego, saúde e escolaridade, têm também acesso a rede mundial de computadores. Porém, para alegria de seus adversários, os evangélicos não se unem ao redor de nomes e de bandeiras comuns a todos eles. No entanto, se alguma bandeira, como foi o caso do aborto, for agitada pelos seus líderes, o grau de adesão a este ou aquele candidato será maior. Os evangélicos brasileiros deixaram de ser uma minoria e passaram a se sentir importantes, numérica e socialmente falando, impulsionados por uma autorepresentação de serem o fiel da balança em tempos de eleições. Esse sentimento de que todos, independente da denominação religiosa que faz parte, são membros de uma espécie de “supraigreja”, de um agrupamento chamado “povo evangélico” ou um “povo escolhidos por Deus” para fazer a diferença, pode resultar em associações esporádicas, surgindo-se daí significativos resultados eleitorais.

IHU On-Line – Teoricamente, vivemos num Estado laico. Como o senhor vê a dimensão que a religião está tomando nesse debate para o segundo turno?

Leonildo Silveira Campos – Na verdade, a ideia de “Estado laico” no Brasil é muito mais um ideal, segundo alguns burgueses, do que uma construção histórica, social e cultural. A religião da maioria sempre foi um fator de pressão na organização legal e até na forma de organizar o nosso calendário. Desde a separação entre a Igreja e o Estado, após o primeiro golpe militar de nossa história (proclamação da República em 1889); passando-se pelos acordos políticos dos anos 1930, 1940, 1964-1985 ou os da chamada “República Nova” pós-1985; até o recente acordo com o Estado do Vaticano e a Igreja Católica; a meta do “Estado laico” é sempre retomada, discutida e colocada em dúvida por alguns.

Por outro lado, a ofensiva dos cristãos mais conservadores ao redor da luta contra o aborto, casamento ou união entre pessoas do mesmo sexo pode ser vista como uma revanche religiosa contra a secularização da sociedade brasileira. Mesmo assim, toda aspiração por um Estado teocrático é, ao meu ver, um perigo para a existência de um Estado que pretende ser democrático, secularizado ou laico. É curioso que o protestantismo brasileiro, desde a sua inserção no Brasil do século XIX, sempre acusou a Igreja Católica, especialmente os jesuítas de “serem contrários à democracia” de modelo norte-americano. Os evangélicos brasileiros divulgaram muitos textos anticatólicos desde a segunda metade do século XIX, afirmando que o catolicismo era o maior perigo para a democracia liberal norte-americana, que, apesar da desigualdade entre negros e brancos, era vista pelos evangélicos como um modelo de Estado democrático e laico.

IHU On-Line – Os evangélicos podem mesmo ser os responsáveis pela definição deste segundo turno? Que motivos vão conduzir o voto desse grupo religioso?

Leonildo Silveira Campos – Acredito que os evangélicos, se é que todos eles estiveram com Marina e Serra contra Dilma no primeiro turno, não irão conseguir repetir a coesão antiaborto neste segundo turno. Por outro lado, o fator aborto parece ter sido enfraquecido porque ambas as candidaturas, Serra e Dilma, passaram a acenar para esse eleitorado evangélico-conservador que se uniu aos evangélicos-liberais (ecologistas e admiradores da Marina fiel da Assembleia de Deus), levando consigo católicos da renovação carismática também.

Essas alianças resultaram em milhões de votos que, num novo turno, poderão tomar outros rumos. A colisão de forças conservadoras contrárias a Dilma e pró-Serra somente terá sucesso neste segundo turno se algum outro escândalo for explorado pela mídia. Aqui outra força se levanta contra Dilma-PT: a mídia representada pelos grandes grupos financeiros estilo Globo, jornais Estado e Folha de S.Paulo e revistas como Veja, Época e outras mais. Contudo, as dezenas de emissoras de rádio e de televisão, os milhões de exemplares da Folha Universal, os milhares de templos da Igreja Universal do Reino de Deus, estão apregoando, todos os dias, que uma conspiração diabólica foi montada nas profundezas do inferno para impedir a vitória de Dilma. Edir Macedo garante que Deus está com o mesmo PT que em 1989 e 1994 estava sob influências de Satanás.

 

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