"A missão gera solidariedade". Entrevista especial com Irmã Marián Ambrósio

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08 Novembro 2007

Em julho deste ano, a Conferência dos Religiosos do Brasil elegeu a Irmã Márian Ambrósio como sua presidente. Ela faz parte da Congregação das Irmãs da Divina Providência. . Na entrevista que segue, concedida com exclusividade à IHU On-Line, por e-mail, Irmã Márian fala do tempo em que viveu na Alemanha, da visita que fez ao Timor Leste e sobre as perspectivas em relação ao novo cargo que passou a ocupar. “Sem dúvida, o grande desafio do triênio será avançar ao encontro das juventudes, a aprender a converter nossa linguagem, nossa metodologia, nossas formas de encontrar...”, contou-nos.

Irmã Márian Ambrósio cursou pedagogia em Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FAFI), no Paraná. Estudou Religião na CRB. Estudou Teologia espiritual na Pontifícia Universidade Gregoriana, na Itália. Foi diretora do Colégio Santa Rosa de Lima, em Lages, Santa Catarina, e do Colégio São José, em Rio Negro, no Paraná. Atualmente, é assessora da Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Missionária e Cooperação Intereclesial a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Você morou na Alemanha. O que este fato trouxe para você, em termos de experiência de vida e visão de mundo?

Márian Ambrósio - Ao final de meu primeiro ano de vida na Alemanha, recebi o convite da Revista Convergência, da Conferência dos Religiosos do Brasil, para escrever sobre minha experiência. Aceitei, com receio e responsabilidade, e intitulei meu pequeno texto assim: "Um oceano entre dois mundos"... Depois disso, vivi mais quatro anos na Alemanha e, se tivesse escrito meu texto ao final de 2004, por exemplo, acho que o título traria as palavras "Um rio entre dois mundos"... Seguramente, se escrevesse hoje, após dois anos de distância física da Alemanha, eu começaria meu texto falando de "Uma ponte entre dois mundos"! A superação das distâncias é algo chocante. Viver em outro país, neste momento globalizado e sem raízes, é quase banal.

Transformar este fato em uma experiência exige, portanto, outras atitudes. Em mim mesma, eu percebo a natural contradição da resposta – qual o real desafio: permanecer o que sou, em qualquer lugar onde eu viva, ou transformar-me a partir do lugar onde estou vivendo? E aqui se encontra, talvez, o significado mais profundo de minha resposta: comecei a experimentar que inculturação é como transfusão do sangue. Em todas as culturas, há algo que você pode perder, se quiser encarnar valores; e há valores que você pode encarnar, desde que esteja disposta a perder algo.

Você me pergunta sobre experiência pessoal e sobre visão de mundo. Leio e ouço muito sobre globalização, e a experimento visivelmente entre América Latina e Europa. Mas... depois de conhecer “o outro lado do mundo”, percebi que o lado ocidental de nossa terra determina igualmente esta linguagem. O mundo, isto é, nós, como habitantes do mundo, poderemos nos referir a “sermos globais”, somente se aceitarmos transfundir nosso sangue.

Eu poderia falar muito sobre os valores da cultura alemã, como autonomia, disciplina, interioridade, capacidade de superação etc., mas minha vida ficou realmente mais rica ao experimentar que, principalmente ao falar de Deus, de Religião, de Missionariedade, de Vida Religiosa, a dinâmica pascal – perder para ganhar – é a chave de construção de um mundo mais ressuscitado!

IHU On-Line - Você visitou recentemente o Timor Leste, enquanto assessora da Comissão Missionária da CNBB. Em que consiste a colaboração da CNBB com o Timor?

Márian Ambrósio - O Projeto de Solidariedade entre as Igrejas do Brasil e do Timor Leste é, seguramente, o sinal mais expressivo do rosto “missionário além fronteiras” do povo de Deus – Igreja no Brasil. O Projeto é uma resposta ao apelo da pequena comunidade católica (500.000 mil pessoas), que vive incrustada na grande comunidade muçulmana da Indonésia (200.000.000 de pessoas). Todos conhecemos a história da jovem nação timorense: 400 anos de colonização portuguesa até 1975, dominação da Indonésia entre 1975 e 1999, plebiscito da ONU definindo a Independência, massacres e destruição antes da retirada militar indonesiana, e os atuais sete anos de ensaio de democracia. Nosso “jeito de ser Igreja” fez com que os dois Bispos timorenses solicitassem ajuda à CNBB, que respondeu logo, na forma do Projeto ao qual nos referimos neste momento. A originalidade do Projeto tem traços bonitos: a) são somente os pobres do Brasil que o sustentam – foram realizadas duas coletas nacionais para tal: uma em 1999, e outra em 2007; b) a comunidade missionária é formada por religiosas, leigas consagradas e leigas (embora tenha sido sempre aberta ao mundo masculino) que, embora residam em três lugares distintos, formam uma única missão, muito semelhante à nossa inserção junto aos pobres; c) o Projeto tem alcance nacional, transcendendo a pertença a uma congregação ou movimento, o que permite a integração de pessoas e instituições que, isoladamente, não teriam condições de realizar semelhante missão; d) a defesa da vida, a edificação da cultura da paz, e a vida em comunidades são a marca do Projeto; e) nossas portas de entrada são a Pastoral da Criança, a capacitação de lideranças, colaboração na formação do Clero e da Vida Religiosa Timorenses, e um número sempre crescente de orientação de pequenos projetos sociais.

O sentimento mais forte, neste momento, se torna uma certeza: a missão gera solidariedade. Por mais surpreendente que possa parecer, não nos faltam pessoas nem recursos para dar continuidade ao Projeto. O testemunho destas mulheres, missionárias além fronteiras em nome de toda a Igreja no Brasil, contagia e conclama.

Estive quatro vezes em Timor Leste, duas vezes durante o período em que vivi na Alemanha e duas vezes como representante da CNBB. Ao longo destes anos, aprendi a discernir o quanto a qualidade da presença é o critério de nossas opções, seja frente à globalização ou à missionariedade.

Não gostaria de encerrar esta questão, sem dizer que, a nível nacional, acompanhamos também o Projeto de Solidariedade com as duas Dioceses da Guiné-Bissau, projeto este voltado para a Formação no Seminário Maior das duas dioceses guineenses. Algumas Regionais da CNBB sustentam – em todos os sentidos que a palavra contém – outros projetos missionários, como é o caso do Rio Grande do Sul presente em Moçambique.

IHU On-Line - Como você avalia os desafios e possibilidades para a atuação da Igreja na América Latina? Que perspectivas se vislumbram a partir da V Conferência em Aparecida?

Márian Ambrósio - Para alegria de todos nós, muito já se disse e se escreveu sobre Aparecida. Sobre seus eixos de novidade e suas chaves de compreensão, seus avanços e seus limites. Escolho, pois, como resposta, um breve depoimento pessoal. Testemunhei e participei do momento de perplexidade que antecedeu a Conferência. As perguntas – mais ou menos sem resposta – nos situaram numa estranha passividade. Como três fatos significativos que ocorreram imediatamente um após o outro, integramos tudo neste compasso de espera: a) qual seria a posição dos Bispos reunidos em Itaici para realizar sua Assembléia Geral Eletiva, perante a necessidade de elaborar as Diretrizes para a Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil? Agir, ou esperar Aparecida? b) que mensagem o Papa nos traria? Suas palavras confirmariam a caminhada da Igreja, ou produziria impactos inesperados? C) e a Conferência em si mesma concentraria seus esforços na (então pré-anunciada) Grande Missão Continental? Ou encontraria seu próprio caminho, em fidelidade à identidade Igreja latino-americana?

Esta sensação de perplexidade passiva anterior à Conferência deu lugar a uma multiplicidade de perspectivas. Há um novo movimento, uma nova motivação e uma nova esperança. Saberemos transformar isto em um novo projeto?

IHU On-Line - O que você identifica como as principais demandas da realidade brasileira para a presença e atuação da Igreja Católica?

Márian Ambrósio -
É compreensível que eu responda a isto, sob a influência das temáticas da Campanha da Fraternidade de 2008 – Fraternidade e defesa da vida! e das primeiras reflexões sobre a Campanha da Fraternidade de 2009 – Fraternidade e segurança pública. Reunindo estas temáticas que tanto nos envolvem neste momento das atividades transversais de todas as Comissões Pastorais da CNBB, todas as direções nos conduzem ao tema da VIDA. Das questões ambientais, passando pelas tentativas de definição científica do início da vida humana, da manipulação genética, das intermináveis ondas de violência que tolhem a vida das pessoas, e de tantos outros enfoques, não há demanda maior: somos convocados a anunciarmos o Deus da Vida. Mais que uma demanda da sociedade à Igreja, penso que esta é a missão primeira de todos os que, sob qualquer denominação, demonstram sua fé em Deus. Cresce o apelo à valorização das leigas e dos leigos cristãos, para que, inseridos nos espaços de decisão da ciência e da política, se convertam em missionários da vida, do respeito, do amor. Sob esta perspectiva da vida, cabem todas nossas esperanças pessoais: justiça, honradez, dignidade, cidadania. E cabem também todas as nossas esperanças comunitárias: mais espaço para a atuação da mulher, reconhecimento de direitos iguais, espaços para os outros-diferentes. A Católica ainda é, no Brasil, a casa do povo de Deus, o lugar onde se podem articular ações geradoras e transformadoras da vida.

IHU On-Line - Que apreciação você faz da situação atual da Vida Religiosa masculina e feminina no Brasil? Quais são as principais mudanças que estão acontecendo? Quais as perspectivas de futuro?

Márian Ambrósio - Eu não me atreveria, neste momento, a responder à primeira parte da pergunta. A Vida Religiosa, inserida no contexto das grandes transformações do atual momento, sente-se provocada pela necessidade de refundação. Seria preciso mergulhar na realidade individual de cada Instituto Religioso e participar do lugar em que o mesmo se encontra neste processo, que toca cada espaço, cada dinâmica, cada ângulo de sua vida, de sua história e de sua missão no mundo. Uma vez dentro de um Instituto, seria ainda preciso distinguir os diferentes tempos de cada geração de vocacionadas e vocacionados que lhe dão vida. Desde dentro de minha própria Congregação, experimento o quanto o compasso de nossos passos é original nos diferentes lugares geográficos, sociais e culturais que ocupamos, aqui no Brasil.

A Vida Religiosa feminina é mais marcada pela diminuição numérica de vocacionadas. A constatação nos desafia a mergulhar na grande pergunta sobre nossa identidade! Numericamente falando, não voltaremos a ser suficientes para preencher os lugares das obras apostólicas de nosso passado recente. Os sinais tempos nos provocam para a escuta do Espírito Santo de Deus. Somos vocacionadas a sinalizar profeticamente o Carisma com que Ele, por nossa consagração, quer falar ao mundo.

A segunda parte da questão é um convite a visitarmos algumas experiências que sinalizam a refundação. Consagrados continuam a ser martirizados, entregando suas vidas a favor da vida de outros. Consagrados continuam a ser enviados para onde poucos outros aceitam ir, transpondo fronteiras da geografia, da cultura, da família, da segurança. Consagrados ingressam em instâncias de influência política, socioeconômica, jurídica, em defesa de pobres e excluídos. Consagrados tecem redes de solidariedade e de organização, superam limites e lideram processos de transformação. A Vida Religiosa identificada com seu carisma fundacional é a Vida Religiosa do futuro.

IHU On-Line - Quais são as suas perspectivas de atuação como presidente da CRB? Quais são os principais compromissos para esta gestão?

Márian Ambrósio - Sinto-me apenas começando... E sei, por experiência, que a atitude de quem quer aprender pode ser definida por dois gestos: ouvidos abertos e pés no chão. É o grande exercício do discipulado – ir à realidade onde religiosas e religiosos estão inseridos, isto é, lá onde Jesus nos precede, e ouvir os apelos do Espírito Santo, através dos sinais dos tempos. Sinto-me ainda fortemente motivada pela frase-força da Assembléia Geral da CRB, ocorrida em julho passado:

“Diga a esta geração: avance”! (Ex 14,15)

Ao ouvir as partilhas dos grupos que tenho encontrado, do Nordeste ao Sul (onde me foi possível estar presente) toma forma dentro de mim,a tríplice direção de nosso avanço:

Avançar em profundidade – como resposta aos gritos por mais mística, mais testemunho, mais profecia;

Avançar em inter-relações – como resposta aos apelos por novas parcerias, mais corajosas, mais comprometidas, mais encarnadas;

Avançar em missionariedade – como resposta ao carisma da Vida Religiosa, convocada a se transpor fronteiras, a fazer diferença nos desertos e nas periferias do mundo.

Sem dúvida, o grande desafio do triênio será avançar ao encontro das juventudes, a aprender a converter nossa linguagem, nossa metodologia, nossas formas de encontrar...

Gosto de contemplar a imagem do horizonte – o lugar onde se encontra a utopia. E gosto da certeza de que o importante é dar um passo, e depois outro, e depois outro!

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