"Ninguém sabe, na realidade, até onde a crise pode chegar". Entrevista especial com André Biancareli

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09 Outubro 2008

Economistas como Nouriel Roubini já anunciavam, desde o início deste ano, que uma crise financeira era iminente. Hoje, bancos estão sendo estatizados, pacotes de até um trilhão de dólares estão sendo lançados, e o mundo prevê pesadelos e catástrofes. Segundo o economista André Biancareli, “ao contrário dos anos 1990, desta vez a crise se origina na economia central, destrói grande parte do seu sistema financeiro e ameaça os de seus pares no mundo desenvolvido”. Ficam duas questões agora: por que a crise não foi contida antes e até onde ela pode chegar? Biancareli respondeu-as nesta entrevista que segue, concedida por e-mail à IHU On-Line. Para ele, “ninguém, nem nos seus piores pesadelos, poderia imaginar que atingiríamos o estágio atual: o sistema financeiro americano quebrado, re-estruturado e/ou estatizado, um pacote de socorro de ‘insuficientes’ US$ 850 bilhões, desconfianças generalizando-se agora pela Europa...”

André Biancareli é graduado em Economia, pela Universidade Estadual de Campinas, onde realizou também o mestrado e o doutorado em Ciência Econômica. Atualmente, na mesma universidade, atua como professor no Instituto de Economia.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Para o senhor, o que fez com que os Estados Unidos permitissem que a crise chegasse a esse patamar? Até onde essa crise financeira pode chegar?

André Biancareli – Ninguém sabe, na realidade, até onde a crise pode chegar. Mesmo depois que os problemas começaram (em meados de 2007) e já se revelavam em toda sua gravidade, ninguém, nem nos seus piores pesadelos, poderia imaginar que atingiríamos o estágio atual: o sistema financeiro americano quebrado, re-estruturado e/ou estatizado, um pacote de socorro de “insuficientes” US$ 850 bilhões, desconfianças generalizando-se agora pela Europa... E mesmo assim é arriscado dizer que este é ponto mais agudo da crise.

Uma das fontes de maior incerteza é o próprio fato de que os agentes do mercado financeiro não têm idéia da real situação dos outros – e isso é reiterado rodada após rodada de agravamento dos problemas. As causas mais estruturais da crise ajudam a entender. O enorme desenvolvimento de produtos e estruturas financeiras sofisticadas, incensados como ferramentas capazes de “diversificar os riscos”, agora revelam de maneira trágica uma das conseqüências de sua generalização: a disseminação, o espalhamento dos riscos, de maneira opaca, sem mecanismos de controle ou mesmo de identificação da real situação. Os vários tipos de derivativos, ao invés de reduzir, esconderam os riscos, o que agrava a crise pela desconfiança mútua.

IHU On-Line – O fim da crise significa uma maior regulação do Estado em relação à economia ou que o capitalismo está chegando ao fim?

André Biancareli – Certamente não se trata do fim do capitalismo ou coisa do gênero, até porque não temos mais nenhum espectro rondando a Europa ou os Estados Unidos... Mas, do meu ponto de vista, trata-se da comprovação dos limites à expansão da riqueza financeira de maneira descolada da esfera real. Ou, para ficarmos em Marx, dos limites ao crescimento do capital fictício. Na realidade, o que pode estar chegando ao fim, ou pelo menos sofrendo fortes abalos, é um tipo de capitalismo – totalmente desregulado e, mais do que isso, financeirizado.

Neste sentido, o que deve se alterar – e aqui vai um pouco de esperança, muito mais do que previsão – é o padrão das relações entre o Estado, o mercado e a sociedade, predominantes nas últimas décadas (não por acaso desde que a alternativa do socialismo realmente existente deixou de fazer parte do horizonte). Idéias-chave como a crença absoluta na eficiência da iniciativa privada livre e desimpedida, a ojeriza ao papel de planejamento, coordenação e regulação por parte do Estado e, enfim, a submissão da sociedade às forças de mercado, com protagonismo do capital financeiro, parecem estar em xeque pela natureza e gravidade da crise.

Isto, de concreto, tende a gerar maior regulação sobre os sistemas financeiros, principalmente na direção da maior transparência e controle das operações com instrumentos derivativos, operações fora de balanço das grandes instituições, maiores restrições para operação em mercados de commodities. Seria um caminho natural, até cíclico na história do capitalismo. Mas, repita-se, nada disso está dado automaticamente; até agora o que se viu foi apenas o abandono, na marra e por motivos de puro pragmatismo, de alguns dos principais dogmas desta ideologia (por alguns dos seus maiores baluartes, diga-se de passagem).

IHU On-Line – De que forma a crise financeira pode atingir o Brasil?

André Biancareli – Depois de um período de ilusória e interessada popularidade das teses sobre o “descolamento” dos países em desenvolvimento – algumas das quais delirantes, a proclamar que agora a dinâmica da economia internacional seria ditada pela sua periferia –, a situação do Brasil e seus semelhantes deteriorou-se muito nas últimas semanas. Não se trata de negar a situação muito melhor em termos de contas externas (principalmente por conta do estoque de reservas internacionais) do país em relação às crises de década atrás. Trata-se, sim, de recolocar as coisas no seu devido lugar, principalmente em relação à condição periférica na economia internacional, explicitada nas últimas semanas de forma dramática.

Ao contrário dos anos 1990, desta vez a crise se origina na economia central, destrói grande parte do seu sistema financeiro e ameaça os de seus pares no mundo desenvolvido. E, no entanto, o movimento na hora do pânico, da elevação abrupta da aversão ao risco, é de saída de “mercados emergentes” (cuja economia e sistema financeiro, pelo menos no caso brasileiro, estão muito mais sólidos) em direção à qualidade... em dólar e nos títulos públicos do governo americano!

É uma situação paradoxal, principalmente para aqueles que comungavam da visão otimista dos últimos anos, segundo a qual o mundo havia se tornado plano, não existiam mais assimetrias entre moedas ou economias nacionais ou, até, de que o fato de sermos produtores de commodities nos colocava na vanguarda da economia mundial, invertendo totalmente as relações centro-periferia há muito identificadas e teorizadas.

Em termos mais concretos, há várias indicações de que esta crise irá marcar o fim da fase de cheia do segundo ciclo de liquidez internacional para países em desenvolvimento da época da globalização, que dura desde o ano de 2003 (o primeiro ciclo inicia-se na primeira metade dos anos 1990, reverte em 1997-98 e atinge seu ponto mínimo em 2002). Isto significará, provavelmente, um período de maiores restrições ao financiamento externo da economia brasileira, fim do movimento de apreciação cambial em muito ampliado pelas apostas nos mercados futuros agora revertidas também de forma violenta, de euforia na bolsa de valores etc. Em suma, um quadro externo, pelo lado financeiro, muito pior do que o enfrentado nos últimos cinco anos.

Como já fica claro, são previsíveis os fortes impactos negativos desta mudança sobre o financiamento doméstico, tanto no mercado de capitais como no de crédito. Isso sem falar na deterioração pelo lado do comércio internacional, também de duração e intensidade imprevisíveis a esta altura, mas para o qual serão decisivos o comportamento dos preços das commodities e a capacidade de sustentação da demanda por parte da Ásia em desenvolvimento liderada pela China.

IHU On-Line – É necessário mudar a política econômica brasileira?

André Biancareli – Em um quadro como este, o mais racional a curtíssimo prazo parece ser o caminho que vem sendo anunciado pelo governo, com a criação de alternativas para enfrentar o fechamento do crédito externo às exportações, a tentativa de impedir o empoçamento da liquidez no sistema financeiro doméstico e a busca de preservação do financiamento das grandes obras de infra-estrutura já alinhavadas. Tanto o Banco Central como o BNDES, a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil parecem ter um papel importante a jogar nesta frente.

Por outro lado, a gestão macroeconômica propriamente dita parece bastante inadequada diante de uma perspectiva de recessão global, da necessidade de queda coordenada das principais taxas de juros internacionais, do derretimento dos preços de commodities e da persistência de um diagnóstico de riscos inflacionários por conta de um excesso de demanda doméstica. A previsível desaceleração da economia, aprofundada pelo inevitável aperto de crédito que se anuncia por conta da crise, se transformaria em uma freada muito brusca do crescimento no ano que vem se tal percepção prevalecer algo que deveria ser evitado.

É hora, em outras palavras, de traduzir a propagada maior resistência à crise – que é real – em medidas que busquem evitar ao máximo os efeitos contracionistas dela sobre o dinamismo brasileiro, a tão duras penas reconquistado recentemente.

IHU On-Line – Investimentos da China e do Oriente Médio são vistos como vitais para recuperação da economia estadunidense, ao mesmo tempo em que a Europa vê os resultados profundos da crise nos EUA afetar sua economia. É a chance de esses países se tornarem as novas potências mundiais? Que mudanças no sistema mundial poderão ser provocadas por esse "baque"?

André Biancareli – No meu ponto de vista, o momento de aguda incerteza se presta mais à tentativa de compreensão da dimensão dos problemas – e de suas extensões – do que à projeção das mudanças mais estruturais no relacionamento entre as grandes potências econômicas. Não há dúvida, no entanto, de que a crise encontra os Estados Unidos em um momento de nítido declínio não apenas econômico, mas também geopolítico, de capacidade de liderança nas grandes questões globais, fruto da linha de conduta adotada no período recente. É possível que a crise e a recessão que se anuncia acelerem essa perda de influência e o avanço do mundo em direção a uma ordem mais multipolar. Neste sentido, tudo indica que terá enorme protagonismo a China e toda a Ásia dinâmica, em avançado processo de integração produtiva e financeira.

Por outro lado, para complicar a construção de cenários de mais longo prazo, uma das dimensões mais fundamentais da liderança econômica internacional – a hegemonia monetária, o desempenho das funções da moeda no plano internacional – não dá mostras de alterações mais profundas. Como já dito, mesmo sendo os EUA e seu sistema financeiro o epicentro da crise, o dólar e os títulos públicos americanos reiteram seu papel de porto seguro aos olhos dos aplicadores globais. Inclusive por conta das debilidades do maior candidato a rival – o euro –, demonstradas, por exemplo, pela dificuldade das lideranças européias articularem uma resposta comum à crise.

 

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