Hugo Assmann: "Diante da presença dele ninguém ficava indiferente". Entrevista especial com Esther Grossi

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11 Março 2008

“Antes de Cristo!”, foi o que respondeu Esther Grossi ao ser perguntada pela IHU On-Line sobre quando conheceu Hugo Assmann. Na entrevista que segue, realizada por telefone, Grossi fala de sua convivência de mais de 40 anos com o teólogo, sociólogo e filósofo falecido no dia 22-02-2008 e o que sua figura representa para sua família. “O Hugo era grande; ele usufruía dos momentos existenciais. Também era absolutamente comprometido com cada momento. Era, em síntese, uma figura fantástica”, relembra.

Hugo Assmann estudou filosofia no Seminário Central de São Leopoldo e logo depois concluiu seus estudos na Itália e na Alemanha. De volta ao Brasil, estabeleceu-se em Porto Alegre, onde foi vigário da Paróquia de N. S. do Montserrat e professor do Seminário de Viamão. Neste período, desenvolveu sua obra em torno da Teologia do Desenvolvimento, por meio da revista Seminário. Com o advento do regime militar no Brasil, foi para o Uruguai, depois para a Bolívia e para o Chile de Salvador Allende (1). Neste período, desenvolveu sua reflexão sobre a teologia da revolução. Depois, seguiu para a Costa Rica, onde, juntamente com Franz Hinkelammert (2), desenvolveu suas reflexões teológicas sobre a relação entre Teologia e Economia. De volta ao Brasil, no início dos anos 1980, foi professor titular de Filosofia da Educação e Comunicação na Universidade Metodista de Piracicaba. Durante o tempo em que esteve à frente da Paróquia de N. S. do Montserrat, era muito ligado à família Grossi, tendo sido, inclusive, padrinho de um dos filhos do casal Esther e Sérgio.

Esther Pillar Grossi é mestre em matemática, pela Universidade de Sorbonne, em Paris. Em 1970, fundou o Geempa (Grupo de Estudos Sobre Educação, Metodologia de Pesquisa e Ação), tornando-se uma liderança na busca de soluções aos grandes problemas da escola pública brasileira. Desde abril de 2002, Esther coordena, em Porto Alegre, o projeto "O prazer de ler e escrever de verdade", realizado pelas ONGs Geempa e Themis. De 1995 a 2002, ocupou o cargo de deputada federal pelo PT. É autora de Por que ainda há quem não aprende? - A política (São Paulo: Editora Paz e Terra, 2004) e Como areia no alicerce – Os ciclos escolares (São Paulo: Editora Paz e Terra, 2004), entre outros. É casada com o pediatra Sérgio Pilla Grossi, chefe do Serviço de Neonatologia da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quem foi Hugo Assmann para sua família?

Esther Grossi – Para minha família, ele é, antes de tudo, nosso compadre, padrinho de um filho meu. Mas, principalmente, foi uma presença muito forte do ponto de vista da camaradagem comprometida com o crescimento das pessoas. Hugo era muito incisivo em pontuar o lugar onde nós devíamos chegar na vida, as opções que precisávamos fazer. Muito particularmente para mim – e eu até escrevi isso e enviei para a família dele –, Hugo foi muito marcante do ponto de vista intelectual, porque foi quem me incitou a produzir e a elaborar conhecimentos por escrito. Tenho, portanto, muita gratidão porque, realmente, ele fazia cobranças em qualquer área em que estivéssemos atuando. Insistiu comigo para que, mais do que falar, eu pudesse escrever, porque assim temos as idéias muito mais claras e podemos ajudar muito mais aos outros.

IHU On-Line – A senhora pode contar como foi seu convívio com Hugo Assmann?

Esther Grossi – Primeiro, ele era coadjutor da Igreja Auxiliadora, a paróquia que freqüentávamos. Então, o conhecemos e criamos uma afinidade. Essa igreja foi depois desmembrada e virou a paróquia do Montserrat, na qual ele foi pároco. Era uma capelinha bem antiga, que ficava aqui pertinho da nossa casa e, tempos depois, pegou fogo. Então, os moradores se comprometeram a construir a igreja. Tudo foi feito de uma forma muito diferente, porque todos eles tinham crédito em banco. Desse modo, um grupo de cerca de 30 pessoas ajudou a construir a Igreja do Montserrat, que é muito moderna, atualizada. A reconstrução foi feita sob os cuidados de Hugo Assmann. Então, ele, como vigário, era um dinamizador das vivências do bairro. Tinha uma moto e andava sempre para cima e para baixo com aquela moto e visitava muitas famílias. Hugo realizava muitas atividades. A missa que preparava era sempre muito caprichosa, e as festas e a liturgia, muito cuidadas. Ao mesmo tempo, participava do movimento social de auxílio às pessoas com necessidade e se mostrava uma presença intelectual forte. Ele tinha nessa paróquia a presença de muitos universitários e intelectuais, uma vez que era uma pessoa muito conceituada nessa área. Além disso, era provocador, com muito rigor de argumentação e sempre muito atualizado. Então, instigava muita mudança e reação, sobretudo no meio mais conservador.

IHU On-Line – Como as reflexões da Teologia da Libertação se apresentavam na personalidade de Assmann?

Esther Grossi – Ele sempre foi um contestador dentro da Igreja. Tinha muitos atritos com Dom Vicente Scherer (3), por causa exatamente das posições ligadas à Teologia da Libertação, mas, ao mesmo tempo, muita ética e fidelidade à Igreja, com a qual não rompia, pois tinha uma relação familiar com seus representantes. Ele podia discordar, como discordava, de posições teóricas, enfim, mas ele estava sempre por dentro, apenas debatia as idéias. Mas, claro, ele padeceu muito por isso, com muita dor por estar na marginalidade. No entanto, era uma pessoa de muita presença no mundo, uma presença intelectual, aliás, internacional.

IHU On-Line – Como a senhora vê o trabalho de Assmann na área da educação?

Esther Grossi – Penso que não é a área mais forte do Hugo, sendo que pertenço a ela. Em minha opinião, acredito que os principais teóricos que embasaram a compreensão do Hugo sobre a aprendizagem não são os mais avançados. Porque o Hugo adotou essa idéia da corporeidade e sem a clareza do que Sara Paim (4) fez, colocando o corpo como uma das instâncias ao lado da inteligência, do desejo. Eu creio que, nessa questão, ele deixou a desejar. Muitas vezes, tentei conversar com Hugo sobre o tema, mas eu não o considero uma influência nesse terreno de idéias. Sem dúvida, tratou-se de um militante, evidentemente, de um professor, mas, do ponto de vista da construção do pensamento pedagógico, havia uma brecha na estruturação teórica de suas idéias.

IHU On-Line – Qual é a influência de Hugo Assmann no trabalho que a senhora desenvolve?

Esther Grossi – Ele teve uma influência indireta, mas profunda. Por ter me iniciado na produção de textos, ajudou a gerar minha tese de doutorado, além de mais de 30 livros. Meu primeiro livro saiu na esteira de suas primeiras provocações quando nós morávamos no Montserrat e trabalhávamos junto.

A personalidade do Hugo era muito rica e penso que o certo é que diante da presença dele ninguém ficava indiferente: ou se ficava a favor ou se ficava contra. Ele possuía um grande poder de liderança e de aglutinação. Creio que, para o Montserrat, onde eu moro e que eu amo tanto, ele deixou a sua marca de aglutinar a região. Creio que esse bairro tem uma dívida de gratidão para com sua figura.

IHU On-Line – Para a senhora, qual é a principal mensagem que devemos levar adiante da vida de Hugo Assmann?

Esther Grossi – Indigna-me saber que ele tenha morrido. Foi muito cedo, em minha opinião. Eu acredito que sua vida trazia uma mensagem de grande amor. Uma curtição da vida. O Hugo era grande, usufruía dos momentos existenciais. Também era absolutamente comprometido com cada momento. Era, em síntese, uma figura fantástica.

Notas:
(1) Salvador Allende Gossens foi um médico, político e estadista chileno. Foi o primeiro marxista assumido eleito democraticamente presidente da república na América Latina. No cargo, tentou socializar a economia chilena, com base num projeto de reforma agrária e nacionalização das indústrias. Em 11 de setembro de 1973, com ostensivo apoio dos Estados Unidos, as Forças Armadas, chefiadas pelo general Augusto Pinochet, dão um sangrento golpe de Estado que derruba o governo da UP. Allende morreu quando as forças armadas rebeladas contra o governo constitucional atacaram o Palácio de La Moneda.

(2) Franz Hinkelammert é um dos teóricos que influenciou a Teologia da Libertação. Até hoje escreve críticas teológicas ao capitalismo.

(3) Dom Alfredo Vicente Scherer foi um cardeal brasileiro. Estudou Filosofia com os expoentes da Companhia de Jesus. Em 1926 recebeu a ordenação sacerdotal das mãos do Cardeal Basilio Pompilj. Retornando de Roma, foi nomeado secretário particular de Dom João Batista Becker. Em 1930, acompanhou as forças revolucionárias gaúchas ao Rio de Janeiro como capelão militar. Foi eleito pela Assembléia Geral tomou parte no Sínodo de 1971 como delegado da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB. Em 31 de dezembro de 1979, sofre um atentado que repercurtiu em todo Brasil e no mundo. Quando dois assaltantes o atacaram, espancaram e esfaquearam, o abandonando numa estrada da zona sul de Porto Alegre. Em 16 de setembro de 1981, tem a sua renúncia aceita pela Santa Sé, como Arcebispo de Porto Alegre.

(4) Sara Paim é doutora em Filosofia e Psicologia.

 

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