A economia de Dilma. Planos e possibilidades. Entrevista especial com Pedro Rossi

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03 Novembro 2010

Domingo elegemos Dilma presidente do Brasil. Alguns discursos e entrevistas nos dias posteriores já possibilitaram que análises sobre as propostas da nova presidente fossem realizadas. E é exatamente isso que o economista Pedro Rossi faz na entrevista a seguir que concedeu por telefone à IHU On-Line. “O desafio ficará na questão do câmbio. Do ponto de vista do modelo geral, com câmbio flutuante, a própria Dilma já esclareceu que não mexerá. O que poderá mudar, tomando uma forma mais rígida e radical no governo dela, são as medidas de controle de capital”, afirmou o professor.

Rossi começa falando de suas expectativas em relação ao setor econômico do governo Dilma e, então, passa a analisar os desafios e as implicações das propostas já apresentadas pela presidente eleita. “O salário mínimo está se aproximando de um salário médio e seu nível de consumo como motor do crescimento vai se esgotar em algum momento. Esse motor precisa ir para o lado do investimento, fato no qual a Dilma vai prestar bastante a atenção. O que não pode acontecer é o salário mínimo ser reajustado abaixo da inflação”, indica.

Pedro Rossi é economista graduado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É mestre em Economia pela Unicamp. Atua como pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica da Unicamp (Cecon).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que esperar da economia do governo Dilma?

Pedro Rossi – De um ponto de vista mais geral, deve-se manter o modelo de crescimento do governo Lula com distribuição de renda. Talvez o investimento passe a ter uma importância maior nessa nova etapa. No governo Lula houve um crescimento muito liderado pelo aumento do consumo interno por conta do aumento do salário mínimo, assistência social através do Bolsa Família e, talvez, o mais importante, por conta da massa de crédito. Talvez, agora passemos a ter um ciclo de crescimento mais liderado pelo investimento com a herança do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) na área de infraestrutura e com as próprias estatais investindo bastante, como a Petrobrás investindo pesado e o BNDES apoiando esse ciclo de investimento.

A economia irá sofrer uma série de ajustes, não na estrutura geral do modelo, mas ajustes marginais que são muito importantes. A questão mais debatida será a fiscal. Ou se faz um ajuste fiscal mais rigoroso ou mais brando. Sinceramente, não sei o que a presidente Dilma fará. Pessoalmente, creio que o ajuste radical não é bom e não soluciona, por exemplo, a questão dos juros, e, por outro lado, pode comprometer o ciclo de crescimento. Acho mais adequado manter uma trajetória saudável da dívida pública eventualmente com ajuste mais gradual, ou seja, o aumento dos gastos públicos abaixo do aumento do PIB pode ser uma saída. Claro, isso em tempo de “boom” e crescimento econômico. Em tempos de crise, precisa haver espaço para política anticíclica.

IHU On-Line – Dilma Rousseff começará com dívida pública relativamente baixa e reservas em dólar absolutamente fartas. Mas que desafios econômicos estão por vir?

Pedro Rossi – A dívida pública está baixa, com patamar interessante, por isso penso ser interessante manter a trajetória saudável, sem tendência de aumento explosivo. O controle fiscal é importante. O desafio ficará na questão do câmbio. Do ponto de vista do modelo geral, com câmbio flutuante, a própria Dilma já esclareceu que não mexerá. O que poderá mudar, tomando uma forma mais rígida e radical no governo dela, são as medidas de controle de capital. No fundo, queremos um câmbio flutuante, como ela mesma afirmou, mas sem distorção financeira, que é o que ocorre no modelo brasileiro. O sistema de métodos de inflação funcionou, mas distorceu o câmbio. Temos de rever quais os problemas que fazem com que a taxa de câmbio seja permanentemente distorcida pelo fluxo de capital. Esse é o principal desafio.

IHU On-Line – Como os ajustes no déficit fiscal e no câmbio, apontados com os primeiros problemas a serem enfrentados pela presidente, podem implicar no salário mínimo e na Bolsa Família?

Pedro Rossi – Dilma já adiantou que não irá cortar gastos sociais com investimento. Então, na relação direta entre gastos do governo, Bolsa Família e salário mínimo não haverá problema. A questão cambial é outro debate, já que uma parte dos economistas diz que um ajuste fiscal ajuda o problema do câmbio de uma forma direta, permitindo a redução dos juros e a desvalorização do câmbio. E não concordo que essa relação seja tão direta. Com a taxa de juros, e com a inflação de uma forma geral, há uma série de questões que não tratam apenas de demanda agregada, é uma discussão mais técnica, mas também é importante.

Temos, no Brasil, um crescimento muito grande do crédito de consumo, que não é muito afetado pela questão dos juros altos, tem uma parcela de preços administrados e choques de oferta, muitas vezes externos, que fazem com que a inflação mude de trajetória. O gasto público tem uma parcela pequena de responsabilidade nesta trajetória, por isso não acredito que reduzindo-o diretamente se consiga espaço para reduzir juros.

IHU On-Line – Líderes de bancos como o Itaú e o Bradesco afirmaram que Dilma não precisa de grandes propostas para manter o crescimento econômico do Brasil. Como o senhor vê a política econômica atual e a relação com os bancos? Dilma pode mudar essa relação?

Pedro Rossi – Acho que não. A relação com os bancos no governo Lula foi muito boa. O Brasil viveu um ciclo de crédito fantástico, o maior da nossa história, e os bancos, obviamente, beneficiaram-se disso. Houve um episódio importante durante a crise econômica no qual o Lula mudou a direção do Banco do Brasil por conta de um modo de funcionamento mais privado que a instituição estava assumindo naquele momento. Essa mudança foi importante não só para a sociedade, mas também para o próprio Banco do Brasil, que ganhou mercado com a expansão do crédito durante a crise.

O Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal saíram mais fortes da crise do que entraram nela. Dilma deve insistir nessa ideia. Há dois bancos comerciais públicos que são importantes para a dinâmica de crédito e um banco de desenvolvimento que é fundamental para a dinâmica da atitude industrial. Nesse ponto, Dilma não deve mudar muita coisa.

IHU On-Line – Dilma Rousseff quer acertar um novo modelo que permita uma nova regra de reajuste do salário mínimo já no próximo ano, que, pela regra atual, não teria reajuste real, sendo corrigido apenas pela inflação. Como isso é possível?

Pedro Rossi – Há certos limites para o crescimento do salário mínimo, não sei se ainda há folga. Talvez haja espaço para um aumento. Mas o aumento que foi dado ao longo do Governo Lula, talvez tenha sido mais importante e não seja possível reproduzi-lo no mandato da Dilma. O salário mínimo está se aproximando de um salário médio e seu nível de consumo como motor do crescimento vai se esgotar em algum momento. Esse motor precisa ir para o lado do investimento, fato no qual a Dilma vai prestar bastante a atenção. O que não pode acontecer é o salário mínimo ser reajustado abaixo da inflação. Quando é acima, você incorpora um fator de redistribuição da renda.

IHU On-Line – O Governo Dilma também já afirmou que vai buscar juro real a 2% até 2014. Como o senhor vê isso?

Pedro Rossi – Se é possível não sei, mas se nós chegarmos lá vai ser uma maravilha, uma conquista muito importante. Ela afirmou isso em um contexto de meta, não necessariamente, isso será realizado em uma velocidade rápida. A taxa de juros deve ter uma trajetória cadente, até porque o quadro internacional é de estagnação nos países centrais, com pressão de preços muito baixa, ou seja, a espaço para a redução dos juros. Talvez de 2%, por que não?

IHU On-Line – Quais são os benefícios que a presidente eleita Dilma recebe agora do presidente Lula que o mesmo não teve na transição do governo FHC?

Pedro Rossi – São inúmeros os benefícios. Dilma pega uma economia que está indo na direção certa, está crescendo, passou pela crise financeira mundial de maneira razoavelmente bem. Além disso, Dilma herda um ciclo de investimentos em infraestrutura e pega as estatais num momento extremamente produtivo. E ela herda, também, não podemos esquecer, o pré-sal que o Lula não tinha nem em vista em 2003. E o pré-sal pode afetar diversos setores da economia, como, por exemplo, a questão da dívida pública, onde o pré-sal pode melhorar de forma significativa os indicadores porque é um ativo público.

IHU On-Line – A guerra cambial, tão falada nos últimos dias, pode continuar presente no governo Dilma?

Pedro Rossi – Eu creio que, inclusive, esta guerra cambial vai se intensificar. Pelo seguinte motivo: no ambiente externo temos um cenário de baixo crescimento, então provavelmente haverá uma baixa pressão de inflação externa, o que é bom. Mas, por outro lado, teremos também um cenário de baixos juros por um tempo indeterminado. As finanças internacionais, os especuladores e investidores, que financiam nos países centrais e aplicam em países que importam rendimentos, como é o caso do Brasil que tem juro alto. E essa dinâmica vai continuar enquanto tivermos um diferencial de juro muito alto. Nesse contexto, é importante fazer uma revelação financeira, do ponto de vista internacional, e isso vai ser discutido no âmbito dessa guerra de moedas. No entanto, enquanto isso, é preciso controle dos fluxos financeiros internos. Esse é um campo flutuante, mas sem distorções financeiras.

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