As novas tecnologias: inclusões e exclusões sociais. Entrevista especial com Sérgio Amadeu

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14 Outubro 2007

“O grande problema é que as novas tecnologias geram, também, novas exclusões. Mas essas exclusões não só somente exclusões sociais. As tecnologias da informação não ampliam simplesmente a força física ou a capacidade de produção em escala de coisas. Elas ampliam a capacidade das pessoas transformarem informação em conhecimento, portanto são tecnologias da inteligência.” Essas são algumas reflexões do professor Sérgio Amadeu, na entrevista do dia de hoje, realizada por telefone. Nela, Amadeu também fala sobre cultura livre, defende a liberdade na internet e se posiciona contra a apropriação que as indústrias do entretenimento fazem da rede.

Sérgio Amadeu da Silveira é cientista social pela Universidade de São Paulo. É, também, mestre e doutor em Ciência Política, pela USP. É, atualmente, professor da Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. É autor de Software livre: a luta pela liberdade do conhecimento (São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2004) e Exclusão digital: a miséria na era da informação (São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2001).

Leia a entrevista.

IHU On-Line – Estamos passando por uma revolução digital e comunicacional e, por conseqüência, social. Para o senhor, como ficarão aqueles que são excluídos dessa esfera, que estão na miséria na era da informação, como fala o título de seu livro sobre exclusão digital?

Sérgio Amadeu – O grande problema é que as novas tecnologias geram, também, novas exclusões. Mas essas não são apenas sociais. As tecnologias da informação não ampliam simplesmente a força física ou a capacidade de produção em escala de coisas, mas também a capacidade de as pessoas transformarem informação em conhecimento. Portanto, são tecnologias da inteligência, como diria Pierre Lévy (1), com muita precisão. Mas quando se deixa uma parte da humanidade ou da sociedade apartada, excluída do uso dessas tecnologias e da capacidade de ter autonomia nestas tecnologias, pode estar se criando uma desigualdade ao mesmo tempo social e cognitiva. Por isso, é extremamente importante que a sociedade reconheça que existe a necessidade de ampliar tanto o direito de acesso a essas tecnologias quanto as possibilidades independentes de seu uso pelo conjunto dos grupos sociais, independentemente do nível de renda ou do nível educacional, porque o grande problema que temos hoje é enfrentar essa desigualdade que alguns chamam de brecha digital.

IHU On-Line – O que o senhor pensa a respeito do debate que está sendo feito sobre cultura livre e sobre a ameaça da apropriação das artes e do conhecimento que a era da informação pôs em discussão?

Sérgio Amadeu – A questão é bastante complexa, mas nós temos uma situação em que a internet pôde avançar e recobrir o planeta exatamente porque toda a construção dela é baseada numa cultura de liberdade. Vários pesquisadores, entre eles o Manuel Castells (2), descrevem que na formação dessa grande rede das redes está presente, por exemplo, a cultura acadêmica estadunidense, baseada na ciência que parte do compartilhamento do conhecimento. Por outro lado, há na contracultura dos Estados Unidos o que chamamos de subcultura hacker, que também é baseada na liberdade, na idéia de que o que é bom precisa ser compartilhado. Essas culturas acabaram sendo decisivas para a escrita dos principais protocolos de códigos que compõem a internet. Por isso, a internet é uma grande rede que facilita o fluxo de informações e é algo que não está acabado, avançando, portanto, mediante reconfigurações e recombinações constantes. Os grandes grupos que se tornaram poderosos na economia industrial na área de entretenimento e telecomunicações, principalmente, estão percebendo que a internet está criando várias dificuldades para os seus modelos de negócios, exatamente porque não permite apenas a liberdade dos conteúdos, mas também a liberdade de criação tecnológica. Então, até 1992 não existia lobby ou o modo gráfico da internet. Isso foi criado em cima dos protocolos anteriores. Ninguém tem que pedir autorização para criar alguma tecnologia nova ou novas possibilidades de interação. Essa liberdade de criação incomoda os velhos grupos, as velhas instituições do mundo industrial, que estão agora tendo que correr atrás dessa cultura de liberdade, querendo implantar uma cultura da permissão, ou seja, querendo controlar a rede. Controlar não só os fluxos de informação, mas também as possibilidades de criação e de recriação, o que implica a própria lógica da internet. Eu diria que a internet é uma obra inacabada, exatamente porque o terreno com que ela é construída é o terreno da liberdade. Nós estamos enfrentando vários problemas para manter a liberdade. Nos Estados Unidos, agora foi constituído um movimento chamado Save the internet (3), com o objetivo de tentar garantir que as operadoras não possam, a partir do controle que elas fazem da infra-estrutura de telecomunicações, controlar igualmente os pacotes, os formatos que podem e que não podem passar pela rede. Em paralelo a essa batalha que está acontecendo nos Estados Unidos, há tentativas de vários países de criar tecnologias de controle ou criar leis nacionais para controlar a rede. E muitas, como no caso do Brasil, dessas leis querem acabar com o anonimato na rede, por exemplo. O objetivo da lei é exatamente implantar, dentro da internet, uma sociedade de controle absoluto, o que é um absurdo, pois impede que as pessoas possam criar dupla e múltiplas identidades e vai impedir que elas tenham liberdade de navegação, facilitando simplesmente que os grandes grupos de pesquisa possam ter identificados os rastros digitais. Ou seja, estão acontecendo várias batalhas, nas quais esses grupos do mundo industrial querem derrotar o que eu chamo de princípios da cultura hacker, os princípios que até hoje garantem o funcionamento livre da internet.

IHU On-Line – Nosso sistema educacional está preparado para quem tem vontade de aprender e coragem para explorar esse conhecimento?

Sérgio Amadeu – Eu acho que o sistema educacional não está preparado, mas a preparação desse sistema só vai ocorrer se nós criamos pontos de tensão positiva. Eu acho que vamos poder fazer isso, nesse sistema arcaico que temos hoje, a partir da rede, da internet. A própria figura do professor está em questão. O professor tem baseado o seu ensino em hierarquias, na estabilidade dos saberes e do conhecimento. Isso não é mais possível hoje. O professor precisa ser um conector, um explorador de redes. Ele tem que levar os estudantes não à idéia absurda de que devem “assistir a aulas”, e sim a superar essa passividade. A rede precisa ser explorada e o conhecimento, hoje, cada vez mais se dá na exploração que temos desse enorme repositório da humanidade representado pela internet. O professor e o sistema de ensino estão baseados numa idéia do século XVIII e XIX, a de que temos condição de dominar o campo do conhecimento completamente para nossa vida. Isso está errado. A sociedade da informação, eu tenho dito, é também a sociedade da ignorância relativa, da crescente ignorância. A cada dia, a sociedade produz mais informação e mais conhecimento. E, também a cada dia, nós ficamos mais ignorantes. Portanto, nós temos que saber que isso é um processo que está acontecendo e precisamos ser capazes de nos atualizar permanentemente. Logo, o ensino deve ser completamente reconfigurado. A idéia de conhecimento estável e a idéia de que existe uma pessoa num grupo de 40 com o papel de todo poderoso e que consegue orientar aquelas pessoas, passar coisas que as outras pessoas não saibam, não é real. É necessário instigar a curiosidade, e com isso se deve criar uma nova ética para a educação e um novo espírito nos estudantes, porque aqueles que têm contato com a rede cada vez mais percebem que o estilo de ensino que existe é muito ruim. Aqueles que não têm contato estão em situação muito ruim para poder viver, conviver nessa sociedade da informação. Então, o que nós precisamos fazer, em minha opinião, é reorganizar a educação, as nossas escolas, introduzindo as redes no sistema de ensino. Introduzindo não apenas como laboratórios de informática, mas como elementos vitais para organizarmos o conhecimento e a busca pelo conhecimento. Eu acho que as escolas não estão preparadas para que as crianças tenham computadores e nunca vão se preparar se nós nunca criarmos essa tensão, se não criarmos essa possibilidade de revolucionar a educação a partir do uso das redes.

IHU On-Line – De que forma a inclusão pode contribuir para o desenvolvimento sustentável brasileiro?

Sérgio Amadeu – Eu acredito que a inclusão, por meio do uso de tecnologia, de podermos espalhar a banda larga num conjunto de municípios do Brasil, passa a viabilizar coisas que seriam impensáveis antes. Eu imagino que uma cidade que tenha um bom nível de ensino tem um potencial incrível a partir da rede. Ao invés de obrigarmos que uma pessoa saia de uma cidade para ir a um grande centro em busca de emprego, nós, com as redes de alta velocidade, podemos levar empregos a partir do teletrabalho, por exemplo. Eu vou dar mais um exemplo: a maior parte dos municípios no Brasil tem menos de dez mil habitantes e não tem vocação econômica definida nem emprego assalariado. Você pode, ao invés de concentrar empregos nos grandes centros urbanos, como Salvador, São Paulo e Belo Horizonte, que concentram vários call centers com milhares de posições, utilizar a rede para criar um call center distribuído, ou seja, eu levo para uma cidade pequena duzentos empregos a pessoas que estarão atendendo consumidores que utilizam tais serviços. Isso já é feito da Índia para os Estados Unidos, quando alguém está ligando para o SAC (Serviço de atendimento ao consumidor). Em geral, pode não estar falando com ninguém em solo estadunidense. No Brasil, temos um uso cada vez maior desses sistemas de atendimento, de telefone, que não precisam mais estar concentrados, gerando sustentação econômica e, portanto, sustentabilidade do ponto de vista socioambiental. Porque você pode acabar dando condições de as pessoas viverem uma vida saudável, sem estar pressionando os ambientes urbanos ou enormes deslocamentos que significam emissões poluentes e queima de carbono. O que eu estou querendo dizer é que temos possibilidades de criar inúmeras condições de novos empregos a partir do uso das redes e das tecnologias da informação.

IHU On-Line – O senhor pode nos falar do conceito de autonomia coletiva?

Sérgio Amadeu – Nos processos de uso das tecnologias, nós temos que trabalhar com a idéia de adquirir a apropriação dos usos das tecnologias por parte dos coletivos. Eles são inteligentes, mas, para exercer essa inteligência, precisam de autonomia tecnológica. É preciso conhecer o que está se usando. Por isso, inclusive, eu defendo muito o uso das tecnologias de código aberto, software livre, porque elas permitem que, a qualquer momento, os coletivos usuários possam se tornar desenvolvedores também, manipulando o conhecimento daquilo que estão usando e retrabalhando o conhecimento. Para isso, é preciso liberdade, o que é vital para as sociedades humanas. Entretanto, nós só vamos conseguir manter o ritmo de criatividade, de conhecimento com base na liberdade que exige autonomia. A autonomia só é possível com o conhecimento, daí este ser um elemento de cidadania hoje no mundo digital. É preciso haver a defesa da autonomia dos coletivos, dos processos de inclusão digital. É necessário que as comunidades tenham o direito de se apropriar daquilo que elas estão usando como intermediários da sua comunicação ou como intermediários, armazenadores e processadores da inteligência. Então, eu digo que o processo de autonomia é vital no mundo digital como questão de cidadania e como inclusão digital.

IHU On-Line – Quem são os excluídos digitais do Brasil, hoje?

Sérgio Amadeu – É a maioria da sociedade que está impedida economicamente de ter acesso às tecnologias da informação e comunicação. Esse impedimento exclui muitas pessoas do processo de autonomia e, portanto, as deixa sem liberdade de expressão no mundo informacional. Mais da metade da população está submetida a uma enorme concentração de renda e desigualdade econômica e social: ela abrange o que chamamos de excluídos. Essa exclusão econômico-social é extremamente grave, porque pode gerar exclusões cognitivas. A pior, sem dúvida, é a dos analfabetos, numa sociedade alfabetizada. No Brasil, o problema é muito grave, pois trata-se de um país com extremo contraste, porque ao mesmo tempo em que estendemos as tecnologias e levamos a banda larga para várias partes, tentando inserir as pessoas na sociedade da informação, possuímos um número de analfabetos absolutos, que chega a ter o tamanho da população de Portugal, hoje. Ou seja, há mais de dez milhões de pessoas analfabetas, excluindo-se, aqui, os analfabetos funcionais. Então, agora, a questão é bastante grave. Nós precisamos pensar em como usar as redes para também enfrentar essas velhas mazelas.

Notas:

(1) Pierre Lévy é um filósofo da informação que se ocupa em estudar as interações entre a Internet e a sociedade. Trabalha desde 2002 como titular da cadeira de pesquisa em inteligência coletiva na Universidade de Ottawa, Canadá. Em seu livro A revolução contemporânea em matéria de comunicação, Lévy faz uma análise da evolução da humanidade, abordando o desenvolvimento da Internet e a digitalização da informação. De acordo com Lévy, antes da popularização da internet o espaço público de comunicação era controlado através de intermediários institucionais que preenchiam uma função de filtragem entre os autores e consumidores de informação. Hoje, com a internet, quase todo mundo pode publicar um texto sem passar por uma editora nem pela redação de um jornal. No entanto, essa liberdade de publicações que a internet oferece acarreta no problema da veracidade, da garantia quanto à qualidade da informação. Quanto mais o ciberespaço se estende, mais universal se torna.

(2) Manuel Castells é um sociólogo espanhol. Durante a década de 1970, Castells teve um importante papel no desenvolvimento da sociologia urbana marxista. Enfatizou o papel dos movimentos sociais na transformação conflitiva da paisagem urbana. Introduziu o conceito de "consumo coletivo" para compor um amplo alcance dos esforços sociais, deslocado do campo econômico para o campo político pela intervenção do Estado. Ao abandonar as estruturas marxistas no início da década de 1980, começou a se concentrar no papel das novas tecnologias de informação e comunicação na reestruturação econômica. Nos meados da década de 1990, reuniu os lados de sua pesquisa em um sólido estudo, chamado A era da informação, publicado como uma trilogia entre 1996 e 1998. Castells apresenta sua formulação teórica do que intitula "a cultura da virtualidade real", lembrando que as culturas consistem processos de comunicação e que, uma vez sendo a comunicação baseada em sinais, não há separação entre "realidade" e representação simbólica. Isso é importante para destacar que as relações humanas se darão cada vez mais em um ambiente multimídia, cujos impactos ainda estão por serem estudados.

(3) Save the internet é um grupo de ativista que luta pela liberdade total na internet.

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