A relação fé e política. Uma reflexão a partir da luta contra a transposição do Rio São Francisco. Entrevista especial com Pedro Ribeiro de Oliveira

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26 Janeiro 2008

Lula justifica seu poder pela votação recebida nas urnas. Formalmente, ele não está errado, na medida em que uma eleição majoritária expressa a vontade popular. Mas quando levamos em conta que as eleições são ganhas por ‘marqueteiros’ que ‘vendem’ a imagem do seu candidato, temos todo direito de questionar os políticos que se legitimam unicamente pelos votos recebidos. Quantos corruptos são reeleitos e arrogantemente alegam terem sido `absolvidos` pelas urnas?”, relata o sociólogo Pedro Ribeiro de Oliveira, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.

O segundo jejum que Dom Luiz Cappio fez por 23 dias pode não ter resolvido o problema do projeto de transposição do Rio São Francisco, mas certamente ampliou o debate acerca deste debate. Nesta entrevista, Pedro fala sobre a relação fé e política a partir deste episódio. “É preciso não exagerar a oposição entre Lula e Dom Cappio. Quem faz oposição radical ao governo Lula é FHC e seus aliados do antigo PFL”, contou-nos Pedro Ribeiro.

Pedro Ribeiro de Oliveira é doutor em Sociologia pela Universite Catholique de Louvain, na Bélgica. Atualmente, é professor da PUC Minas. Dentre suas obras, destacamos Fé e Política: fundamentos (Aparecida: Idéias & Letras, 2004), Reforçando a rede de uma Igreja missionária (São Paulo: Paulinas, 1997) e Religião e dominação de classe (Petrópolis:Vozes, 1985). Recentemente, a IHU On-Line publicou seu artigo “... E a Deus o que é de Deus”.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - No que diz respeito à transposição do Rio São Francisco, há duas posições bem claras que foram evidenciadas pela greve de fome de D. Cappio. Ontem, o bispo e Lula, e tantos que estão hoje no governo estavam juntos na oposição à transposição. Hoje, estão em campos radicalmente opostos. O que aconteceu?

Pedro Ribeiro de Oliveira - É preciso não exagerar a oposição entre Lula e Dom Cappio. Quem faz oposição radical ao governo Lula é FHC e seus aliados do antigo PFL. É claro que, no que toca o projeto da transposição, suas posições de fato se opõem radicalmente, mas em outros campos é possível encontrar pontos de convergência. Não posso falar por Dom Cappio, mas falo por mim mesmo. Aprovo a política de Direitos Humanos e o apoio de Lula à autonomia investigativa da Polícia Federal, para citar apenas dois exemplos. Agora, quanto à sua pergunta sobre o que terá acontecido, eu não sei ao certo. Lula e Dom Cappio se colocam em campos opostos quando se trata de modelo de desenvolvimento. Está aí um Plano de Aceleração do Crescimento que sacrifica a ecologia e almeja antes o crescimento econômico do que a qualidade de vida do povo brasileiro. Isso não era proposto pelo Lula que fez a Caravana da Cidadania e que entusiasmou a todos. Ou seja, foi Lula quem mudou.

IHU On-Line - "O saldo do gesto de frei Luiz Cappio demarca as margens e estabelece um abismo moral entre companheiros que até ontem bebiam da mesma água", afirmou, recentemente, um membro da Comissão Pastoral da Terra. O senhor concorda com a constatação? Por quê?

Pedro Ribeiro de Oliveira - Concordo que há um distanciamento, sim, mas não um “abismo moral”. “Abismo moral” é o que existe entre os que nos alinhamos com Dom Cappio e o ex-presidente Sarney, por exemplo, que é mestre em clientelismo político. Com antigos companheiros há divergências, sim, mas enquanto forem respeitados os princípios éticos, sempre haverá possibilidade de diálogo e entendimento.

IHU On-Line - Para alguns, Dom Cappio não deveria utilizar sua condição de Bispo para tomar uma posição em relação à transposição do Rio São Francisco. Em seu mais recente artigo, o senhor afirma que esse gesto do bispo pode ser justificado pela situação grave. Há ainda espaço para a religião na sociedade hoje ou ela não tem nada a dizer sobre o político?

Pedro Ribeiro de Oliveira - É evidente que há espaço, e muito, para a religião na sociedade atual, desde que ela tenha uma mensagem de esperança para quem tem a vida ameaçada pelo apetite voraz do mercado. Foi nessa situação de vidas ameaçadas (não esquecer que água é fonte de vida!) que a palavra profética de Dom Cappio se fez ouvir. Uma palavra profética não é apenas religiosa, mas também ética. Melhor dizendo, é um imperativo ético expresso pela linguagem religiosa. Alguns podem achar que a linguagem religiosa está fora de moda, mas eu penso que ela continua sendo um veículo adequado ao discurso ético. Não é único, certamente, mas isso não significa que possa ser descartado sem mais.

IHU On-Line - Em sua opinião, Dom Cappio misturou e confundiu fé e política?

Pedro Ribeiro de Oliveira - Não! Haveria mistura se entre elas não houvesse a ética. A fé cristã tem imperativos éticos não apenas em defesa da vida individual, mas também em defesa da vida coletiva. Uma fé sem ética social não é cristã; é uma fé ou uma religiosidade subjetiva. Também a política tem uma dimensão ética indispensável: a obrigação de colocar-se a serviço dos Direitos Humanos e dar prioridade ao bem comum antes dos bens particulares. Em outras palavras, é preciso considerar a ética da política e não só a ética na política. E a religião, como eu disse acima, é um veículo da ética. Foi o veículo usado por Dom Cappio, como seria de esperar-se de um religioso.

IHU On-Line - Para o D. Cappio, "Lula é autoritário". Como o senhor analisa a atitude de Lula que não aceitou nenhum tipo de negociação com o bispo e os movimentos sociais?

Pedro Ribeiro de Oliveira - Lula justifica seu poder pela votação recebida nas urnas. Formalmente, ele não está errado, na medida em que uma eleição majoritária expressa a vontade popular. Mas, quando levamos em conta que as eleições são ganhas por “marqueteiros” que “vendem” a imagem do seu candidato, temos todo direito de questionar os políticos que se legitimam unicamente pelos votos recebidos. Quantos corruptos são reeleitos e arrogantemente alegam terem sido “absolvidos” pelas urnas? O governo Lula não tem primado nem pelo diálogo com os setores populares organizados nem pela politização dos debates. Devemos reconhecer que, ao contrário do governo anterior, este governo não criminalizou os movimentos sociais nem as greves, mas é preciso ter claro que Lula e as pessoas que o cercam têm usado o prestígio acumulado em mais de trinta anos de lutas sociais, para desmobilizar os movimentos e grupos capazes de criticarem o governo a partir de uma perspectiva de esquerda. Assim, quando terminar seu governo, quase não terá contribuído para um avanço político da sociedade. Ao contrário, em 2010 teremos eleições despolitizadas, nas quais os marqueteiros vão ganhar muito dinheiro. Ou seja, Lula não é propriamente autoritário. Mas seu jeito popular talvez encubra um político da velha estirpe brasileira.

IHU On-Line - O bispo foi `intransigente" afirmou um ministro. O senhor concorda?

Pedro Ribeiro de Oliveira - “Intransigente”, não. Firme, sim. Dom Cappio aceitou negociar com o governo e quem não quis conversa, alegando não poder enfraquecer a autoridade do Estado, foi o Presidente da República. Talvez possamos dizer que Dom Cappio não usou uma boa estratégia política, iniciando seu jejum sem antes mobilizar uma rede de apoio. Eu, que sou mineiro, teria feito mais articulações antes de tornar público o protesto. Mas Dom Cappio não é mineiro...

IHU On-Line - Para o senhor, a partir da conjuntura política brasileira hoje, quais são os limites para a relação entre a fé e a política? Que tipo de articulações podem ser apontadas a partir dessa relação?

Pedro Ribeiro de Oliveira - Vejo dois grandes limites. O primeiro é o respeito às ideologias, desde que não contrariem os princípios éticos do cristianismo. Explico. Não há quem faça política, ou mesmo quem aja na sociedade, que não seja guiado por idéias-força - idéias imbuídas de valores. Dentro do espaço da fé cristã há espaço para diferentes ideologias, embora não para todas. Distinguir os limites de legimitidade do pluralismo ideológico não é tarefa fácil, mas com certeza eles existem. Isso significa que não posso identificar a fé com uma ideologia, ainda que seja a ideologia do Papa. O segundo limite é o respeito às mediações sócio-analíticas, porque são elas que definem as condições de possibilidade de realização de um projeto político. A fé não suprime a necessidade dos estudos técnicos e sociológicos que dão os parâmetros de viabilidade de um projeto. Respeitados esses dois limites, a fé cristã tem muito a dizer na política, seja como veículo da Ética, seja como alimentadora da Mística.

IHU On-Line - Em que muda a relação dos movimentos sociais e, em particular, das pastorais sociais com o governo Lula a partir da greve de D. Cappio?

Pedro Ribeiro de Oliveira - A meu ver, o episódio acentua o distanciamento entre as pastorais sociais e o governo Lula. É difícil avaliar o quanto aumentou a distância, mas certamente ele criou uma profunda decepção entre as pastorais sociais mais voltadas para o trabalho de base, onde ainda há (ou havia?) confiança em Lula e seu grupo. O número e a convicção de quem ainda defende Lula como “nosso” governo diminuiu. Quanto diminuiu, isso eu não saberia estimar.

IHU On-Line - O senhor afirma, em seu artigo, que esperava que o governo Lula utilizasse o poder do Estado para conter o capitalismo que continua a avançar. Em sua opinião, quais são as perspectivas de mudança para o futuro próximo?

Pedro Ribeiro de Oliveira - Quando o senado derrubou a emenda que prolongava a CPMF, eu elocubrei sobre qual poderia ser a resposta de Lula. Ele iria para a TV e num pronunciamento à nação diria mais ou menos o seguinte: “Todos viram como durante todo este tempo me esforcei para atender as exigências dos grandes detentores de capital financeiro, na esperança de que eles viessem ajudar o povo mais pobre a melhorar de vida. Mas eles são insaciáveis. Só querem ganhar cada vez mais, nunca repartir. Pois bem. Acabou-se esta estória do Brasil ser um paraíso para os especuladores. A partir de agora, mudaremos a política macroeconômica, controlando o câmbio, baixando drasticamente os juros e o superávit primário, e taxando todo capital especulativo”. Haveria comoção no mercado, com certeza, mas aí reconheceríamos o Lula de 1989, 1994 e 1998, com propostas alternativas para o Brasil. Mas foi só um sonho de uma noite de verão. A fala de Lula foi justamente no outro sentido: “Acalmem-se os especuladores, porque a farra dos juros continua... no superávit primário ninguém vai mexer”. Ou seja, se não houve mudança até agora, não haverá mais.

IHU On-Line - Na (pós)modernidade, e especificamente na atual conjuntura brasileira, quais são as possibilidades da presença pública da fé cristã? Neste sentido, o jejum de D. Cappio traz alguma novidade?

Pedro Ribeiro de Oliveira - Uso aqui uma metáfora inspirada em Rubem Alves. O lugar da fé cristã na sociedade (pós) moderna de mercado não é mais - nem poderia ser - o de regente da orquestra da sociedade, como foi na cristandade européia e nas sociedades teocráticas. Nós, cristãos, já não formamos mais uma orquestra capaz de tocar para a sociedade (isto é dar o seu clima ético e cultural), temos no máximo um conjunto de instrumentos musicais, capaz de dar um concerto, sim, mas só de música de câmara. Algumas igrejas optam por oferecer esse concerto a um público pequeno e seleto. Outras preferem incorporar seus instrumentos à grande orquestra da sociedade, colaborando com ela para que a música seja de boa qualidade. O jejum de Dom Cappio representa esta segunda opção: colocar-se a serviço de uma causa popular que vai muito além da religião. Não é propriamente novidade, porque há tempos estamos nesse caminho, mas é certamente um passo importante.