Chagas: uma "doença negligenciada" apesar de afetar milhões de brasileiros. Entrevista especial com David Oliveira de Souza

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20 Julho 2009

“A grande maioria das pessoas que são infectadas passou anos com a infecção em curso silencioso, cerca de uma ou duas décadas, e só então se abre um quadro clínico com problemas cardíacos ou digestivos. E quando isso acontece normalmente a situação já é irreversível”, explicou o médico David Oliveira de Souza, na entrevista concedida por telefone à IHU On-Line. Cem anos depois da descoberta da Doença de Chagas, ele traça o panorama atual deste problema de saúde no Brasil e na América Latina, apontando a Bolívia como o país mais atingido.

David também detalha a forma como essa doença se manifesta e as formas de tratamento que existem. Ele diz que há apenas dois medicamentos utilizados para salvar quem tem o protozoário causador da Doença de Chagas. “A relação risco x benefício do uso deles ainda é boa, mas são medicamentos de tratamento longo, cujos efeitos incluem problemas graves de pele e várias outras possíveis alterações. Por isso, eles precisam evoluir”.

O médico David Oliveira de Souza,32 anos, é responsável pela Unidade Médica da organização Médicos Sem Fronteiras no Brasil. É especialista em Medicina de Família e Comunidade, pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, e em Clínica Médica, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É, também, mestre em Relações Internacionais pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris e, atualmente, é professor de Saúde Coletiva na Universidade Federal de Sergipe.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual o cenário atual da presença da Doença de Chagas na América Latina?

David Oliveira de Souza – Um dos elementos que faz com que a Doença de Chagas seja negligenciada é justamente a falta de conhecimento preciso sobre o seu panorama real na América Latina. Sabemos que a ordem da quantidade de pessoas infectadas é de milhões. A pergunta é interessante justamente porque há dificuldade em dar essa resposta de uma forma precisa, o que já mostra o quanto a Doença de Chagas é pouco supervisionada e pouco cuidada no continente.

Ela é uma doença do continente americano. Hoje, existe de forma global, pois já foi detectada em muitos países por causa do movimento migratório da população da América Latina pelo mundo. Mas, antes de ser chamada Doença de Chagas, era conhecida como Tripanossomíase Americana, porque é causada por um protozoário que atua de forma epidêmica no nosso continente.

IHU On-Line – O contexto brasileiro destoa ou é similar ao panorama em que a doença se encontra na América Latina?

David Oliveira de Souza – Do ponto de vista da falta de conhecimento sobre o quadro real, ele é similar. O Brasil também não conhece com precisão a quantidade de pessoas infectadas por este protozoário. No entanto, o país tem uma diferença em relação aos outros países latino-americanos. O grande feito foi que o Brasil, em 2006, recebeu da Organização Panamericana de Saúde um certificado de eliminação da transmissão da Doença de Chagas no território nacional pelo barbeiro. Isso significa dizer que, no Brasil, não é mais problema de saúde pública a transmissão da doença pelo inseto. Mas eliminação é diferente de erradicação.

Quando falamos que está eliminado, portanto, não quer dizer que deixou de existir, mas sim que se existe é de forma muito restrita. Porém é preciso continuar vigiando antomologicamente, ou seja, é preciso continuar observando atentamente os insetos que vivem próximos às pessoas. Se não houver essa vigilância continuada, a doença pode voltar a ser um problema. O desafio é que antes do Brasil atingir esse estágio, muitas pessoas foram infectadas. Estima-se que três milhões de pessoas com Doença de Chagas vivam hoje no país.

IHU On-Line – E qual é a grande questão que fica para essas pessoas infectadas?

David Oliveira de Souza – Essa é uma doença de curso silencioso. Então, pouquíssimas pessoas vão desenvolver um quadro agudo com sintomas que permitam fazer o diagnóstico de infecção para que o médico possa resolver o problema. A grande maioria dos infectados passou anos com o problema em curso silencioso, cerca de uma ou duas décadas, e só então se abre um quadro clínico com problemas cardíacos ou digestivos. E, quando isso acontece, normalmente a situação já é irreversível. Então, o desafio para o Brasil é descobrir onde estão essas milhões de pessoas, para que elas possam ter acesso a diagnóstico e tratamento.

IHU On-Line – Porque ela tem pouca atenção das autoridades em saúde?

David Oliveira de Souza – A Doença de Chagas entra num pacote chamado de “doenças negligenciadas”. Isso porque elas recebem poucas medidas públicas e porque a quantidade de investimento em pesquisa – tanto para descobrir novos medicamentos, quanto para descobrir novos métodos de diagnósticos – é muito pequena. O motivo é que doenças como a malária, Doença de Chagas e a tuberculose acometem massivamente a população mais pobre. Essas pessoas não representam, portanto, um mercado para consumir medicamentos. Isso desestimula, nessa lógica de mercado que visa o lucro e não a promoção da vida, a produção e a busca de novas moléculas.

Para se ter uma noção, saiu um relatório, que está no site da Fundação Oswaldo Cruz, que indica que, de 1975 a 1999, das 1390 novas moléculas descobertas, apenas quatro eram para doenças negligenciadas. Aí se pode perceber o quanto é limitado o investimento. No caso, a Doença de Chagas é a negligenciada entre as negligenciadas porque ela foi descoberta há um século e durante esse período apenas dois medicamentos foram descobertos e desenvolvidos. E estes medicamentos vieram de outras terapias.

Embora esses tratamentos tenham um poder de resolutividade, são ainda insatisfatórios do ponto de vista dos efeitos colaterais que apresentam, da duração do tratamento, que é longa, das apresentações de posologia. Ou seja, não houve praticamente nenhum investimento para que os pacientes com Doença de Chagas tenham acesso a remédios mais eficazes, com menos efeitos colaterais e para que possam atuar em diversas fases da doença.

IHU On-Line – O grupo Médicos Sem Fronteiras tem um projeto de estudo e combate à doença de Chagas na Bolívia. Por que a presença da organização é tão forte naquele país?

David Oliveira de Souza – Porque é um país onde é maior a prevalência da doença no mundo todo. A Bolívia é um país que, diferente do Brasil, além do problema da falta de diagnóstico e tratamento, tem o desafio da transmissão vetorial, ou seja, os barbeiros convivem ainda com a população. E aí, o que vemos é que as pessoas estão infectadas, recebem o diagnóstico, e não têm acesso a tratamento, além de serem muito numerosas. A função de uma organização não governamental não é substituir o Estado. Nosso impacto é real e importante na vida daquelas pessoas, mas é limitado. É por isso que um dos pilares do Médicos Sem Fronteiras é também comunicar o que está acontecendo. Por isso escolhemos a Bolívia, pela altíssima prevalência da Doença de Chagas naquele país. Estamos preparando uma missão de estudo também no Paraguai, outro país onde a situação também é difícil.

É bom lembrar que a Doença de Chagas, além de ser transmitida pelo vetor, pode ser propagada de outras formas. Uma mulher que tenha sido picada pelo barbeiro e tenha o tripanossoma, se engravidar, pode passar para seu filho através da circulação sanguínea, ou no momento do parto. Quem doar sangue ou órgãos contaminados, caso eles não sejam estudados antes, também pode transmitir a Doença de Chagas. Além disso, há também a transmissão oral: quando uma pessoa ingere alimentos que tenham as fezes do barbeiro ou o próprio inseto. Tivemos recentemente casos assim na Amazônia e em Santa Catarina.

IHU On-Line – Como a doença de Chagas se manifesta e quais são suas principais características?

David Oliveira de Souza – A Doença de Chagas foi descoberta pelo médico Carlos Chagas há cem anos. Ele foi morar num local para tentar combater uma epidemia de malária que estava vitimando muitos trabalhadores da construção de uma ferrovia. E, vivendo ali, a população mostrou a ele esse “insetozinho”, que era o barbeiro. Ao mesmo tempo, ao coletar sangue de mamíferos, o médico identificou a presença desse protozoário. Depois, Carlos Chagas conseguiu identificar numa menina de dois anos, chamada Berenice, um quadro clínico no qual o protozoário se apresentava em seu sangue. Assim, ele teve um feito brilhante, pois, ao mesmo tempo, conseguiu identificar o vetor causador e o quadro clínico da doença.

A Doença de Chagas pode apresentar um quadro agudo, mas a pessoa recém infectada faz uma manifestação clínica que pode ser, muitas vezes, genérica, como taquicardia. É difícil pensar num diagnóstico nessa fase. Caso a pessoa não apresente um quadro agudo, o que é o caso da maioria, a infecção vai se alastrando ao longo da vida, gerando uma reação imunológica no organismo que acaba prejudicando o coração ou o sistema gastrointestinal.

IHU On-Line – Quais são as características das drogas que existem para o tratamento dos doentes?

David Oliveira de Souza – Temos duas drogas principais: benzonidazole e nifortimox. Essas duas drogas devem ser usadas, embora tenham efeitos colaterais fortes. A relação risco x benefício do uso delas ainda é boa, mas são medicamentos de tratamento longo, cujos efeitos incluem problemas graves de pele e várias outras possíveis alterações. Por isso, eles precisam evoluir.

Além disso, as provas diagnósticas também precisam melhorar. Hoje, para podermos fechar o diagnóstico de Chagas, se o paciente não tiver sinais específicos no cardiograma, precisamos de exames que necessitam de uma estrutura laboratorial mais complexa. Não há um teste rápido. É importante dizer que nem todo mundo que é positivo para Chagas, vai desenvolver a doença. Apenas um terço das pessoas positivas desenvolverá.

IHU On-Line – Há muita dificuldade em produzir novos medicamentos?

David Oliveira de Souza – A dificuldade de estudo de um novo medicamento pode estar em várias etapas. Ela pode existir por falta de financiamento necessário, mas também por conta de barreiras tecnológicas. No caso da Doença de Chagas, existem algumas novas estruturas sendo pesquisadas, compostos variados, que permitem usar menores doses de medicamentos, gerando menor efeito colateral. Existe a possibilidade do desenvolvimento de uma vacina. Mas tudo isso carece de investimento maior na área da pesquisa desse problema de saúde.

IHU On-Line – Como são os venenos utilizados hoje para matar o inseto transmissor da Doença de Chagas?

David Oliveira de Souza – Os venenos são eficazes, tanto que foi utilizando eles que o Brasil conseguiu a eliminação. Mas, para ele ser tão útil, é preciso investir na educação. É importante que as pessoas que vivam nas áreas de risco saibam como a doença é transmitida e o que pode acontecer com uma pessoa infectada. A população precisa entender que alimentos como a cana-de-açúcar e o açaí não fazem parte do problema em si, mas precisam ser pasteurizados e manipulados de forma adequada. As mães têm que ter consciência do quanto é importante fazer o pré-natal. Os inseticidas podem e devem evoluir ainda mais, para que possamos usar em doses menores, com toxidade menor e com maior eficácia. A área da prevenção também precisa de avanços.

IHU On-Line – O genoma do parasita da Esquistossomose foi desvendado. O que isso representa?

David Oliveira de Souza – A esquistossomose é uma doença endêmica em várias regiões do Brasil. Claro que ela não tem a magnitude da AIDS ou da Doença de Chagas, do ponto de vista do dano que pode causar, mas atinge tantas pessoas e gera um quadro de anemia, de falta de capacidade laborativa e, assim, tem um impacto muito grande. Toda vez que você descobre o genoma de um parasita, para o desenvolvimento de novas drogas, isso é importante, porque normalmente os medicamentos vão atuar em situações vitais e, desta forma, é possível avançar nos estudos.

IHU On-Line – Essas duas doenças podem, um dia, ser erradicadas?

David Oliveira de Souza – A Doença de Chagas e a esquistossomose têm a possibilidade, sim, de serem erradicadas. Isso significa que você não precisa nem mais executar o controle, porque o parasita não vive mais no meio da população. Então, a erradicação é um conceito muito mais radical do que a eliminação, ou seja, há a possibilidade sim, mas se conseguirmos ter como horizonte a eliminação já é um grande feito. Se a Bolívia, hoje, conseguisse eliminar a transmissão seria fantástico, porque aí teríamos apenas os pacientes que estão infectados que necessitariam de cuidados. Erradicar, infelizmente, é um horizonte bastante distante ainda.

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