As relações das Igrejas Anglicana e Católica Romana. Entrevista especial com o Cônego Francisco da Silva

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11 Dezembro 2009

Em um ambiente de tensão, causado pelas novas normas de conversão da Igreja Católica, reuniram-se, no Vaticano, o Papa Bento XVI e o Primaz da Igreja Anglicana e arcebispo de Canterbury, na Inglaterra, Rowan Williams. O encontro objetivou debater as relações entre as duas Igrejas e o desejo comum de fazer avançar o ecumenismo. Em entrevista, por telefone, à IHU On-Line, o secretário-geral da Igreja Episcopal


O Primaz da Igreja Anglicana, Rowan Williams, e o Papa Bento XVI

Anglicana do Brasil, com sede em Porto Alegre, Reverendo Cônego Francisco Silva falou sobre a relação de união e diferença que cercam as Igrejas, além dos desafios das comunidades cristãs neste novo milênio. “Diria que hoje nossa grande preocupação é muito mais com a qualidade de vida das pessoas, com a questão do meio ambiente, dos valores que regem a sociedade em sua constituição política e social, do que propriamente uma preocupação de caráter doutrinal, teológico e dogmático, pois isso diz respeito apenas às questões internas de cada Igreja”, diz o reverendo.

A respeito da visita do Primaz, Francisco expôs a opinião da comunidade anglicana sobre o assunto e as contribuições e consequências trazidas pelo encontro. “O Primaz fez uma visita de cortesia e teve a absoluta liberdade de afirmar que, necessariamente, Católicos Romanos e Anglicanos não têm de pensar as mesmas coisas, mas o essencial é que, no básico, no que diz respeito à afirmação de nossa fé, nos credos, e a nossa compreensão como partes da única Igreja, nós podemos estar juntos e podemos ser hospitaleiros uns com os outros”, garante.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – A sexualidade se transformou num tema de divisão da Comunhão Anglicana?

Rev. Francisco Silva – Sim, pois, de certa forma, a aproximação sobre o tema da sexualidade, dentro da Igreja, depende de premissas que chamaríamos de hermenêuticas. Isso faz com que se tenham segmentos dentro da comunhão anglicana, como também em quaisquer outras Igrejas, aproximados mais textual e tradicionalmente da Bíblia, e outros que têm uma aproximação hermenêutica mais aberta aos novos tempos, mais compreensiva em relação a certos tabus ou a convenções sociais e morais, que também têm sua componente cultural. Desta forma, o debate sobre a sexualidade é aberto, dentro da Comunhão Anglicana, e é evidente que isso reflete um pouco a inclusividade ideológica que vivemos como Comunhão Anglicana.

IHU On-Line – Para o senhor, em que  sentido a iniciativa do Papa Bento XVI contribuiu para o Ecumenismo?

Rev. Francisco Silva – Anglicanos e católicos romanos têm um diálogo bilateral que já dura mais de quarenta anos. Temos aproximações documentais de discussões sobre diversos temas, como a autoridade, eclesiologia, ministérios, e tantos outros aspectos. Este diálogo vai continuar, evidentemente. O fato de o Vaticano ter expedido uma constituição apostólica específica para anglicanos, acolhendo os anglicanos de tradição mais conservadora, é novo e precisará ser discutido entre as duas Igrejas e amadurecido. Nós, anglicanos, estamos abertos a esse diálogo, pois entendemos que sair da mesa do diálogo não representa uma contribuição à caminhada ecumênica. O ecumenismo é isso, é a busca de construir o essencial e ter liberdade e respeito pelas questões chamadas de secundárias.

IHU On-Line – Que leituras – positivas e negativas – o senhor faz dessa relação entre as Igrejas Anglicana e Católica com esta iniciativa do papa Bento XVI?

Rev. Francisco Silva – O que estranhamos, e isso inclusive foi parte de uma nota oficial que a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil tornou pública, foi o fato de que essa iniciativa, em nenhum momento, foi compartilhada com os anglicanos. Existe uma comissão internacional que envolve as duas Igrejas e uma congregação em Roma que trata exatamente do diálogo entre as Igrejas cristãs, e nenhuma dessas instâncias foi consultada ou procurada para ajudar no processo de constituição deste documento.  Estranhamos isso, mas entendemos que o Vaticano deve ter tido suas razões, talvez para preservar os segmentos anglicanos que procuraram o Vaticano por uma acolhida pastoral.

Mas, de qualquer forma, mesmo estranhando essa atitude unilateral de Roma, continuamos acreditando que é possível estabelecer, aprofundar e ampliar o diálogo e cooperação entre as duas Igrejas.  Por outro lado, nós, a nível de IEAB, temos a compreensão de que, no preâmbulo da constituição, existem algumas afirmativas teológicas que são próprias da autocompreensão da Igreja Católica Romana sobre si mesma, que afirmam peremptoriamente que o Papa, em sua função, de Primaz de toda a Igreja Católica do mundo tem sobre si a responsabilidade de reunir todo rebanho de Cristo. Evidentemente que esta própria afirmação no preâmbulo da constituição, para nós, precisa ser enfrentada teologicamente. E aí, claro, o caminho do diálogo está colocado, e apenas estranhamos que o processo de edição da constituição apostólica tenha sido feito sem consulta ou em partilha com os segmentos da Igreja irmã.

IHU On-Line – Neste encontro, foram abordados os desafios que se apresentam a todas as comunidades cristãs neste início de milênio. Que desafios são esses?

Rev. Francisco Silva – Primeiramente, temos o desafio de dar um testemunho comum como Igrejas que confessam a Jesus Cristo como Senhor, Salvador e Redentor da humanidade. Este testemunho comum deve se dar em todos os campos da vida: no campo político, social, cultural, pastoral. E, evidentemente, que um testemunho comum pressupõe uma compreensão dos desafios, também comuns. E, nesse campo, acredito que Rowan Williams e o Papa Bento XVI devem ter, com certeza, procurado os pontos e os desafios comuns que as duas Igrejas enfrentam, para uma resposta e interação conjunta, consensual entre as duas Igrejas, em relação aos grandes problemas que hoje temos no mundo.

Diria que hoje nossa grande preocupação é muito mais com a qualidade de vida das pessoas, com a questão do meio ambiente, dos valores que regem a sociedade em sua constituição política e social, do que propriamente uma preocupação de caráter doutrinal, teológico e dogmático, pois, isso diz respeito apenas às questões internas de cada Igreja. Então, se buscamos dar um testemunho comum, é evidente que vamos ter que, também, buscar uma leitura comum da realidade. Neste sentido, acho que Anglicanos e Católicos Romanos têm avançado muito, uns mais, outros menos. Existem áreas em que as duas Igrejas não partilham a mesma compreensão ou a mesma afirmação de valores, mas não são essas dissonâncias que irão impedir o avanço e continuidade do diálogo entre as Igrejas.

IHU On-Line – Há um índice curioso de “migração” de sacerdotes católicos para a Igreja Anglicana. Como o senhor vê essa questão?

Rev. Francisco Silva – Eu entendo que essa migração, não só de sacerdotes, mas também de alguns leigos, se dá a partir do momento em que a compreensão das pessoas com relação a determinados valores, sacerdotes ou não, muda. Um exemplo é a questão do celibato. Esta questão ainda é uma cláusula pétrea na autocompreensão da Igreja Romana em relação ao sacerdócio. Para algumas pessoas, essa exigência de celibato pode não fazer mais sentido hoje. E aí temos a tradição Anglicana que afirma que o sacerdócio não é incompatível com o matrimônio e com a vida em família, pelo contrário, essas relações podem ajudar, e muito, a compreensão da humanidade, como dimensão antropológica, da sexualidade, como dimensão inerente a qualquer pessoa. E, neste ponto, muitas vezes, os sacerdotes vêm para a Igreja Anglicana porque entendem que nesta Igreja existe esta liberdade de viver plenamente a sexualidade e vivê-la dentro de uma regra de respeito, compromisso e legalidade.

É isso que os faz repensar, talvez, seu ministério. Porque, se um padre casa dentro da Igreja Católica Romana, ele deixa e abandona praticamente o essencial do seu ministério e, na Igreja Anglicana, ministério e matrimônio podem conviver tranquilamente. Em outros campos, também, se tem áreas de uma aproximação ética em que as Igrejas têm posições diferentes. Por exemplo, em relação aos sacramentos. É difícil, mas respeitamos a posição da Igreja Romana, quando não confere o sacramento a pessoas divorciadas, a crianças que são oriundas de relações singulares, de mães solteiras. Nós entendemos a posição da Igreja Romana, mas hoje o povo precisa é de atenção pastoral, e, neste sentido, não negamos o sacramento, porque entendemos que o pecado e a falibilidade são coisas inerentes ao ser humano. As pessoas podem, concretamente, com a ação pastoral da Igreja, se aproximarem da fé e viverem a sua fé sem as culpas de estarem excluídas, por este ou aquele fator. Existem outras áreas que eu poderia destacar, mas cito essas duas, para que se tenha uma ideia de como nossas Igrejas continuam em diálogo, mas cada uma tem uma visão e uma aproximação diferente. Nossa compreensão é de que a Igreja tem o papel de dialogar com o mundo e com todas as suas questões. Evidentemente que nem todas nós, como Igreja, podemos responder dentro da velocidade da resposta que é exigida, mas pelo menos Anglicanos têm essa dimensão racional e de diálogo com a cultura e o tempo, que nos faz ser mais “flexíveis” em relação à pastoral, à ética e à eclesiologia.

IHU On-Line – A Igreja Anglicana aceita mulheres como sacerdotes. Como isso é visto pela Igreja Católica neste momento de vínculo?

Rev. Francisco Silva – A Igreja Católica tem uma visão construída historicamente de que o ministério sacerdotal é exclusivo dos homens, baseado no fato de que Jesus não teve apóstolas, só teve homens que largaram sua vida e se dedicaram inteiramente ao ministério. Acho que isso é bastante conhecido por todo o povo. A nossa compreensão para justificar e assegurar às mulheres o pleno direito de serem reverendas, diáconas, presbíteras, inclusive, bispas, é o fato de que o ministério da salvação, realizado em Cristo, foi destinado a todo o ser humano, ou seja, homem e mulher são iguais em tudo. São iguais no pecado e na graça, na falibilidade como pessoas e destinatários no amor de Deus. Assim sendo, se são iguais tanto na falibilidade quanto no recebimento da graça, ambos têm as mesmas condições de serem ministros do povo de Deus. Essa percepção que temos é a de que não pode haver, segundo o próprio apóstolo Paulo, nem grego nem judeu, nem livre nem escravo, nem homem nem mulher.

Todos vivem a sua fé que a fé do único batismo, que é feito em nome de Cristo. Se somos iguais, ontologicamente iguais diante de Deus, não compreendemos porque deve haver uma distinção entre o acesso ao ministério sacerdotal por parte de uns, e não por parte de outros. É uma compreensão claramente teológica, que, inclusive, também levou muito tempo de discussões internas na nossa Igreja. A Igreja Anglicana não tomou essa decisão do dia para a noite ou num estalar de dedos ou numa iluminação particular deste ou daquele líder dentro da comunhão, mas foi um longo e duradouro processo de discussão, que envolveu homens e mulheres que concordavam e não concordavam com a ordenação feminina, e, através do chamado consensus fideli, o consenso da comunidade de fé, a Igreja deu este passo a diante, que é o reconhecimento da capacidade plena das mulheres de serem tão ministras quanto os homens.

IHU On-Line – Como o senhor, particularmente, vê a visita do Primaz da Igreja Anglicana a Roma e recebeu essa mudança?

Rev. Francisco Silva – Na nossa compreensão, a visita do arcebispo Rowan Williams a Roma se dá sempre no contexto de cortesia entre as duas Igrejas. O Papa Bento XVI está programando uma visita à Inglaterra no ano que vem, acredito que não é um fato muito comum a visita de papas ao Reino Unido, e, com certeza, esta reciprocidade de hospitalidade deve ser um traço comum das duas Igrejas. Mesmo porque tanto a Inglaterra como o Brasil, como qualquer outro país do mundo, somos sociedade plurirreligiosas e, neste sentido, estar em diálogo não somente com as Igrejas Cristãs, mas em diálogo com as outras religiões é o imperativo do nosso tempo. Então vejo a visita como de cortesia, alguns segmentos dentro da Igreja Anglicana talvez esperassem uma fala específica do arcebispo sobre a constituição apostólica, mas o arcebispo foi uma pessoa muito polida, não quis reforçar um debate que deve acontecer entre os teólogos das duas Igrejas, sobre quais são as implicações e as consequências desta constituição. O Primaz fez uma visita de cortesia e teve a absoluta liberdade de afirmar que, necessariamente, Católicos Romanos e Anglicanos não têm de pensar as mesmas coisas, mas o essencial é que, no básico, no que diz respeito à afirmação de nossa fé, nos credos, e a nossa compreensão como partes da única Igreja, nós podemos estar juntos e podemos ser hospitaleiros uns com os outros.

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