“O Brexit demonstra um descontentamento mais radical e profundo na União Europeia”. Artigo de José Ignacio Faus

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Por: André | 27 Junho 2016

“Desde o princípio, a Grã-Bretanha declarou que entrava na União Europeia não para compartilhar um projeto comum, mas por interesses econômicos. A partir de então, foi colocando obstáculos ao melhor da União Europeia: conseguiu que, na chamada Constituição, as normas de economia liberal fossem obrigatórias e as de justiça social apenas recomendações; e assim é impossível construir uma verdadeira união”, escreve José Ignacio González Faus, teólogo espanhol, em artigo publicado por Religión Digital, 24-06-2016. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

Inevitavelmente, o Brexit me fez pensar nas leituras do Livro dos Reis, da liturgia destes dias: “Jerusalém nunca será tomada. Deus a protege”. Enquanto isso, o povo seguia sendo infiel e seus profetas ameaçavam que as coisas poderiam acabar mal. E, finalmente, foi o que aconteceu: nada pôde contra nós o Senaquerib grego, mas sim o Nabucodonosor britânico... Os judeus não acreditaram. Mas, ao final, tiveram a sensatez de reconhecer que, por mais criminoso que fosse o rei da Babilônia, também eles tinham boa parte de culpa nos acontecimentos que se precipitaram sobre eles.

Poderíamos nós reagir de uma maneira semelhante? Vamos tentar.

Para começar: se a Europa abandonou a União Europeia há tempos, também não é de se estranhar que hoje a Grã-Bretanha a abandone.

Mesmo que não o reconheçam, os temores do sr. Juncker e sua laia não são simplesmente medos econômicos: ao final das contas, segundo dizem os técnicos, será pior para a Grã-Bretanha. O que deixa desgostosos os atuais ditadores europeus é que se ponha de relevo que não há nada de emocionante na Europa que eles estão construindo e desfigurando.

A história mostra que quando aparecem tsunamis nacionalistas simultâneos em vários lugares, são sintomas não de um suposto sentimento pátrio, mas de um descontentamento mais radical e profundo: são comparáveis àquilo que Ignacio Ellacuría chamava de “análise de fezes”, que pode refletir que algo funciona bastante mal em nossas vísceras. Para mim, esse algo é simplesmente a justiça econômica.

Desde o princípio, a Grã-Bretanha declarou que entrava na União Europeia não para compartilhar um projeto comum, mas por interesses econômicos.

A partir de então, foi colocando obstáculos ao melhor da União Europeia: conseguiu que, na chamada Constituição, as normas de economia liberal fossem obrigatórias e as de justiça social apenas recomendações; e assim é impossível construir uma verdadeira união. Foi jogando, além disso, para conseguir benefícios pessoais para ela só se quiséssemos que ela ficasse... A verdade é que, nessas condições, é melhor não ficar.

Permito-me recordar (para não ser mal interpretado) que, há quase 50 anos, escrevi sobre Londres que há muitas coisas admiráveis no “british” e que seria uma pena se a Europa as perdesse. Mas, o admirável britânico são coisas como a Carta Magna ou figuras como Shakespeare. Não personagens como a senhora Thatcher, Tony Blair ou Nigel Farage.

Um último ponto deve ficar para a reflexão dos políticos e juristas.

Não sei quem disse que os referendos sempre são vencidos pelo diabo (de fato, Franco sempre os ganhou). Mas me surpreende que se, para mudar uma Constituição, são necessários maioria de três quintos, para algo ainda mais sério, como uma ruptura entre países, basta maioria simples: porque diferenças de 51% e 49% são muito oscilantes, podem mudar de acordo com a direção do vento, e será normal que quem hoje perdeu esse referendo, tente repeti-lo amanhã com a esperança de ganhá-lo então e sem levar em conta que os perdedores de amanhã poderão pedir para repeti-lo depois de amanhã. O caso da Escócia ilustra isto. Mas, naturalmente, estas coisas não podem ser legisladas quando já “se vê o lobo chegando”, mas essas coisas devem ser decididas e estar estabelecidas muito antes.

Este é outro ponto sobre o qual me parece que deveríamos refletir.

Agora, com ou sem Brexit, não esqueçamos que por mais que as fronteiras políticas, sempre contingentes, possam nos separar, une-nos mais a condição de seres humanos e (dito de maneira cristã) de irmãos como filhos de um mesmo Pai.

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