"A sociedade brasileira ainda não percebeu a dramaticidade da crise". Entrevista especial com Fernando Ferrari Filho

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23 Novembro 2008

Recrudescimento do déficit do balanço de pagamentos em transações correntes, desaquecimento vertiginoso do PIB e ligeira inflação são os reflexos do desequilíbrio monetário internacional para a economia brasileira, segundo o economista Fernando Ferrari Filho, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Em entrevista concedida por e-mail à revista IHU On-Line, ele destacou que a sociedade brasileira ainda não percebeu a “dramaticidade” da crise. Esta postura, segundo ele, também se relaciona ao fato de o governo insistir em dizer que o país não será afetado substancialmente. “Se o governo, por sua vez, não realizar políticas contra-cíclicas, fiscal e monetária, o desaquecimento da economia pode ser ainda maior”, frisou o economista, que estará no Instituto Humanitas Unisinos – IHU no dia 27 de novembro para debater o tema A crise dos mercados financeiros globais e as repercussões sobre a economia brasileira.

Fernando Ferrari Filho é graduado em Economia, pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), mestre em Economia, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), doutor em Economia, pela Universidade de São Paulo (USP), e pós-doutor pela University of Tennessee System (1996). Atualmente, é professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Em sua opinião, que fatores podem ser considerados como decisivos para o desencadeamento deste desequilíbrio financeiro que abalou grandes potências econômicas?

Fernando Ferrari Filho - A crise financeira mundial foi produzida por um lento e não percebido processo de erosão das margens de segurança de indivíduos, firmas e bancos, quando de suas tomadas de decisão de gastos (consumo e investimento) e de empréstimos e de concessões de empréstimos de alto risco, respectivamente. Diante deste quadro, a elevação das taxas de juros do Federal Reserve Bank, em 2005 e 2006, a inadimplência dos mutuários da casa própria e a quebra do Lehman Brothers, por exemplo, são fatores que corroboram, mas não podem ser considerados os causadores da crise. Em suma, os componentes da crise são essencialmente endógenos e não exógenos.

IHU On-Line - De que maneira esta crise dos mercados internacionais repercute sobre a economia brasileira? Qual o impacto psicológico dessa crise no Brasil, principalmente em relação às bolsas?

Fernando Ferrari Filho - No curto prazo, as linhas de créditos foram reduzidas, os juros se elevaram e câmbio sofreu um processo de overshooting. No longo prazo, com a recessão dos Estados Unidos, dos países da zona do Euro e do Japão e o desaquecimento econômico da China, principais parceiros comerciais do Brasil, os desequilíbrios de balanço de pagamentos em transações correntes (BPTC) tendem a ser maiores. Redução de crédito, elevação da taxa de juros, volatilidade cambial e desequilíbrios de BPTC levam, inevitavelmente, para uma situação de desaquecimento econômico e ligeira instabilidade inflacionária.

IHU On-Line - Como o senhor avalia a postura do Brasil, um dos poucos países que está praticamente despreocupado com a crise mundial, enquanto que outras nações européias estão até entrando em recessão?

Fernando Ferrari Filho - No primeiro momento, não havia uma preocupação das autoridades econômicas, porque em termos fiscais e cambiais nossa situação era e é relativamente confortável e não se tinha uma idéia do tamanho da crise. Verificadas a gravidade e as repercussões da crise, felizmente tal postura foi alterada por parte das autoridades econômicas: não existe país que passe incólume pela crise mundial.

IHU On-Line - Qual a sua visão sobre o posicionamento da sociedade brasileira diante da crise? Esta chamada nova classe média está intimidada?

Fernando Ferrari Filho - A sociedade brasileira ainda não percebeu a “dramaticidade” da crise, seja porque nos encontramos no último trimestre do ano, período sazonalmente próspero para a economia, seja porque o governo insiste em dizer que o país não será afetado substancialmente. Todavia, os efeitos sobre os níveis de emprego, massa salarial, inflação etc. serão observados em 2009 e 2010. Em suma, a sociedade aprenderá com a crise e se posicionará frente a ela em um futuro próximo.

IHU On-Line - Que conduta os brasileiros devem assumir para sobreviver em tempos de crise? É hora de controlar os gastos ou de continuar consumindo e fomentando o capitalismo?

Fernando Ferrari Filho - O passado nos ensina que, diante de incertezas e perspectivas de crise, a preferência pela liquidez é exacerbada. Com certeza, menores gastos, sob a ótica de consumo e investimento, devem ser observados e, por conseguinte, o PIB deve ser desaquecido. Nesse sentido, se o governo, por sua vez, não realizar políticas contra-cíclicas, fiscal e monetária, o desaquecimento da economia pode ser ainda maior.

IHU On-Line - Que perspectivas o senhor vislumbra para o próximo ano? Quais os rumos que essa crise ainda vai tomar?

Fernando Ferrari Filho - Para a economia brasileira, o reflexo da crise será o recrudescimento do déficit do BPTC, desaquecimento vertiginoso do PIB e ligeira inflação. Os rumos da crise, por sua vez, estarão associados às ações dos governos. Quanto mais rápidas elas forem e quanto mais recursos forem injetados na economia real, menos dramáticos serão os impactos da crise.

IHU On-Line – O senhor diz que as pessoas vão sentir as conseqüências da crise a partir de 2009 e 2010. De que maneira a sociedade será atingida nos próximos anos? O senhor vislumbra altos índices de desemprego? Como ficará a estrutura social brasileira no futuro?

Fernando Ferrari Filho - Havendo um desaquecimento da economia brasileira nos próximos anos, a conseqüência natural é um aumento das taxas de desemprego. Desemprego maior, menor massa salarial e restrição de crédito resultam em menor nível de consumo. Menos consumo, por sua vez, afeta negativamente o investimento e, por conseguinte, passamos a ter um ciclo vicioso. Assim sendo, os problemas sociais tendem a recrudescer, principalmente se o governo resolver reduzir os gastos públicos, o que reiteradamente ocorre quando há crises externas.

IHU On-Line - O que representa para o mercado financeiro interno a fusão dos bancos Itaú e Unibanco? Como entender o apoio do governo brasileiro a essa medida sendo que são bancos privados e no Brasil temos a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil?

Fernando Ferrari Filho - Em termos gerais, crises financeiras levam inexoravelmente à concentração do mercado financeiro. Esta deve ser uma das conseqüências da crise financeira mundial. No que diz respeito ao Brasil, o sistema financeiro brasileiro é eficiente, dinâmico e competitivo devido, em grande parte, ao PROER,  dos anos 1990. A fusão dos bancos Itaú e Unibanco tornará o sistema mais concentrado. Não vejo maiores problemas. O Banco do Brasil está indo na mesma direção, ao anunciar a intenção de adquirir outras instituições, tanto públicas quanto privadas. É natural.

IHU On-Line – Que relações podemos estabelecer entre as crise econômica e climática?

Fernando Ferrari Filho - Ocorrendo um desaquecimento da economia mundial e, principalmente, da economia chinesa nos próximos anos, provavelmente a deterioração do meio ambiente desacelerará. A propósito, por mais que eu não tenha familiaridade com as questões ambientais, seria interessante que as autoridades governamentais e os organismos multilaterais discutissem e articulassem uma estratégia de crescimento econômico sustentável compatível a preservação do meio ambiente.

IHU On-Line – É possível pensar em uma alternativa para a crise financeira a partir da crise climática?

Fernando Ferrari Filho - Não há relação específica entre as referidas crises, pelo menos em meu ponto de vista. O que se pode dizer é que, em um contexto de valorização da riqueza monetária, os agentes especulam com os preços das commodities agrícolas e energéticas como especulam com os preços dos títulos públicos e outros ativos financeiros. Como as alterações climáticas ocorridas ao longo dos últimos anos afetaram a oferta de produtos agrícolas, a oferta de energia elétrica etc., logo os agentes passaram a especular com os preços das commodities e, portanto, valorizaram a riqueza monetária. A questão relevante é que redução da oferta, por sua vez, gera elevação dos preços, uma vez que a demanda seja insensível. Por exemplo, a inflação mundial no primeiro semestre de 2008 esteve vinculada basicamente à elevação dos preços agrícolas, pois a demanda é relativamente inelástica.

IHU On-Line – Considerando os aspectos negativos da crise financeira mundial, o Brasil pode se beneficiar de alguma maneira, investindo em outras alternativas para conter a deterioração ambiental?

Fernando Ferrari Filho - No que diz respeito à questão da deterioração ambiental, o Brasil pode se beneficiar da crise financeira e das repercussões dela sobre o lado real da economia (que acabam afetando a produção de grãos, de energia, de combustíveis etc.), pois, por exemplo, tem condições de produzir combustíveis menos poluentes.

IHU On-Line - Pensar no meio ambiente neste momento, estimularia uma nova forma de desenvolvimento econômico?

Fernando Ferrari Filho - Com certeza, a sustentabilidade do meio ambiente assegura crescimento e desenvolvimento econômicos. Todavia, o problema central da "funcionalidade" do capitalismo neste exato momento é de liquidez, crédito. Nesse sentido, as atenções estão voltadas para a crise financeira e seus desdobramentos. Mitigá-la ou solucioná-la é a "agenda" atual.

IHU On-Line - De que maneira o Brasil pode readaptar suas estratégias e se beneficiar com essas duas crises?

Fernando Ferrari Filho - No que diz respeito à crise financeira, as medidas anunciadas pelos Banco Central e pelo governo são interessantes e necessárias, mas tímidas. A crise afetará nosso balanço de pagamentos brasileiro, o PIB etc. Nesse sentido, medidas fiscais, monetárias e cambiais mais contundentes são fundamentais para que não tenhamos problemas de balanço de pagamentos e possamos dinamizar o mercado interno, diante das restrições do mercado externo. Por outro lado, é provável que o país se beneficie com a retração mundial, visto que podemos expandir a oferta agrícola, produzir combustíveis menos poluentes, prospectar novas reservas de petróleo etc. Se a matriz energética será revisada, é outra questão.

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