San Romero da América, mártir! Entrevista especial com Diego Irarrazaval

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23 Março 2009

“Tomara que ninguém silencie as vozes do povo latino-americano que exige transformações na atual conjuntura de fraude financeira mundial e de renovado clamor por ‘Outro Mundo Possível’.” A frase esperançosa e otimista é do Padre Diego Irarrazaval. Na entrevista que concedeu, por e-mail, à IHU On-Line, ele relembra quem foi e o que representa Monsenhor Romero, Arcebispo de San Salvador, que denunciava, em suas homilias dominicais, as numerosas violações de direitos humanos em El Salvador e manifestou publicamente sua solidaridade com as vítimas da violência política, no contexto da Guerra Civil no país. Em 24 de março de 1980, foi assassinado por um atirador de elite do exército salvadorenho, treinado nas Escola das Américas, enquanto celebrava a missa. Sua morte provocou uma onda protestos em todo o mundo e pressões internacionais por reformas, em El Salvador.

Padre Diego Irarrazaval é professor na Universidad Católica Silva Henriquez, em Santiago do Chile. É, também, membro de Associação Ecumênica de Teólogos e Teólogas do Terceiro Mundo.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O contexto em que viveu Oscar Romero é diferente do atual? Que diretrizes ele nos deixa para hoje?

Diego Irarrazaval – Na recente eleição presidencial em El Salvador (15/03/2009), triunfou a esperança de justiça e paz, depois de décadas de violência com seus 75 mil mortos. O contexto em que viveu o Bispo Romero, os jesuítas mártires e as mulheres que os acompanhavam, assim como todo o povo crucificado e ressuscitado, está mudando. Ao mudar o contexto, segue vigente o legado de Romero: ser testemunha do Evangelho no meio da população violentada e solidária. Neste 24 de março, em todo o continente, esta convicção se refletirá: “São Romero da América, pastor e mártir nosso, ninguém fará calar tua última homília... tu oferecias o Pão, o Corpo Vivo, o triturado corpo de teu Povo, seu sangue derramado vitorioso”. Tomara que ninguém silencie as vozes do povo latino-americano que exige transformações na atual conjuntura de fraude financeira mundial e de renovado clamor por “Outro Mundo Possível”

IHU On-Line – Por que Romero foi um profeta no processo social de seu país?

Diego Irarrazaval –
Para Romero, ordenado sacerdote em Roma (1942) e Bispo em São Salvador (1970), “os pobres lhe ensinaram a ler o Evangelho” (como disse Pedro Casaldáliga [1]). De clérigo temeroso e conservador, passou a ser um profeta solidário com seu povo. Dizia ele: “a denúncia da idolatria te sido sempre a missão dos profetas e da Igreja. Já não é o deus Baal [2], mas há outros grandes ídolos o nosso tempo: o deus dinheiro, o deus poder, o deus luxo, o deus luxuria. Quantos deuses introduzidos em nosso ambiente! A voz de Oseas tem atualidade também agora para dizer aos cristãos: não misturem essas idolatrias com a adoração ao verdadeiro Deus. Não se pode servir a dois senhores: ao Deus verdadeiro e ao dinheiro” (11/06/1978).

IHU On-Line – Por que Romero é tão controvertido na Igreja? Como anda o processo de sua canonização?

Diego Irarrazaval – A vida e as palavras de Romero estão cheias de frases como estas: “Um Evangelho que não leva em conta os direitos de homens e mulheres, um cristianismo que não constrói a história da terra, não é a verdadeira doutrina de Cristo, é simplesmente instrumento do poder. Lamentamos que em algum momento nossa Igreja também tenha caído nesse pecado; mas queremos revisar esta atitude e, de acordo com essa espiritualidade autenticamente evangélica, não queremos ser brinquedo dos poderes da terra, mas queremos ser a Igreja que leva o Evangelho autêntico, valente do nosso senhor Jesus Cristo, ainda que seja necessário morrer como Ele, em uma cruz” (27/11/1977). Obviamente isto desperta polemica no interior de grupos cristãos. No entanto, iniciou-se já o processo de canonização. Acredito que o importante não é somente isso, mas também que sejam reconhecidos tantos mártires anônimos em nosso continente.

IHU On-Line – Qual é a contribuição de Ignacio Ellacuría e de Romero na chamada “filosofia da libertação?

Diego Irarrazaval – Certamente Ellacuría (e tantos outros) nos oferecem luzes (e toda uma epistemologia) para pensar nossa realidade e para cuidarmos da dor e do caminhar de nossos povos. Se sabe que tanto Ellacuría como Sobrino estiveram associados à obra e ao pensamento de Romero. Hoje ao ressurgir a eco-teologia é bom escutar Romaro: “A libertação que a Igreja espera é uma libertação cósmica. A Igreja sente que é toda a natureza que está gemendo abaixo do peso do pecado. Que lindos cafezais, que belos canais, que lindos algodoeiros, que propriedades, que terras as que Deus nos tem dado. Que natureza mais bela! Mas quando a vemos gemer sob a opressão, sob a iniqüidade, sob a injustiça, sob o atropelo, isso dois à Igreja que espera que a libertação não seja somente o bem estar material, mas que seja também o poder de um Deus que livrará das mãos pecadoras da humanidade uma natureza que, junto com homens e mulheres redimidos, vai cantar a felicidade em um Deus libertador” (11/12/1977).

Romero não foi um filósofo nem um teólogo acadêmico, mas claramente difundiu a sabedoria de seu povo, assim como também foi alimentado pelo pensamento de Ellacuría, de Sobrino e muitos outros.

IHU On-Line – Como é a tensão entre a Igreja dos pobres e outros setores da Igreja?

Diego Irarrazaval – Em uma de suas comovedoras cartas a Ellacuría, Jon Sobrino dizia: “Posso estar cego de amor, mas acredito que aquela Igreja, a de Romero, era uma Igreja salvadorenha, popular, de pobres e mártires. Era uma Igreja cristã, povo de Deus, memória viva de Jesus e portador de seu Espírito. História e trascendencia caminhavam de mãos dados”. Parece-me que a tensão se desenvolveu entre o ser eclesial fiel ao pobre e a Deus (por um lado) e as formas cristãs funcionais à dominação (por outro lado). É uma tensão que marca toda a história do cristianismo e que hoje causa muitas feridas e interrogações. Confio que em cada crente há uma lucidez e coragem para não tapar a luz do sol com um dedo...

IHU On-Line – Como podemos celebrar, em nossos espaços acadêmicos, a comemoração do martírio de Romero, neste 24 de março?

Diego Irarrazaval – Podemos recuperar a coragem de uma pessoa frágil (como foi Romero) e continuar a cuidar da nossa realidade latino-americana, com suas dores, e as flores da esperança. Isto implica um trabalho sistemático, no ensino e na pesquisa acadêmica, e na vida quotidiana coerentes com os princípios do Evangelho.

Notas:
[1] Nascido em Balsareny, em 1928, na Espanha, Dom Pedro Casaldáliga ingressou na Congregação Claretiana em 1943. Em 1968, mudou-se para a Amazônia e, em 1971, o Papa Paulo VI o nomeou bispo de São Félix do Araguaia, no Mato Grosso. Adepto da Teologia da Libertação, tem como lema "Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar". É poeta, autor de várias obras.

 

 

[2] Baal é uma palavra semítica que significa Senhor, Lorde, Marido ou Dono (Don). Esta palavra em Hebraico é cognata de outra em acádio Bel, com o mesmo significado. A forma feminina de Baal é Baalath, o masculino plural é Baalin, e Balaoth no feminino plural. Esta palavra não tinha conotação exclusivamente religiosa, podendo ser empregada em relações pai e filhos (por exemplo) não sendo obrigatória uma separação hierárquica.

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