A vida do Rio São Francisco e de Dom Luiz Cappio. Entrevistas especiais com Roberto Malvezzi, Thomas Bauer, Rita Cappio e Dom Paulo Cardoso

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20 Dezembro 2007

Na última quinta–feira, dia 19-12-2007, o Superior Tribunal Federal decidiu que as obras de transposição do Rio São Francisco continuam. Os movimentos sociais, embora já aguardassem essa decisão, ficaram ainda mais desapontados com o governo Lula. “O governo não tem sensibilidade alguma com problema de pobre, com problema ambiental, com problema de índio”, contou-nos Roberto Malvezzi (Gogó), da Comissão Pastoral da Terra da Bahia, que está em Brasília e acompanhou toda a votação. Ao receber a notícia, Dom Luiz Cappio, Bispo de Barra, que há 23 dias estava em jejum pelo fim das obras, desmaiou. Levado às pressas ao Hospital Memorial Petrolina, ele ficou durante toda a noite na UTI e, durante a manhã de ontem, foi encaminhado ao quarto. Enquanto a família afirma que o jejum chegou ao fim, os movimentos sociais que acompanharam o sacrifício de Dom Cappio têm certeza de que essa luta continua. “Ele ainda não encerrou a greve de fome”, afirmou Thomas Bauer, também da Comissão Pastoral da Terra da Bahia. Já a família de Dom Cappio é contra a continuação do jejum. “Ele terá várias oportunidades de continuar essa obra muito grande. Porque o trabalho com os pobres, com os ribeirinhos do São Francisco, é realmente muito grande. E ele terá outras oportunidades de continuar a luta sem se expor a um calvário tão grande”, falou a irmã do Bispo, Rita Cappio. Bispo Cappio, ainda debilitado, recebeu durante o dia de ontem, inúmeras visitas, além de realizar reuniões para discutir o futuro das articulações. Umas das pessoas que esteve com ele foi Dom Paulo Cardoso, Bispo de Petrolina. “Nossa expectativa é em relação do procedimento a ser feito daqui por diante”, comentou.

As quatro entrevistas foram concedidas com exclusividade, por telefone, à IHU On-Line durante o dia 20 de dezembro. Na mesma noite, dom Luís anunciou o encerramento da greve de fome.

» Confira a entrevista de Roberto Malvezzi, o Gogó.

IHU On-Line – Você estava em Brasília durante a votação que decidiu que o governo continuará com as obras de transposição do Rio São Francisco. Como é que você e os movimentos sociais receberam esta notícia?

Gogó – Eu continuo em Brasília. Nós tínhamos a previsão de que o desfecho seria esse mesmo. O governo nunca aceitou negociar absolutamente nada em termos de transposição. Apenas nos momentos de aperto, ele propunha alguma coisa para ganhar tempo, ganhar saída, como foi agora na véspera. Nós não tínhamos ilusão alguma a respeito dele. O que nós queríamos era que as propostas diferentes que temos em relação às do governo aparecessem mais na mídia, na sociedade e acredito que conseguimos isso em parte. Além disso, existe todo o respeito em relação à atitude do Frei Luiz, que se esforça para usar o seu carisma com o objetivo de que as alternativas possam aparecer a partir do seu gesto emblemático. Penso que conseguimos isso em parte, não totalmente.

Sempre existe uma frustração quando se perde, mas os processos são longuíssimos. Essa obra ainda mal começou. Ela tem um futuro, dizem, de onze anos. Mas as contradições desse processo, o agravamento dessa crise, a divisão em torno dela, só irão prosperar na medida em que a obra avançar. Há muita história pela frente ainda e nós precisamos ter paciência para acompanhá-la, no sentido de defender o que é melhor para as populações locais.

IHU On-Line – O jejum do Bispo Cappio sensibilizou o governo de alguma forma?

Gogó – Não. O governo não tem sensibilidade alguma com problema de pobre, com problema ambiental, com problema de índio. O governo atropela todos aqueles que passarem e atropelarem o seu caminho.

IHU On-Line – Os movimentos sociais já sabem das próximas articulações que serão realizadas de agora em diante?

Gogó – Nós teremos que nos reunir e conversar. A prioridade desde ontem (referindo-se ao dia 19-12) era salvar a vida de Dom Luiz. Quero acreditar que em parte isso está garantido: ele está bem hoje, embora continue sem comer. Ele quer voltar a Sobradinho e celebrar uma missa com a comunidade local. E nós temos, depois, de ver como é que isso se desdobra na luta prática, social e política.

IHU On-Line – Vocês pretendem voltar a conversar com o governo?

Gogó – Não. Nós vamos ter que conversar sobre isso. Esse é o tipo de coisa que deixa marcas, cicatrizes. Há, evidentemente, um distanciamento cada vez maior desse governo. Entretanto, nós não podemos fazer nada. Não podemos colocar obstáculos em nada que possa beneficiar as populações mais pobres. Teremos que sentar, peneirar e rearticular as coisas para ver como esse assunto procede.


» Confira a entrevista cedida por Thomas Bauer.

IHU On-Line – Foi noticiado ontem que o jejum do Bispo Cappio acabou e que ele está internado. Você pode nos contar como está o Bispo Cappio e como se darão as articulações em relação à transposição do Rio São Francisco a partir de agora?

Thomas Bauer – O Bispo ontem (referindo-se ao dia 19-12), assim que recebeu a notícia sobre o julgamento, a decisão do Supremo Tribunal Federal, se sentiu mal, ficou bastante abalado, ainda tentou escrever uma nota para ser veiculada nas mídias ontem e, no meio da escrita, desmaiou. Ficou num estado de semiconsciência durante a tarde e, no início da noite, o médio que o acompanha decidiu interná-lo no Hospital Memorial Petrolina. Ele foi internado e examinado. Passou a noite na UTI e pela manhã já se encontrava bem. Saiu da UTI e afirmou para o pessoal que o acompanha que quer voltar a Sobradinho e que em nenhum momento encerrou o jejum.

IHU On-Line – Então, até agora, ele ainda não foi alimentado?

Thomas Bauer – Não. Só está no soro.

IHU On-Line – E quando ele volta para Sobradinho?

Thomas Bauer – Nesse momento, o pessoal está reunido com ele, inclusive, para ver como, quando e quais os próximos passos. Mas ele afirmou que quer voltar para Sobradinho. E, sobre o jejum e os próximos passos, ele quer decidir junto com o povo e os movimentos sociais. Deve-se ressaltar, porém, que Dom Cappio ainda não encerrou a greve de fome.

IHU On-Line – Como o povo e os movimentos sociais receberam a notícia de que as obras vão continuar?

Thomas Bauer – As notícias foram recebidas com bastante preocupação. O julgamento julgou legal o que é ilegal.

IHU On-Line – Quando foi internado, o irmão de Dom Cappio e o Frei Klaus Finkham afirmaram que o jejum acabou...

Thomas Bauer – Eu, pessoalmente, não escutei isso. Hoje (referindo-se ao dia 20-12), pela manhã, o cunhado dele, que também está acompanhando a família, deu uma entrevista no Jornal A Tarde, da Bahia, dizendo que a família aguarda a recuperação do Bispo para tomar uma decisão.

IHU On-Line – O Bispo está com o mesmo ânimo que tinha no início do jejum?

Thomas Bauer – Continua. A outra notícia importante de relatar é que no dia 19 de dezembro, à noite, havia sido marcada uma reunião junto ao governo. Mas já adianto que o governo cancelou a reunião, dizendo que não há mais diálogo. Fecharam-se todas as portas.


» Confira a entrevista realizada com a irmã do Bispo Luiz Cappio, Rita Cappio.

IHU On-Line – Como está Dom Cappio?

Rita Cappio – Ontem, ele veio de Sobradinho de ambulância, pois tinha desmaiado. Estávamos todos apreensivos. Ele foi trazido para Petrolina e foi muito bem atendido. Passou a noite toda na UTI tomando soro. Então, foi levado para o quarto agora pela manhã e está passando bem. Nós estávamos bastante preocupados com problemas que poderiam ser ocasionados devido ao jejum, já que foram 24 dias sem se alimentar. Agora, ele está, relativamente, muito bem. Nós esperamos que hoje (referindo-se ao dia 20-12-2007), no fim da tarde, ele já possa sair do hospital.

IHU On-Line – Na opinião da família, ele continua com o jejum?

Rita Cappio – Não. Essa é uma fase que, se Deus quiser, foi encerrada. Ele terá várias oportunidades de continuar essa obra muito grande. Porque o trabalho aqui com os pobres, com os ribeirinhos do São Francisco, é realmente muito grande. E ele terá outras oportunidades de continuar a luta sem se expor a um calvário tão grande.

IHU On-Line – A senhora tem falado com ele?

Rita Cappio – Eu estou aqui dentro do quarto com ele. Ele está conversando com alguns bispos que são quase irmãos dele. Ontem (referindo-se ao dia 19-12) e hoje (referindo-se ao dia 20-12) vieram outros. Ele está conversando normalmente, graças a Deus.

IHU On-Line – Como você está ao lado dele agora, nós podemos falar com ele rapidamente?

Rita Cappio – Não. Não é possível. Ele prometeu uma entrevista coletiva à imprensa mais tarde. Você pode dar boas notícias. Realmente, ele está bem. Nos esperamos que até o fim da tarde ele possa ter alta aqui do hospital.

IHU On-Line – E para onde ele vai depois que receber alta?

Rita Cappio – Olha, ele quer ainda voltar para Sobradinho para celebrar uma missa em agradecimento a todo aquele povo que o acolheu muito bem. Então, é imprevisível para onde ele vai. São decisões que ele irá tomar. Graças a Deus, ele se encontra numa situação em que é capaz de resolver a sua vida.

 

» Confira a conversa da IHU On-Line com Dom Paulo Cardoso.

IHU On-Line – Como está o Bispo Cappio neste momento?

Dom Paulo Cardoso – Eu estive agora mesmo (referindo-se ao dia 20-12-2007) com ele no quarto. Ele, de fato, ficou na UTI. Estava semiconsciente e foi medicado com soro e vitaminas. Já de manhã foi transferido para o apartamento. Estive com ele agora há pouco e vi que sua evolução era muito boa: estava plenamente consciente e não havia recebido ainda alimento. Ele recebe água de coco, muita água natural, de maneira que não pude perceber se, de fato, ele encerra logo ou se ainda irá continuar com algum tipo de jejum relativo. Isso nem eu quis perguntar. para não ser indiscreto e nem ele adiantou. Aparentemente, está bem. Foi muito forte o impacto quando ele soube que foi rejeitada a liminar, e isso ocasionou o desmaio. Então, logo depois, ele foi trazido ao Hospital e foi internado. O médico, Frei Klaus Finkham, o acompanha e agora seu quadro está estável. Ele me disse que gostaria, quando receber alta, o que poderá ocorrer ainda hoje, de ir a Sobradinho, para uma celebração com o povo e para agradecer a acolhida e a presença de tantos que estiveram lá. Depois, ele gostaria de ir à Barra, onde pretende celebrar ou estar presente na celebração natalina. Depois, ainda teria duas festas grandes de padroeiros e só lá pelo dia 10 é que iria para São Paulo, para ficar com os familiares e fazer um tratamento mais prolongado. Essa seria a vontade dele. A família pensa diferente. Ela quer, o quanto antes, levá-lo a São Paulo, assim que ele receber alta, e já estão sonhando que isto possa acontecer hoje (referindo-se ao dia 21-12-2007). Depois, conversando com o médico que o acompanha, que é um franciscano, eu soube que, em última análise, quem irá decidir se vai de fato cumprir esse programa ou se aceitará a idéia de ir a São Paulo é o bispo.

Mas, em linhas gerais, o quadro evoluiu bem, pois o bispo não apresenta muita fragilidade. Hoje, estava sentado, conversando. Nossa expectativa é em relação ao procedimento a ser adotado daqui por diante. Inclusive, ontem aconteceu uma reunião com a equipe dele, com o objetivo de tomar decisões em relação ao seu futuro.

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