"A crise da esquerda tem raízes na própria esquerda". Entrevista especial com Paulo Passarinho

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12 Janeiro 2009

“Se olharmos o movimento de esquerda sob o ponto de vista europeu, não restam dúvidas de que não somente entramos numa profunda crise, como nos mantemos em torno dela”, diz o economista Paulo Passarinho, refletindo sobre um ponto de vista da crise da esquerda. Para ele, a América Latina deve se desligar da realidade europeia e construir um modelo de esquerda compatível com o desejo e os problemas do continente. Otimista, o âncora do programa Faixa Livre, transmitido de segunda a sexta, de 8h às 10h, na Rádio Bandeirantes (AM 1360), diz que esse é um processo lento, mas que começa a ganhar pequenas definições entre os vizinhos latino-americanos. Ele lembra que há, na América Latina, “uma aproximação muito forte de correntes de esquerda junto a movimentos de libertação nacional”, como ocorreu anteriormente na Revolução Cubana, com o movimento 26 de julho, e com os revolucionários nicaraguenses, inspirados pelo líder Augusto César Sandino.

A força dos movimentos de renovação nacional presente na Bolívia, Equador e Venezuela e “as experiências que estão em curso na América do Sul são um embrião de mudanças muito importante, o qual pode representar diversos avanços no continente”, assegura. Para a esquerda, acrescenta, “essas experiências podem representar de fato uma perspectiva de mudança”. E aconselha: “Precisamos resgatar o movimento nacionalista e revolucionário que aponta claramente para o desafio, para a construção do socialismo, mesmo em meio às crises que vivemos”.

Em conversa por telefone com a equipe da IHU On-Line na última semana, o admirador de Karl Marx disse que a turbulência capitalista na esfera global também abre novas possibilidades para a esquerda, e explica: “Caso a esquerda tenha a humildade de reconhecer seus erros na América Latina e haja acuidade com o momento histórico que se abre, teremos novas oportunidades de construir fortes movimentos políticos com capacidade de produzir mudanças estruturais em nossos países, com o fortalecimento da democracia participativa popular, da soberania nacional e do combate às desigualdades sociais e econômicas.”

À esquerda brasileira que não aderiu ao social liberalismo – como define a prática do atual governo –, “caberá aprofundar uma revisão critica de suas linhas estratégicas, principalmente a luz desses movimentos nacionalistas revolucionários que estão em curso no nosso continente, e que me parecem, são hoje, a principal referência para que possamos, nos termos da política, buscar novos caminhos”.

Formado em Economia, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com especialização em Políticas Públicas, Paulo Passarinho foi coordenador geral do Sindicato dos Economistas do Rio de Janeiro (Sindecon), e atualmente é presidente do Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro.

Confira a seguir a entrevista.

IHU On-Line – A que o senhor atribui a crise da esquerda hoje?

Paulo Passarinho – O movimento da esquerda mundial sempre foi fortemente marcado pela presença, força e uma predominância cultural do pensamento europeu em torno dos caminhos do socialismo. Isso evidentemente teve fortes impactos. Até hoje, na América do Sul, a chamada esquerda bolchevique ou que se identifica com a visão tática de Lênin – uma visão do início do século XX e apropriada à realidade russa – tem muito mais impacto na nossa esquerda do que propriamente a ideia de pensadores de esquerda do continente. Ocorre que essa esquerda, até por força do colapso da Rússia e da União Soviética, entrou numa crise muito forte. Anteriormente, já haviam ocorrido fortes divergências nesse movimento comunista europeu e asiático. Posso citar, por exemplo, o rompimento do maoísmo com a Rússia, os problemas no interior dos partidos comunistas por ocasião do sufocamento da Revolução Húngara, e posteriormente da chamada Primavera de Praga; e, especialmente, nos anos 80, muitas dissensões em decorrência do processo de degradação da União Soviética.

Se olharmos o movimento de esquerda sob o ponto de vista europeu e desses paradigmas, não restam dúvidas de que não somente entramos numa profunda crise, como nos mantemos em torno dela. Ocorre que existe, na América do Sul, nos últimos anos, uma aproximação muito forte, novamente, entre correntes de esquerda e  movimentos de libertação nacional. Isso não é recente; se observarmos a trajetória da Revolução Cubana, iremos perceber que o movimento 26 de julho, se auto-rotulava como nacionalista e fiel às ideias de José Martí. Por outro lado, os revolucionários nicaraguenses buscavam sua inspiração de luta pela independência a partir do legado de Augusto César Sandino. Ou seja, nesse momento em que existe uma força muito grande de movimentos de renovação nacional em países como Bolívia, Equador e Venezuela, observamos novamente essa comunhão de interesses entre uma perspectiva nacionalista e uma ideia que procura se fundar e se inspirar pela esquerda. Esse é um casamento muito interessante, porque introduz uma ideia diferenciada em relação ao nacionalismo conforme é identificado na Europa. Muito vindulados com movimentos da própria disputa intercapitalista, com uma visão claramente de direita, os movimentos nacionalistas europeus sempre foram confundidos com a xenofobia nacionalista, ao passo que na América do Sul os movimentos nacionalistas mais autênticos procuraram sempre um caminho pela esquerda, e talvez esse ainda seja o modo mais apropriado.

Hoje, quero lembrar que as principais forças políticas que erguem bandeiras e estratégia de luta contra o imperialismo e a hegemonia americana, ou se situam na América Latina, em torno desse movimento do nacionalismo revolucionário, ou se situam no mundo árabe, em torno da questão palestina ou da defesa do islamismo. Fora disso, não observarmos movimentos de esquerda relevantes questionando a hegemonia americana. Nesse momento em que o mundo assiste a mais uma ofensiva do Estado de Israel contra os palestinos, é notório, por exemplo, o silêncio da China em relação às discussões no âmbito da ONU que vê desrespeitada suas resoluções por parte de Israel.

IHU On-Line – Quais os desafios da esquerda na América Latina?

Paulo Passarinho – A esquerda latino-americana também foi fortemente marcada pela experiência europeia. Na medida em que essa experiência não demonstra fôlego, naturalmente ocorrer a necessidade de uma reflexão dos marxistas. Ou seja, devemos observar e analisar objetivamente as contradições da nossa própria realidade. Existe a rigor uma tentativa de simplificar o trabalho teórico no âmbito da esquerda com a importação de teorias de outros países e momentos históricos. Essencialmente, está se abrindo, inclusive por força da crise do comunismo internacional, uma oportunidade histórica impar dos marxistas brasileiros terem mais cuidado na análise objetiva da nossa realidade, questionando alguns conceitos que foram trabalhados pela esquerda europeia, e que não fazem sentido se aplicados na América Latina. Procurar compreender o papel da luta de libertação nacional contra o império numa perspectiva de esquerda é um desafio que está colocado para a esquerda marxista brasileira. Assim, é preciso respeitar a realidade brasileira e estabelecer táticas que sejam coerentes com as contradições de classe colocadas em nosso continente.

IHU On-Line – Qual é a atualidade e a pertinência do pensamento marxista nesse sentido? Os ensinamentos de Marx podem ajudar a pensar um novo projeto de esquerda?

Paulo Passarinho – A principal contribuição de Marx se deu no seu esforço de dissecar os mecanismos de acumulação de capital. Ao decifrar como se dá esse processo de acumulação do capital, ele apontou as crises cíclicas e estruturais do capitalismo. Ou seja, mostrou que o próprio movimento de valorização de capitais enseja uma crise em relação à qual a esquerda tem não só a necessidade como o dever de estabelecer estratégias políticas que busquem a sua própria superação, não dentro dos marcos do processo capitalista, mas dentro de novos parâmetros. Assim, a atualidade de Marx encontra-se nessa capacidade de entender o processo de acumulação do capitalismo, apontar suas contradições e provocar a busca de soluções.

Há quem reconheça a atualidade de Marx, mas com a ideia de salvar o capitalismo ao invés de superá-lo. Aos marxistas, caberia a influência no estabelecimento de estratégias de luta política que levassem em conta a perspectiva de superação do capitalismo, contribuindo para que essa visão política venha ser vitoriosa nos nossos países. Devemos apenas ter em Marx o nosso maior professor no sentido de nos informar e ensinar a profunda tendência às crises que o próprio funcionamento do sistema capitalista provoca.

IHU On-Line – É possível estabelecer relações entre a crise econômica internacional e a crise da esquerda? A crise econômica representa também a crise da esquerda?

Paulo Passarinho – Prefiro estabelecer outra relação, entre a crise da hegemonia do neoliberalismo e a esquerda. A crise da esquerda tem raízes na própria esquerda. Tanto é que, desde os anos 50, observamos fortes dissensões no mundo comunista. Mas diria que a hegemonia do neoliberalismo, a partir dos anos 80, é que levou a esquerda a uma crise sem precedentes. A emergência da atual crise global capitalista abre novas possibilidades para a esquerda. Observa-se que, junto a Keynes, outro autor muito lembrado nesse momento é o próprio Karl Marx. Então, não tenho dúvidas de que, caso a esquerda tenha a humildade de reconhecer seus erros na América Latina e haja acuidade com o momento histórico que se abre, teremos novas oportunidades de construir fortes movimentos políticos com uma influência marxista clara, buscando uma nova situação que, infelizmente foi superada nos últimos anos.

IHU On-Line - Qual o papel da esquerda num momento de crise como esse que se configura no cenário global? Como na década de 30, a esquerda pode representar esperança de mudança?

Paulo Passarinho – Somente ela pode representar de fato uma perspectiva de mudança. Mas estabeleço uma diferença entre os movimentos que estão em curso em alguns países da América do Sul e o movimento particularmente representado pela revolução de 30, tendo Getulio Vargas como principal liderança. Isso não quer dizer que eu não estabeleça similitudes entre o momento histórico de países como a Bolívia com o Brasil de 1930. Sob o ponto de vista do desafio da industrialização, talvez a Bolívia, a Venezuela e o Equador realmente encontrem pontos em comum com o momento histórico que atravessávamos naquele período.

Sob o ponto de vista político, contudo, Getulio representava uma aliança muito heterogêneo, onde ele agregava também movimentos com franca simpatia pelo nazifascismo. A própria forma como ele enfrentou a luta política contra os comunistas no Brasil, nos anos 30, também denota essa diferença.

Daquela época, precisamos resgatar o melhor do movimento nacionalista e revolucionário, que já apontava para o desafio da construção de caminhos desvinculados dos centros financeiros do imperialismo. Resgatar essa referencia representa não somente uma esperança, mas um caminho objetivo em torno do qual as forças políticas de esquerda deveriam olhar com mais carinho e interesse. Não tenho dúvida de que as experiências que estão em curso na América do Sul são um embrião de mudanças muito importantes, o qual pode representar diversos avanços no continente.

IHU On-Line – Como fez a Bolívia, outros países da América Latina também deveriam aderir a uma nova Constituição, por exemplo, apresentando um caráter renovador?

Paulo Passarinho – Seria interessante, mas quero lembrar que a ordem constitucional sempre vai refletir o atual estágio da luta de classe em cada país. Não se pode pensar em constituições nacionalistas, revolucionárias se não houver um nível de lutas de classe que sustente as bandeiras, as reivindicações e os princípios que poderiam caracterizar uma constituição como nacionalista e revolucionária.

IHU On-Line – Mas esse é o caminho?

Paulo Passarinho – Essa seria uma consequência natural de processos políticos consistentes numa perspectiva de fato libertaria para nossos povos. Ou seja, a bandeira das constituintes revolucionária é muito mais o resultado de uma luta política bem conduzida do que propriamente um meio para revolucionar os nossos países.

IHU On-Line – Nesse sentido, qual é o desafio para esquerda brasileira?

Paulo Passarinho – À esquerda que não aderiu ao social liberalismo, caberá aprofundar uma revisão crítica de suas linhas estratégicas, principalmente a luz desses movimentos nacionalistas revolucionários que estão em curso no nosso continente, e que me parecem são hoje a principal referência para que possamos, no contexto da política, buscar novos caminhos.

IHU On-Line – Em que medida a esquerda pode criar um processo profundo de mudanças em sua estrutura política, econômica e social?

Paulo Passarinho – Desde de que reveja boa parte de seus princípios, restabeleça novas estratégias e, acima de tudo, tenha condições de fazer com que suas políticas sejam transformadas em políticas de massas, abraçadas pela população.

IHU On-Line – O movimento ecológico pode ser um impulso nesse sentido, uma prioridade para a nova esquerda?

Paulo Passarinho – O movimento ecológico introduz questões importantes, sobre as quais essa esquerda que busca uma renovação deve refletir. Mas não vejo no movimento ecológico uma corrente ideológica com capacidade de construir um projeto global. Entretanto, acredito que os movimentos ecológicos possam influenciar um projeto global de um marxismo renovado, o qual os nossos povos têm condições de construírem.

IHU On-Line – O Fórum Social Mundial que acontece em Belém do Pará, no final do mês, pode sugerir alternativas para a esquerda brasileira?

Paulo Passarinho – Não diria que ele possa sugerir uma alternativa, até porque essas terão que ser construídas dentro do Brasil, principalmente em torno das discussões políticas sobre as ações dos movimentos sociais e de entidades relacionadas à luta popular. O debate do Fórum Social Mundial pode influenciar essa tomada de posição que me parece urgente no país, no sentido de um reposicionamento dessa esquerda que, de forma majoritária, encontra-se vinculada ao governo Lula. Do ponto de vista da transformação social, de ampliar o espaço de democracia direta da população, de buscar uma inserção soberana da economia brasileira no mundo da globalização e no intuito de termos políticas estruturantes de combate a miséria e a desigualdade, seriam necessários outros caminhos. Nesse sentido, espero que o Fórum Social Mundial sirva para influenciar novas medidas, mas a tomada de posição é responsabilidade dos próprios movimentos sociais brasileiros.

>> Confira outras entrevistas concedidas por Passarinho à IHU On-Line.

Os limites do PAC são os mesmos do modelo econômico atual. Entrevista especial com Paulo Passarinho, de 07-03-2008;

A Vale é nossa. O plebiscito popular e a pouca participação da CUT e da UNE. Entrevista especial com Paulo Passarinho, de 02-09-2007.

>> Confira algumas edições da IHU On-Line sobre temas abordados nessa entrevista.

Alternativas energéticas em tempos de crise financeira e ambiental. Edição número 285, de 09-12-2008;

A financeirização do mundo e sua crise. Uma leitura a partir de Marx. Edição número 278, de 20-10-2008;

A crise financeira internacional. O retorno de Keynes. Edição número 276, de 06-10-2008;

América latina e o pós-neoliberalismo. Edição número 180, de 15-05-2006;

América Latina: um giro à esquerda? Edição número 176, de 17-04-2006;

A crise política brasileira. Elementos para análise. Edição número 146, de 20-06-2005;

Governo Lula: Uma saída neoliberal para a crise do neoliberalismo? Edição número 79, de 13-10-2003;

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