O rap e o funk na socialização do jovem da periferia. Entrevista especial com Juarez Dayrell

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09 Novembro 2007

Com um olhar positivo sobre a juventude, em 1998 o doutor em Educação Juarez Dayrell começou a pesquisar as expressões culturais dos jovens da periferia de Belo Horizonte, em Minas Gerais. Ao longo das entrevistas com os grupos musicais da cidade, começou a se perguntar como é que se dá a socialização dos jovens das camadas populares através da música. Encontrar o rap e o funk dentro dessas expressões foi uma etapa natural que o fez entender os processos de afirmação e a invenção de formas de sociabilidade dentro de grupos musicais por parte da juventude da capital mineira. Juarez descobriu que esses estilos musicais têm o papel de ressignificar valores, construir identidades e reinventar formas de viver na sua condição juvenil. O trabalho resultou no livro A música entra em cena: o rap e o funk na socialização da juventude, lançado pela Editora UFMG, sobre o qual ele fala nesta entrevista, realizada por telefone, à IHU On-Line.

Juarez Dayrell é professor da Universidade Federal de Minas Gerais, onde é chefe do departamento de Métodos e Técnicas de Ensino da Faculdade de Educação e onde também desenvolve a pesquisa "O estado do conhecimento sobre a Rede Municipal de Ensino de Belo Horizonte 1986-2005". Graduado em Ciências Sociais, Juarez é mestre e doutor em Educação, pela UFMG e USP, respectivamente. Além do livro sobre o qual falou ao longo da entrevista que segue, é autor de Múltiplos olhares sobre educação e cultura (Belo Horizonte: Editora UFMG, 1996) e Juegos y dinamicas grupales (Bogotá: Paulinas, 2002).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual é o papel dos grupos culturais da periferia na socialização?

Juarez Dayrell – Eu entendo a socialização como um processo de construção social dos indivíduos, ou seja, todo mundo passa por uma socialização. No caso específico da minha pesquisa, eu trabalhei com grupos culturais e a minha pergunta era essa: qual é o papel que esses grupos culturais cumprem na socialização dos indivíduos, desses jovens de periferia? Eu constatei que os grupos culturais se tornam um espaço de construção de sociabilidade e uma referência para que se possa ampliar o espaço de relações. Os grupos de rap, de funk, de pagode que eu comecei a pesquisar traziam um espaço privilegiado, em que os jovens encontravam outros do mesmo estilo e, portanto, construíam uma identidade, tanto individual quanto coletiva, na produção cultural que desenvolviam. Isso se dava por meio das músicas, dos shows, e significava muito um espaço de uma produção de auto-estima, à medida que eles se viam como produtores culturais e não simplesmente consumidores. Ao mesmo tempo, e talvez principalmente, no contexto onde se viam numa forma de inclusão marginal e precária na sociedade, esses grupos significavam muito uma perspectiva de futuro, não no sentido de sobrevivência, de todos virarem um artista ou coisas do gênero, mas principalmente como um objetivo a ser atingido, algo que dava sentido ao próprio cotidiano e se torna muito importante.

IHU On-Line - E qual é a influência da música nessa socialização?

Juarez Dayrell – A música tradicionalmente sempre esteve muito ligada à juventude. Se percebermos, dos anos 1950 para cá se construiu um modelo próprio de juventude, ao qual a música sempre esteve ligada. A diferença nos últimos anos, principalmente nos anos 1990, é que a juventude passou a ser não só uma consumidora da música, mas também passa a ser produtora, muito em função da própria popularização dos meios tecnológicos, que trazem a possibilidade de uma democratização maior dessa produção. Nesse sentido, podemos pensar a música de uma forma muito genérica: para o conjunto dos jovens, é aquela companheira íntima que os acompanha nos momentos tristes e alegres, aquela que faz refletir, pensar e está muito ligada à própria memória. Nesse sentido, a música é uma expressão cultural que está extremamente próxima do cotidiano juvenil. Do ponto de vista dos jovens da periferia, ela é um meio que articula um determinado estilo, o que eu entendo como um conjunto de artefatos que vão sendo construídos, sendo articulados com um conjunto de elementos que compõem um visual, compondo, enfim, uma determinada identidade. É assim com o rap, com o funk, com o punk, as diferentes linguagens culturais que sempre têm a música como uma das expressões do estilo. Então, ela é um elemento muito importante de identidade, o que mostra o seu caráter fundamental.

IHU On-Line - As culturas jovens estão em movimento? De que forma a globalização se insere nessa movimentação?

Juarez Dayrell – Penso que hoje vivemos num contexto em que as barreiras nacionais estão cada vez mais tênues. É muito difícil você saber, hoje, se um produto, se uma expressão cultural, é brasileira, estadunidense ou européia, porque a produção cultural abarca elementos de diferentes expressões culturais. Muitos criticam o rap, por exemplo, dizendo que é uma importação estadunidense, mas ele tem uma trajetória que evidencia muito essa globalização, à medida que apresenta uma matriz africana, que vem sendo ressignificada nos diferentes países em que houve a escravidão, mas sempre com uma linha comum. Então, nós encontramos elementos comuns do repente brasileiro nordestino, com elementos estadunidenses, com uma tradição da Jamaica. Portanto, esse rap é um caldo de cultura, que tem, sim, uma pitada da cultura dos EUA, mas que, quando produzido no Brasil, é ressignificado, com componentes extremamente locais. No caso do rap, por exemplo, os MC’s estão falando de uma realidade muito concreta, da sua esquina, do seu bairro, da sua favela, produzindo, nesse sentido, uma articulação muito íntima entre o local e o global. Eu vejo isso na produção cultural como um todo. Existe sempre uma articulação dialética entre o local, da tradição local com essa dimensão global. Eu fugiria das oposições simplistas que colocam uma coisa ou outra. Eu acredito que, nessa dimensão cultural, às vezes a produção sempre traz essas duas dimensões.

IHU On-Line - O que fez o senhor utilizar o rap e o funk em sua pesquisa?

Juarez Dayrell – Olha, quando eu comecei minha pesquisa, em 1998, meu interesse era estudar as expressões culturais juvenis. Aproximando-me da produção cultural de periferia, fui constatando que a música trazia o espaço de produção mais significativo, que mais agregava. Desse modo, fiz o recorte pela música. Na época, eu entrevistei em torno de 250 grupos musicais aqui em Belo Horizonte, e fui constatando que existia uma predominância do rap, do funk e do pagode. Era três estilos que predominavam entre os jovens na época. Eu terminei excluindo o pagode porque ele não é uma expressão cultural genuinamente juvenil, pois mistura muito adultos e jovens, o que descaracterizaria o objetivo. Optei pelo rap e pelo funk porque, na época, eram os estilos que predominavam entre os jovens de Belo Horizonte.

IHU On-Line - Quais são as principais diferenças da socialização pela música de jovens considerados pobres e daqueles considerados ricos?

Juarez Dayrell – Minha área de pesquisa sempre focou nos jovens de periferia. Eu creio que existe uma lacuna, inclusive, de conhecimento de jovens da classe média. Há poucas pesquisas sobre o assunto, o que ocasiona pouco acúmulo de conhecimento. Mas o que eu vejo é que, a princípio, o rap ultrapassou a fronteira da periferia e hoje está se constituindo como o estilo adotado entre os jovens de diferentes origens sociais. Vejo também que necessariamente vai haver diferenças significativas pelo próprio contexto onde esses jovens vivem, pela própria demanda, o acesso aos meios culturais, enfim, tudo isso interfere de forma significativa.

IHU On-Line - Para seus entrevistados neste livro, como é a vida fora do ambiente musical?

Juarez Dayrell – No último capítulo do livro, eu tento responder a esta questão, ou seja, quem é esse jovem além de ser um rapper ou um fanqueiro? Quem é o jovem além do estilo? O que eu pude constatar foi um pouco o cotidiano desses jovens das classes populares. A predominância do trabalho e a questão da sobrevivência formam uma questão concreta que faz com que eles se debatam com o desejo de investirem no trabalho musical, no trabalho cultural, ao invés de se dedicarem ao trabalho, digamos, comum.

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