Entre a cidadania teológica e a esquizofrenia acadêmica. Entrevista especial com Ricardo Willy Rieth

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23 Abril 2008

“Com a possibilidade aberta pelo MEC para autorização e reconhecimento de cursos de bacharelado, a partir de 1999, a Teologia alcançou uma espécie de "cidadania" acadêmica”, afirmou Ricardo Willy Rieth em entrevista à IHU On-Line realizada por e-mail. Rieth analisa o percurso da teologia no Brasil, dos projetos encaminhados ao Senado e à Câmara Federal e fala sobre o ensino da teologia no país. Trabalhando com docentes e pesquisadores de diversas áreas, Rieth se diz impressionado com a ignorância teológica presente nas academias. “Mesmo aqueles que professam alguma crença, sofrem de uma "esquizofrenia acadêmica", ou seja, são incapazes de estabelecer relações entre o saber de sua área específica e o saber religioso”, disse.

Ricardo Willy Rieth é teólogo e sociólogo. É doutor em teologia pela Universidade de Leipzig, na Alemanha, onde também obteve o título de pós-doutor. Atualmente, é professor da Universidade Luterana do Brasil – Ulbra e da Escola Superior de Teologia – EST. É autor do livro Martim Lutero: discípulo, testemunha, reformador (São Leopoldo, RS: Editora Sinodal, 2007).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual o caminho que a Teologia traça hoje no Brasil e para onde ela vai?

Ricardo Willy Rieth - Com a possibilidade aberta pelo MEC para a autorização e o reconhecimento de cursos de bacharelado, a partir de 1999, a Teologia alcançou uma espécie de "cidadania" acadêmica. Levando em conta sua tradição de séculos, sendo, em grande parte, responsável pelo surgimento das primeiras universidades, nada mais justo. Com isso, o Brasil felizmente demonstrou estar superando uma visão estreita de academia e conhecimento científico, legada pelo pensamento positivista, tão influente no passado. Ainda é cedo para avaliar a repercussão deste reconhecimento oficial. No máximo, podemos observar algumas tendências.

IHU On-Line - O que se passa nos bastidores do Congresso Nacional em relação à Teologia?

Ricardo Willy Rieth - Atualmente, tramitam dois projetos, um no Senado e outro na Câmara Federal, dirigidos à normatização da profissão de teólogo(a). Pelo primeiro, seria considerado teólogo quem há mais de cinco anos exerce atividades de teólogo. Pelo segundo, seria teólogo "o profissional que realiza liturgias, celebrações, cultos e ritos; dirige e administra comunidades; forma pessoas segundo preceitos religiosos das diferentes tradições; orienta pessoas; realiza ação social na comunidade; pesquisa a doutrina religiosa; transmite ensinamentos religiosos, pratica vida contemplativa e meditativa e preserva a tradição." Chama a atenção que nenhum dos projetos prevê a obrigatoriedade da titulação correspondente, em curso regular oficialmente reconhecido. Outro aspecto digno de nota é que os proponentes, um senador e um deputado, têm trajetórias profissionais como pastores de denominações religiosas que historicamente têm visto com suspeita, e até mesmo rejeitado, a formação acadêmica superior em Teologia.

IHU On-Line - Como o senhor analisa o ensino da Teologia no Brasil, hoje?

Ricardo Willy Rieth - É notável a expansão de cursos de Teologia em todas as regiões do Brasil. Muitos, inclusive, buscando autorização oficial. As denominações que historicamente mantinham compromisso com uma formação teológica consistente, como a Igreja Católica Apostólica Romana e as igrejas protestantes históricas, seguem nesta linha. Denominações que, no passado, negligenciavam uma formação teológica em nível superior, como algumas igrejas pentecostais, grupos de espiritismo kardecista e cultos afro-brasileiros, estão gradativamente mudando sua postura. Por outro lado, se tal expansão traz consigo um aprofundamento da qualidade do ensino e da formação é algo difícil de avaliar. Tenho percebido que estudantes de Teologia têm agido da mesma forma que universitários em geral nos últimos tempos, ou seja, optando pelo pragmatismo da formação rápida e voltada ao pronto ingresso no mercado de trabalho, em detrimento de uma formação mais pautada pela reflexão crítica acerca dos conteúdos e práticas associados à Teologia. Infelizmente, as instituições de ensino superior têm atendido, ou têm sido levadas a atender a essa demanda de seus "clientes".

IHU On-Line - Porque, em sua opinião, demorou tanto tempo para que os cursos de teologia fossem reconhecidos?

Ricardo Willy Rieth - Por um lado, as denominações que mantinham cursos superiores de Teologia não tiveram grande interesse para que tal reconhecimento ocorresse. Por outro, o ensino superior no Brasil nasceu e estruturou-se dentro de um espírito fortemente anticlerical. Convivo diariamente com docentes e pesquisadores de outras áreas do conhecimento e sempre fico impressionado com sua ignorância teológica. Mesmo aqueles que professam alguma crença, sofrem de uma "esquizofrenia acadêmica", ou seja, são incapazes de estabelecer relações entre o saber de sua área específica e o saber religioso.

IHU On-Line - A possibilidade de criação de um Conselho Nacional de Teólogos muda, de que forma, a relação entre a Igreja e o Estado?

Ricardo Willy Rieth - Penso que não mudaria. As denominações religiosas, cristãs ou não, seguirão determinando os critérios de seleção e designação dos membros do seu clero, independente das normas propostas por um suposto conselho nacional. Eventualmente, as condições do exercício da profissão de teólogo (a) na esfera pública - capelanias militares, por exemplo - poderiam ser afetadas.

IHU On-Line - Alguém que exerça a atividade de teólogo mesmo sem ser diplomado pode ser reconhecido pelo Estado, caso esse conselho seja aprovado. Qual sua opinião sobre isso?

Ricardo Willy Rieth - Para muitos, dentre os quais me incluo, a não-exigência de diploma oficialmente reconhecido colocaria este conselho de antemão em descrédito. Aliás, os teólogos precisam esforçar-se para que seu título, "teólogo", cujo significado, de fato, é desconhecido para amplos setores da população brasileira, seja digno de crédito e visto de forma positiva. Isso porque muitos, infelizmente, têm associado títulos mais conhecidos, como "pastor", por exemplo, a vigarista e "picareta", e "padre", a pedófilo, muitas vezes conteúdos tendenciosos apresentados pelos meios de comunicação.

IHU On-Line - Há necessidade de o poder público estabelecer diretrizes curriculares que uniformizassem o ensino da teologia no país? De que forma essas diretrizes devem ser estabelecidas se houver necessidade?

Ricardo Willy Rieth - Efetivamente, os cursos de Teologia representam uma exceção neste sentido. Os especialistas que elaboraram o parecer relativo à autorização e ao reconhecimento julgaram que, ao fixar diretrizes através do MEC, o Estado estaria ferindo o princípio constitucional da separação entre religião e Estado. Penso que, embora forte, esse argumento, em parte, encobriu a "ignorância teológica" de acadêmicos brasileiros a que me referi anteriormente. A Teologia tem uma tradição de séculos como disciplina acadêmica e tal tradição, no que diz respeito a componentes curriculares, precisa necessariamente ser considerada, sob pena de sua total descaracterização como campo do saber. Examinando com cuidado os formulários elaborados pelo MEC/INEP para avaliação de cursos por comissões de especialistas, percebemos "sombras" ou indícios de algumas diretrizes. Pessoalmente, sou favorável a uma maior uniformização, pautada pela tradição a que me referi, embora reconheça que fazê-lo é um enorme desafio em razão do exuberante pluralismo religioso brasileiro e da profunda ignorância teológica reinante em nossa academia.

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