A influência de Allende na política latino-americana hoje. Entrevista especial com Sérgio Braga

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06 Julho 2008

Aos 26 dias do mês de junho de 1908, um dos mais importantes líderes latino-americanos, Salvador Allende, completaria cem anos em 2008 e até hoje, quase 35 anos depois de sua morte, as causas dela não estão claras. Foi o primeiro marxista assumido eleito democraticamente presidente da república na América Latina. Em 1973, com ostensivo apoio dos Estados Unidos, as Forças Armadas, chefiadas pelo general Augusto Pinochet [1] , dão um sangrento golpe de Estado que derruba seu governo. Há duas versões aceitas sobre a morte de Allende: uma é que ele se suicida no Palácio de La Moneda, cercado por tropas do exército, com a arma que lhe fora dada por Fidel Castro [2]; a outra é a de que ele foi assassinado pelas tropas invasoras. Para Sérgio Braga, “Allende é uma personalidade de grande importância na história das lutas populares latino-americanas. Sua figura simboliza o projeto de implantação de uma via de capitalismo mais humano, com distribuição de renda e patrimônio, intervencionismo estatal regulatório e instituições políticas democráticas”. Em entrevista à IHU On-Line, concedida por e-mail, ele falou sobre a importância de Allende e sua influência na política latino-americana.

Sérgio Braga é cientista social, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde também realizou o mestrado em Ciência Política e o doutorado em História Econômica. Atualmente, é professor na Universidade Federal do Paraná.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Para o senhor que estudou Allende, qual é a hipótese mais aceita e mais ligada com a realidade sobre a sua morte?

Sérgio Braga – Sinceramente, não sei. A esquerda diz que Allende foi suicidado. A direita, que se suicidou. O que ninguém nega é que o Palácio em que estava foi bombardeado e que caíram bombas sobre dele.

IHU On-Line – Qual é a importância da figura de Allende para a construção política da América Latina? Como sua política e idéias podem ser percebidas na América Latina atual?

Sérgio Braga – Allende é uma personalidade de grande importância na história das lutas populares latino-americanas. Sua figura simboliza o projeto de implantação de uma via de capitalismo mais humano, com distribuição de renda e patrimônio, intervencionismo estatal regulatório e instituições políticas democráticas. Uma aspiração que considero ainda atual e exeqüível para a América Latina contemporânea, embora em um patamar menos estatizante do que o projetado por Allende e seus companheiros naquele período.

IHU On-Line – Como Allende analisaria o espaço ocupado pela esquerda na América Latina hoje?

Sérgio Braga – Allende foi um típico líder social-democrata, com laivos personalistas e populistas. A esquerda, hoje, tornou-se, em grande parte – no centro e na periferia do sistema capitalista –  social-liberal, submetendo-se ao capitalismo privado. Inclusive assim procedem muitos ex-"socialistas" que anteriormente defendiam um capitalismo de Estado com distribuição de renda. Penso que a causa mais geral desse fenômeno de “transformismo” seja uma adesão acrítica de setores majoritários da antiga esquerda aos valores do burocratismo burguês, assim como uma identificação ideológica destes mesmos segmentos com o modelo de assalariamento geral e de outorga de direitos sociais por um Estado burocrático-autoritário adotado no antigo Leste Europeu e em países como Cuba. Penso que este não seria o caso de Allende, que provavelmente veria com olhos bastante críticos este “transformismo” de antigos social-democratas em social-liberais, cuja conseqüência prática mais importante é a apresentação de uma agenda de reformas bastante tímida e mais palatável aos setores empresariais. Provavelmente, a julgar por sua conduta e por sua trajetória, ele teria se mantido fiel aos seus ideais social-democratas, caso o projeto que ele simbolizava não tivesse sido aniquilado pela extrema-direita chilena, com o financiamento do imperialismo norte-americano. 

IHU On-Line – Por ocasião dos cem anos de Allende, um grupo de estudantes se dirigiu à Bachelet e a questionou: "Allende nos escutaria, e você, Michelle?". Diante disso, qual é a sua análise da política chilena atual?

Sérgio Braga – A julgar pelo noticiário político, acho o governo de Bachelet [3] bastante progressista, apesar da timidez de alguns aspectos de sua agenda (e. g., a reforma da lei eleitoral que restringe a representação de partidos de esquerda).  Mas, dentro do atual contexto latino-americano e mundial, desempenha um papel político progressista, inclusive participando das rodadas de negociação visando a uma maior integração socioeconômica dos países latino-americanos.

Estudantes são estudantes em toda parte, e às vezes cometem injustiças nos arroubos retóricos que acompanham seus movimentos reivindicatórios. Afinal, não se pode avaliar o atual governo Bachelet pela métrica de Allende, pois os contextos são bastante distintos. Mas o saldo agregado líquido de seu governo é positivo para as forças progressitas, na medida em que a consolidação de sucessivos governos social-liberais de esquerda na América Latina pode conduzir as aspirações das massas trabalhadoras a novos patamares, abrindo o caminho para a implantação de “Welfares States” de tipo escandinavo nestes países, e mesmo para a lenta organização e institucionalização de partidos comunistas democráticos de massa que coloquem como meta de médio prazo a instauração de verdadeiros sistemas sociais socialistas.

IHU On-Line – Como o senhor vê a condenação dos torturadores da ditadura na América Latina?

Sérgio Braga – Os torturadores devem ser identificados, seus atos devidamente tipificados e divulgados para a opinião pública. Esse é o primeiro ponto e o mais fundamental. Uma eventual "condenação" penal deve ser analisada caso por caso, assim como seus fundamentos jurídicos; afinal, pelo menos no caso brasileiro está em vigência uma lei de anistia que ainda não foi revogada nem emendada.

A esquerda deve lutar pela apuração dos fatos, mas sem nenhum espírito pequeno-burguês e revanchista de "vendeta". Além do mais, não adianta nada pegar três ou quatro trogloditas subalternos e crucificá-los aos olhos da opinião pública. A apuração deve começar pela cúpula e por aqueles que adestraram segmentos das cúpulas governantes dos regimes militares em técnicas avançadas de tortura, com vistas a utilizá-las, técnicas e cúpulas, para reprimir os opositores do regime.

Essa apuração também é um dos aspectos da reaproximação das forças armadas com a sociedade que atualmente ocorre em muitos países da América Latina. Honestamente, a minha opinião é a de que quem deve ser "condenado" são mais aqueles que se opõem à apuração e publicização dos fatos, do que os que participaram de atividades repressivas naquele contexto. 

IHU On-Line – Em relação ao Brasil, o senhor é a favor ou contra a abertura dos arquivos da ditadura?

Sérgio Braga – A favor da abertura de todos os arquivos, inclusive das antigas ditaduras de partido único do Leste Europeu e de outras partes.  Devem-se abrir todos os arquivos de todos os governos autoritários, pregressos e futuros. Afinal, os militares são também funcionários públicos, pagos com os recursos da extraídos da sociedade e devem prestar contas de seus atos a ela. Inclusive tudo, ou pelo menos a maior parte das informações relevantes, pode inclusive ser colocado na internet, como fez a CIA recentemente. Ao que parece, já há tecnologia para isso...

IHU On-Line – E, para finalizar, qual a importância de analisarmos a figura de Allende hoje?

Sérgio Braga – A importância deve-se ao fato de que através dos sucessos e fracassos de seu governo podemos tematizar todas as questões acima. De uma maneira geral, o legado de Allende é positivo e sua trajetória um exemplo para as gerações futuras. Mesmo Pinochet, um tirano genocida, mas pragmático, reconheceu aspectos positivos de seu antecessor: apesar de orientado por um ódio insano às forças progressistas, não rasgava dinheiro. E optou por não privatizar as minas de cobre nacionalizadas por Allende, não obstante declarar-se adepto do “livre mercado” para seus patrões do norte, com o objetivo evidente de obter financiamento e consultoria econômica a baixo custo de seus pares ideológicos.

Notas:

[1] Augusto Pinochet foi um general do exército chileno, presidente do Chile e posteriormente senador vitalício de seu país. Cargo este que foi criado exclusivamente para ele, por ter sido um ex-governante de seu país. Governou o Chile entre 1973 e 1990, com poderes de ditador, depois de liderar um golpe militar que derrubou o governo do presidente socialista legalmente eleito, Salvador Allende.

[2] Fidel Castro é o primeiro-secretário do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba e presidente dos Conselhos de Estado de Cuba. Para seus defensores, Castro teria representado o herói de uma revolução social e a garantia de repartição eqüitativa da riqueza no país, devido a sua política socialista. Para seus adversários, internos e externos, no entanto, Castro foi um líder de regime ditatorial baseado numa política de partido único. Foi um líder bastante contestado e também admirado internacionalmente, principalmente pela sua ideológica e forte resistência às influências comerciais e sociológicas dos Estados Unidos.

[3] Michelle Bachelet é uma médica pediatra e política chilena, atual presidente de seu país, e a partir de 23 de maio de 2008, é também presidente da União de Nações Sul-Americanas. Membro do Partido Socialista do Chile, ocupou o lugar de ministra da Saúde no governo de Ricardo Lagos entre 2000 e 2002, e posteriormente o cargo de Ministra da Defesa, tendo sido a primeira mulher a exercer este cargo na América Latina. Foi eleita Presidente do Chile para um mandato de 2006-2010, sucedendo ao ex-presidente Ricardo Lagos. Também aqui é a primeira mulher a ascender ao lugar cimeiro na hierarquia do Estado, na América do Sul.

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