A crise gaúcha. O descompasso entre a realidade e o imaginário cultural. Entrevista especial com Tau Golin

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28 Junho 2008

Ao analisar a crise política gaúcha a partir das bases históricas e culturais do estado do Rio Grande do Sul, o jornalista Luiz Carlos Tau Golin identifica atualmente uma “esfera política mais realista”.

E explica sua posição: “Atualmente, com as instituições mais transparentes, com uma idéia do público, parece estarmos em um processo decadente, quando, na verdade, o que está ocorrendo é um fenômeno mais distinto entre o público e o privado, sem que o poder possa controlar mais absolutamente os meios de divulgação. Em especial, com a internet, aquilo que se tinha como ‘os eventos’, as ‘fontes’, ou simplesmente ‘as minorias’ puderam multiplicar seus discursos e chegarem ao público. O que o Rio Grande do Sul teve foi a ascensão de outros representantes políticos, perdendo a exclusividade do poder econômico e intelectual nos parlamentos e executivos. Essa democratização incluiu quadros nem sempre afeitos aos rituais, aos salamaleques hipócritas dos poderes”.

Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Tau Golin afirma ainda que “a configuração dos partidos contemporâneos, seus tipos humanos, de militância profissional de amplas camadas advindas de organizações subalternas, sem erudição política, talvez seja um dos elementos da crise aliada à falta de propositura histórica para o conjunto da população pelas elites tradicionais, carreiristas e acadêmicas, que não incorporaram em seus projetos plataformas ‘de destino coletivo’”.

Graduado em História, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Tau Golin é mestre em História do Brasil, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, e doutor em História, pela mesma instituição. É também mestre em navegação pela Marinha do Brasil e professor de Vela pela International Sailing Federation (Federação Internacional de Vela). Atualmente, é professor da Universidade de Passo Fundo.

É autor de, entre outros, A ideologia do gauchismo (4. ed. Porto Alegre: Tchê!, 1983), Por baixo do poncho: contribuição à crítica da cultura gauchesca (Porto Alegre: Tchê!, 1987) e O povo do pampa (Porto Alegre: Sulina; Passo Fundo: UPF Editora, 1999). É um dos autores do “Manifesto contra o Tradicionalismo”, reflexões sobre o movimento tradicionalista na sociedade gaúcha.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Pensando na identidade do povo gaúcho, o que emerge da crise política que estamos vivendo? A imagem de retidão que o Rio Grande do Sul sempre carregou está colocada em xeque?

Tau Golin - Tenho a impressão que a imagem está se adequando à realidade. As elites políticas do Rio Grande do Sul sempre souberam aparecer ao povo como entes emblemáticos, como tipos especiais, defensores do passado e condutores ao futuro. Historicamente, a profunda clivagem da oligarquia produziu, no mínimo, três guerras civis sanguinárias, sem que as convenções de honra tivessem muito espaço. Sem contar as escaramuças, atos de banditismo e violência. A degola constituiu o emblema do arrivismo rio-grandense. No entanto, senhores da educação, da cultura e, mais tarde, dos meios de comunicação, sempre se auto-representaram como figuras da moralidade, como tipos diferentes do restante do Brasil; especialmente do nordeste execrado. As elites do sul exorcizaram as demais em uma trama muito bem urdida para construir suposta moralidade pessoal e das instituições que criaram. Quanto pior os outros eram pintados, mais “nobres” seriam...

Tudo isso sempre foi um jogo de cena para consumo interno. As elites sulinas estiveram no cenário nacional e, no interno, nunca deixaram de cometer barbaridades, usarem o poder e transitarem entre o público e o privado como se fossem espaços exclusivos de seus interesses. Atualmente, com as instituições mais transparentes, com uma idéia do público, parece estarmos em um processo decadente, quando, na verdade, o que está ocorrendo é um fenômeno mais distinto entre o público e o privado, sem que o poder possa controlar mais absolutamente os meios de divulgação. Em especial, com a internet, aquilo que se tinha como “os eventos”, as “fontes”, ou simplesmente “as minorias” puderam multiplicar seus discursos e chegarem ao público. O que o Rio Grande do Sul teve foi a ascensão de outros representantes políticos, perdendo a exclusividade do poder econômico e intelectual nos parlamentos e executivos. Essa democratização incluiu quadros nem sempre afeitos aos rituais, aos salamaleques hipócritas dos poderes. A esfera política ficou mais realista...    

IHU On-Line - A forma de fazer política no Rio Grande do Sul ainda guarda resquícios da tradição histórica castilhista? Como entender que chegamos a uma crise política como a atual após termos formado tantas grandes lideranças nacionais?

Tau Golin - O castilhismo, em muitos aspectos, foi um movimento modernizador conduzido por práticas caudilhescas (quando não pelo banditismo). A fraude foi a sua prática. Não me parece que se deva comemorar tais modelos. A intolerância, com práticas violentas, foi a tônica da República Velha, de onde foram retiradas as figuras emblemáticas para comemoração, os modelos propagandeados pela mídia. O estado ainda possui, de certa forma, um imaginário de antagonismo chimango-maragato. Esta bipolaridade não diz mais nada, é um certo saudosismo escapista. As forças modernizadoras coercitivas do passado deveriam ser substituídas por partidos dirigidos por estadistas, com pessoas capazes de certo pragmatismo esclarecido. Entretanto, a configuração dos partidos contemporâneos (seria impróprio para eles o conceito de “moderno”), seus tipos humanos, de militância profissional de amplas camadas advindas de organizações subalternas, sem erudição política, talvez seja um dos elementos da crise aliada à falta de propositura histórica para o conjunto da população pelas elites tradicionais, carreiristas e acadêmicas, que não incorporaram, em seus projetos, plataformas “de destino coletivo”. Basta olhar os senhores e senhoras do poder para não se esperar algo transcendental, pois, como rebentos dos modelos existentes, são incapazes do fogo da moralidade e da convivência, são acéfalos de utopia. Existe uma lógica de resultado e compensação chancelada pelo clientelismo. Ou seja, o “democratismo” funciona pelos postos de controle dos votos e não pela qualidade dos programas. É uma ditadura aritmética, de domínio dos subalternos, dos medíocres e dos corruptos. É como se as posições já estivessem preestabelecidas, sem muita margem para outras alternativas, sem segmentos políticos que pudessem mudar o jogo.

IHU On-Line - A partir das concepções do tradicionalismo e do gauchismo, como os gaúchos e gaúchas sentem-se em seu estado hoje, considerando as transformações recentemente ocorridas, de forma geral?

Tau Golin - Estão em êxtase! A crise fortalece os modelos hipotéticos e dogmáticos. Enfim, os caudilhos ressuscitaram e estão entre nós como ícones. Com o sentimento de falência, podem ser venerados nos oratórios da tradição como tipos ideais. Toma-se o discurso pela realidade e, assim, segue o Rio Grande, altivo, orgulhoso, cultuando arquétipos inventados e sem qualquer influência concreta na complexidade do mundo contemporâneo, exceto como artefato da indústria cultural.

IHU On-Line - Como entender que a maioria dos gaúchos aprovou a atitude do vice-governador, Paulo Feijó de gravar e tornar pública uma conversa telefônica?

Tau Golin - Talvez o desejo de transparência não considere muito os aspectos éticos. Se entre aliados a coisa corre desse modo... A população está movida pelo sentimento iconoclasta. Quer ver o poder pegar fogo. Isto está conduzindo a uma maioria apolítica, o que é muito perigoso, pois as sociedades modernas precisam mediar suas contradições na esfera política.

IHU On-Line - Qual é a sua opinião sobre a estrutura político-partidária do Rio Grande do Sul hoje, considerando as alianças que têm ocorrido entre alguns partidos?

Tau Golin - Os partidos estão tomados por indivíduos médios e, invariavelmente, incultos, mas dotados de uma ambição tremenda, com um faro carreirista e um cálculo oportunista impressionante. Eles conseguiram criar cargos que contemplam grande parte dos militantes e corporativistas partidários. Enquanto não se evoluir para um estado profissional, com planos de carreiras e critérios de responsabilização, os poderes permanecerão demasiadamente partidarizados, com lógica perversa. O dilema é que os partidos consideram que somente conseguem governar com os militantes, que o funcionalismo não é confiável, isto porque os “funcionários”, em grande medida, foram indicados partidariamente. São cabos eleitorais empregados, dispostos a minar as medidas de governo quando não são de seus correligionários. Como os órgãos públicos estão partidarizados, são partilhados pelos partidos, isso provoca também um efeito devastador no funcionalismo de carreira, pois os planos, os cargos, as chefias, as recompensas invariavelmente não seguem critérios normativos. Tudo isso conduz a uma baixa consciência sobre o “público”, de visão estratégica de Estado, que passa a ser algo intermediário, um espaço a ser usado para outros interesses.

IHU On-Line - Como a mídia gaúcha e nacional tem contribuído para o sentimento de crise que assola o povo gaúcho?

Tau Golin - A mídia local é xenófoba. Publicizar a crise parece ser uma vergonha, quase uma traição ao Rio Grande. Ao invés de debater seriamente a crise, existe o amaldicionamento daqueles que levantam os problemas, como se fosse algo que tivesse que ser tratado em âmbito privado, apenas por alguns pretensos “iluminados”. Aqueles que tocam nas dificuldades do estado são execrados. As "nossas coisas" são intocáveis, no jargão cotidiano. Existe um discurso de estado sacralizado, que produz a maldição daqueles que discutem seus dilemas mais radicalmente, apontando questões estruturais.

IHU On-Line - Quais são as origens históricas para entender o Rio Grande do Sul hoje?

Tau Golin - O sentimento de decadência gaúcha tem sua origem nos anos 1950. O último grande pacto sulino ocorrera na revolução de 1930. A realidade pré-ditadura militar era de profunda clivagem. Os anos de chumbo, sob os coturnos dos generais gaúchos, aprofundou a separação dos dois blocos, radicalizou a impossibilidade de consensos. A bipartidarização aprofundou o abismo entre os dois blocos. Acentuou-se aí um sentimento de que as elites não eram capazes de utilizarem as potencialidades, as excelências de povo e território. O êxodo das populações mandadas para as fronteiras agrícolas, em especial, significou a inexistência de soluções internas. Teve a força de uma sentença, a de que o Rio Grande era incapaz de dar um destino ao conjunto do povo. É curioso que a impotência ampliou os delírios gauchescos, a xenofobia de uma grandeza que passou a desprezar o restante do país, em especial um ódio destinado a São Paulo e ao Nordeste.

Chegando aos dias atuais, o Rio Grande do Sul começa a pagar o preço pelo descompasso entre a realidade e o seu imaginário cultural. A representação dominante funciona como uma espécie de ilusão que impede a consciência sobre o seu tempo. Produziu-se a contradição de uma hegemonia identitária tradicional em uma sociedade moderna em muitos aspectos, integrada ao capitalismo internacional, com agronegócios e industrialização pesada e grande movimentação de capitais. Este universo possui dificuldades que necessitam de linguagens, metodologias adequadas aos seus fenômenos. Mas as elites ainda olham para o estado como se fosse uma estância e estivessem montados sobre um cavalo.

Para muitos, a crise ainda está circunscrita a uma matriz histórica, tradicional. Não compreendem a sua amplitude e aspectos globalizantes. Eu diria que, de certo modo, o espectro identitário tradicional, hoje transformado em indústria cultural, reproduzindo-se fora do mundo concreto, provoca uma ilusão coletiva e dificulta a escolha de alternativas. Este imaginário transformou-se em dissimulador da sociedade real. É mais um complicante da crise, pois toma-se um Rio Grande fictício como paradigma, quando a metodologia mais eficiente para o planejamento pressupõe o diagnóstico realista, a percepção concreta da realidade.

Talvez o exemplo mais contundente disso seja a oficialização de uma cultura tradicionalista sustentada por funcionários públicos e por verbas públicas, convertendo-se em civismo imposto ao conjunto da sociedade. Seria como dizer que os gestores estão fora do mundo, sua utopia, sua idealização social está no passado. Uma das condições intransponíveis para qualquer projeto é contar com um estado que opere como nova força transformadora, de superação e construção do futuro. A partidarização do Estado e o civismo dominado pela tradicionalidade transformaram-se em amarras poderosas.

Não existe perspectiva animadora fora de um Estado profissional, com um funcionalismo de carreira e responsabilizado pelas suas ações. A partidarização da máquina pública, aliada à terceirização dos serviços, é a progenitora da corrupção. De outro lado, dentro do marco da globalização e das disputas inter-regionais, qualquer movimento de destino, de qualidade de vida, depende de programas consensuais entre os partidos e as forças econômicas. Pelos últimos acontecimentos, consensos não estão no horizonte político. O pessimismo continua...

 

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