Hidrelétricas no Tapajós: "Nós dependemos da Amazônia para sobreviver, como é que vamos estragar tudo?" Entrevista especial com Jesielita Gomes

Revista ihu on-line

Giorgio Agamben e a impossibilidade de salvação da modernidade e da política moderna

Edição: 505

Leia mais

Pier Paolo Pasolini Um trágico moderno e sua nostalgia do sagrado

Edição: 504

Leia mais

A ‘uberização’ e as encruzilhadas do mundo do trabalho

Edição: 503

Leia mais

Mais Lidos

  • A cada porrada em dependente de crack, o metro quadrado sobe de preço em SP

    LER MAIS
  • Exceto o poder, tudo é ilusão. Artigo de Raúl Zibechi

    LER MAIS
  • CNDH levanta hipótese de vingança de policiais em massacre de Pau D’Arco

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

18 Novembro 2009

Cinco hidrelétricas fazem parte de um projeto para o rio Tapajós na região do Pará. Cerca de 80% da região atingida pelas obras desse complexo hidrelétrico fazem parte de uma área de preservação ambiental. Lá vivem pescadores, ribeirinhos e povos indígenas. Todos, certamente, terão seu dia-a-dia mudado para sempre se a obra for empreendida. Conforme nos contou Jesielita Gomes, a Lita, uma das moradoras que luta contra a construção dessas hidrelétricas, os povos que vivem na cidade de Itaituba não sabem por que não podem desmatar, por exemplo. “Antes, o governo dizia que ele só tinha crédito se desmatasse, hoje ele não tem crédito porque desmatou. O governo traz o sofrimento porque depois vai embora, e a gente que fica pagando por isso. Alguém tem que se unir a nós e dizer o que está certo e o que está errado”, explicou ela durante a entrevista que deu à IHU On-Line por telefone.

Jesielita Gomes é coordenadora do Movimento Tapajós Vivo e do Movimento de Mulheres da região. Ela conta que só soube do projeto das hidrelétricas no rio Tapajós porque participou de um evento na cidade de Altamira e lá conheceu o jornalista, e historiador, Glenn Switkes, que representa a International Rivers na América Latina. “O Glenn nos perguntou se sabíamos da construção das hidrelétricas na bacia do Tapajós. Então, falei que não sabíamos de nada. E, quando voltamos, fui pesquisar o assunto na Internet e descobri todo o projeto. Com isso, fizemos um seminário em janeiro deste ano, chamamos as lideranças comunitárias, principalmente dos locais atingidos”, contou.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que tipo de informações estão chegando para os povos indígenas que serão atingidos pelas obras das hidrelétricas do rio Tapajós?

Jesielita Gomes – As informações que estão chegando somos nós, dos movimentos sociais, que estamos levando até eles, na medida do possível. Porque nós não temos recursos para ir além do que estamos fazendo hoje. Temos feito oficinas onde informamos aos povos indígenas e populações ribeirinhas o que está acontecendo, como vai acontecer.

Nós estamos buscando informações na Internet, já convidamos o pessoal da Eletronorte para vir falar conosco. Há algum tempo, fizemos um encontro com o pessoal do Xingu, em Altamira, e lá o Glenn Switkes nos perguntou se sabíamos da construção das hidrelétricas na bacia do Tapajós. Então, falei que não sabíamos de nada. E, quando voltamos, fui pesquisar o assunto na Internet e descobri todo o projeto. Com isso, fizemos um seminário em janeiro deste ano, chamamos as lideranças comunitárias, principalmente dos locais atingidos. Eles vieram meio sem vontade de participar porque acham um absurdo esse negócio de hidrelétricas na bacia do rio Tapajós. Quando fizemos o segundo seminário, em abril deste ano, mais pessoas participaram e nos ajudaram a levar a informação para a sociedade em geral. A partir disso, passamos a participar de outros encontros, promovidos por outras comunidades, para buscarmos mais informações.

IHU On-Line – E o que está em jogo com a construção dessas hidrelétricas no rio Tapajós?

Jesielita Gomes – Para quem não conhece a nossa região, explico: ela é muito complicada. Aqui, mais de 80% da nossa área é de preservação. Há alguns anos, estamos sofrendo com o problema de não poder desmatar, não poder garimpar. Nós não temos um meio de sobrevivência como as pessoas que vivem no sul do país, que têm indústria. Nós sofremos com essa falta de alternativas. Quando aparecem as hidrelétricas, para o meio ambiente é mais cruel do que os hábitos da agricultura familiar. Já para a economia, os capitalistas acham que a obra vai trazer muitos recursos para o município e dizem que todos vão ter dinheiro. Aqueles que passam necessidade acham que quando as hidrelétricas vierem, vão ter dinheiro para sobreviver. Mas eles não pensam nos danos ambientais e nas consequências sociais. Nossa cidade tem uma faixa de 150 mil habitantes, só que como a capital fica longe – cerca de três horas e meia de vôo de Belém até Itaituba – as políticas públicas demoram a chegar. Por isso, somos considerados um município atrasado, temos uma saúde e educação de má qualidade. Não temos saneamento básico, nossa água não é tratada.

O próprio governo federal está apostando muito alto nessa obra. Além disso, as grandes indústrias, como de alumínio e cobre, dependem dessa energia para sobreviver. São grandes empresas que estão por trás desse projeto. Nós só as conhecemos de nome, porque apenas o representante da Eletronorte esteve aqui dando uma palestra na semana passada. Mas, as informações que ele trouxe são limitadas, pois são as mesmas que recebemos há três meses. Para eles, quanto menos informação forem passadas, menos poderemos reclamar. Só que nós, do movimento social, estamos buscando mais informações, com setores que entendam do tema, e estamos repassando a mensagem do que vai ser o impacto ambiental, principalmente para a nossa região. O pessoal fala que a Amazônia é o pulmão do mundo. Nós estamos no centro da floresta, então aqui é o coração. Se nós somos o coração, será que as hidrelétricas não vão prejudicar esse coração? Nós dependemos da Amazônia para sobreviver, como é que vamos estragar tudo? Quantos anos nós estamos preservando para de repente o governo vir e em dias acabar com todo esse trabalho.

O prefeito daqui e alguns vereadores foram até Itaipu para olhar e deixaram todos empolgados. Na televisão, eles falam que o empreendimento aqui do Tapajós é muito grande, que é maravilhoso e que todo mundo vai se dar bem. Nós estamos montando uma estratégia para tentar combater essas informações que eles estão divulgando. Eles acham que passar vídeos maravilhosos é informação suficiente para levar até as comunidades. Esses políticos foram para Itaipu com as despesas pagas pela Eletronorte com o intuito de trazer essas informações e iludir a comunidade, os ribeirinhos, os indígenas, os pescadores, que são os verdadeiros prejudicados. Eles não têm para onde ir. Nós vivemos em área de preservação, então, para onde esse povo vai? Vai sobreviver de que, se, aqui na cidade, não temos uma economia sustentável, uma economia onde possamos dizer que hoje temos e amanhã também. Nossa realidade é: hoje eu tenho, mas talvez amanhã não, porque não temos donde tirar.

IHU On-Line – As comunidades já conseguem visualizar que tipo de consequências as barragens vão trazer aos povos da região?

Jesielita Gomes – Muitos deles são ribeirinhos. Eles não têm o hábito de trabalho como da maioria das pessoas. O dia-a-dia deles é diferente. Eles levantam, a escola é dentro da comunidade, vão pescar seu peixe, voltam, comem, dormem, de noite pescam, depois comem e dormem. Aí eles vão ser mandados para a cidade. Como é que essas pessoas vão viver, eles não têm estudo, eles vão trabalhar de quê? E os filhos deles, vão fazer o quê? Vão roubar, as filhas vão se prostituir para sustentar os pais na cidade que estão passando fome. É isso que vai acontecer.

IHU On-Line – Quem pode impedir que essas barragens sejam construídas?

Jesielita Gomes – Eu sempre falo que temos que nos unir com o mundo, porque aqui o pessoal foi convencido pelo governo federal. As pessoas que têm consciência do tamanho do prejuízo são pessoas como você que está no Rio Grande do Sul, ou seja, em outros lugares, que têm mais acesso à informação. Essas pessoas podem se unir a nós. Os governos trazem muitos prejuízos, só que eles vão embora, e os prejuízos ficam. Então, quem vai pagar o preço da hidrelétrica? Somos nós!

Quer ver um exemplo disso? Antes, o governo dizia que ele só tinha crédito para quem desmatasse, hoje ele diz que não tem crédito para quem desmatou. O governo traz o sofrimento, depois vai embora, e a gente que fica pagando por isso. Alguém tem que se unir a nós e dizer o que está certo e o que está errado. Eu não sou contra as hidrelétricas, porque a gente precisa de energia, mas tem que ser energia para nós, e não para o pessoal de fora que vem buscar aqui. Essa energia que vai ser gerada no Tapajós não é para nós, e sim para os grandes empreendimentos. Eles só dizem que o mundo precisa de energia porque é crescimento e desenvolvimento. Que desenvolvimento é esse que não traz sustentabilidade?

Nossa luta vai continuar, ela é difícil, às vezes, dá vontade de desistir. Mas quando vemos centenas de pessoas dependendo da nossa luta, a gente se fortalece. Não vai ser fácil porque estamos lutando contra o poder, não temos dinheiro, dependemos de ajuda para fazermos os seminários e levar essa informação mais adiante. Temos que conseguir mais conhecimento técnico, mas não estamos conseguindo isso porque não temos como pagar alguém que faça uma pesquisa da bacia do Tapajós e nos dê informações com mais clareza.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Instituto Humanitas Unisinos - IHU - Hidrelétricas no Tapajós: "Nós dependemos da Amazônia para sobreviver, como é que vamos estragar tudo?" Entrevista especial com Jesielita Gomes