Ecossocialismo e Teologia da Libertação. Entrevista especial com Luci Faria Pinheiro

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16 Janeiro 2009

Nos debates do III Fórum Mundial de Teologia e Libertação, as temáticas não se centram apenas nos aspectos teológicos de um “outro mundo possível”, mas também nas “ações de justiça e paz” que podem ser construídas, como indica a sua Carta de Princípios.

Nesse sentido, a assistente social Luci Faria Pinheiro, da Universidade Federal Fluminense (UFF), irá contribuir nos debates do Fórum por meio de seus estudos sobre as estratégias dos movimentos sociais frente à conjuntura neoliberal. E debruça-se especialmente sobre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Cristianismo da Libertação, como ela o chama, marcado, no Brasil, pelo Movimento Nacional de Fé e Política. O Movimento, nos anos 90, estabelece-se como uma estratégia de intelectuais militantes da Teologia da Libertação que procuram alternativas de renovação da igreja e da sociedade. Segundo a doutora em Antropologia e Sociologia Política pela Université Paris 8, nesse processo de organização, iniciado ainda nos anos 60, têm participação ativa a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o Conselho Episcopal Latino-americano (Celam), os movimentos de juventude, assim como as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Nesta entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, Luci destaca que, mesmo não sendo teóloga, admira a Teologia da Libertação e tenta conhecer suas formas de ação na realidade, contribuindo a partir da perspectiva do Serviço Social e do estudo dos movimentos sociais e cristãos no Brasil. E, dentro da temática do Fórum, "Água, terra, teologia para outro mundo possível", Luci sugere o termo "ecossocialismo", uma tentativa de relacionar, segundo ela, “os problemas de nosso tempo com as preocupações mais humanas de Marx, aprofundando um e outro e oferecendo subsídios ao debate da maioria contra o reino da minoria”.

Assistente social, Luci Faria Pinheiro possui mestrado em Extensão Rural. pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). e doutorado em Antropologia e Sociologia Política. pela Université Paris 8, sob a orientação de Michael Löwy. É professora da Escola de Serviço Social da Universidade Federal Fluminense (ESS-UFF), onde coordena a Rede Interinstitucional de Pesquisadores em Política Social, Movimentos Sociais e Democracia na América Latina e Caribe.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Nos últimos anos, vê-se um despertar de movimentos sociais em torno da questão ecológica. Quais são os principais desafios e possibilidades que o debate ecológico lhes apresenta?

Luci Faria Pinheiro – É preciso democratizar ou politizar o debate ecológico. Para que as classes populares preocupem-se com a preservação da natureza enquanto extensão da vida humana, é necessário que tenham acesso aos bens básicos de sobrevivência. Por isso, ou a questão ambiental é vista como questão social, expropriação da riqueza natural e produzida, ou é defendida de forma a não alterar as relações sociais de desigualdade das quais se alimenta o capitalismo. Os movimentos sociais devem ter seu próprio debate, pois o que está em jogo não os favorece. O grande desafio é criar significados próprios, e os mais universais possíveis, para que a questão ecológica sirva de objeto de consciência e politização dos excluídos, para que um processo de emancipação social se consolide.

IHU On-Line – Em que a atuação dos movimentos sociais serve de base para os estudos teológicos? Quais deveriam ser os traços de um paradigma teológico que assuma o compromisso social com a causa ecológica?

Luci Faria Pinheiro – Não sou teóloga, mas admiro a Teologia da Libertação e venho tentando conhecer suas formas de ação na realidade. Nesse sentido, os movimentos sociais seriam uma construção social, e a teologia, uma concepção que dela se alimenta e a informa dialeticamente. A teologia e os movimentos sociais se complementam, mantendo uma autonomia, cujas articulações se dão mais no campo das afinidades éticas e políticas, em que o religioso ajuda a firmar convicções e jamais a apontar os caminhos. Um paradigma é sempre um modelo, e isso não combina com a Teologia da Libertação. Em todo caso, é necessário aprofundar teorias que apostam nas potencialidades do homem como sujeito histórico e possam oferecer explicações sobre a complexidade da realidade em seus mais aparentes e simples aspectos. O capitalismo trata de tornar simples o complexo; a causa ecológica, em algo puramente estético, uma escolha individual, colocando-nos o desafio e compromisso de ver o avesso da realidade.

IHU On-Line – Como se poderia definir, conforme a senhora sugere, uma “perspectiva ecossocialista”, que abrange as dimensões sociais da questão ambiental? Quais são suas expressões concretas?

Luci Faria Pinheiro – Para mim, a questão ambiental é social ou é individual. No entanto, para entender a diferença, é necessário ter um ponto de partida, e este não pode ser a perspectiva liberal, que, ao atribuir direitos de propriedade ao indivíduo, torna a ponta de lança da destruição da natureza e atribui a responsabilidade à sociedade. Não se pode exigir que o Estado seja neoliberal e ao mesmo tempo social. Portanto, o projeto do capitalismo na atualidade serve para nos mostrar isso e para provocar os movimentos sociais a colocar na ordem do dia o socialismo. Somente estes podem dar solidez ao projeto de uma nova sociedade e de um Estado que defenda seus interesses. Para mim, o ecossocialismo é uma tentativa de relacionar os problemas de nosso tempo com as preocupações mais humanas de Marx, aprofundando um e outro e oferecendo subsídios ao debate da maioria contra o reino da minoria.

IHU On-Line – A luta social vai sofrendo mudanças ao longo do tempo, de acordo com os paradigmas sociais. Quais movimentos ou lutas sociais foram perdendo importância histórica na América Latina nos últimos anos e quais encontraram um momento propício para o seu fortalecimento? Que fatores colaboraram para isso?

Luci Faria Pinheiro – A pergunta é prova de que há um desvio de interpretação da realidade no paradigma dominante. Ou as concepções de mundo nascem do próprio e o ajudam a se transformar, ou nascem de elucubrações sem nexo com a realidade e o ajudam a reproduzir as desigualdades sociais. Perderam força aqueles movimentos que se deixaram levar pelo paradigma dominante e se contentaram com migalhas e a falsa hipocrisia da classe dominante, incluindo o Estado. Talvez um exemplo negativo seja o do sindicalismo e dos partidos, e um positivo seja o do MST. Os fatores que colaboraram para isso foram a própria realidade forjada pelo capitalismo em nossa região: fases cíclicas, em que a reforma agrária sempre foi questão aos que lutam pela terra e sabem o valor da natureza na defesa do bem comum. A perpetuação de um modelo excludente, acentuado hoje pelos agronegócios – uma “coletivização” capitalista dos meios de produção –, acirrou as lutas campesinas e levaram os movimentos sociais a estudar meios criativos de sobrevivência da luta, a exemplo de uma formação militante, associando estratégias de enfrentamento das necessidades cotidianas, como a produção agroecológica, e uma “espiritualidade” própria que potencialize as forças internas para uma longa luta por um novo projeto de sociedade.

IHU On-Line – Ao longo da trajetória do MST, por exemplo, quais são os pontos de maior autocrítica, tanto em termos filosóficos como práticos, e aqueles mais norteadores e basilares, que não foram e não serão abandonados?

Luci Faria Pinheiro – Não sei responder exatamente, pois não sou militante do movimento e não o tenho abordado com detalhe. Penso que a autocrítica é sempre determinada pela conjuntura e pelas derrotas, portanto são sempre muito importantes na redefinição de metas e estratégias. A solidão deixada pelas polêmicas no PT [Partido dos Trabalhadores] desde o final dos anos 80, a ênfase na questão da terra quando o partido se concentrava sobre os problemas urbano-industriais ou operários, acredito terem causado um vácuo no MST. Por outro lado, os cristãos e parte da Igreja ajudaram-no muito nessa autocrítica e na construção mais sólida de uma solidariedade interna. O enfoque sobre a América Latina é um ganho importante na consciência alcançada, e nisso a convergência dos cristãos e sua tradição libertadora no continente têm certamente contribuído.

IHU On-Line – Na América Latina, no atual “giro à esquerda”, a relação entre os discursos e as práticas da grande maioria dos governos, assim como o balanço entre continuidades e rupturas, trazem não poucas dificuldades na hora da análise e do posicionamento. Como os movimentos sociais, em especial o MST no Brasil, estão enfrentando essas realidades?

Luci Faria Pinheiro – Creio que com hesitação, modéstia e atenção. Afinal, não temos muita tradição de integração, mas de disputas, inclusive porque alguns países têm como aliados os Estados Unidos, em cujas estratégias políticas e econômicas sempre esteve presente uma desintegração dos latino-americanos. Há euforias e há hesitações em relação às tentativas de integração pela via política. As esquerdas não são mais as mesmas, e, sem partidos revolucionários que auxiliem no debate, não há mágica. É preciso descobrir os caminhos, aprendendo com outros movimentos, promovendo o debate e integrando-se com os movimentos urbanos. Acho que é o que está fazendo o MST. Pelo lado econômico, a integração forçosamente se realiza, porém logo se esgotam as esperanças em virtude do modelo hegemônico que se impõe no mundo. O Brasil é o gigante da economia na região, e sua política interferirá sobremaneira nos demais países do continente, e nessa economia há um protagonismo do mercado financeiro e dos agronegócios. Ao contrário dos movimentos sociais, que podem fazer as parcerias certas. Afinal não é difícil identificar as forças favoráveis a um novo projeto de sociedade e contrárias ao atual modelo.

IHU On-Line – É do senso comum afirmar que o MST nasceu “dentro da Igreja”. Qual foi papel da Teologia da Libertação nesse contexto? Como a Igreja se posiciona hoje frente às lutas do MST?

Luci Faria Pinheiro – Com razão, pois a conjuntura não permitia que nascesse noutro lugar e nem que tal teologia se desenvolvesse livremente. Os conflitos de terra e as atrocidades causadas aos trabalhadores sem terra tinham a cumplicidade do Estado, e desse nível de violência a Igreja não podia ser cúmplice. Hoje, a Comissão Pastoral da Terra continua tendo um papel crucial no estudo dos conflitos que persistem, posicionando-se claramente, enquanto a hierarquia, nem tanto. Mas, se isso tem a ver com paternidade, eu diria que a militância de setores da Igreja pelas causas do MST dá vida à própria Teologia da Libertação. Acho que é uma questão de sobrevivência em ambos os movimentos, essas afinidades historicamente cultivadas. Como refere Löwy [1], é da periferia que nasce a Teologia da Libertação, e não do centro.

IHU On-Line – Pode-se dizer que, da experiência latino-americana, estejam surgindo novos elementos para a construção de um socialismo diferente ao do século XX? Quais são esses elementos e o que trazem de novo?

Luci Faria Pinheiro – Talvez o que haja de novo é a crise do pensamento socialista. Por isso, não podemos fazer fantasias com a realidade. As experiências são ainda incipientes. É preciso construir unidade, radicalidade e recuperar o pensamento marxista; construir uma nova perspectiva de partido político diferente dos americanos, que defenda radicalmente os interesses dos trabalhadores, incorporando o debate sobre a questão ambiental de forma mais radical e dialética, a partir das contradições: ou seja, o emprego e o salário, que são recursos imediatos, e os recursos naturais, que estão na base do modelo de construção e autodestruição da sociedade capitalista.

IHU On-Line – Pode esboçar alguns pontos principais que vão ser debatidos no Fórum, especialmente na conferência que a senhora vai apresentar?

Luci Faria Pinheiro – Meu objetivo no III Fórum Mundial de Teologia e Libertação é – além de descobrir o que será, pois cada um é diferente do outro – também apresentar as ideias que venho associando, de modo a debater com os participantes de diferentes países sobre como se dá a organização dos movimentos sociais e cristãos e partidos de esquerda em suas regiões, observando as formas como são atingidos e reagem aos impulsos do capitalismo e à mais grave crise econômica que este vem forjando.

Notas:

1. Michael Löwy (São Paulo, 06 de maio de 1938) é um cientista social brasileiro, radicado há quatro décadas na França. Leciona na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, da Universidade de Paris. É um relevante estudioso do marxismo, com pesquisas sobre as obras de Karl Marx, Leon Trótski, Rosa Luxemburgo, Georg Lukács, Lucien Goldmann e Walter Benjamin. Entre suas obras estão "O marxismo na América Latina: Uma antologia de 1909 aos dias atuais" (Perseu Abramo, 2006) e "Ecologia e socialismo" (Cortez, 2005). [voltar ao texto]

(Reportagem de Moisés Sbardelotto)

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