Que tipo de tecnologia queremos? Entrevista especial com Oona Castro

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18 Janeiro 2009

Depois de três anos, volta ao Brasil o Fórum Social Mundial, que em 2009 acontece em Belém, no Pará, a partir do dia 27 de janeiro. Dentro da programação, está previsto o I Fórum Mundial de Mídia Livre. O movimento, que começou no início do ano passado, pretende agora discutir novas formas de comunicação e fortalecer a luta por “uma outra comunicação”. Lá, serão discutidos temas como a relação da mídia e da crise, a ampliação do midialivrismo e a comunicação compartilhada.

A IHU On-Line entrevistou, por telefone, Oona Castro, líder de Projetos do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV-RJ, que participou de diversos debates acerca da Mídia Livre. Conosco, ela conversou sobre as possibilidades que as novas tecnologias nos proporcionam, sobre mídia colaborativa, sobre a atuação do Google e os serviços que a empresa oferece e, ainda, sobre sua opinião em torno das políticas públicas que estão se desenvolvendo em relação à atuação da sociedade na rede. “As pessoas ainda têm uma relação muito passiva com os desenvolvimentos das tecnologias; ainda há uma postura pouco ativa no sentido de falar: ‘Que tipo de tecnologia eu quero?’. A discussão técnica e de tecnologia ainda é muito restrita a especialistas”, comentou ela.

Oona Castro é jornalista, pela Faculdade Cásper-Líbero, membro fundadora do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social e também líder de Projetos do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV-RJ e coordenadora executiva do Instituto Overmundo. Junto com Ronaldo Lemos, escreveu Tecnobrega: o Pará reinventando o negócio da música (Rio de Janeiro: Aeroplano, 2008).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são suas expectativas frente ao surgimento de novas tecnologias e formas de se produzir conteúdo a partir de ferramentas de criação livres e colaborativas?

Oona Castro – Há uma tendência a investir cada vez mais em internet móvel. Parece-me, por exemplo, que as opções que garantem mais interatividade são as que têm crescido mais. A TV digital foi um fracasso, porque não trouxe inovação; simplesmente fizeram uma TV com qualidade melhor, de alta definição, mas a qual praticamente não se percebe a olho nu. Em contrapartida, o celular cresce absurdamente, tanto do ponto de vista de mercado de consumo quanto do ponto de vista de desenvolvimento ao apresentar novas ferramentas que possibilitam interatividade, além da ferramenta twitter [1] que possibilita a produção espontânea de conteúdo via celular com efeitos de relacionamento e miniblogs etc. 

IHU On-Line – Você disse, certa vez, que hoje as mídias vêm prontas para nós. A sociedade está preparada para romper esse controle e passar a compreender a mídia de forma colaborativa? Que colaboração é essa?

Oona Castro – A sociedade está preparadíssima, sim. Quando digo isso, não quero fazer julgamento de valores de substituição do papel do jornalista pela população. Estou apenas afirmando que o outro tem a ânsia de colaborar, produzir conteúdo e compartilhar. O que não tínhamos até então era o canal, e, quando ele aparece, as pessoas ocupam esse espaço. Se há 20 anos pensássemos se teria demanda para isso, diríamos que não. Mas, no momento em que se cria um canal, gera-se a demanda por colaboração. Aí me parece que as pessoas produzem conteúdos ao seu jeito. No entanto, o mais interessante é a diversidade que isso cria na rede. Então, não há necessidade de avaliar a qualidade desse ou daquele produtor de conteúdo, pois existe um conjunto diverso de produção de conteúdo. Hoje, esse modelo de produção de conteúdo é bastante direcionado para distintos nichos; uma pessoa pode gostar de um assunto e outra não. Isso é positivo, porque existe mercado para todos, e a rede propicia essa diversidade.

Por outro lado, percebo que as pessoas ainda têm uma relação muito passiva com os desenvolvimentos das tecnologias; ainda há uma postura pouco ativa no sentido de falar: “Que tipo de tecnologia eu quero?”. A discussão técnica e de tecnologia ainda é muito restrita a especialistas. Então, essa intimidade com a tecnologia e a postura mais ativa na demanda do que se quer como tecnologia ainda pode aumentar muito.

IHU On-Line – Temos hoje o Google como uma empresa que oferece serviços na internet de forma gratuita e mais acessíveis que antes só podiam ser usados por quem podia pagar por um software e ainda compreendia a técnica e a linguagem daquele produto. Mas isso tem rendido à empresa críticas em relação ao monopólio que ela está criando na rede. Em casos como esse, para você, é o sujeito que manipula o meio ou as condições do meio é que manipulam o sujeito?

Oona Castro – Eu não faria nenhuma das duas afirmações de manipulação tão totalizante. Mas o Google criou e ao mesmo tempo “surfou na onda” de uma tendência atual. Não me parece que o eixo principal, hoje, da indústria de produção de conteúdo seja o direito autoral; ela precisa agregar serviços ao que ela faz, e não vendendo conteúdos propriamente. O Google soube “surfar muito bem essa onda” e conseguiu evidentemente a liderança e sem uma tendência de monopólio, mas talvez de oligopólio, nesse cenário.

Temos de criar novos espaços de pesquisa e desenvolvimento para desenvolver softwares livres no campo de serviço via web, gratuitos, e criar alternativas para o uso daquelas ferramentas. Não acredito, no entanto, que isso gere um combate direto de enfrentamento a nenhuma grande empresa. Pelo contrário, penso na capacidade das pessoas se recriarem e se desenvolverem de maneira colaborativa na web. É claro que a questão financeira conta muito. Por isso, as universidades, o governo e as instituições de interesse público precisam investir no desenvolvimento de software livre, de tecnologia. Esses investimentos não devem ser feitos para competir com outros grupos, mas para gerar conhecimento público, um acúmulo de tecnologias públicas, sem o desejo de fortalecer uma única empresa. O Google é um business que faz parte desse processo; mas questiono: “Queremos que o Google seja a nossa única alternativa?”. Não, não queremos.

IHU On-Line – Como você analisa as políticas que estão sendo criadas em torno do acesso ao que é oferecido pelas tecnologias digitais?

Oona Castro – No campo de políticas públicas, me parece que temos um crescimento forte políticas de acesso nos centros públicos de acesso. Ao mesmo tempo, temos um problema e um gargalo na questão da infraestrutura da banda larga. Hoje existiria a possibilidade de criar uma rede de infraestrutura muito maior. Em muitos municípios, não é possível acessar a internet banda larga, e isso cria uma desigualdade de acesso muito cruel. Também não há um projeto de barateamento radical da banda larga. Então, ela é ainda um gargalo para o desenvolvimento e para o acesso de todas as camadas da população. Paralelamente, temos projetos de lei que criam uma relação criminal antes de estabelecer direitos para o usuário da internet, ou seja, estabelecemos crimes e não os direitos.

Todos nós seremos potencialmente criminosos porque as práticas colocadas nesses projetos de lei, dependendo da maneira como forem interpretadas. São práticas muito comuns, estão em pleno acordo com o desenvolvimento e as possibilidades das tecnologias. No entanto, querem impedir o uso dessas tecnologias por meio de uma lei. Acontece que a tecnologia não é algo em si, ela é vai sempre estar a serviço de alguma coisa que, em geral, já é da população. Hoje, as lan houses são o principal local de acesso, ou seja, quem conseguiu gerar o acesso à internet em qualquer lugar da cidade, inclusive nas favelas, foram as lan houses e não apenas o Poder Público e as Ongs. Então, vemos que a iniciativa local de pequenos mercados têm sido fundamental para garantir esse acesso. Então, existem políticas de iniciativa ao acesso, mas não uma política de infraestrutura. Entendemos que para essa política de infraestrutura pouco importa se for uma casinha no meio da favela, desde que a pessoa tenha acesso de qualidade, através de uma conexão de banda larga.

IHU On-Line – Em sua opinião, que cultura digital está se originando no Brasil?

Oona Castro – Olha, o Brasil é um país engraçado, porque no campo da arte e da cultura é bastante criativo. Eu acho que as primeiras pessoas que ocuparam a rede foram essas pessoas, por isso a cultura digital foi baseada na diversão, na festa. Tanto é que o Orkut [2] foi lançado no início de 2004 e, em abril do mesmo ano, a rede estava lotada de brasileiros. Os estadunidenses diziam que os brasileiros estavam invadindo o Orkut, houve até uma rejeição por causa do aumento deles nessa rede de relacionamento. É impressionante como o brasileiro tem essa tendência a querer se relacionar, cultivar espaços de conversas, compartilhar produções artísticas e culturais. Parece-me que a cultura digital no Brasil é ainda pouco ativista. Fora do Brasil, há iniciativas muito mais interessantes de ativismo e articulação na rede. Acho que isso reflete uma falta de capacidade de mobilização, que já se manifestava fora da rede, e, ao mesmo tempo, uma vocação muito grande para diversão em ambientes sociais. A cultura digital é isso: a expressão da cultura brasileira na rede. Ela se manifesta mais ou menos pela vocação que existe fora da rede. Eu gostaria muito de conhecer outras experiências, como, por exemplo, sobre transparência. Parecem ser muito tímidos os movimentos na rede que exigem transparência de governos e organizações sem fins lucrativos, de ativismos que articulam movimentações entre poderes e sociedade na rede. Isso me parece ainda muito aquém e é uma deficiência que teremos que trabalhar culturalmente.

IHU On-Line - A Web 2.0 permite que a circulação de informações pela internet possa ser ampliada, assim como permite também que os sujeitos que antes apenas recebiam as mensagens possam ser também produtores de notícias. Como a senhora analisa a questão da identidade das minorias que também se apropriam da rede e de suas possibilidades?

Oona Castro – Não é só a rede; é também a rede. As pessoas usam justamente mais pela rede do que pela tecnologia disponível. Na cena do Tecnobrega, em Belém do Pará, é muito comum vermos artistas com estúdios caseiros que colocam suas músicas na internet, aos poucos, distribuem para os DJs e aparelhagens... essas músicas são “baixadas”, e, assim, distribuídas, pela rede de comércio informal (camelôs, por exemplo). Isso só foi possível porque em plena periferia de Belém havia o acesso à produção de conteúdo. Isso gerou, consequentemente, o acesso das pessoas à cultura produzida devido ao barateamento do custo de um cd, acesso gratuitamente na internet, liberdade para não depender de gravadoras. Milton Santos [3] falava que a mudança se daria quando as periferias conseguissem se apropriar das novas tecnologias e também dos elementos de participação no mundo globalizado. Para ele, essa diversidade e esse espaço produzido pela periferia que iria diminuir as desigualdades. Hoje, até moradores de rua, ligados a movimentos, têm blog. É importante que cada vez mais as pessoas, das mais diversas camadas sociais, se apropriem desses meios e participem desse processo direto e desintermediado de relação.

Notas:

[1] Twitter é uma rede social e servidor para microblogging que permite que os usuários enviem atualizações pessoais contendo apenas texto em menos de 140 caracteres via SMS, mensageiro instantâneo, e-mail, site oficial ou programa especializado. Foi fundado em março de 2006 pela Obvious Corp., em São Francisco, nos Estados Unidos.

[2] O Orkut é uma rede social filiada ao Google, criada em 19 de Janeiro de 2004 com o objetivo de ajudar seus membros a criar novas amizades e manter relacionamentos. Tais sistemas também são chamados de rede social. O alvo inicial do orkut era os Estados Unidos, mas a maioria dos usuários são do Brasil e da Índia. No Brasil é a rede social com maior participação de brasileiros, com mais de 23 milhões de usuários.

[3] Milton Almeida dos Santos foi advogado e um dos pensadores expoentes da geografia brasileira após a década de 1970.

 

 

 

 Para ler mais:

» Google: nossas vidas como base para construção de um monopólio na web. Entrevista especial com André Fleury

» 1º Fórum de Mídia Livre: avaliação e efetivação de propostas. Entrevista especial com Ivana Bentes

» Por uma mídia livre, mas de qualidade. Entrevista especial com Ermanno Allegri

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