Rio dos Sinos e Rio Gravataí: os piores do Brasil. Entrevistas especiais com Mauricio Colombo e Silvio Klein

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08 Abril 2009

Em dez anos de trabalhos, a Agência Nacional de Águas – ANA lançou seu primeiro grande relatório sobre a situação dos rios no Brasil. Neste documento, o órgão aponta que o Rio dos Sinos e o Rio Gravataí, situados na região do Vale do Rio dos Sinos e na Região Metropolitana de Porto Alegre, estão no topo dessa lista. Desta forma, a IHU On-Line conversou com os presidentes dos Comitês das bacias desses dois rios, Mauricio Colombo, do Comitê da Bacia do Rio Gravataí, e Silvio Klein, do Comitê da Bacia do Rio dos Sinos. Eles contextualizam, nesta entrevista realizada por telefone, o relatório da ANA e analisam a situação atual dos rios e o que precisa ser feito para que eles deixem de figurar como os piores do país.

Colombo nos diz que “as pessoas acham que colocando num saco de lixo uma garrafa pet estão se desfazendo daquilo. Mas a garrafa não vai embora, só vai parar em outro lugar. É uma situação cultural que precisa ser mudada”. E Klein confirma esse dado, afirmando que, “apesar do gaúcho possuir um índice de educação elevada, existe, na região metropolitana, um nível elevado de exclusão e vulnerabilidade social que trazem esses problemas, como o lixo descartado no rio que não é separado”.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Por que os principais rios da Região Metropolitana de Porto Alegre e do Vale dos Sinos figuram entre os piores do país?

Mauricio Colombo – Essa é uma situação apontada pela Agência Nacional de Águas – ANA, mas que é do conhecimento de quem lida com recursos hídricos no Rio Grande do Sul. Especificamente a matéria orgânica advinda dos esgotos não tratados é colocada diretamente dentro do rio.

Silvio Klein – Esse relatório da Agência Nacional de Águas – ANA é o primeiro da história da agência, que recém completou dez anos. Foi uma compilação muito longa e trabalhosa, e que só conseguiu juntar dados até 2007, conforme divulgaram. Dessa forma, no caso da bacia do Rio dos Sinos, pegou em cheio o recente evento da mortandade, que ocorreu em outubro de 2006 e sempre se baseando nos relatórios da Fepam. Nós entendemos que, hoje, a realidade dos Sinos tende a melhorar; já é melhor, segundo a própria Fepam. Isso é fruto, em parte, de que não houve estiagens tão críticas nos anos recentes e também de um processo de reversão no processo de tratamento de esgoto , além de a população ficar um pouco mais consciente em relação ao uso não abusivo da água.

IHU On-Line – Que lixo é esse que está espalhado pelo Rio Gravataí?

Mauricio Colombo – As pessoas normalmente olham a situação da seguinte forma: “Vou colocar o lixo fora”. Só que não existe o fora; ele só muda de lugar. Então, as pessoas acham que, ao colocarem uma garrafa pet num saco de lixo, estão se desfazendo dela. Mas a garrafa não vai embora, só indo parar em outro lugar. É uma situação cultural que precisa ser mudada. Essa visão de que utilizar um recurso hídrico tão caro e importante para nossa sobrevivência para depositar nossos resíduos é “de última”, como dizem. Penso que o papel da educação ambiental é fundamental para resolver esse problema. Sem conscientização das pessoas não temos como resolver.

Silvio Klein – Esse é o lixo da falta de consciência da nossa população. Mas essa falta de consciência precisa ser dividida no conjunto de como é composta a população. Temos um grande manto de ocupação das regiões baixas pela população que se classifica como de vulnerabilidade social e que, até por estar nesse nível, não teve acesso à educação no passado e a uma moradia de qualidade. O lixo que se vê no rio é depositado nos arroios de ocupação urbana, ou seja, é catado nas zonas centrais da cidade e desperdiçado nos arroios quando não utilizados. Então, esse é o lixo da falta de consciência e também da falta de condições mínimas de acesso à educação, informação e de dignidade dessa faixa expressiva da população.

IHU On-Line – Em que partes a situação do Rio Gravataí é mais grave?

Mauricio Colombo – Infelizmente, a questão da qualidade da água é mais afetada nas regiões mais Rio dos Sinosurbanizadas, ou seja, a partir do município de Gravataí em direção à foz é a área que apresenta maior problema na questão da qualidade.

Silvio Klein – Não há dúvida de que essa parte vai de Campo Bom até Canoas. Essa é a parte que forma a porção baixa do rio, a mais densificada da região metropolitana e onde a ocupação urbana tem essa característica de invadir áreas impróprias. Somando-se a isso, há o baixo nível de tratamento de esgoto que cria essa situação.

IHU On-Line – O lixo que está depositado no rio vem do gaúcho, dito tão intelectual e civilizado. Como o senhor vê isso?

Mauricio Colombo – É uma contradição, porque a água sempre esteve vinculada à cultura gaúcha. Acredito que o gaúcho do campo tem uma noção muito clara do quanto é importante a água para sua sobrevivência e dos animais do qual ele se utiliza. Mas a questão que chama mais atenção está relacionada ao gaúcho urbano, que não tem esse instrumento claro dentro da sua maneira de viver, ou seja, ele depreda muito.

Silvio Klein – A grande questão é essa: o gaúcho em tese tem essa característica respeitada no resto do Brasil, admitindo que sua população apresenta o mais alto índice de educação, com exceção das populações excluídas. Hoje, essas populações excluídas estão na região metropolitana, nessas áreas de ocupação irregulares. Elas foram excluídas dessa educação e agora não têm condições de trabalho digno, a ponto de precisarem viver do lixo. Apesar do gaúcho revelar um índice de educação elevada, há, na região metropolitana, um nível elevado de exclusão e vulnerabilidade social, que trazem esses problemas, como o lixo descartado no rio que não é separado. As próprias prefeituras não têm programas de separação, com raras exceções consistentes, disseminadas e aprofundadas o suficiente para levar a essas regiões um nível melhor para que se diminua e um dia até zere.

IHU On-Line – Como o senhor analisa e relaciona a atual situação do Rio Gravataí com as doenças que têm se propagado pelo estado, como a febre amarela e a dengue?

Mauricio Colombo – Nós conhecemos algumas doenças de vinculação hídrica, e a febre amarela não está vinculada aos recursos hídricos, mas a dengue sim. Estamos acompanhando os órgãos de controle no sentido de fazer uma fiscalização do acúmulo de água. É até uma questão constrangedora de responder por que, no momento em que pedimos que as pessoas acumulem água no verão, quando acontece a escassez, também pedimos para que elas evitem a acumulação de água, para que ela não seja foco do mosquito da dengue. É uma questão de educação e é extremamente complexo lidar com isso de maneira clara, correta. Às vezes, se pode entrar em contradição em relação a este problema.

Rio GravataíSilvio Klein – As doenças são naturais de vinculação hídrica e temos, em alguns municípios, áreas em que o abastecimento público não consegue atingir. Uma pessoa, então, bebe uma água não tratada, às vezes até de um poço artesiano bem feito ou quase bem feito, mas não que sofreu revestimento. Ela vive em local onde não há coleta de esgoto, e este contamina a água. As secretarias de saúde comprovam que esses problemas de hepatite, por exemplo, têm origem na ingestão de água e no contato físico com o esgoto. Trata-se de uma situação que incide nas áreas em que o saneamento não apresenta o mínimo de atendimento a ponto de essas doenças serem totalmente erradicadas.

IHU On-Line – Qual é a atual situação, na região que o Rio Gravataí compreende, do saneamento?

Mauricio Colombo – A questão do saneamento está sendo tratada agora no último ano de maneira mais efetiva devido a uma lei federal que instituiu o plano de saneamento que os municípios têm que realizar. Aqui no estado, sei que estão acontecendo alguns estudos e algumas licitações estão em andamento. Quanto aos municípios, vemos que alguns que fazem parte da Bacia estão buscando recursos para resolver algumas questões de saneamento. Estamos acompanhando isso, principalmente nas regiões de Alvorada e Viamão, onde as licitações estão adiantadas para implantação de uma rede de coleta para tratamento de esgoto. O programa Sócio Ambiental do Dmae irá tratar a capital. E temos algumas ações da prefeitura de Canoas no sentido de efetivar a rede de coleta de esgoto. É fundamental que isso ocorra, porque dessa forma irá equacionar uma grande parte do esgoto que será tratado.

Silvio Klein – O plano de saneamento feito pelo estado constata que o índice de tratamento existente de esgoto é abaixo de 5%, um dos piores do Brasil. Isso é fruto de uma época em que os municípios podiam fazer, com a concessionária, um contrato apenas de água, sem se preocupar com o esgoto. A situação é crítica, mas, por outro lado, temos hoje notícias importantes de projetos aprovados e licenciados. Há algumas obras importantes de tratamento de esgoto em execução em diversos municípios dessa porção crítica do rio, a ponto de dizer que, a cada ano, esse triste e crítico índice irá avançar, a passos tímidos, em razão da demora das obras. No entanto, em três ou quatro anos teremos índices razoáveis. Isso irá reverter a qualidade do rio e vamos entrar num caminho, aí sim irreversível, de continua melhora desses índices.

IHU On-Line – O que está sendo feito para salvar o rio e qual o envolvimento da sociedade nessas ações?

Mauricio Colombo – O passo para a sociedade participar existe: é o Comitê da Bacia, que está representando por pessoas que possam influenciar de alguma maneira nas soluções dos problemas que acontecem na bacia do rio. No entanto, é evidente que isso precisa ser melhor e mais divulgado, para que a sociedade tenha consciência de que exista um espaço. Falta, para mim, essa divulgação que as ações transpareçam para a sociedade. O Comitê, quanto espaço político, não age, mas fomenta para que as entidades façam suas ações. Várias ações foram feitas, como limpeza, de esgoto local, implantação de mecanismos de reservação de água, de forma real, mas ainda assim com pouca divulgação dentro da própria área municipal ou que ultrapasse as fronteiras do município visando à qualidade do recurso hídrico.

Silvio Klein – O Comitê está em fase final de diagnósticos, na qual está se compilando todos os estudos já feitos, além de fazer alguns novos e complementares. Isso para termos um documento de divulgação para toda a sociedade. Nessa articulação com a sociedade, as pessoas poderão se informar sobre o rio que temos e o que teremos, se nada fizermos, daqui a 15 ou 20 anos. Ou seja, devemos saber quais ações podemos fazer no sentido de que a sociedade possa participar. A partir do diagnóstico pronto, a nossa ideia é ir até a sociedade e discutir o que precisa ser feito e assumir compromissos em relação às atitudes que precisamos tomar.

IHU On-Line – Quando o senhor acha que a sociedade vai se dar conta do que está fazendo com o Rio Gravataí?

Mauricio Colombo – Eu acredito que, infelizmente, no momento em que não tiver água. Em 2004, tivemos uma seca muito forte e houve necessidade de racionar. Eu acredito que só no momento em que houver uma escassez, tanto para abastecimento da população quanto para indústrias, e não conseguirem produzir alguma coisa, é que as pessoas irão se dar conta de que o recurso hídrico é fundamental para a sobrevivência quanto para a produção.

Silvio Klein – Eu acho que começou a se dar conta com a mortandade. Vamos tentar mostrar o que acontecerá se nada for feito. O diagnóstico tem essa possibilidade. Entendemos que, com a mortandade, a sociedade começou a se dar conta. Nosso papel é evidenciar isso, ou seja, mostrar como a sociedade deve fazer a sua parte. Desse modo, saberá o compromisso que terá de assumir, pois o rio é uma consequência de um uso condominial de toda a cidade. Vamos conseguir capitalizar isso.

IHU On-Line – Problemas como aconteceu com o Rio dos Sinos, onde tantos peixes morreram, podem ocorrer no Rio Gravataí?

Mauricio Colombo – É muito difícil. Claro que não se pode afirmar com total certeza, porque não se tem noção ainda do que acontece na bacia a nível de indústrias. Em 2006, aconteceu um incêndio numa empresa que retaliava produtos químicos e ele se propagou até o arroio porque os produtos químicos foram direcionados para lá. As margens desse arroio pegaram fogo e esses produtos chegaram até o Rio Gravataí, ameaçando a captação do Dmae para a região de Porto alegre. Ou seja, temos noção de que possa acontecer coisas nesse sentido. De lá para cá, muito pouca coisa foi feita para amenizar essa situação, mas eu gostaria muito que isso não acontecesse. Também possuímos um oleoduto que atravessa quase toda a bacia e uma autoestrada que permite o tráfego de cargas perigosas ou não... Então, o risco existe, mas sempre torcemos para que uma tragédia como essa não aconteça.

 

 

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