''Vigiar sobre as palavras'': o desafio do Sínodo. Artigo de Andrea Grillo

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15 Maio 2015

Para vencer o desafio do Sínodo e para não ficar "na sacada", "os nossos bispos devem vigiar também sobre as palavras", cuja verdade não está "atrás", mas "diante" deles.

A opinião é do teólogo italiano Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu S. Anselmo, de Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, de Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua. O artigo foi publicado na revista Settimana, n. 18, 10-05-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

No caminho rumo ao Sínodo ordinário, que visa a oferecer uma boa "tradução" da tradição católica sobre o matrimônio, a ajuda dos teólogos é preciosa. O Papa Francisco disse isso com clareza: a teologia faz progredir a experiência pastoral da Igreja, contanto que não seja uma teologia "na sacada".

A um bom historiador e teólogo, J.-Y Hameline, que nos deixou há quase dois anos, a revista Maison-Dieu dedicou uma edição in memoriam (279/2014). Nesse volume, também estão hospedados três "inéditos", incluindo um artigo intitulado "A propósito do chamado rito tridentino".

Esse artigo, que descreve os riscos de uma acepção pouco meditada e ideológica de "rito tridentino", conclui-se com a frase de que eu tirei o meu título: "Os nossos bispos também devem vigiar sobre as palavras".

Vigilância sobre as palavras

No texto de Hameline, está claro que "vigiar sobre as palavras" significa "salvaguardar" o seu verdadeiro sentido, não curvá-las ao uso ideológico ou a formas de verdadeiro comprometimento da tradição.

Quase simultaneamente com a publicação dessa edição da Maison-Dieu, era publicado na França um pequeno livro, por obra do bispo dominicano de Oran, intitulado Todo verdadeiro amor é indissolúvel (a ser publicado em breve em italiano). E é muito interessante que, nesse texto, Dom Jean-Paul Vesco exercite, com maestria, o ministério de "vigiar sobre as palavras".

Mas qual "vigilância" aprendemos do Evangelho? E de que modo a tradição no-la entregou, ultimamente, na forma do Vaticano II?

Vigiar pode ser entendido como "supervisão" que desconfia, temor da surpresa negativa, medo do ladrão que depreda o depósito, profilaxia geral contra o mal. Mas essa não é a grande experiência do vigiar de que vivem os discípulos de Cristo. Os bispos recebem, no ministério apostólico de que são investidos, acima de tudo, a capacidade de "vigiar" pela chegada do Esposo, de saber esperar o Senhor, justamente quando ele chega como um ladrão, justamente quando menos esperamos. Ficamos surpreendidos, mas não pelo mal, mas pelo bem! A grande vigilância cristã é se deixar surpreender pelo bem, ter tempo e modo de deixá-lo irromper, de reconhecê-lo e de lhe deixar a palavra.

Até mesmo diante de grandes palavras, que constituem o "depositum fidei", podemos "vigiar" desses dois modos. Por um lado, em relação a um "tesouro ciumento" que não queremos deixar que nos subtraiam por interpretações errôneas, por comodidades, por ofuscamentos, por traições. Mas isso não é o que é mais típico da fé cristã. A fé, ao se pôr em relação com a Palavra, que é "inspirada", sabe que a relação com ela é inexaurível, que se renova no tempo, que a sua verdade não está "atrás", mas "diante" e "além" dela.

A palavra, justamente por ser inspirada, sempre mantém um "fundo desconhecido", uma "ressonância inesperada", uma "acepção mais profunda", que ainda não conhecíamos e que nos desloca.

O que é indissolúvel?

No seu livro, Dom Vesco exerce com fineza esse ministério da vigilância. O objeto da sua vigilância são duas palavras importantes da tradição teológica e jurídica do matrimônio cristão – "indissolubilidade" e "excomunhão" – que são relidas com grande cuidado, deixando que o seu significado não seja distorcido por pré-compreensões ideológicas, por tradições muito unilaterais e por formas de surdez em relação ao real.

É muito útil lembrar, de fato, que essa vigilância evangélica, que espera pela irrupção do bem, é estruturalmente dependente de uma abertura, de uma saída. Vesco, de fato, para poder restituir à palavra "indissolubilidade" todo o seu significado, deve manter um olho aberto sobre a história passada, mas também deve olhar com empatia, com curiosidade e com acuidade para o mundo de hoje e de amanhã.

A vigilância desconfiada está totalmente convencido de já ter a plenitude da posse; vigilância evangélica permanece aberta ao outro, depende do futuro.

Dom Vesco, para honrar essa vigilância evangélica, recupera, acima de tudo, um significado "mais antigo" da indissolubilidade. Indissolúvel não é o sacramento, não é nem mesmo o matrimônio civil, mas é a convivência verdadeira que é indissolúvel! Todo amor verdadeiro é indissolúvel. Isso nos diz a tradição antiga, e esse, hoje, pode se tornar um modo para recuperar um olhar mais amplo sobre a realidade do matrimônio, das relações sentimentais e da vida de comunhão.

Se todo amor verdadeiro é indissolúvel, é por ser primeiro matrimônio, mas é igualmente como "segundo"! Pedir que os divorciados em segunda união dissolvam aquilo que, hoje, os une parece ser, de repente, contrário à lógica mais clássica da Igreja!

"Adultério continuado" ou "novo início"?

Essa primeira consideração desloca a atenção para outra questão. A "ruptura do primeiro matrimônio" – se envolve lógicas de culpa e de pecado – certamente constitui um "ato ilícito" e um "crime". Mas em que condições se pode ser "perdoado" por essa condição de pecado?

Segundo a disciplina adquirida nas últimas décadas, mesmo depois da Familiaris Consortio 83 e 84, o segundo casamento é a "continuação" do crime de adultério. Enquanto se vive na plenitude (pecaminosa) da segunda união, não pode haver reconciliação.

As palavras eclesiais – por falta de vigilância – não sabem distinguir entre adultério e divórcio e, de fato, consideram o divórcio como um "adultério continuado".

Mas Vesco, com sabedoria jurídica, vigia sobre as palavras. Com base na noção clássica de indissolubilidade, ele pode afirmar que a Igreja deve considerar a condição dos divorciados em segunda união não mais como "continuação do adultério", mas como um "crime instantâneo", ao qual se segue um "novo início", talvez de "amor verdadeiro".

Essa distinção, fundamental, abre espaço para poder operar um discernimento e aceitar não apenas que "a reconciliação e a comunhão" são possíveis para os divorciados em segunda união, mas que a sua história – sob certas condições – é abertamente reconhecida como "plena comunhão" por parte da Igreja. Não só poderão "fazer a comunhão", mas também poderão ser "testemunhas de comunhão", mesmo que em um percurso no qual o pecado, a culpa, a crise e o perdão deixaram traços e imprimiram feridas, como em um "hospital de campanha".

Aos bispos do próximo Sínodo, a vigilância exercida por esse seu coirmão poderá soar particularmente agradável, de modo que – como dizia Paulo VI – os "deprimentes diagnósticos" deixem espaço para os "encorajadores remédios", e os "funestos presságios", a "mensagens de confiança".

Para vencer o desafio do Sínodo e para não ficar "na sacada", "os nossos bispos devem vigiar também sobre as palavras", cuja verdade não está "atrás", mas "diante" deles.

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