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Por: André | 26 Maio 2015

“No processo destituinte iniciado na Espanha anos atrás, o Podemos aparece como grande protagonista, recolhendo muitas das demandas da população, abrindo de fato um trânsito constituinte em busca de outro pacto social que não exclua a maioria social.”

A análise é do economista Alfredo Serrano Mancilla e publicada por Página/12, 22-05-2015. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

Afirmar que esta ou aquela coisa é do senso comum é muito comum em nossa vida cotidiana. Esta expressão é utilizada cada vez que se considera que algo é indiscutível. Gramsci afirmava que as crenças populares, essa “filosofia dos não filósofos”, constituíam este senso comum. E como se forma e se disputa? O papel da religião dominante e dos meios de comunicação é concludente neste assunto.

Há mais de uma década, quando a taxa de desemprego na Espanha estava abaixo dos 10% ou quando a maioria tinha uma vida mais confortável, economicamente falando, seguramente o senso comum era mais conformista que o atual. O desemprego, a precariedade e as dificuldades para se chegar ao final do mês passam a fatura ao novo senso comum. Se há alguns anos as pessoas acreditavam que a economia ia bem, hoje, na Espanha, a maioria pensa que a economia vai mal. 84% dos espanhóis pensam que a situação econômica do país atualmente é ruim; 58% dão como certo que o desemprego não vai diminuir tão rapidamente. Os slogans “brotos verdes” ou “luz no fim do túnel” são infrutíferos para convencer a maioria de que tudo vai melhorar. O novo senso comum no campo econômico, na Espanha, depois de tanta crise econômica, não é de longe aquele de anos atrás.

Após muitos anos em que o bipartidarismo e toda a sua maquinaria midiática acreditaram que era possível encapsular o senso comum à sua vontade, hoje se dão conta de que esta tarefa é tão impossível quanto colocar atrás das grades o que pensa cada cidadão em contexto de crise. Apesar das tentativas para nos explicar que um desalojamento é um mal necessário para salvar os bancos, de nos convencer de que a lei do mercado justifica que uma pessoa não possa pagar a luz, de nos persuadir de que a saúde e a educação devem ter um orçamento menor, apesar de todas estas tentativas, o povo espanhol considerou que este senso comum já faz parte do passado.

Diante disso, o Podemos é a opção política na Espanha que melhor entendeu e assumiu esta tese nos últimos meses. O Podemos soube interpretar esse novo senso comum situando-o como centralidade da sua promessa:

1) os direitos sociais não são moeda de troca com nenhum credor internacional;

2) uma política de tolerância zero contra a fraude e a corrupção;

3) uma política tributária arrecadadora com justiça social;

4) recuperação da soberania nos setores estratégicos;

5) nova política de emprego com salário digno;

6) proibição nas portas giratórias do público ao privado;

7) uma nova política produtiva com maior presença das pequenas e médias empresas;

8) um sistema financeiro que limite suas atividades especulativas e se dedique a canalizar crédito a favor da economia real.

No processo destituinte iniciado na Espanha anos atrás, o Podemos aparece como grande protagonista, recolhendo muitas das demandas da população, abrindo de fato um trânsito constituinte em busca de outro pacto social que não exclua a maioria social. Isto forçou o resto das forças políticas a responder com novos relatos, procurando subir no carro do novo senso comum. E o bipartidarismo prometendo o mesmo, apesar das suas velhas promessas descumpridas. Enquanto o Partido Popular é incapaz de renovar sua cúpula, o PSOE opta por uma nova cara, Pedro Sánchez, muito “à moda Peña Nieto”, para buscar uma imagem diferente. A isso se somou a emergência do Ciudadanos, a nova direita, com seu Plano Renova lampedusiano, trazendo consigo a ideia da “política da boa onda”: “Caso não gostar destes princípios, tenho outros”.

Ainda resta saber qual será o destino desta disputa por ser o mais fiel representante deste novo senso comum constituinte na Espanha. Disso dependerá o vencedor das próximas eleições presidenciais. Está por ver nessa confrontação política entre uns e outros por erigir-se no melhor interpretando o novo senso comum da maioria da população espanhola. O Podemos, até o momento, veio se colocando à frente desta tarefa. Mas o bloco dominante não fica de braços cruzados diante da possibilidade da emergência desta alternativa política capaz de arrebatar-lhe seu próprio campo político e econômico, até o momento ainda hegemônico.

Após meses com uma intensa campanha do medo contra o Podemos, esta parece ter tido seus frutos não tanto na cidadania, mas antes na forma como o Podemos rearmou sua entrada em cena, sua formação discursiva e suas linhas chaves de sua proposta econômica. Tomara que isto se deva à busca de aproximar-se o mais que possa do verdadeiro senso comum da sociedade espanhola atual. O resultado desta equação político-eleitoral dependerá em grande medida justamente de como o Podemos vai continuar colado fielmente ao novo senso comum emergente empurrando-o/reorientando-o na medida do possível, com capacidade de continuar construindo o espírito de ruptura necessário para avançar em um projeto de emancipação.

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