Irmã Dorothy é o Anjo da Amazônia. Entrevista especial com Felício Pontes Junior

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30 Janeiro 2009

Ao relembrar sua participação no Fórum Mundial de Teologia e Libertação, realizado em Belém do Pará de 21 a 24 de janeiro últimos, o procurador da República, Felício Pontes Junior, afirma que “causou enorme comoção o depoimento de defensores dos direitos humanos que estão ameaçados de morte no Pará. No total são 204 pessoas. Todos por defenderem os povos da floresta, como índios, quilombolas, seringueiros, ribeirinhos. Eles temem ter o mesmo fim que Irmã Dorothy”. Felício esteve ao lado de Marina Silva e Leonardo Boff no referido debate e, na entrevista que concedeu por e-mail para a IHU On-Line, fala sobre a importância destas duas pessoas em sua vida: “Eu agradeço a Deus simplesmente por Ele ter criado Leonardo Boff e Marina Silva”.

Ao refletir sobre a importância da missionária Dorothy Stang, assassinada a tiros, em 2005, no Pará, o procurador declara: “tudo que ela tentou estabelecer foi o desenvolvimento integral dos povos da floresta. Isso implica também na relação do homem com a natureza. Ela trouxe para a prática a Teologia da Libertação em pleno século XXI, mostrando que ainda é o caminho a ser seguido”.   

Felício Pontes Junior é procurador da República junto ao Ministério Público Federal em Belém com atuação na área indígena, ambiental e ribeirinha, e é mestre em Teoria do Estado e Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual sua avaliação geral do Fórum Mundial de Teologia e Libertação e como vê que estão caminhando as atividades no Fórum Social Mundial? Quais têm sido os temas mais recorrentes?

Felício Pontes Junior - O FMTL foi mais do que um congressamento de religiões. Houve discussões sobre a crise econômica, o aquecimento global e a violação de direitos humanos que devem causar profunda reflexão no modo de agir de teólogos, religiosos, professores e acadêmicos - público do Fórum. Pude perceber um grande interesse desses temas que colocam a Amazônia no centro das discussões. Talvez, por isso, tenha sido tão importante escolher Belém do Pará para sediar o Fórum. Os participantes puderam ter uma experiência única com a realidade da Amazônia e sua grande importância para o planeta.
 
IHU On-Line - Como foi o debate sobre Direitos Humanos no FMTL? Quais os principais entraves discutidos nessa mesa? 

Felício Pontes Junior - Causou enorme comoção o depoimento de defensores dos direitos humanos que estão ameaçados de morte no Pará. No total são 204 pessoas. Todos por defenderem os povos da floresta, como índios, quilombolas, seringueiros, ribeirinhos... Eles temem ter o mesmo fim que Irmã Dorothy. A solidariedade foi tão forte que foi emitida uma Moção de Apoio ao trabalho dessas pessoas. Quando aos entraves, o mais citado foi a passividade de algumas religiões que se omitem na defesa dos direitos básicos do ser humano, o que infelizmente, ainda é uma realidade, sobretudo nos países violadores de direitos humanos.

IHU On-Line - Para o senhor, como tem sido a participação de movimentos sociais e populares no FSM? 

Felício Pontes Junior - Fantástica. Tive a oportunidade de participar de outras edições do FSM e posso testemunhar que a diversidade social continua crescente. Por ser na Amazônia, o Fórum conseguiu congregar o que acho que é o maior encontro de etnias indígenas já ocorrido. As redes de relacionamento que estão sendo estabelecidas levarão a uma aliança mais forte desses povos. Também noto uma presença fortíssima dos jovens. Imagine a cena de trabalhadores rurais dando seu depoimento de violação de direitos, como trabalho escravo, e jovens acadêmicos de todos os continentes assistindo-o. O efeito disso será fantástico na vida desses jovens, o que certamente contribuirá para um novo mundo possível.

IHU On-Line - Qual sua avaliação da mesa com Marina Silva e Leonardo Boff? Qual a importância dessas duas personalidades em relação ao meio ambiente e à fé para o Brasil de hoje?

“Eu agradeço a Deus simplesmente por Ele ter criado Leonardo Boff e Marina Silva”
Felício Pontes Junior - Aqui sou suspeito para falar. São duas pessoas que influenciam diretamente na minha vida. Imagine alguém que trabalha com a missão de garantir os direitos ambientais e dos povos da floresta na Amazônia. Para não desistir diante de tantos obstáculos e amigos mortos somente com muita informação e formação. E esses dois seres humanos atuam em mim, sem saberem, decisivamente, nesses dois aspectos. Foi um presente que organização do Fórum Mundial de Teologia e Libertação me deu e que jamais vou esquecer. Eu agradeço a Deus simplesmente por Ele ter criado Leonardo Boff e Marina Silva.
 
IHU On-Line - Como tem se debatido o caso da Irmã Dorothy em relação à sua luta?

Felício Pontes Junior - Irmã Dorothy é o Anjo da Amazônia. Tudo que ela tentou estabelecer foi o desenvolvimento integral dos povos da floresta. Isso implica também na relação do homem com a natureza. Ela trouxe para a prática a Teologia da Libertação em pleno século XXI, mostrando que ainda é o caminho a ser seguido. Em duas de muitas de suas frases marcantes, ela disse coisas que retratam bem seu pensamento e modo de agir: "Precisamos de muito esforço para salvar o planeta. A Terra não tem mais condição de nos prover. A água e o ar estão poluídos, e o solo está morrendo pelo uso excessivo de produtos químicos. Devemos ajudar as pessoas a restabelecer a relação com a Mãe-Terra, que é carinhosa e amável". "Não vou fugir nem abandonar a luta desses trabalhadores que estão desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor, numa terra onde possam viver e produzir com dignidade, sem devastar."

IHU On-Line - Qual o significado político da prisão de Reginaldo Pereira Galvão, acusado de ser um dos mandantes do assassinato da missionária?  

"A prisão de Reginaldo  Galvão é um marco contra a impunidade"
Felício Pontes Junior - A prisão de Reginaldo Pereira Galvão é um marco contra a impunidade. Ele é um fazendeiro poderoso na região. Sua prisão deve ter o efeito didático de anunciar que nós não vamos desistir enquanto não estiverem condenados todos os grileiros, fazendeiros e madeireiros que exploram os recursos naturais e escravizam o povo da floresta. 
 
IHU On-Line - Pode nos dar um panorama de como anda a questão da violência no Pará, principalmente em relação aos povos indígenas? Quais os principais casos de injustiça que lá ocorrem e o senhor gostaria de destacar?

Felício Pontes Junior - Além da violência dessa elite econômica da Amazônia ocorre também a violência dos projetos governamentais. Por exemplo, o Governo Federal tem previsto construir mais de 50 hidrelétricas na Amazônia. Isso atinge diretamente várias etnias indígenas. O caso de maior perigo no Pará é o de Belo Monte, no Rio Xingu. O Governo propaga que a usina vai gerar 11.000 megawatts, enquanto que os estudos de universidades brasileiras dizem que haverá a produção de mais ou menos 1.600 megawatts apenas. Será uma catástrofe. Três das maiores construtoras deste país fizeram um consórcio e atuam com forte lobby. Uma delas está também entre os grandes doadores da campanha de reeleição do presidente da República.  
 
IHU On-Line - Qual a relação que podemos estabelecer entre os assassinatos e massacres no Pará e a destruição da floresta amazônica, considerando que ocorrem na mesma área geográfica?

"Quando se combate a destruição da floresta também se está combatendo a violência na Amazônia"
Felício Pontes Junior - Toda. Um estudo de uma ONG de pesquisa da Amazônia chamada IMAZON mostrou que o mapa da destruição ambiental coincide com o mapa da Comissão Pastoral da Terra (CPT) sobre os assassinatos e sobre o trabalho escravo na Amazônia. Portanto, quando se combate a destruição da floresta também se está combatendo a violência na Amazônia.

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