40 horas semanais de trabalho: "Se o trabalhador não romper com isso, certamente não será o empresário que o fará". Entrevista especial com João Tristan Vargas

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14 Outubro 2008

No livro Taylorismo e Fordismo na indústria paulista: o empresariado e os projetos de organização racional do trabalho (São Paulo: Editora Humanitas, 2007), os historiadores João Tristan Vargas e Augusto Zanetti tratam de temas como a organização racional do trabalho no discurso e na prática dos patrões. Sobre esta obra, Tristan conversou por e-mail com a IHU On-Line e falou também sobre a presença do fordismo e do taylorismo no mundo do trabalho atual, sobre a releitura feita dos documentos produzidos pelas entidades patronais de São Paulo e do Rio de Janeiro no início do século passado e, ainda, sobre a crise do sindicalismo. Segundo Tristan, “o que parece certo é a necessidade urgentíssima de lutar pela redução da jornada de trabalho. É surpreendente que, num mundo em que a produtividade do trabalho se multiplicou de forma inimaginável desde as últimas décadas do século XIX, as pessoas continuem a considerar ‘normal’ trabalhar oito horas por dia, jornada que estava na perspectiva das lutas operárias daquele tempo, nos países industrializados”.

João Tristan Vargas é historiador formado pela Universidade de São Paulo. Obteve os títulos de mestre e doutor em história pela Universidade de Campinas. Atualmente, é professor no Centro de Ensino Superior de Barueri, em São Paulo. É também autor de O trabalho na ordem liberal: o movimento operário e a construção do Estado na Primeira República (Campinas: Centro de Memória da Unicamp, 2004).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - De que forma o taylorismo e o fordismo se apresentam hoje em relação ao trabalho? O quanto mudaram desde que esses formatos foram criados?

João Tristan - Taylorismo e fordismo são nomes com diversos significados. Nos meios sociológicos, o sentido com que esses nomes costumam ser empregados mais freqüentemente é o de formas de organização do trabalho que têm como objetivo aumentar a produtividade. Uma das visões mais profícuas dentro dessa perspectiva é, a meu ver, a de Benedito Rodrigues de Moraes Neto [1], que diz que, com o taylorismo e o fordismo, “o capital aprendeu a chutar com os dois pés”. De maneira original, ele chama a atenção para o fato de que, no taylorismo e no fordismo, o que se busca é algo diverso daquilo que é a característica mais essencial do capitalismo: não se procura substituir o trabalho do operário por meio da máquina, subordinando o trabalho vivo (o trabalhador) ao trabalho morto (o maquinismo). O que se busca, no taylorismo e no fordismo, são meios mais eficazes de controlar e “otimizar” o trabalho vivo, como se fazia nos tempos da manufatura (de que é um exemplo bem conhecido a produção de alfinetes, devido a sua descrição por Adam Smith).

Isto é, no taylorismo e no fordismo o capital procura ampliar a extração de mais-valia não fundamentalmente por meio de uma inovação tecnológica, de um maquinismo (um dos “pés” do capital, de que fala Moraes; o outro são os meios não propriamente tecnológicos – isto é, as técnicas de organização da produção – que visam a intensificação do trabalho), e sim por meio de uma intensificação do trabalho humano. Mas e a esteira rolante da fábrica Ford? Segundo Moraes, ela não tem o mesmo caráter das máquinas que substituem o trabalho, pois não prescinde da habilidade do operário. Assim, tanto no taylorismo como no fordismo, o capitalismo continua a depender fundamentalmente de habilidades do trabalhador. Sob esse ponto de vista, a diferença entre um e outro é que no taylorismo se visa mais o trabalhador individualmente, enquanto no fordismo o foco recai sobre o “trabalhador coletivo” – o conjunto dos operários na linha de montagem.

Pensando-se taylorismo e fordismo apenas como formas de organização do trabalho, acredito que o capitalismo continua a utilizar esse “pé” para dar seus “chutes”, sempre que o contexto o torna adequado. Isso, apesar da famosa “crise do fordismo” que teria ocorrido entre os anos 1960 e 1970. Cada vez mais são buscadas outras estratégias, mais freqüentemente copiadas ou inspiradas no modelo japonês de produção “flexível”, que se volta para nichos de mercado, com o trabalhador executando diversas tarefas de acordo com a necessidade emergente. Porém, se há algo constante na atitude do empresariado é o seu pragmatismo: não há perigo de as idéias estarem “fora do lugar”, quando se trata de produção capitalista, pois as empresas sempre buscam aquilo que pode render o máximo de lucro. Onde o “taylorismo”, o “fordismo”, o “toyotismo” ou qualquer outra estratégia de gerenciamento do trabalho forem considerados fatores de rentabilidade, serão empregados.

Cada vez mais é certo que o “trabalho morto”, por meio dos robôs (máquinas que realizam movimentos antes feitos por seres humanos), máquinas automáticas, utilização de informática etc., vem substituindo o “trabalho vivo” (o trabalhador, com suas habilidades). Isso reduz o espaço visado pelas estratégias gerenciais voltadas para a organização do trabalho humano. Porém, os robôs, especificamente, são rentáveis (e possíveis) apenas em certas áreas da produção – embora, não há como negar, a tendência é de uma expansão no seu emprego.

Um pouco de fantasia: será interessante testemunhar o que acontecerá na sociedade quando a utopia patronal da independência total em relação ao trabalho vivo for alcançada, com as fábricas e empresas prestadoras de serviços totalmente automatizadas. Afinal, a libertação em relação ao trabalho alienante também é o ideal histórico do comunismo, desde Marx. Do que viverão as pessoas que dependem do trabalho para viver? Para quem as empresas vão vender seus produtos e serviços? O capitalismo poderá sobreviver à realização de seu maior ideal – libertar-se de seus escravos? Os “trabalhadores” – que não terão trabalho – terão feito alguma coisa até lá? Na falta de confiáveis bolas de cristal, tais questões ficam sem resposta.

IHU On-Line - De que forma o senhor faz a releitura da documentação produzida pelas entidades patronais de São Paulo e do Rio de Janeiro, por volta das primeiras décadas do século XX?

João Tristan - Eu disse, antes, que taylorismo e fordismo são nomes. Expressei-me assim para diferenciar o nome do conceito. Certamente muitos sociólogos, historiadores e outros estudiosos empregam esses termos como conceitos. Mas quando, na história da produção intelectual a respeito, fordismo e taylorismo tomaram pela primeira vez a forma de conceitos, eles não eram definidos apenas pelo seu caráter de modalidades de organização do trabalho e de relacionamento com o mercado, como tem sido freqüente hoje. Em que momento eles tomaram a forma de conceitos? A meu ver, quando Gramsci [2] elaborou sua concepção sobre o tema, no texto “Americanismo e fordismo”, no qual passou a trabalhar a partir de 1928. Até onde eu sei, Gramsci foi o primeiro a pensar as idéias e práticas de Ford como “fordismo”, utilizando esta expressão não apenas como denotativa de uma idiossincrasia, de uma concepção geral ou de um conjunto de práticas desse meio industrial. Para ele, a organização do trabalho da fábrica Ford (que, a seu ver, elevava a um patamar superior as propostas de Taylor) não podia ser compreendida separadamente de um propósito de forjar um novo tipo de trabalhador – ou mesmo de “homem” –, o que ocorreria por meio da introjeção de um determinado modo de gestão das energias humanas, um auto-disciplinamento que lhe tornasse possível fornecer todo seu potencial de trabalho.

Para tanto, o controle da vida particular do operário, buscado pela empresa por meio de inspetores etc. seria, a seu ver, fundamental. Na visão de Gramsci, os chamados “altos salários” eram um elemento estratégico para chegar ao “novo trabalhador”, pois atuariam como meio de seleção dos mais capazes, até o momento em que a nova modalidade de trabalho se generalizasse. Assim, o conceito de fordismo, ao “nascer”, incluía três elementos fundamentais: produção em massa (incluindo a organização do trabalho propriamente dita), intuito de controle da vida particular do operário e “altos salários”.

Mais tarde, a partir das formulações de Gramsci, a produção intelectual construirá a noção de “compromisso fordista”, que corresponderia a uma espécie de “pacto” tácito entre empresas, trabalhadores e Estado, que possibilitaria a sustentação dos altos níveis de intensificação do trabalho nas fábricas, por meio da manutenção de um nível de vida que minimizasse o potencial de conflitos da modalidade “fordista”, e o chamado Estado do bem-estar social, na Europa, seria sua expressão concreta.

“Fordismo brasileiro”

No Brasil, a primeira vez em que o conceito de fordismo foi empregado num texto de grande “densidade intelectual”, digamos assim, foi no livro Liberalismo e sindicato no Brasil, de Luiz Werneck Vianna [3], publicado em 1976. Nessa obra, o conceito gramsciano é a base e o ponto de partida para sua busca de compreensão sobre as concepções e práticas dos industriais brasileiros nos anos 1910, 1920 e 1930. Em minha avaliação, a tese de Vianna é a principal responsável pelo surgimento de uma visão pela qual o fordismo seria a concepção dominante entre os maiores industriais na Primeira República.

Examinemos, porém, a documentação que esse estudioso compulsou e que foi a base para sua atribuição de fordismo aos industriais brasileiros: os memoriais contra as leis sociais aprovadas pelo governo Arthur Bernardes [4], nos anos 1920 – fundamentalmente a Lei de Férias, de fins de 1925, e o Código de Menores, de 1927. O que lá se vê, sem dúvida, é a fala de Ford, e o propósito desses documentos – pedir a suspensão e revogação das mencionadas leis – é compatível com a visão de Ford pela qual o Estado não devia se intrometer nas relações entre operários e patrões. Contudo, o que, em meu estudo, pareceu-me líquido e certo é que a menção à fala de Ford tem como função naqueles textos unicamente o servir de instrumento na argumentação junto aos poderes públicos. O que dizem esses textos? Que a Lei de Férias será nociva ao operário, pois o lançará sem defesas morais diante da fatal atração das ruas; que o Código de Menores, ao tornar impossível ao patrão manter os menores empregados na fábrica, lançará milhares deles no mesmo ambiente deletério. Assim, o suposto propósito de controlar a vida particular do operário ou moldar seu padrão de comportamento surge fundamentalmente como um elemento na argumentação patronal junto aos poderes públicos, não como um índice de convicção, visão de mundo ou mesmo finalidade prática assumida como necessária para a produção fabril. Nos citados documentos patronais, também se afirma que o único objetivo do operário no Brasil é o “salário alto” de que fala Ford. Mas qual é o sentido dessa menção ao “salário alto”? Apenas reforçar a afirmação patronal de que o operariado no país jamais teria reivindicado férias.

O impacto simbólico do automóvel

Por que recorrer à fala de Ford, naquele contexto? Para entendermos isto, precisamos recuperar algo de que hoje não temos a menor referência concreta, em nossas cidades atulhadas de carros: o impacto simbólico (mas não apenas) do automóvel no Brasil pouco urbanizado da época e o enorme prestígio de que, em grande medida devido a isso, gozava o nome de Ford, o responsável por torná-lo um bem de consumo de massa e, principalmente por isso, o grande herói da indústria, enaltecido por figuras como Monteiro Lobato [4] (este, sem dúvida, um fordista de coração – provavelmente o único no país a realmente merecer esse nome), que até o mencionou em obras literárias (veja-se, especialmente, O presidente negro).

Diante do fato óbvio de que os “altos salários” jamais foram item cogitado entre os industriais brasileiros e de que estamos a léguas de distância de um Estado do bem-estar social, seja considerando-se o período de formação do parque industrial nacional, seja o quadro atual, a produção intelectual tem ressalvado que o “fordismo” (e “dentro” dele, o taylorismo) teria tido uma aplicação restrita e parcial no país. O que resta desse fordismo? A idéia de um propósito de “forjar o homem novo”, baseada na fala dos representantes patronais expressa naqueles documentos dos anos 1920, a oposição à “intromissão” do Estado nas relações de trabalho, o combate aos sindicatos operários – e só.

Ruindo, como penso que ruiu, o fundamento para atribuir-se ao patronato qualquer propósito sério de criar um novo tipo de operário por meio de estratégias de disciplinamento (a rigor, indissociáveis da compensação salarial, mas vá lá), o que resta do suposto fordismo são elementos comuns à visão patronal em contextos os mais diversos. Sobra a esteira rolante, a linha de montagem? Mas onde está a esteira rolante na indústria têxtil, que era o que fundamentalmente constituía a grande indústria no Brasil nas primeiras décadas do século XX? O que caracteriza na época as maiores empresas desse ramo fabril (por sinal o objeto por excelência dos estudos de Marx [6]) é justamente aquilo que, em tese, retira espaço e razão de ser para as propostas de Taylor [7] e as práticas de Ford [8]: o uso de maquinaria com vistas a substituir o trabalho humano.

Habilidade humana: necessária à produção

“Taylorismo” e “fordismo”, seja lá qual for o entendimento que tenhamos deles, só surgiram e se mantiveram porque a habilidade humana era necessária à produção. Sobra o ritmo alucinante do trabalho realizado pelos operários têxteis, responsáveis pela vigilância e complementação dos movimentos de várias máquinas ao mesmo tempo? Mas há algo de especificamente “fordista” na intensidade do trabalho em si, sem mais? Restaria, ainda, a busca por controlar fontes de matéria-prima e as diversas fases da produção – em outros termos, a verticalização da produção? Mas tal propósito pode ser tomado realmente como exclusivo de Ford, ou de fato podemos considerar que ele o tenha colocado em prática pela primeira vez?

Enfim, a meu ver, fordismo, nas primeiras décadas do século no Brasil, é nada mais que um espectro, emanado involuntariamente do discurso sedutor de representantes do patronato – espectro que se “densificou” na produção intelectual e que assim passou a “existir” – e, se “existia” (“existência” que, nos textos acadêmicos, se manteve em caráter dominante até pelo menos a década de 1980), teria de sê-lo parcialmente, como se viu obrigada a “constatar” essa mesma produção intelectual.

Seja como for, teremos, sem dúvida, fordismo no país, se por “fordismo” entendermos simplesmente a linha de montagem e a produção contínua (além de, em certa medida, a busca de sua verticalização), visando um mercado em expansão, deixando de lado o propósito de formar o “homem novo” e de tornar o operário um consumidor de bens duráveis por meio da elevação salarial (tendo em vista uma concepção geral da economia em que se aposta no crescimento exponencial do mercado consumidor, de modo que a indústria gere, ela mesma, a sua própria demanda, como queria Ford). Porém, os estudos sobre trabalho poderiam ganhar em clareza se os pesquisadores explicitassem melhor o conceito de fordismo do qual falam, levando em conta, para isso, a trajetória desse conceito, cuja suposta aplicabilidade no Brasil pareceu plausível aos olhos dos estudiosos em razão da capacidade de convencimento (segundo avalio) de um astuto e sedutor discurso. O poder de sedução desse discurso, se não teve grande conseqüência junto ao interlocutor a que era dirigido (o Poder Público), provou-se bastante efetivo, contudo, diante de nós, pósteros.

IHU On-Line - Com o pós-fordismo, há terceirização e precarização do trabalho, a classe operária está fragmentada e os sindicatos se encontram enfraquecidos. Qual é a saída para essa crise?

João Tristan - Qual é, eu não sei – e acho que os sindicatos também não. Mas a classe operária tem um cabedal de experiências que lhe permite buscar meios de resistência. Diversas categorias de trabalhadores terceirizados, por exemplo, vêm buscando equiparação de suas condições de trabalho às dos trabalhadores das empresas de que foram segmentados, e nessa luta com freqüência aproveitam os recursos do sindicato que abrangem essas empresas. O que parece certo é a necessidade urgentíssima de lutar pela redução da jornada de trabalho. É surpreendente que, num mundo em que a produtividade do trabalho se multiplicou de forma inimaginável desde as últimas décadas do século XIX, as pessoas continuem a considerar “normal” trabalhar oito horas por dia, jornada que estava na perspectiva das lutas operárias daquele tempo, nos países industrializados – ou no Brasil das primeiras décadas do século XX.

Parece-me particularmente incrível que no país as centrais sindicais continuem a colocar como bandeira a jornada de 40 horas semanais, o que corresponde a oito horas por dia. Isso me pareceu incrível na década de 1990 (afinal, não faz tanto tempo assim), quando tal estandarte foi levantado, e continua a me parecer hoje. Mais inacreditável ainda, é claro, é o fato de ainda se trabalhar mais do que cinco dias por semana. Sem desmerecer a dura luta dos trabalhadores nas condições atuais (e falando, talvez indevidamente, de fora do movimento sindical), não posso deixar de considerar extremamente tímida essa bandeira – justamente numa época em que a automação e a informatização vêm reduzindo como nunca os postos de trabalho. Quando essas quarenta horas forem conquistadas, já estarão (como estão hoje) inteiramente defasadas diante do desafio a enfrentar. O que pode explicar esse apego à marca das oito horas? Se o trabalhador não romper com isso, certamente não será o empresário que o fará.

IHU On-Line - O cenário que permitiu o nascimento do taylorismo e do fordismo previa o cenário atual do mundo do trabalho?

João Tristan - Na época em que surgiram as propostas de Taylor e as práticas de Ford, o capitalismo vivia um período de expansão do mercado. Podia-se apostar mais na padronização dos produtos e na produção contínua de uma determinada linha de artigos. Entre as décadas de 1960 e 1970, a disputa pelos mercados consumidores no mundo se acirrou exponencialmente, o que ensejou a busca por estratégias de gerenciamento da produção que a tornassem mais flexível, a fim de atender a demandas mais específicas (os nichos de mercado). Hoje, tal quadro se mantém. Assim, os cenários são muito diferentes em cada um dos dois momentos.

IHU On-Line - A crise financeira mundial, provocada pela quebra de importantes instituições estadunidenses, segundo alguns estudiosos, é mais um sinal do colapso do capitalismo. Como o mundo do trabalho viveu a quebra da economia nos Estados Unidos em 1929?

João Tristan - Depois da crise de 1929, a utopia fordista (pois é, a concepção geral de Ford parece-me caracteristicamente utópica) mostrou toda sua fragilidade. Nas palavras do humorista estadunidense Will Rogers [9], os EUA eram “a primeira nação na história do mundo a ir para o asilo de pobres em um automóvel”. O que se via nas estradas do país eram pessoas e mais pessoas à cata de trabalho – como “bóias-frias”, colhedores de safras, especialmente – trafegando sem rumo certo em velhos automóveis, morando neles, a maioria carros Ford. A incrível elevação da produtividade do trabalho permitiu baixar os preços dos artigos produzidos, e o operário chegou a se tornar consumidor da própria fábrica em que trabalhava, como queria Ford, mas, durante a Depressão dos anos 1930, de que lhe servia o automóvel que agora possuía, se não tinha emprego?

Notas:

[1] Benedito Rodrigues de Moraes Neto é doutor em ciência econômica e professor da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. É autor de Marx, Taylor, Ford: as forças produtivas em discussão (São Paulo- SP: Editora Brasiliense, 1989), e Século XX e trabalho industrial: taylorismo/fordismo, ohnoísmo e automação em debate (São Paulo: Editora Xamã, 2003)

[2] Antonio Gramsci foi um político, filósofo e cientista político, comunista e anti-fascista italiano. Sobre ele, leia a Revista IHU On-Line número 231 de 13-08-2007 intitulada Gramsci, 70 anos depois.

[3] Luiz Werneck Vianna é professor pesquisador do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Doutor em Sociologia, pela Universidade de São Paulo, é autor de, entre outros, A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1997), A judicialização da política e das relações sociais no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1999) e Democracia e os três poderes no Brasil (Belo Horizonte: UFMG, 2002). Confira as entrevistas que o sociólogo concedeu ao sítio do IHU em 05-08-2007 e também para a Revista IHU On-Line número 231, 265 e 270.

[4] Artur da Silva Bernardes foi um político brasileiro, presidente do Brasil entre 15 de novembro de 1922 e 15 de novembro de 1926.

[5] José Bento Renato Monteiro Lobato foi um dos mais influentes escritores brasileiros do século XX. Foi o "precursor" da literatura infantil brasileira e ficou popularmente conhecido pelo conjunto educativo de sua obra de livros infantis. Também escreveu contos (geralmente sobre temas brasileiros), artigos, críticas, prefácios, um livro sobre a importância do petróleo e do ferro e um único romance, O Presidente Negro, que não alcançou a mesma popularidade que suas obras para crianças.

[6] Karl Heinrich Marx foi fundador de uma das grandes teorias que iria influenciar os séculos XIX e XX, intelectual alemão, economista, sendo considerado um dos fundadores da Sociologia e militante da Primeira e Segunda Internacional. Também é possível encontrar a influência de Marx em várias outras áreas, tais como: Filosofia e História. Teve participação como intelectual e como revolucionário no movimento operário, escrevendo o Manifesto Comunista.

[7] Frederick Winslow Taylor foi um engenheiro mecânico estadunidense, inicialmente técnico em mecânica e operário. É considerado o “Pai da Administração Científica” por propor a utilização de métodos científicos cartesianos na administração de empresas. Seu foco era a eficiência e eficácia operacional na administração industrial.

[8] Henry Ford foi um empreendedor estadunidense, fundador da Ford Motor Company e o primeiro empresário a aplicar a montagem em série de forma a produzir em massa automóveis em menos mpo e a um menor custo.

[9] Will Rogers foi um comediante estadunidense.

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