"Um 1º de maio getulista em plena era lulista" Entrevista especial com Ricardo Antunes

Revista ihu on-line

A fagocitose do capital e as possibilidades de uma economia que faz viver e não mata

Edição: 537

Leia mais

Juventudes. Protagonismos, transformações e futuro

Edição: 536

Leia mais

No Brasil das reformas, retrocessos no mundo do trabalho

Edição: 535

Leia mais

Mais Lidos

  • Foto de um pai e sua filha afogados na fronteira mexicana ilustra drama migratório

    LER MAIS
  • A justiça social é mais importante para evitar doenças mentais do que medicamentos, afirma relator de saúde da ONU

    LER MAIS
  • A Igreja é contra a Reforma da Previdência

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

26 Abril 2008

“A individualização das relações de trabalho, a busca por participação dos lucros das empresas e a tendência de quebrar o espírito de solidariedade de classe são tentativas do capital para desestruturar e fragmentar ainda mais a classe trabalhadora.” A opinião é de Ricardo Antunes, sociólogo. Ao comentar uma possível reforma trabalhista, ele reforça que os capitais pretendem destruir os direitos conquistados entre as décadas de 1930 e 1970.

Em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line, Antunes compara o governo atual com a era getulista e afirma que o “neodesenvolvimento atual é mais regressivo do que foi no passado, quando ainda tinha um certo sentido industrial”. Ao criticar a relação entre as centrais sindicais e o governo, o pesquisador ironiza, dizendo que, no 1º de maio deste ano, a CUT e a Força Sindical vão transformar o dia do trabalhador num “dia de festa de pão e circo”.

Ricardo Antunes é Professor Titular de Sociologia no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP. Foi Visiting Research Fellow  na Universidade de SUSSEX, Inglaterra. Doutorou-se em Sociologia, pela Universidade de São Paulo (USP) e fez mestrado em Ciência Política no IFCH-UNICAMP. Publicou, dentre outros livros: Adeus ao trabalho? (12 . ed., Ed. Cortez, publicado também na Itália, Espanha, Argentina, Colômbia, Venezuela e México), Os sentidos do trabalho (9. ed. São Paulo: Boitempo, publicado também na Argentina e Itália) e Riqueza e miséria do trabalho no Brasil (São Paulo: Boitempo, 2007).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O senhor concorda com a teoria de que estamos passando de um modelo fordista para o pós-fordista? Ou o que ocorre é uma reestruturação desses modelos nos novos postos de trabalho?

Ricardo Antunes – Essa é uma questão complexa. No século XX, o capitalismo teve uma forma produtiva dominante dada pelo binômio taylorismo/fordismo. Embora esses sejam movimentos distintos, eles (taylorismo e fordismo) realizaram um “casamento feliz” para o capitalismo. O controle do cronômetro e a gerência científica, ambos oriundos do taylorismo, se fundiram e iniciaram a produção em série de massa fordista.

Para se manter, devido à crise estrutural que aflorou entre 1968 e 1973, o capitalismo precisou buscar formas produtivas alternativas que procurassem suprir alguns dos seus limites mais profundos, presentes no taylorismo/fordismo. Fundamentalmente, o sistema de capital precisava de um padrão de produção mais flexível, “enxuto”, atrelado ao mercado consumidor, de modo que fosse possível se contrapor às crises de superprodução. Assim, buscou-se um modelo de produção mais fundamentado no avanço da maquinaria informacional e capaz de desestruturar a força coletiva presente na figura do operário-massa, que marcou as lutas sociais durante o período do taylorismo e do fordismo.

Foi quando o capitalismo ocidental encontrou e experimentou o toyotismo no Japão, oriundo da Toyota, do Pós-Segunda Guerra. Ele conheceu também o exemplo da terceira Itália, no norte da Itália, com empresas flexíveis como a Benetton, entre tantas outras reestruturações produtivas que estavam ocorrendo. Esses novos projetos de produção dentro do capitalismo assumiram a forma da empresa flexível, na qual o toyotismo teve o maior impacto. Entretanto, no Japão, ele apresentou traços particulares. A sua “ocidentalização” se deu através de diversas adaptações. Cito como exemplo o emprego vitalício que o sistema Toyota preserva no Oriente e que jamais foi determinante no Ocidente.

A chamada empresa de tipo flexível tem elementos de continuidade em relação ao fordismo, mas apresentam também claros elementos de descontinuidade. Diria que, ainda que o fordismo e o taylorismo tenham presença em várias partes do planeta e tenham marcado características que irão continuar no mundo produtivo de serviços, todas as empresas capitalistas modernas existentes hoje devem utilizar elementos pós-fordistas e pós-tayloristas. Há empresas e ramos que ainda são muito tayloristas/fordistas, mas todas elas devem assimilar elementos como just in time, Kanban, círculo de qualidade e processo qualitativo total. Esses elementos são típicos do toyotismo e de outros elementos flexíveis distintos da era taylorista/fordista.

IHU On-Line – O senhor afirma que presenciamos uma clara hibridez entre formas remanescentes do fordismo/taylorismo com elementos oriundos do chamado toyotismo. O que tem mudado no mundo do trabalho a partir dessa hibridez?

Ricardo Antunes – Tem mudado muita coisa. A Volkswagen do Brasil chegou a ter, no início dos anos 1980, mais de 40 mil trabalhadores. Hoje, a empresa tem bem menos que 20 mil. Uma planta como a Volkswagen do ABC, que era uma fábrica-cidade operária, hoje, tem áreas completamente vazias, porque para a empresa capitalista moderna não faz sentido manter uma empresa com 40 mil trabalhadores dentro de uma única unidade produtiva. Então, a Volkswagen tem uma planta em Rezende, onde muitos trabalhadores são terceirizados. Quais são as conseqüências desse processo? A classe trabalhadora não é mais formada por operários especializados do tipo taylorista/fordista, e sim por trabalhadores chamados de “polivalentes”, “multifuncionais” que trabalham em equipe, vivem uma intensa exploração do trabalho – também se vivia essa exploração na época taylorista/fordista -, mas hoje ela é marcada por uma competição interequipes e células de trabalhos. A individualização das relações de trabalho, a busca por participação dos lucros das empresas, a tendência de quebrar o espírito de solidariedade de classe e a restrição para a atuação do sindicato combativo dentro da fábrica são tentativas do capital para desestruturar e desorganizar ainda mais a classe trabalhadora. Essa é a principal conseqüência negativa de tais mudanças. Com essa atitude, surge a idéia falaciosa de que os trabalhadores não são mais operários e sim “colaboradores”, “parceiros”, “consultores”. Isso visa a dissimular a contradição que existe entre a totalidade do trabalho social, de um lado, e a totalidade do capital, de outro.

IHU On-Line – Ao falar sobre a morfologia do trabalho no Brasil, o senhor constatou que não há mais uma precarização circunstancial, e sim uma precarização estrutural do trabalho. Há que o senhor atribui essa mudança?

Ricardo Antunes – O livro coletivo chamado Riqueza e miséria do trabalho no Brasil, que publicamos no ano passado pela editora Boitempo, nos permitiu chegar à conclusão de que temos várias formas de precarização. O mundo do capital, em razão de sua lógica de competitividade global, tem uma tendência destrutiva. Esta minha tese – da precarização estrutural do trabalho em escala global – é conseqüência da lógica destrutiva do capital hoje vigente, dos Estados Unidos à China; e, dentre dessa lógica, a precarização do trabalho deixou de ser uma manifestação contingente para se tornar numa manifestação perene.

Exemplo gaúcho

A região do Vale do Sinos, por exemplo, que até há uma década e meia tinha um forte parque produtivo da indústria de calçados, perdeu espaço para a concorrência mundial, indiana, asiática, chinesa. Muitas das plantas que existiam no Rio Grande do Sul foram transferidas para o Nordeste em busca de trabalho com menor nível de remuneração e de organização de classe. Além disso, várias dessas unidades já migraram para a China, em busca de uma ainda maior exploração do trabalho. A precarização de 800 milhões de trabalhadores que compõem a população economicamente ativa da China mostra que os capitalistas, em escala mundial, não querem mais explorar no padrão mexicano, brasileiro ou latino-americano. Eles querem um patamar de exploração global de trabalho que atinja o patamar mais baixo dado pelo salário nominal do trabalho chinês (ainda que desconsiderem as diferentes condições de vida em cada país).

IHU On-Line - Nesse cenário de precarização do trabalho, a legislação trabalhista precisa ser reformulada?

Ricardo Antunes – Os capitais querem reformar a legislação trabalhista porque pretendem destruir ainda mais os direitos do trabalho. Há uma tendência global dos capitais em destruir a legislação do trabalho que foi conquistada entre os anos 1930 e 1970 do século passado. Em países como o Brasil, durante o getulismo e, na Argentina, com o peronismo, conseguiu-se, por meio da luta operária, um patamar de conquistas sociais. No caso brasileiro, os direitos trabalhistas estão consubstanciados na CLT. Entretanto, cabe lembrar que a CLT precisa ser vista com dupla face. Por um lado, ela consubstanciou avanços nos direitos do trabalho, como o descanso semanal remunerado, férias, décimo terceiro etc. Por outro lado, ela é altamente nefasta porque subordina os sindicatos ao Estado.

Para os trabalhadores, não é conveniente alterar a legislação trabalhista agora, no que diz respeito aos direitos do trabalho, porque seria uma alteração comandada pelos interesses dos capitais e para pior. A única mudança que interessa à classe trabalhadora é manter as conquistas atuais e avançar para uma vida dotada de maior sentido dentro e fora do trabalho. Se a jornada de trabalho é de 8 horas por dia, eles devem lutar para reduzir a carga horária para 6, 5, 4 horas, sem redução de salário e sem perda de direitos. Até porque nós sabemos que, com o patamar tecnológico atingido pelo capitalismo nas últimas décadas, seria possível trabalhar quatro horas diárias, três dias por semana, tendo um tempo plenamente livre muito maior do que o tempo que temos hoje. E este tempo, diga-se de passagem, “não é livre”, pois, no tempo de “não-trabalho”, os trabalhadores se martirizam para se qualificarem e não perderem o emprego. As barreiras entre o tempo de trabalho fora e dentro de casa estão mais nubladas.

O banco de horas

IHU On-Line – Hoje, as pessoas trabalham muito mais do que 8 horas por dia. Como ficam as relações entre os trabalhadores e trabalhadores x empresas nesse novo contexto? Os direitos estão previstos na lei, mas como aplicar essa lei às empresas, beneficiando o trabalhador?

Ricardo Antunes – Aqui, temos dois desafios muito importantes. Desde os anos 1970, vivemos o que Octávio Ianni chamou uma “contra-revolução burguesa de amplitude global”, responsável pela destruição de postos de trabalho. O primeiro patamar de luta é resistir para que essas imposições do capital sejam rechaçadas. Na década de 1990, entrou no Brasil, de forma pesada, o banco de horas. Alguns sindicatos aceitaram e outros recusaram essa negociação/imposição, porque perceberam que isso era uma forma de fraudar a jornada de trabalho regulamentada. Em segundo lugar, devemos compreender o que venho denominando como a nova morfologia do trabalho. E, a partir daí, reorganizar a luta em defesa da totalidade do trabalho contra a totalidade do capital.

Dou um exemplo simples, no plano sindical: na indústria de Franca, em São Paulo, por exemplo, havia uma enorme transferência de trabalho das empresas para as casas. Dentro das residências, as mulheres costuravam sapatos e pediam ajuda dos filhos. Isso ampliou ainda mais a exploração do trabalho feminino e infantil. Sabe o que o sindicato dos trabalhadores fez? Combateu a terceirização e o Ministério público do trabalho passou a restringir a terceirização. Isso é uma forma de luta, diferente de se aceitar a flexibilização. O princípio não é flexibilizar para perder direitos, mas, sim, alterar a legislação trabalhista, a fim de conquistar novos direitos.

A média de vida dos trabalhadores da cana-de-açúcar, por exemplo, está menor do que o da época da escravidão, segundo algumas pesquisas. Isso nos obriga a ter uma legislação que impeça essa degradação do trabalho. Estamos percebendo, numa escala global, uma ressurreição do trabalho escravo e semi-escravo. Essa precarização caminha por todas as áreas do trabalho. Dou outro exemplo, em outro plano. No ano passado, ocorreram cerca de cinco ou seis suicídios de gestores da Renault na França, porque eles eram responsabilizados por projetos fracassados. Se um projeto novo fracassa, os seus organizadores são considerados responsáveis.

Quero dizer, então, que entramos num mundo do trabalho pendular, que oscila entre a perenidade e a superfruição do trabalho. Do lado da perenidade, cada vez menos homens e mulheres trabalham muito, com uma jornada ilimitada, às vezes chegando a 16 horas por dia. Do outro lado desse pêndulo, a superfluidade, onde encontramos cenas degradantes em que as pessoas precisam trabalhar em cinco ou seis empregos para ter um salário que não corresponde a uma vida digna. No final de tal pêndulo, temos ainda o desemprego estrutural. Como combater esse cenário? Não se pode permitir que os trabalhadores/as vivam a exaustão do trabalho. Me recordo aqui da bandeira de 1968: “Chega de perder a vida pensando em ganhá-la”. Pensa-se em trabalhar, trabalhar, trabalhar, para um dia se viver bem, o que nunca ocorre! Chega de viver a exaustão do trabalho, porque a vida pode ter sentido fora do trabalho se for dotada de sentido dentro do trabalho. No menor tempo possível no trabalho para viver a fruição plena fora do trabalho. O que supõe romper o sistema de metabolismo social  do capital, para lembrar Mészáros. O que também repõe, decisivamente, a questão do socialismo em pleno século XXI.

IHU On-Line - Como o senhor percebe a negociação para a aprovação da emenda constitucional que reduz a jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas semanais? E, no que se refere à ratificação da Convenção 158 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), qual é a sua avaliação?

Ricardo Antunes – A redução da jornada de trabalho é uma bandeira decisiva. Fundamentalmente, ela consegue unir os que estão empregados com os que não estão.  Reduzindo a jornada dos que trabalham, se abre espaço para os que não trabalham. Assim, essa iniciativa articula duas bandeiras decisivas: o direito ao trabalho em tempo reduzido e o controle do tempo no trabalho e fora dele. E permite outra reflexão central: a classe trabalhadora pode se questionar, “produzir o que e para quem?” E, então, os trabalhadores estarão confrontando um dos pilares centrais do sistema de metabolismo social do capital.

Há alguns anos, o governo francês decretou a redução da jornada de trabalho. A partir desse período, se iniciou um embate pesado entre as forças do capital e do trabalho. As forças sócias do trabalho atuavam no sentido de preservar e reduzir a jornada de trabalho e as forças do capital defendiam a ampliação da carga horária. Sempre que os trabalhadores tentarem reduzir a jornada de trabalho, os capitais irão querer compensar isso com outras medidas. Por isso, é preciso que o movimento dos trabalhadores saiba que qualquer avanço efetivo encontrará, por parte dos capitais, resistências muito fortes. Se formos pensar no que pode acontecer negativamente a partir de uma luta, não daríamos passo nenhum.

IHU On-Line – Como o senhor percebe a atuação das centrais sindicais atualmente? Qual é a sua avaliação da relação delas com o governo?

Ricardo Antunes – Percebo tristemente um processo de reestatização dos sindicatos brasileiros, principalmente a partir das centrais sindicais dominantes. O sindicalismo pelego, estatista, criado em 1931 com Getúlio Vargas, perdurou fortemente até a Constituição de 46 e se manteve no decorrer das décadas seguintes. Em 1964, com o golpe militar, foi ainda mais intensificada a subordinação dos sindicatos ao estado. Na Constituição de 88, uma parte da estrutura sindical foi liberalizada, mas ainda se mantiveram alguns pilares que subordinavam os sindicatos ao Estado.

Recentemente, o governo Lula tomou uma decisão muito nefasta, acentuando o que eu chamo de neogetulismo da era lulista. As centrais sindicais garantiram o direito de abocanharem o imposto sindical. Todos sabemos que, quando a CUT surgiu, ela era contra o imposto. Ao contrário, a Força Sindical sempre foi favorável, já que nasceu como a variante de uma mescla de neopeleguismo e neoliberalismo no sindicalismo, criando o chamado “sindicalismo de negócios”.

Na recente medida aprovada pelo governo, as centrais foram legalizadas, o que é positivo, mas elas passam a ter direito ao imposto sindical, o que é muito nefasto. Isso significa que elas podem viver no limite com recursos estatais, do FAT e do imposto sindical, sem terem sindicatos e trabalhadores voluntariamente associados. Lula fez, a partir do momento que chegou ao poder, uma sábia política de cooptação da que foi a mais importante sindical brasileira, a CUT, que aceitou a condição de ser muito mais parceira do governo do que defensora dos trabalhadores. A Força Sindical sempre se encosta no governo, esse é seu traço peleguista  sempre presente. Por outro lado, é importante deixar claro que há centrais que resistem. Uma parte importante da CUT formou a Conlutas (Coordenação Nacional das Lutas), e outra parte formou a Intersindical. Ou seja, a CUT se tornou uma central cupulista, verticalizada, dependente do estado, oscilando entre a socialdemocracia e o neoliberalismo. E o estatismo sindical, através também dos líderes sindicais cooptados pelo Estado é o caminho certo da servidão dos sindicatos aos interesses do Estado e do capital.

1º de maio

A CUT e a Força Sindical, disputando os artistas mais populares, farão do 1º de maio, que nasceu como uma data de luta e defesa dos interesses do trabalho, um dia de “pão e circo”. Teremos no palanque, com certeza, um conjunto de falas defendendo o governo Lula como se tivéssemos em 1942, 1943, num 1º de maio getulista. Em plena era lulista.

IHU On-Line – Como a trajetória sindicalista de Lula nos ajuda a compreender as relações entre o governo atual e as centrais sindicais?

Ricardo Antunes – Na sua jovialidade, Lula tinha uma espontaneidade operária muito viva. No entanto, nunca teve uma solidez teórica, política e ideológica que lhe permitissem subir sem perder os seus valores. A cada degrau da ascensão social do Lula, um valor foi ficando para trás. Eleito presidente, ele não fez a revisão de nenhuma privatização, tampouco mudou a política do Banco Central, totalmente subordinado ao capital financeiro. A sua luta sindical é parte do passado. O Lula do presente fala para os pobres, garante a cooptação de parte significativa da liderança sindical que lhe dá apoio e garante mesmo a boa vida dos ricos. Há centenas de ex-sindicalistas que recebem altos subsídios para participar do conselho de uma estatal privatizada. E eles não querem nem falar em classe trabalhadora. E, o que é pior, muitos deles entraram nos fundos de pensão. Quando as centrais passam a participar disso, a imagem que me vem à cabeça é: numa sala das centrais existe uma porta pequena, trancada, do lado esquerda, com uma placa escrito “direito dos trabalhadores”; numa outra porta, do lado direito, uma sala majestosa dizendo: “setor voltado para os fundos de pensão”.

IHU On-Line – Hoje, fala-se muito em ampliar o desenvolvimento tecnológico dos países. O Brasil, ao contrário, continua investindo em megaobras como as centrais hidrelétricas, investindo na plantação de cana-de-açúcar, fortalecendo a exaustão do trabalho. Estamos retrocedendo?

Ricardo Antunes – O país vive uma regressão. A proposta de etanol do Lula é simbólica. Nós voltaremos a ser uma quase colônia em pleno no século XXI, produzindo matéria-prima, produtos semi-industrializados e perdendo, inclusive, a força do parque industrial que tínhamos entre os anos 1960 e 1980. O projeto de desenvolvimento de Lula, ao contrário de buscar um espaço fundado numa produção científica e tecnológica respaldada nas nossas necessidades sociais autênticas, nas nossas necessidades vitais, é ainda mais regressivo do que foi no passado, quando ainda havia um certo sentido industrial nacional, se formos pensar no período de Getúlio Vargas. Nesse sentido, o Brasil dá passos sólidos para trás. É mais um traço da moderna tragédia (ou será da comédia) brasileira.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

"Um 1º de maio getulista em plena era lulista" Entrevista especial com Ricardo Antunes - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV