"O mercado realiza a globalização dos infernos". Entrevista especial com Carlos Lessa

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30 Maio 2009

A crise econômico-financeira mundial é uma realidade com a qual ainda conviveremos por anos, sentencia o economista Carlos Lessa, na entrevista especial que concedeu, por telefone, à IHU On-Line. De acordo com ele, devemos construir salvaguardas e antídotos, já que tal situação “pode nos contaminar pesadamente”. Retomando as ideias de John Maynard Keynes, Lessa refletiu sobre a importância do controle estatal sobre a economia, e disse que, agora, os neoliberais do Primeiro Mundo “aplaudem as ações interventoras do Estado”. Quanto à invulnerabilidade brasileira diante do caos que se instalou nas economias mundo a fora, rebateu: “Não é tão verdade que tenhamos sido um dos países menos atingidos pela crise. É verdade que somos o país que teve menos complicações com seus bancos”.

E confidencia: “Como presidente do BNDES, minha principal frustração foi não ter salvado a Varig. Senti-me derrotado por não ter sido autorizado a salvar essa empresa. E dava para salvar... Foi, do meu ponto de vista, uma catástrofe”.

Carlos Lessa, é ex-presidente do BNDES, é formado em Ciências Econômicas, pela antiga Universidade do Brasil, e doutor em Ciências Humanas, pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Campinas (Unicamp).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como o senhor avalia que o governo brasileiro tem conduzido a política econômica neste momento de crise? Como entender que o Brasil é um dos países menos atingidos até agora?

Carlos Lessa - Primeiramente, não é tão verdade que nós tenhamos sido um dos países menos atingidos pela crise. É verdade que somos o país que teve menos complicações com seus bancos. Se compararmos a situação dos outros países atingidos pela crise com a brasileira, é notável o fato de que os bancos brasileiros, de modo geral, estão saudáveis. E para os bancos que estavam mais fragilizados, os pequenos, o governo fez uma política razoavelmente inteligente para evitar que fossem engolidos nessa crise. Esse é o lado pelo qual o Brasil se diferencia dos outros países. No Primeiro Mundo, estão sendo estatizados bancos, e organizações centenárias, ultrassólidas, viraram pó. Quando pensamos que o Bank of America, o City Bank, primeiro e segundo maiores bancos americanos, respectivamente, estão desmoronando, quando os bancos de investimento americano desapareceram, e os que não desapareceram viraram bancos comerciais, quando o UBS, maior banco da Suíça, está em situação precária, e assim por diante, então podemos dizer que a situação bancária brasileira é espetacular. Isso se deve, em parte, ao fato de que o Brasil tem dois bancos públicos muito fortes, o Banco do Brasil (BB) e a Caixa Econômica Federal (CEF), e possui um banco de desenvolvimento, o BNDES, maior do que o Banco Mundial. Esse núcleo financeiro público tem sido o grande guardachuva brasileiro em relação à crise, combinado com o fato de que, à custa de sangue, suor e lágrimas, estagnação e todas dificuldades, o Brasil tem, hoje, reservas internacionais razoáveis. Se não nos colocarem para escanteio, temos suprimentos para podermos seguir navegando nesse oceano de dificuldades.

Cenário sombrio

Do ponto de vista de empregos, taxa de investimentos produtivos, desempenho das exportações, saúde das empresas, o Brasil foi tão atingido como qualquer outro país do mundo. Darei um exemplo. O maior grupo brasileiro é o Votorantim, que teve perdas colossais. A Aracruz, maior empresa de celulose brasileira, quase quebrou. Só não quebrou porque recebeu apoio do BNDES para escorar a Votorantim que incorporou a Aracruz. Se não fosse por isso, a Aracruz teria caído nas mãos dos finlandeses da Stora Enso. A Sadia está vacilante, e acabamos de acompanhar sua fusão com a Perdigão. Os matadouros estão fechando e despedindo funcionários por todo Brasil. A suinocultura está em estado de devastação por causa das armadilhas do mercado russo e do medo infundado das pessoas em comer carne de porco. Não temos nenhum cenário brilhante no segmento agroexportador. Apanhamos bastante. E, na medida em que a especulação financeira está empurrando de volta o dólar para R$2,00, isso é terrível para os exportadores, porque o preço internacional caiu. O volume de vendas despencou.

Trajetória de desenvolvimento

Há, por consequência, desemprego, produção industrial em queda, e uma porção de dimensões extremamente desfavoráveis. Felizmente, não passamos por nada parecido em relação à corrida de bancos e ao medo de quebradeira. Então, não é verdade que o Brasil tenha sido um dos países menos atingidos. O que é verdade é que país, no cenário dessa crise mundial, pode, talvez, ser o país que construa uma trajetória de desenvolvimento. O Brasil pode superar essa crise, talvez mais rapidamente do que todas as outras economias do mundo. Temos vantagens notáveis no segmento de energia, com muita hidroeletricidade a aproveitar. Temos a economia do petróleo para desenvolver como carro-chefe da industrialização brasileira e do desenvolvimento de serviços e agropecuário. Temos, ainda, uma enorme reserva de petróleo, o pré-sal, a quarta reserva mundial em matéria de energia. Para o Brasil, esse é um cenário excelente. Em contrapartida, temos um cenário horrível, para dizer o mínimo, quanto à matriz logística.

Matriz logística

O Brasil transporta basicamente em caminhões, o que custa cinco vezes mais caro do que através de ferrovias. Nós temos uma contribuição ridiculamente pequena de transporte ferroviário e quase ausente de transporte hidroviário. Transportamos pela modalidade mais cara do planeta: a rodoviária, seja para cargas, seja para pessoas. Tenho defendido como tese de que esse é um limão azedo na vida brasileira. Para termos uma ideia, nos EUA, os gastos de transportes chegam a 8% do PIB.

No Brasil, esse valor chega a 13,2% do PIB - quase o dobro. Ao mesmo tempo, nós podemos converter esse limão azedo numa limonada maravilhosa, desde que se forme um modelo de desenvolvimento nacional que tenha como um dos seus pilares mudar a matriz de transporte brasileira. Ou seja, fazer com que a rodovia seja alimentadora da ferrovia e hidrovia. Aumentar as linhas tronco-ferroviárias e instalar a navegação de cabotagem e hidroviária do país. Nas cidades, instalar transporte de trem urbano e metrô.

Isso teria um nível de elevação de produtividade espetacular na economia brasileira. Como 80% da população brasileira vive hoje nas cidades, 50% nas metrópoles, isso irá reduzir muito o custo do que é abastecido nas cidades, ou seja, o poder de compra com o salário cresce rapidamente com esse ganho de produtividade. O Brasil tem uma perspectiva de ativar o mercado interno de forma espetacular fazendo um programa de investimentos públicos de grande porte em infraestrutura e transportes.

IHU On-Line - Na outra entrevista que nos concedeu, o senhor afirmou que o capitalismo não chegou ao fim, mas que iria sofrer uma intervenção do Estado para superar a crise. Isso já está acontecendo?

Carlos Lessa - A intervenção está acontecendo. No mundo inteiro, assistimos o Estado intervir com a maior falta de cerimônia. Todos os neoliberais do Primeiro Mundo agora aplaudem as ações interventoras do Estado. No Brasil, temos tidos alguns sinais de intervenção, porém ainda tímidos e modestos em relação não à crise, mas em relação a uma espécie de vacina contra as piores dimensões da crise. Pessoalmente, acredito que o câmbio brasileiro deveria ser centralizado. Ao mesmo tempo, deveria haver um orçamento de câmbio, feito pelo Banco Central. Esse orçamento seria aprovado pelo Congresso nacional para comprometer as forças políticas do país com a orientação cambial, e o executor deveria ser o Banco do Brasil. Retiraria dos bancos e empresas privadas fazerem operações com câmbio. Isso porque, da mesma maneira como se quer estabelecer quarentena para quem tem gripe suína, da mesma forma com que mandamos os funcionários trabalharem com máscaras para não se contaminarem, precisamos evitar a contaminação econômica. A crise financeira internacional é muito séria, e irá demorar muito a passar. E ela pode nos contaminar pesadamente. Deveríamos construir os antídotos e salvaguardas contra ela. Nesse sentido, há uma forte timidez, e o conservadorismo do Banco Central brasileiro pesa nessa atitude.

IHU On-Line - Nesse sentido, qual é a sua opinião sobre a proposta de Bresser Pereira em controlar a entrada de capitais estrangeiros no Brasil? Qual é o seu ponto de vista a respeito de ideias dessa natureza?

Carlos Lessa - Francamente, não gosto de movimento de capitais estrangeiros de curto prazo. Penso que é interessante quando o capital estrangeiro vem por um período de internação no país prolongado. Porque esses movimentos espasmódicos, de “entra e sai”, produzem oscilações violentas na Bolsa de Valores e convertem as empresas brasileiras em jogadoras do cassino cambial. A Sadia perdeu no jogo. Mas outros devem ter ganho... No entanto, esse clima de jogatina em nada interessa para o mundo empresarial brasileiro. No mundo empresarial brasileiro, interessa o investimento produtivo que gera emprego, renda, articula as forças da nação.

IHU On-Line - Acredita que a tendência é que surjam novas propostas como essa?

Carlos Lessa - Penso que sim. O Bresser já vem assumindo essa posição há algum tempo. Acredito que é uma bonita pauta de discussão. Espero que as forças políticas do Brasil comecem a discutir essas coisas. Foram feitas muitas recomendações técnicas, porém a discussão sobre elas está muito embrionária, circunscrita ao círculo acadêmico.

IHU On-Line - Diria que Keynes é, então, mais atual do que nunca?

Carlos Lessa - A tese fundamental é de que o mercado não é capaz de se autorregular. Qualquer mercado pode ser enquadrado nessa característica, mas principalmente os segmentos do dinheiro, trabalho e aplicações financeiras. Esses são segmentos nos quais o mercado apresenta comportamentos destrutivos - às vezes, com euforias inexplicáveis, e em outras com “estouros de manada” nos quais, como búfalos, ele marcha para os precipícios. O mercado deve ser altamente regulado. Além disso, os investimentos prioritários para o futuro do país não são feitos pelas empresas, porque elas dão concretude ao futuro. Porém, quem define o rumo do futuro é o investimento público. Quando o setor público abre uma estrada, ele sinaliza para todas as empresas que, no eixo daquela estrada, devem surgir investimentos. De qualquer modo,  nenhuma empresa, sozinha, irá fazer estradas.

O máximo que ela irá fazer é arrendar uma concessão de uma estrada já feita. Entretanto, ela não é capaz de realizar investimentos pioneiros. E um país em desenvolvimento precisa de desenvolvimentos pioneiros. Por isso, o Estado deve ser um grande investidor produtivo, e não aplicador financeiro. Essa mistura semântica é uma das coisas mais trágicas, quando o investimento passa a ser aplicação financeira. Aplicação financeira não é investimento, mas sim mudança de patrimônio. Investimento significa trazer nova capacidade produtiva, novas instalações industriais, novos equipamentos agrícolas, novas linhas de prestação de serviço, estoques. São as forças produtivas.

O Estado brasileiro precisa assumir a liderança disso, porque não compete ao mercado fazê-lo. O que o mercado realiza é essa globalização dos infernos, algo que nós, que nunca acreditamos no neoliberalismo, estamos roucos de falar. No entanto, apenas agora, quando acontece a catástrofe, começam a reconhecer que é uma realidade.

IHU On-Line - O senhor também disse que essa crise poderia ser medida por seu impacto causado na China. Qual é a situação desse país frente ao cenário econômico de crise e qual é sua relação com o Brasil?

Carlos Lessa - Todos os países do mundo estão tendo desempenhos ruins, alguns até péssimos. E alguns países estão conseguindo, mais ou menos, segurar as coisas. A China faz parte desse último grupo. Mesmo lá, 900 mil chineses desempregados tiveram de retornar para o campo. Esse cenário dos países em recessão, empresas altamente endividadas, paralisadas em seus programas de ampliação, irá durar muito tempo. Por isso, o Brasil deve construir a sua própria proposta de futuro. Não podemos ficar esperando que os ventos mundiais mudem de rumo, porque eles não irão mudar tão cedo. Em Davos, um especialista disse que levará quatro anos para passar a crise. Ele foi criticado por outros especialistas porque foi otimista demais. Essa crise veio e será demorada. Para o Brasil, a dica é construir anticorpos, vacinas, salvaguardas e aproveitar seus dados positivos para lançar um projeto positivo. No Rio Grande do Sul, está sendo feita uma coisa da qual gosto muito: iniciaram a campanha “Pré-Sal é nosso”. Estive na Assembleia Legislativa, em Porto Alegre, e vi as adesões de todas as entidades gaúchas. Como o gaúcho tem um fundo cultural nacionalista forte, esse Estado irá liderar essa campanha pelo Brasil. Eu, pelo menos, gostaria disso.

IHU On-Line - Qual é a sua análise sobre o prejuízo de R$ 10 milhões provocados no FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) pelo BNDES, que não pagou os juros das operações com dinheiro do fundo?

Carlos Lessa - O BNDES é obrigado a pagar ao FAT, sempre, a remuneração. São os recursos que o BNDES paga ao FAT que mantém o programa de Seguro Desemprego. Se isso for realmente verdade, é algo muito inquietante e ruim.

IHU On-Line - Qual é o papel do BNDES nesse cenário de crise e como ele é visto internacionalmente?

Carlos Lessa - Os gigantes brasileiros são extremamente bem vistos. No último ranking mundial de empresas brasileiras, das dez listadas, duas são brasileiras: a Petrobras e a Vale do Rio Doce. O BNDES é considerado um excelente banco a nível internacional, e um banco cooperador de alta qualidade, com um memorial de êxitos muito expressivo. Ele tem grande prestígio lá fora.

A missão do BNDES é tocar para a frente o investimento produtivo no Brasil. A função básica dele é “empurrar para frente” tudo o que “empurra para frente” o nosso país. Por exemplo: foi muito correta a decisão do BNDES de apoiar pesadamente a Petrobras. Penso que foi uma decisão corretíssima dele evitar que a Aracruz fosse adquirida pelo capital estrangeiro da Stora Enso. Sou a favor da ajuda do BNDES à fusão Sadia-Perdigão. Não podemos perder empresas desse porte. Ao mesmo tempo, o BNDES precisa financiar “para valer” usinas hidrelétricas, ferrovias, formular o plano de mudança da matriz de transportes no Brasil. Eu gostaria que o BNDES estivesse financiando no Brasil muito mais metrôs e ferrovias urbanas do que vem fazendo. Por outro lado, o BNDES não pode, ele, forçar a demanda. Ele pode dar sustentabilidade ao que for solicitado. Se para o governo federal não é prioritário o metrô, para o BNDES fica limitado financiar esse setor. O papel do BNDES é ir além do mercado, ajudando o país a construir seu futuro, este feito por atividades pioneiras. Numa situação de crise, o BNDES deve ser o hospital que impede que o país perca suas empresas vitais e poderosas. Como presidente do BNDES, minha principal frustração foi não ter salvado a Varig. Senti-me derrotado por não ter sido autorizado a salvar essa empresa. E dava para salvar... Foi, do meu ponto de vista, uma catástrofe.

IHU On-Line - Como percebe a fusão das empresas Sadia e Perdigão? O que significa essa fusão no momento atual?

Carlos Lessa - A fusão representa que fica com os brasileiros o domínio da economia mundial do frango. A verdade é essa. Com a Sadia quebrada, não haveria grupo nacional candidato a assumi-la. Assim, um grupo estrangeiro assumiria seu controle. Assim o Brasil perderia preponderância no cenário internacional de proteína branca, de frango. Acredito que dos males o menor: salvar a Sadia significou fundi-la com a Perdigão.

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