A origem da subjetividade e da lírica modernas. Entrevista especial com Eduardo Sterzi

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17 Outubro 2007

O poeta e ensaísta Eduardo Sterzi formou-se em Jornalismo pela UFRGS e fez mestrado em Teoria da Literatura pela PUCRS. Em seu doutorado, relizado em Teoria e História Literária pela Unicamp, desenvolveu a tese “Incipit: a Vita nova e a irrupção da lírica moderna”, sobre a qual concedeu uma entrevista, por e-mail, à IHU On-Line. Ele fala do seu estudo relacionado ao nascimento da subjetividade e da lírica modernas, a partir da Vita nova, primeira obra de Dante Alighieri.

Vita nova foi escrita, provavelmente, entre 1283 e 1293. Nesta obra, Dante narra a história de seu amor por Beatrice Portinari, a filha de Folco Portinari, um nobre da cidade de Florença, na Itália. A narrativa tem início com o primeiro encontro de Dante com a amada, quando ambos tinham nove anos, e o segundo, exatamente nove anos depois. Nessa ocasião, ele tem um sonho místico e alegórico, no qual vê o deus "Amor", que traz Beatriz em seus braços. "Amor" também tem nas mãos o coração de Dante, dando-o a Beatriz. Como lembra Sterzi, Dante reúne, nessa obra, "alguns de seus poemas líricos de juventude e os envolve com uma prosa ao mesmo tempo autobiográfica e crítico-teórica". Uma tradução dela para o português, feita por Décio Pignatari, pode ser encontrada no livro Retrato do artista quando jovem (2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2006).

Sterzi ministrou, em 2006, o curso "A Divina Comédia e as formas do tempo", no Centro Universitário Maria Antonia da Universidade de São Paulo. Atualmente, faz pós-doutorado pela USP. Ele também é autor do livro de poemas Prosa (Porto Alegre: Instituto Estadual do livro, 2001) e organizador de Do céu do futuro: cinco ensaios sobre Augusto de Campos (São Paulo: Marco, 2006).

Eis a entrevista.

IHU On-Line - Em sua tese, você afirma que Vita nova marca o nascimento do sujeito moderno. A partir de que elementos você é levado a essa conclusão?

Eduardo Sterzi - Na verdade, antes que o nascimento do sujeito moderno, estudei na Vita nova aquilo que acabei chamando de origem ou irrupção da lírica moderna. Claro que, em alguma medida, um processo está associado ao outro, se considerarmos que a literatura, ao trabalhar criativamente sobre a linguagem, sempre foi uma das principais esferas de construção e afirmação da subjetividade humana. E aqui acho importante introduzir uma minúcia, frisando que prefiro falar em subjetividade moderna antes que de sujeito moderno, compreendendo a subjetividade como a condição de emergência do sujeito – e, portanto, como uma realidade potencial, aberta, em obras –, enquanto o sujeito propriamente dito seria algo como o congelamento dessa realidade numa forma dada. É certo – e isto deve ficar claro, para evitar mal-entendimentos – que, com a Vita nova, não há um congelamento do sujeito na sua forma que identificamos como moderna. Mas se abre, sim, a possibilidade de emergência disso que, cinco ou seis séculos depois (e ainda hoje), vamos reconhecer como o sujeito moderno.

Mas a questão, para mim, era: como se abre essa possibilidade precisamente na lírica? Na tese, busquei testar a hipótese de que muito da singularidade estrutural da Vita nova (que é o primeiro livro de Dante, no qual ele reúne alguns de seus poemas líricos de juventude e os envolve com uma prosa ao mesmo tempo autobiográfica e crítico-teórica) começa a se explicar se compreendemos o texto como uma representação da irrupção de um novo modo de conceber a lírica. Este novo modo, que diversos estudiosos – sobretudo italianos – antes de mim já perceberam como sendo um modo “moderno”, a partir da constatação de que aí se dava a virada decisiva da lírica, se distinguia, sobretudo por duas características fundamentais: a nova lírica era composta e transmitida por escrito, e não mais cantada, como havia sido até quase o fim da Idade Média (o que não impede que, até hoje, exista ainda lírica cantada: as novas formas não anulam, mas se sobrepõem às antigas); e a nova lírica era escrita nos idiomas vernáculos (no volgare, como dizia Dante), e não mais em latim. A forma central e, em alguma medida, definidora dessa nova lírica é o soneto – não por acaso, dos 31 poemas que Dante colige e comenta na Vita nova, 26 são sonetos; e também não por acaso, o soneto será a forma lírica de maior destaque entre os séculos XIII (quando foi inventado pelo siciliano Giacomo da Lentini [1]) e XX (quando a forma parece “se esgotar” em confronto com as formas ditas “livres”, alcançando porém, quando é praticada a partir da consciência desse esgotamento, algumas de suas mais altas realizações – pense-se nos sonetos de Rilke (2) e de Valéry (3) ou, entre nós, de Drummond (4) e de Murilo (5)).

Podemos nos perguntar, enfim, depois desses esclarecimentos (que já vão ficando bem mais longos do que deviam...), o que esse novo modo de fazer lírica traz para a subjetividade, que nos leva a qualificá-la também como moderna. Basicamente, sem entrar em maiores detalhamentos, podemos dizer que a passagem da música à escrita e do latim ao vernáculo – sobretudo na forma que essa passagem adquire com o soneto – propicia a superação de certa cultura tradicional e um incremento de reflexividade no poema. Estes dois fatos são fundamentais para a formação de um novo modelo de subjetividade.

Porém, para além de tudo isso, a Vita nova é fundamental neste duplo processo de irrupção da lírica e da subjetividade modernas na medida em que é precisamente nela que se afirma pela primeira vez um nexo essencial entre vida e poesia. Afinal, nesta obra, Dante se põe a explicar biograficamente seus sonetos e canções, interpretando-os como cifras de experiências por que passou. Claro que, conforme se sabe, alguns dos poemas da Vita nova foram elaborados a partir de lugares-comuns da poesia da época, sem dependerem de ligações efetivas com episódios biográficos de Dante; no entanto, o que importa criticamente é que, a despeito da veracidade ou verificabilidade de um vínculo originário entre a lírica de Dante e sua subjetividade, permanece o fato inegável da afirmação – ainda que fictícia, retórica – desse vínculo. Que, em algum momento da história da literatura, um poeta tenha sentido a necessidade de estabelecer ligações entre seus poemas e acontecimentos de sua vida, ancorando o texto na experiência – isto, independentemente de essas ligações serem verdadeiras ou não, já é um evento e tanto.

IHU On-Line - Por que esse "libello" de Dante seria tão importante quanto a Divina comédia (Commedia), obra dele mais clássica? Sua variedade (mistura entre poesia e prosa, diário ou romance autobiográfico) expressaria uma espécie de teoria da lírica?

Eduardo Sterzi - A idéia de que a Vita nova poderia ser lida como uma “teoria da lírica” foi proposta pelo poeta e crítico italiano Edoardo Sanguineti (6). Na minha tese, tento matizar essa idéia, chamando a atenção para o fato de que, numa obra que é antes de tudo literária como a Vita nova, a figura prepondera sobre o teorema, e, antes que de teoria da lírica, talvez devêssemos falar de representação ou encenação da lírica moderna em sua irrupção e afirmação primeira. Atualmente, está na moda entre alguns leitores, e mesmo entre aqueles que se pretendem críticos, reclamar de obras literárias que falem predominantemente sobre a própria literatura, como se isso fosse um crime de lesa-arte. Bom, é tudo culpa de Dante... Na medida em que ele transforma a si mesmo, no papel de poeta (mas também no de amante e, a partir da Commedia, no de político), em personagem central de suas obras, a poesia torna-se inevitavelmente o assunto principal de sua escrita, ou pelo menos o mais constante. Este é outro fator que torna a obra de Dante tão fundamental na constituição de uma esfera literária moderna.

Mas não esqueçamos do outro ponto da sua pergunta, que diz respeito à importância da Vita nova em comparação com a Commedia. É claro que não nego – seria maluco se o fizesse – que a Commedia é uma obra muito mais conhecida e muito mais influente do que a Vita nova. A sua importância ultrapassa bastante a literatura, com algumas de suas expressões alimentando a própria língua italiana dos séculos seguintes e com suas imagens impregnando todas as artes e mesmo o imaginário extra-artístico (nossos sonhos, nossos medos, nossas esperanças) – e isto até hoje. Basta lembrar, por exemplo, a relevância que a Commedia teve na consolidação do Purgatório no imaginário cristão. A repercussão da Vita nova é, em princípio, mais limitada, sendo uma obra por muitos motivos extremamente inovadora do ponto de vista especificamente literário. Trata-se, por exemplo, do primeiro livro concebido e executado como livro da literatura italiana. E não só da literatura italiana, mas de todas as literaturas européias em vernáculo – o que faz da Vita nova, a rigor, o primeiro livro da literatura moderna. Se lembrarmos que a questão do livro acabará sendo uma questão decisiva da modernidade literária, temos aí um argumento em favor da valorização da Vita nova como obra crucial para a definição da história da literatura ainda em curso.

Mas a Vita nova também tem de ser valorizada a partir do fato de que foi nela que Dante experimentou e consolidou algumas das conquistas poéticas que seriam determinantes para a diferença que a Commedia introduziria na tradição a que pertence, que é a da poesia narrativa ou, lato sensu, “épica”. A subjetividade lírica sobre a qual o jovem autor da Vita nova tanto se debruça ao examinar os vínculos entre poesia e vida está na base daquela primeira pessoa tão surpreendente com que a Commedia se enuncia desde sua primeira terzina. A figura decisiva de Beatrice é elaborada no jogo entre poesia e prosa da Vita nova, resultando muito diversas das damas da tradição cortês de que o Dante-lírico partira – e só à luz dessa diferença construída na Vita nova é que vamos compreender como Dante chega a essa figura monumental que é a Beatrice da Commedia. A meu ver, uma leitura da Commedia que não leve em consideração os seus laços com a Vita nova é uma leitura incompleta. E, conseqüentemente, qualquer tentativa de história literária geral do Ocidente que não confira o devido relevo à Vita nova me parece também uma tentativa insatisfatória.

IHU On-Line - Eliot considerava que o poema apresentava uma mistura entre "biografia" e "alegoria". Ao mesmo tempo, Auerbach, um dos estudiosos referenciais sobre Dante, afirma que a "Vita nova é imprestável como fonte de informações sobre a vida de Dante. Os eventos que nela figuram, encontros, viagens, conversações não podem ter acontecido como estão nos relatos, e é impossível tirar deles dados biográficos". Como vê essa questão?

Eduardo Sterzi - Não é verdade que a Vita nova seja “imprestável como fonte de informações sobre a vida de Dante”. Pelo menos no tocante ao fato fundamental da vida de Dante, que é a sua poesia, ela nos fornece um esquema biográfico extremamente válido, verdadeiramente indispensável e incontornável. Mas se trata de um esquema de linhas muito gerais, que continua orientando os biógrafos de Dante: as primeiras experiências poéticas no círculo dos fiéis de Amor (fedeli d’Amore – também conhecidos, a partir de um verso da Commedia, como “stilnovistas”); o contato com Guido Cavalcanti; a participação na vida social de Florença desde a infância; o envolvimento sobretudo imaginário (mas, na poesia, a imagem é a realidade toda) com Beatrice; a morte de Beatrice e as mudanças que isso determinou na sua maneira de conceber a poesia... Tudo está lá. O que não encontramos na Vita nova são detalhes de acontecimentos da vida de Dante que não digam respeito à sua poesia. Podemos defini-la como uma biografia poética (expressão em que o substantivo e o adjetivo são inextricáveis). E, como em toda boa poesia, o que é supérfluo fica de fora.

Quanto à afirmação de Eliot de que temos, na Vita nova, uma mistura de biografia e alegoria, não me parece também completamente justa. Digo isto tendo em vista o fato de que, ao contrário das alegorias propriamente ditas, a Vita nova não se deixa traduzir razoavelmente num quadro exterior de equivalências figurativas. Só com muito esforço alguns estudiosos conseguem afirmar, por exemplo, que Beatrice seria uma figura de Cristo, uma interpretação alegória possível (mais fácil – e espantoso – é constatar que, no esquema delineado por Dante, Cristo é que poderia ser tomado como uma figura anunciadora de Beatrice: basta recordar que a morte de Beatrice, tal como Dante elipticamente a narra, se faz acompanhar de uma série de alusões evangélicas referentes à Crucificação).

O ponto decisivo no ensaio de Eliot sobre Dante, no que concerne à Vita nova, me parece ser chamar a atenção para a importância que a leitura desta primeira obra tem para o entendimento da obra maior que é a Commedia.

IHU On-Line - De que modo se mostra Beatriz, a figura amada de Dante, em Vita nova e na Divina comédia (Commedia)? Beatriz seria o "fantasma" (para utilizar uma expressão de Giorgio Agamben) de Dante, fazendo parte daquilo que você chama de "renovação espiritual e poética"?

Eduardo Sterzi - Beatrice é, sim, o “fantasma” (a imagem) a partir da qual Dante constrói sua poesia, com tudo que ela tem de inovação ou renovação em relação aos modelos poéticos anteriores, sejam estes os dos trovadores occitânicos (ou provençais), os dos sicilianos ou os dos stilnovistas. Fundamental para esta inovação é a morte de Beatrice – as damas dos poetas anteriores não costumavam morrer. Com a morte de Beatrice, Dante leva ao extremo o distanciamento do poeta em relação à amada. Este distanciamento foi decisivo, ao longo de toda a trajetória anterior da lírica vernacular, para que uma nova instância inseparável dessa lírica se afirmasse: a interioridade (que é a base da subjetividade e se faz simbolizar pelo coração tão presente nesses poemas). A morte de Beatrice reforça esse distanciamento e reforça, por assim dizer, a interioridade do poeta, que se expande sempre mais, e com ela a poesia, para ocupar com imagens e palavras o vazio deixado pela amada morta. Dante, na Vita nova, chega a falar de uma necessidade da morte de Beatrice (“Di necessitade conviene che la gentilissima Beatrice alcuna volta si muoia”): necessidade poética, antes de tudo... Um grande estudioso italiano da literatura, Roberto Antonelli, chega a falar, com ironia mas também precisão crítica, em assassinato de Beatrice por Dante.

IHU On-Line - Em Estâncias (Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2007), Giorgio Agamben analisa a presença de Dante e dos trovadores na literatura ocidental. Vita nova é dedicado a Guido Cavalcanti. E Virgílio é o guia do poeta na Divina Comédia. Como se apresenta, na obra de Dante, o diálogo com a tradição que o antecede?

Eduardo Sterzi - A obra de Dante toda pode ser vista como um longo e personalíssimo diálogo com tradição antecedente. Friso o adjetivo personalíssimo: porque a rigor este diálogo é também um modo de inventar (ou reinventar) esta tradição. Para ser breve, recordemos que a Vita nova, secundada nisso pelo tratado De vulgari eloquentia e por algumas passagens da Commedia, é decisiva para a valorização dos poetas vernaculares como comparáveis, em alguma medida, aos poetas da Antigüidade. Aliás, Dante provavelmente foi o primeiro a reconhecer como “poetas vernaculares” (poete volgari) aqueles que antes eram chamados (um pouco desdenhosamente, em contraste com a designação reservada a quem escrevia em latim e grego) de trovadores. E afirma-o muito claramente: “dizer por rima em vernáculo é comparável a dizer por versos em latim, segundo alguma proporção”. Se hoje consideramos Arnaut Daniel (7) o maior dos trovadores occitânicos, ou se reconhecemos a grandeza e a raridade de Guido Cavalcanti, é porque Dante chamou e continua a chamar a nossa atenção para eles. E, na Commedia, esse cânone vernacular tão pessoal se conjuga com a revisão do cânone clássico sintetizada no episódio do encontro com cinco grandes poetas da Antigüidade no Limbo: Homero, Horácio, Ovídio, Lucano, Virgílio. E Dante, sem pudor algum (e na verdade com exato tino crítico), apresenta-se como o ponto de contato entre esses dois cânones, ao ser ‘reconhecido’ pelos Antigos como um igual (sesto tra cotanto senno).

IHU On-Line - O que pensa sobre a interpretação de Harold Bloom, para quem Dante se contrapõe à teologia agostiniana e ao cristianismo?

Eduardo Sterzi - Tendo a acompanhar Harold Bloom (8) nas suas advertências em relação aos estudiosos que lêem a obra de Dante, sobretudo a Commedia, como se esta não fosse mais que uma versificação da doutrina da Igreja, uma espécie de Agostinho ou Tomás de Aquino em tercetos. Dante toma tantas e tão profundas liberdades em relação ao corpo doutrinário cristão, que o equívoco dessa leitura deveria ser evidente. A figura mesma de Beatrice, como bem mostra Bloom, é essencialmente herética: Dante coloca uma mera moça por quem se enamorou no centro da história da salvação, nada menos que isso. O engraçado é que a Igreja mesma sempre esteve preocupadamente atenta ao aspecto revisionário da obra de Dante em relação a sua doutrina. Tanto que a Vita nova, por exemplo, foi censurada pela Igreja em sua primeira edição impressa, com várias expressões reservadas habitualmente a santos e aplicadas por Dante a Beatrice sendo alteradas.

IHU On-Line - Como se revela a presença de Amor, visto como um deus, em Vita nova?

Eduardo Sterzi - O interessante na Vita nova, no tocante à figuração do Amor, é que este aparece ao mesmo tempo como um sentimento, mais ou menos como nós o concebemos, e como um deus, espécie de versão cristianizada do Eros grego ou do Cupido latino. Essa ambigüidade é essencial, e, como as inúmeras outras ambigüidades de que a obra de Dante está repleta, é sintomática de uma posição histórica de passagem (ou oscilação) entre uma configuração cultural que se encaminhava a seu ápice e outra que mal se anunciava. Mas é importante notarmos que o deus Amor só aparece como tal numa visão de Dante, e não no curso terreno dos acontecimentos.

IHU On-Line - Quais seriam alguns dos teóricos mais importantes para a interpretação de Dante?

Eduardo Sterzi - É preciso ler antes de tudo os estudiosos já clássicos, alguns deles felizmente já traduzidos – embora às vezes mal-traduzidos – para o português: leia-se o que Erich Auerbach (9) tem a dizer em Dante, poeta do mundo secular e no capítulo “Farinata e Cavalcante” de Mímesis; leia-se o que Ernst Robert Curtius resume brilhantemente no capítulo sobre Dante de Literatura européia e Idade Média latina; leia-se o que Gianfranco Contini – o maior crítico italiano – traz de novo em seus ensaios dantescos (alguns publicados numa edição portuguesa intitulada Dante e a memória poética; em italiano, nesta preciosidade que é a coletânea Un’idea di Dante). Mas quem quiser ir além em seu esforço para conhecer Dante terá de embrenhar-se numa bibliografia que permanece muitas vezes em seus idiomas originais; destes, os autores que considero mais interessantes são: Maria Corti, Giorgio Petrocchi, Guglielmo Gorni, Corrado Bologna, John Freccero, Charles S. Singleton, María Rosa Menocal.

IHU On-Line - Poderia falar um pouco do livro que preparou sobre Dante, a ser lançado pela editora Globo?

Eduardo Sterzi - Trata-se de uma apresentação da vida e da obra de Dante ao leitor que se interessa por literatura (ou não teria por que ler a respeito, imagino) mas que não necessariamente já ingressou na selva dificultosa da obra dantesca. Parti, para a escrita do livro, tanto do que aprendi ao longo da preparação da minha tese quanto das dúvidas daqueles que acompanharam um curso e algumas palestras que dei sobre Dante nos últimos tempos. O livro deve ser lançado no segundo trimestre do próximo ano.

Notas:

(1) Giacomo da Lentini foi um poeta siciliano. Nasceu na segunda metade do século XII e morreu na primeira metade do século XIII.

(2) Rainer Maria Rilke foi um dos mais importantes poetas de língua alemã do século XX. Em 1894 fez sua primeira publicação, uma coleção de versos de amor, intitulados Vida e canções (Leben und Lieder). O século XX trouxe para a poesia de Rilke um afastamento do lirismo e dos simbolistas franceses com os quais ele se identificava. Em 1905, publicou O livro das horas, de grande repercursão à época. Nesta obra, seus poemas já apresentavam um estilo concreto, bem característico desta sua fase. A obra de Rilke influenciou muitos autores e intelectuais em diversas partes do mundo. No Brasil, um de seus principais tradutores é Augusto de Campos, que publicou Coisas e anjos de Rilke (São Paulo: Perspectiva, 2003). Sua poesia provocava a reflexão existencialista e instigava os leitores a se defrontarem com questões próprias do desencantamento da primeira metade do século XX.

(3) Ambroise-Paul-Toussaint-Jules Valéry foi um filósofo, escritor e poeta francês, da escola simbolista. Seus escritos incluem interesses em matemática, filosofia e música. Sua obra poética foi influenciada por Stéphane Mallarmé.

(4) Carlos Drummond de Andrade é considerado um dos principais poetas da literatura brasileira devido à repercussão e alcance de suas obras. Nasceu em Minas Gerais, em uma cidade cuja memória viria a permear parte de sua obra. Além de poesia, produziu livros infantis, contos e crônicas. A revista IHU On-Line lhe dedicou o número 232, intitulado Carlos Drummond de Andrade: o poeta e escritor que detinha o sentimento do mundo, uma homenagem aos 20 anos de sua morte.

(5) Murilo Monteiro Mendes foi um poeta brasileiro, expoente do modernismo brasileiro. Iniciou-se na literatura escrevendo nas revistas modernistas Terra Roxa, Outras Terras e Antropofagia. De 1953 a 1955 percorreu diversos países da Europa, divulgando, em conferências, a cultura brasileira. Em 1957, se estabeleceu em Roma, onde lecionou Literatura Brasileira.

(6) Edoardo Sanguineti nasceu em Genova, na Itália. É considerado um poeta vanguardista e um teórico neovanguardista dos anos 1960.

(7) Arnaut Daniel é considerado um dos grandes poetas de todos os tempos. Foi um poeta provençal que viveu entre a segunda metade do século XIII, considerado um mestre por Dante. Traduções de seus poemas, feitas por Augusto de Campos, podem ser encontradas em Invenção (São Paulo: Arx Editorial, 2003).

(8) Harold Bloom é professor e crítico literário estadunidense. É autor de diversas teorias controversas, como a da angústia da influência, e possivelmente o maior conhecedor de Shakespeare. Também tem escritos referenciais sobre a Bíblia, como os que se encontram em Jesus e Javé (Rio de Janeiro: Objetiva, 2006). É autor também de, entre outros, O cânone ocidental (Rio de Janeiro: Objetiva, 1995), Como e por que ler (Rio de Janeiro: Objetiva, 2001) e Gênio (Rio de Janeiro: Objetiva, 2003).

(9) Erich Auerbach foi um filólogo alemão e estudioso de literatura comparada assim como crítico de literatura. Seu trabalho mais conhecido é Mímesis, uma história da representação na literatura ocidental dos tempos antigos até os modernos.

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