Era Lula e Era Vargas: algo a ver? Entrevista especial com René E. Gertz

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22 Novembro 2007

Muitos acontecimentos recentes ainda necessitam da revisitação dos historiadores. Isso porque compreender nosso passado em sua totalidade ajuda a entender e planejar o presente e o futuro da política e da sociedade brasileira. Na entrevista que segue, René E. Gertz fala sobre períodos como a da Era Vargas e sua importância para a política atual. “A Era Lula, naturalmente, apresenta similitudes e diferenças em relação à Era Vargas. Quero me restringir à herança mais nefasta que – em minha opinião – persiste. Chama-se estatolatria. Não que a estatolatria fosse uma invenção de Getúlio, mas, sem dúvida, uma certa tolerância oficial para com ela, durante muitos anos, contribuiu para sua fixação em milhares de mentes”, relatou nesta entrevista que segue, feita por e-mail.

René Ernaini Gertz é graduado em História, pela Unisinos. É mestre em Ciência Política, pela UFRGS, e doutor, na mesma área, pela Universidade de Berlim, onde também obteve o título de pós-doutor. Atualmente, é professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e na PUCRS. É autor de O aviador e o carroceiro: política, etnia e religião no Rio Grande do Sul dos anos 1920 (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002) e O Estado Novo no Rio Grande do Sul (Passo Fundo: Editora Universidade de Passo Fundo, 2005), entre outros.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quais são as principais influências da República instalada no País em 1930 na política brasileira atual?

René E. Gertz - Poderiam ser apontadas várias influências, mas eu citaria a discussão desencadeada na época sobre o papel do “nacionalismo” e do “entreguismo” (1). Ainda que as palavras tenham mudado, o “entreguismo” é, hoje em dia, o “neoliberalismo”, e o “nacionalismo” está no “estatismo” (2) – nesse sentido, a discussão continua semelhante.

IHU On-Line - A ditadura de Vargas criou o Ministério do Trabalho, os sindicatos urbanos e sua imagem de “pai dos pobres”. Falta, hoje, nacionalismo, para que os trabalhadores tenham melhores condições de sobrevivência?

René E. Gertz - As melhores condições de vida não dependem de mais ou de menos nacionalismo, mas sim de distribuição racional e efetiva de renda, e de outras formas racionais de organização da sociedade. Não de chavões.

IHU On-Line - A industrialização custou o cargo de Getúlio?

René E. Gertz - Não a industrialização em si. Talvez a tentativa de uma industrialização nacional autônoma. Juscelino Kubitschek (3), logo depois de Vargas (4), tentou uma industrialização associada ao capital internacional, e não foi contestado de forma tão radical quanto Getúlio.

IHU On-Line - Qual foi a influência de escritores como Erico Verissimo, Dante de Laytano e Mário Quintana durante o Estado Novo?

René E. Gertz - No início, os três apoiaram o Estado Novo. Laytano (5) e Quintana (6) nunca romperam com o regime. Erico Verissimo (7), mais tarde, se distanciou, de alguma forma, e conseguiu firmar a imagem de opositor, ainda que não houvesse, mesmo neste segundo momento, registro de qualquer confronto aberto com os detentores do poder. Verdade é que em 1938 falou publicamente num programa de rádio elogiando o Estado Novo, porque este teria evitado a ascensão dos integralistas ao poder, teria colocado sob controle o poder coronelístico do interior e teria iniciado o processo de nacionalização das “colônias estrangeiras”. Pessoalmente, sou de opinião que Erico, nos anos posteriores, manifestou muito mais um desconforto com o clima autoritário em vigor na sociedade do que um confronto com as estruturas políticas do poder estatal propriamente dito. Citei, em outro lugar, que após a volta de sua primeira viagem aos Estados Unidos fez uma visita ao interventor Cordeiro de Farias (8) para relatar suas impressões. Talvez quisesse convencer o interventor das vantagens da democracia americana – em confronto com o autoritarismo na Alemanha ou na Itália.

IHU On-Line - A Era Vargas foi um período de profundas modificações na sociedade brasileira?

René E. Gertz - Sem qualquer sombra de dúvida, 1930 é a mais importante inflexão na história do Brasil.

IHU On-Line - Como podemos compreender o Integralismo filogermânico no Brasil hoje?

René E. Gertz - Existem dois fenômenos completamente diferentes. Um são os saudosistas do integralismo, que desde, no mínimo, o fim do regime militar, no início da década de 1980, sempre de novo tentam rearticular ou ressuscitar o velho movimento dos anos 1930, a AIB (Ação Integralista Brasileira), e seu sucedâneo, no pós-guerra, o PRP (Partido de Representação Popular). Outra coisa bem diferente são os movimentos, em geral juvenis, corriqueiramente classificados de “neonazistas”. Os primeiros representam, hoje, uma direita “tradicional”, mais doutrinária do que qualquer outra coisa. Eventualmente votam em partidos do tipo Prona (Partido de Reedificação da Ordem Nacional), com uma atividade clandestina que, certamente, é limitada. Já os movimentos “neonazistas” têm recebido – em minha opinião – um destaque exagerado na imprensa. São grupos numericamente restritos, e o grande dilema de administradores responsáveis (polícia) é saber quando se atingiu um grau de intensidade que exige a repressão ostensiva. Porque uma repressão muito intensa e ostensiva pode dar a estes grupos justamente a visibilidade e a publicidade que eles buscam, as quais, porém, estão além da sua representação numérica e de sua periculosidade efetiva. Minha opinião pessoal é a de que o monitoramento, evidentemente, deve existir, mas considero perigoso quando autoridades policiais e, sobretudo, a imprensa tentam construir sua própria visibilidade na sociedade a partir do suposto combate ou da denúncia desses grupos.

Não posso deixar de fazer um comentário sobre o adjetivo que consta nesta pergunta – e não é por causa das aspas. Os adjetivos “filonazista” ou “filofascista” seriam políticos, e por assim dizer mais “neutros”. “Filogermânico” tem uma clara conotação étnica. Talvez de forma totalmente inconsciente, a formuladora da pergunta se deixou levar pelo senso comum hegemônico de que “neonazismo” só pode ser coisa de “alemão”. E ela está em ótimas companhias. Num programa de rádio sobre “neonazismo” irradiado no ano passado, uma pessoa que todos nós aprendemos a admirar, durante décadas, pelo empenho na defesa dos Direitos Humanos, aqui no Rio Grande do Sul, fez a seguinte afirmação: “Onde a colonização alemã é muito forte, como no sul do Brasil, ainda persiste um sentimento neonazista”. Essa frase é preocupante. Se é assim, bastaria erradicar os “alemães” (por coerência, essa medida deveria incluir o autor da frase), e o problema estaria solucionado. O mínimo que se pode dizer – da forma resumidíssima que aqui se impõe – é que a equação não é tão simples assim. Infelizmente, a imprensa não tem publicado com regularidade os nomes dos “neonazistas” presos, mas naquelas vezes em que os nomes foram publicados não encontramos sobrenomes alemães. No atentado, por ocasião do ataque a rapazes judeus em Porto Alegre , no ano de 2005, um jornal publicou que um dos participantes tinha o sobrenome Braun da Silva; outro jornal registrou Brum da Silva. Pesquisas que realizei indicaram que o último jornal estava correto – e Brum não é sobrenome alemão. Infelizmente, não há espaço para detalhar minha posição a respeito, mas, pela responsabilidade ética que tenho, não posso deixar de conclamar as pessoas de bem a combater o “neonazismo”, e não etnias! Certamente, é mais justo e produtivo! Além disso, não se acaba fazendo exatamente aquilo que os “neonazistas” pregam!

IHU On-Line - Estamos vivendo ainda uma espécie de Era Vargas? Como o senhor classificaria a Era Lula?

René E. Gertz - A Era Lula, naturalmente, apresenta similitudes e diferenças em relação à Era Vargas. Quero me restringir à herança mais nefasta que – em minha opinião – persiste. Chama-se estatolatria. Não que a estatolatria fosse uma invenção de Getúlio, mas, sem dúvida, uma certa tolerância oficial para com ela, durante muitos anos, contribuiu para sua fixação em milhares de mentes. Quero registrar sua persistência em apenas uma situação contemporânea. Quando se começou a falar em instituir cotas “sociais” (atenção: estou falando exclusivamente das assim chamadas cotas “sociais”, não das “étnicas” ou “raciais”) nas universidades, certamente a massa do povo brasileiro minimamente informada imaginava que as cotas “sociais” se destinariam aos pobres intelectualmente mais brilhantes da sociedade. Ainda que eu tivesse ressalvas, imaginava que a não concessão dessas vantagens a egressos pobres de escolas não-públicas poderia ser aceita em alguma medida. Mas eu estava convicto de que o critério seria a pobreza. Qual não foi meu espanto, quando, no início de 2007, li na Folha de S. Paulo uma reportagem sobre o vestibulando com a melhor média no vestibular da Unicamp – e que foi beneficiado por cota “social”. Trata-se de um filho de tenente-coronel. Sou professor e aquilo que ganho dos cofres públicos é muito menos que o soldo de tenente-coronel. Mas eu teria enormes pruridos em invocar algum privilégio desses para minhas filhas. Passando a comentar essa notícia com meus colegas, me esclareceram que no caso das cotas “sociais” ninguém está pensando em pobreza, mas exclusivamente em escola pública. O critério para ser beneficiado não é de forma alguma ser pobre, mas exclusivamente o de ter estudado em escola pública. Entendi por que algumas universidades adotaram o critério de permitir que os candidatos tenham cursado a metade do primeiro grau em escola particular. Assim, os estatólatras podem colocar seus filhos em ótimas escolas particulares nos primeiros quatro anos – e eles ficam muito bem preparados para passar nas provas de seleção das melhores escolas públicas (colégios militares). Se isso falhar, então é preciso acreditar na sorte: mas também existem ótimas escolas públicas nas quais o ingresso se dá por sorteio (colégios de aplicação das universidades). Certamente, essa é uma sobrevivência nefasta da Era Vargas. E que ganhou ímpeto na Era Lula. Se Raymundo Faoro (9) ainda estivesse vivo, certamente, nos diria que o caso, mais uma vez, ilustra a existência de “elites pseudodissidentes”, cujo único objetivo é “manter a maioria da população alijada de benefícios sociais elementares”.

Notas:

(1) O entreguismo é um dos instrumentos de reprodução da sociedade de elite e de manutenção da acumulação entravada. Consiste na desnacionalização sistemática da indústria, mas especialmente de setores-chave da indústria de produção, entre os ramos mais dinâmicos. Sua intensidade pode passar por variações conjunturais, como o impeachment de Collor.

(2) Estatismo é a doutrina e prática de intervenção do Estado no campo econômico. É a tendência para exaltar o predomínio do Estado em todos os assuntos. Opõe-se a dinamismo.

(3) Juscelino Kubitschek de Oliveira foi presidente do Brasil entre 1956 e 1961. É o responsável pela construção da nova capital federal, Brasília, executando assim o antigo projeto da mudança da capital para promover o desenvolvimento do interior e a integração do País. Durante todo o seu governo, o Brasil viveu um período de desenvolvimento econômico e estabilidade política.

 

(4) Getúlio Dornelles Vargas foi chefe civil da Revolução de 1930, que pôs fim à chamada República Velha, e foi, por duas vezes, presidente da República do Brasil. Getúlio Vargas foi o mais controvertido político brasileiro do século XX, e sua influência se estende até hoje.

 

 

(5) Dante de Laytano foi um juiz, professor e escritor brasileiro. Foi professor nas Faculdade de Filosofia e Comunicação Social da PUCRS e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Publicou Congadas (1945), A estância gaúcha (1952), Lendas do Rio Grande do Sul (1956), Corografia de Santa Catarina (1958), Pequeno esboço de um estudo do linguajar gaúcho-brasileiro (1961) e O folclore do Rio Grande do Sul (1987), entre outros.

(6) Mário de Miranda Quintana foi um poeta, tradutor e jornalista brasileiro. Considerado o poeta das coisas simples e com um estilo marcado pela ironia, profundidade e perfeição técnica, trabalhou como jornalista quase que a sua vida toda. Traduziu mais de cento e trinta obras da literatura universal, entre elas Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, e Palavras e sangue, de Giovanni Papini. Em 1940, lançou o seu primeiro livro de poesias, A rua dos cataventos, iniciando a sua carreira de poeta, escritor e autor infantil. Em 1966 foi publicada a sua Antologia poética, com 60 poemas inéditos, organizada por Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, e lançada para comemorar seus 60 anos, sendo por esta razão o poeta saudado na Academia Brasileira de Letras por Augusto Meyer e Manuel Bandeira, que recita o poema “Quintanares”, de sua autoria, em homenagem ao colega gaúcho.

(7) Erico Lopes Verissimo foi um dos escritores brasileiros mais populares do século XX. Publicou a sua primeira obra, Fantoches, em 1932, uma seqüência de contos, em sua maioria na forma de pequenas peças de teatro. No ano seguinte obteve o seu primeiro sucesso, com o romance Clarissa. É considerada como a sua obra-prima a trilogia histórica O tempo e o vento (1949-1961), da qual saíram alguns personagens primordiais e bastante populares entre seus leitores, como Ana Terra e o Capitão Rodrigo.

 

(8) Osvaldo Cordeiro de Farias foi interventor federal (governador) do Rio Grande do Sul e governador eleito de Pernambuco. Participou das conspirações que precederam a deflagração do levante armado de 1922 contra o governo federal, que deu início ao ciclo de revoltas tenentistas. Em 1924, participou do levante tenentista deflagrado em Uruguaiana, liderado por Honório Lemes. Em 1930, participou do movimento revolucionário conhecida como Revolução Liberal, que depôs o presidente Washington Luís e impediu a posse do novo presidente eleito, Júlio Prestes. Em 1935, no Rio de Janeiro, deu combate a Intentona Comunista, levante militar deflagrado por elementos de esquerda ligados à Aliança Nacional Libertadora e liderado por Prestes. Em 1943, integrou-se na Força Expedicionária Brasileira. Em outubro de 1945, participou do golpe militar que afastou Vargas do poder e extinguiu o Estado Novo. Em 1961, foi nomeado chefe do Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA) pelo presidente Jânio Quadros. Com a renúncia de Jânio, envolveu-se na conspiração que visava impedir aposse do vice-presidente, João Goulart, então em viagem à China. Participou, ativamente, do golpe militar que, em 1964, depôs o presidente João Goulart.

(9) Raymundo Faoro é autor de Os donos do poder, obra que aponta o período colonial brasileiro como a origem da corrupção e burocracia no País, colonizado por Portugal, então um Estado absolutista. De acordo com o autor, toda a estrutura patrimonialista foi trazida para cá. No entanto, enquanto isso foi superado em outros países, acabou sendo mantido no Brasil, tornando-se a estrutura de nossa economia política. Desenvolvendo seu raciocínio, Faoro conclui que o que se teve no Brasil foi um capitalismo politicamente orientado, conceito este de inspiração weberiana. Negando-se em atribuir um papel hipostasiado à economia com relação à política, Faoro vê no País uma forma pré-capitalista. Destacando-se da análise da dialética marxista, esta forma de capitalismo não irá inevitavelmente desembocar numa forma de capitalismo mais avançado, mas poderá perpetrar-se na medida em que coexiste com formas racionais de organização da produção.

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