Política e violência. Onde os movimentos sociais devem estar? Entrevista especial com Gabriel de Santis Feltran

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13 Maio 2008

Como os movimentos sociais podem contribuir para a ressocialização dos adolescentes em situação de medida socioeducativa? Para Gabriel de Santis Feltran, os movimentos sociais precisam partir para defender e reorganizar o mundo desses adolescentes a partir de uma luta discursiva. Nessa entrevista que segue, concedida à IHU On-Line por telefone, Feltran fala do protagonismo e do desenvolvimento dos movimentos sociais nessa área, além de analisar a forma como hoje, depois de tantos períodos importantes pelos quais passaram, eles deveriam atuar para defender esse grupo tão vulnerável. “Os movimentos sociais sofrem e não estão funcionando como nos anos 1980. Mas eles são atores importantíssimos e responsáveis pelo alargamento da democracia brasileira para além do mundo das instituições. Se eles não conseguem funcionar mais, é porque existe pouco espaço público e para a ação política”, disse.

Gabriel de Santis Feltran é mestre em Ciência Política e doutor em Ciências Sociais, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É autor de Desvelar a política na periferia: histórias de movimentos sociais em São Paulo (São Paulo: Associação Editorial Humanitas (FFLCH/USP) / FAPESP, 2005).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Você diz que a democracia já fez com que o campo político avançasse bastante, porém ainda não conseguiu diminuir com as desigualdades. Somado ao neoliberalismo, inclusive, a desigualdade apenas aumentou. De que forma, em sua opinião, e pensando em sua tese, os movimentos sociais precisam se envolver nessa problemática para resolver essa questão?

Gabriel de Santis Feltran – Meu estudo se concentrou nos movimentos sociais que atuam na periferia de São Paulo, fazendo uma relação com várias periferias do Brasil e movimentos sociais. Trabalhei com movimentos de favelados e de desenvolvimento de moradia e, ainda, com um centro de defesa de direitos humanos de crianças e adolescentes. Não é possível jogar fora todo o avanço que a democracia teve no país nos últimos 20 anos, mas não é possível acreditar que vivamos num país democrático. Não podemos acreditar que estejamos num país onde todo mundo tem direitos e acessos a serviços etc. No plano político, tivemos uma série de avanços: não vivemos numa ditadura, a imprensa é livre, há eleições diretas, há participação social, enfim, uma série de coisas. No entanto, por outro lado, existe muita violência contra um setor específico da população, que é justamente aquela que precisa mais dos direitos fundamentais. No entanto, eu, nesse trabalho, não entro nesse debate mais amplo do neoliberalismo.

Movimentos sociais

Eu acredito que os movimentos sociais precisem fazer o que têm feito: problematizar as desigualdades e trazê-las como discurso para o espaço público. Os movimentos tentam e lutam para ter estatuto político. A vida toda eles tentaram ser atores políticos. São movimentos que estão no seio da sociedade e querem uma voz no espaço público. É isso que eles têm feito e é isso que precisam continuar a fazer.

Os movimentos sociais sofrem e não estão funcionando como nos anos 1980. Mas eles são atores importantíssimos e responsáveis pelo alargamento da democracia brasileira para além do mundo das instituições. Se eles não conseguem funcionar mais, é porque existe pouco espaço público e pouco espaço para a ação política.

IHU On-Line – E o que precisa ser feito para que esse espaço aumente?

Gabriel de Santis Feltran – A meu ver, é preciso haver mais conflitos. Eu sou favorável àqueles surgidos sob o ponto de vista discursivo. Os movimentos sociais não podem ser subalternos a atores mais centrais do campo político. Eles foram muito importantes na década de 1980 para pautar o discurso público num processo de abertura democrática. Nos anos 1990, passaram pelo período de inserção social, em razão de atuarem muito próximos de governos e partidos de esquerda. Esse processo agora tem sido repensado pelos próprios movimentos, porque eles têm visto os limites de atuarem inseridos apenas na máquina governamental. Então, em qualquer movimento social, seja ele pequeno ou grande, tal discussão é feita. Por um lado, eles precisam estar perto de governos para garantirem mais recursos, mas, por outro lado, quando eles percebem que estão nesse mundo das instituições, eles vêem que estão subalternos às instituições oficiais e não estão sendo protagonistas.

IHU On-Line – De que forma você acompanhou os movimentos sociais voltados à defesa dos direitos de crianças e adolescentes?

Gabriel de Santis Feltran – Eu fiz um trabalho a que chamamos de etnografia, que é uma pesquisa qualitativa de acompanhamento das rotinas desses movimentos, com a realização de uma série de entrevistas em profundidade. Eu passei por dois momentos de pesquisa empírica. Em primeiro lugar, pesquisei famílias de adolescentes e crianças que possuem diferentes formas de envolvimento com o mundo do crime. Em segundo lugar, investiguei uma organização que atendia esses adolescentes. Essa entidade com a qual trabalhei acompanhava aqueles que estavam cumprindo uma medida socioeducativa num formato de liberdade assistida.

IHU On-Line – De que forma os movimentos sociais pensam o conceito de “bandidos”?

Gabriel de Santis Feltran – Os movimentos não utilizam essa palavra. Quem utiliza é a sociedade. Os movimentos sociais tentam desvincular um ato cometido pela pessoa comete de uma condição. Então, por exemplo, se você nada uma vez na vida não significa que você seja uma nadadora. Então, se você rouba uma vez na vida não significa que seja um bandido, especialmente se você é um adolescente experimentando uma série de coisas e vive com uma certa dificuldade que levam a isso. O estigma que essa palavra carrega é muito pesada, por isso os movimentos não a utilizam.

IHU On-Line – O que é preciso fazer, em sua opinião, para que as pessoas que vivem à margem da sociedade possam ter o direito de subir na hierarquia social?

Gabriel de Santis Feltran – O atendimento dessa instituição que estudei é um bom exemplo do que precisa ser feito. Ela trabalha em três frentes diferentes. Uma primeira frente é a das atividades de socialização dos adolescentes para tentar refazer os vínculos deles com a escola, com o trabalho, com o grupo. Numa segunda frente, existe o trabalho com a família dos adolescentes. É preciso voltar a se estabelecer condições para essa família receba tal adolescente, a fim de que não piore o estigma que ele já está carregando por já ter sido preso. E, numa terceira frente, há o trabalho com a defesa jurídica dos direitos, pois, então, os adolescentes têm advogados que acompanham seus problemas e fazem sua defesa no mundo jurídico.

IHU On-Line – De que forma o adolescente, nessa situação que você descreveu, vê o mundo do trabalho?

Gabriel de Santis Feltran – Ele vê como algo que está distante e tem dificuldade de acessar. Muitas vezes, ele tem escolaridade baixa e, por isso, se sente com dificuldade de compreender esse trabalho. Possui dificuldade até mesmo de fazer um currículo. Então, o mundo do trabalho a que estamos acostumados é muito distante do mundo desse adolescente.

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