Guerra litúrgica, críticas ao papa, islamismo e África. Entrevista com Robert Sarah

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09 Março 2015

Guerra litúrgica, críticas ao papa, Islã e islamismo, a grandeza da África... Nesta entrevista concedida à agência Aleteia, o novo prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, cardeal Robert Sarah, responde às perguntas atuais.

A reportagem é de Elisabeth De Baudoüin, publicada no sítio Aleteia, 04-03-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Eminência, no seu livro Dio o niente [Deus ou nada], o senhor se refere várias vezes à "guerra litúrgica" que divide os católicos há décadas, guerra bastante infeliz, diz o senhor, já que, sobre a questão, eles deveriam estar particularmente unidos. Como sair hoje dessas divisões e reunir todos os católicos em torno do culto prestado a Deus?

O Concílio Vaticano II nunca pediu para rejeitar o passado e abandonar a Missa de São Pio V, que gerou inúmeros santos, nem para deixar o latim, mas, ao mesmo tempo, é preciso promover a reforma litúrgica desejada por aquele Concílio. A liturgia é o lugar dado para se encontrar com Deus face a face, dar-lhe toda a nossa vida, o nosso trabalho e fazer de tudo isso uma oferta para a Sua glória. Não se pode celebrar a liturgia armando-se, carregando sobre as costas um armamento de ódio, de luta, de rancor. O próprio Jesus disse para ir se reconciliar com o irmão antes de apresentar a própria oferta sobre o altar. Nesse "face a face" com Deus, o nosso coração deve ser puro, livre de todo ódio, de todo rancor. Cada um deve eliminar do próprio aquilo que pode ofuscar aquele encontro. Isso pressupõe que cada um seja respeitado na sua sensibilidade.

Não é aquilo que Bento XVI desejava?

Sim, esse é o sentido do motu proprio Summorum pontificum [de julho de 2007]. Bento XVI colocou muita energia e esperança nesse projeto. Infelizmente, não foi um sucesso total, porque uns e outros estão "agarrados" ao próprio rito, excluindo-se mutuamente. Na Igreja, cada um deve poder celebrar com base na própria sensibilidade. É uma das condições da reconciliação. Também é preciso levar as pessoas à beleza da liturgia, à sua sacralidade. A Eucaristia não é uma "ceia entre amigos", é um mistério sagrado. Se celebrarmos com beleza e com fervor, chegaremos a uma reconciliação, é evidente. Não devemos nos esquecer, no entanto, que é Deus quem reconcilia, e isso leva tempo.

Em um capítulo sobre os papas, o senhor se refere às críticas das quais eles foram objeto, mesmo dentro da Igreja. Nem Francisco escapa: alguns católicos criticam o seu estilo, o que ele faz, o que ele diz, as suas expressões... Por outro lado, diz-se que uma parte da Igreja não tem confiança nele para conservar o depósito da fé. Qual deveria ser a atitude dos fiéis em relação ao papa? Um católico pode criticar o sucessor de Pedro?

A resposta é muito simples, está nas próprias perguntas: o que pensar de um filho ou de uma filha que critica publicamente o pai ou a mãe? Como as pessoas poderiam respeitar essa pessoa? O papa é o nosso pai. Devemos-lhe respeito, afeto e confiança (mesmo que as críticas não pareçam lhe incomodar). Por causa de certos escritos ou de certas declarações, alguns poderiam ter a impressão de que ele poderia não respeitar a doutrina. Pessoalmente, tenho plena confiança nele e exorto cada cristão a fazer o mesmo. É preciso ficar tranquilo, porque no barco que ele guia também está Jesus, Aquele que disse a Pedro: "Eu rezei por você, para que a sua fé não desfaleça. E você, quando tiver voltado para mim, fortaleça os seus irmãos" (Lc 22, 32). Um conclave é uma ação de Deus, é Deus quem dá um papa à Igreja. Deus nos deu Francisco para guiar a Igreja hoje.

O que dizer para aqueles que dizem que ele não é o "candidato do Espírito Santo"?

Faço-lhes esta pergunta: estão em contato direto com o Espírito Santo?

Quanto aos "poderes que na Europa buscam impedir os católicos de usarem a própria liberdade", o senhor escreve : "A Manif pour tous dá um exemplo das iniciativas necessárias. Foi uma manifestação do gênio do cristianismo". Eminência, o senhor apoia os cristãos que saíram às ruas aos milhares para manifestar o seu compromisso com a família e dizer que toda criança precisa de um pai e de uma mãe?

A nossa missão como cristãos é dar testemunho da nossa fé. Sabemos que a família é uma realidade desejada por Deus. Sabemos o que ela representa para a Igreja e a sociedade: sem ela, não há futuro, nem para uma coisa nem para outra. A Manif pour tous, portanto, entra no testemunho de fé dos cristãos, que defendem essa realidade. Eu não hesito em afirmar: apoio totalmente essa manifestação nas suas várias edições. São expressão da fidelidade à Igreja e à fé.

À primeira vista, no entanto, fracassaram!

Cristo também, aparentemente, fracassou: depois de três anos de vida pública, mataram-no, puseram-no em um túmulo, e o túmulo foi selado! Mas Ele ressuscitou e venceu o mal. A Manif pour tous, nas suas várias expressões, não conseguiu impedir as decisões dos políticos, mas obteve uma grande vitória: conseguiu dar força para as famílias. Essa é a sua grande vitória. Por isso, deve seguir em frente. Não é um ato episódico. É preciso continuar escrevendo, saindo, manifestando. Também é preciso encorajar as famílias sólidas a lutarem para que o amor continue e não morra.

O que o senhor quer dizer?

O amor é como uma flor no deserto, que deve ser regada e cuidada para impedir que os animais a comam. Com o que se pode cuidar do amor? Com atenção cotidiana. Com o que se pode regá-lo? Com o perdão. Também é preciso vigiar para que essa planta seja cuidada pela oração, pelo encontro e pelo diálogo. Sem isso, a planta, o amor, morre. Uma planta não pode sobreviver se não for mantida, mas o grande jardineiro é Deus. Se uma família O recusa, ela não dura. Manifestar é justo, mas é preciso cuidar das nossas famílias. É preciso vigiar para que o amor, dom precioso, se mantenha vivo no coração dos cônjuges e de seja vivido em família.

Na Europa, o papel crescente do Islã e a sua radicalização na sociedade suscitam inquietações. Qual é o seu sentimento, já que o senhor vem de um país de maioria muçulmana [Guiné], em que cristãos e muçulmanos vivem em paz, e fala do Islã como de "uma religião fraterna e pacífica"?

De onde vem o nosso medo? O Islã está presente na Europa há muito tempo e nunca houve medo. É verdade que os muçulmanos eram menos numerosos, mas, na época, a fé era mais forte. Nem sequer existia – ou era muito limitado – o sentimento de ameaça. Na Guiné, há 5% de católicos e 73% de muçulmanos, mas não temos medo uns dos outros. Ao contrário, estimulamo-nos mutuamente através da fidelidade à nossa fé. Diante dos muçulmanos, para os quais a oração e a comunicação direta com Deus são fundamentais, os cristãos devem se perguntar: sou tão fervoroso, já que acredito no verdadeiro Deus, que se manifestou através de Cristo? Eu também jejuo? Deus não é alguém com o qual estamos em contato ocasionalmente, quando temos tempo; Ele deve estar no primeiro lugar: na família, na sociedade... Cada cristão é chamado a acentuar a sua relação com Ele.

A oração de uns e de outros é necessária também para que todos vivam em paz. Nesse sentido, o senhor gosta de contar uma lenda muçulmana...

Sim, é a história de uma pastorinha considerada um pouco louca, cujo ovelhas convivem pacificamente com os lobos. Quando alguém lhe pede explicações, ela responde: "Eu melhorei as minhas relações com Deus, e Deus melhorou as relações entre os lobos e as ovelhas". Deus dá a paz entre os homens através da oração.

Quanta distância do comportamento do Islã radical! Como explicar isso?

As caricaturas que têm como objetivo (dentre outros) o Islã não favorecem a convivência fraterna. O papa disse: não se deve insultar a fé alheia. Não existe o direito, pelo fato de não compartilhar a fé de alguém, de insultá-lo e zombar dele. Esse fato tem que acabar! Os verdadeiros muçulmanos, porém, nunca assassinaram ninguém. Aqueles que decapitam, crucificam ou massacram em nome de Deus criam uma ideia sobre a qual projetam toda a sua violência. Entre nós, os muçulmanos estão horrorizados com esses crimes, que não têm nome.

Diante do Islã, o senhor acredita que o Ocidente está brincando com o fogo?

Como destacou Bento XVI, que se preocupava com isso, a rejeição de Deus nunca ocorreu com tanta força como hoje. Se o Ocidente não voltar à sua cultura e aos seus valores cristãos, pode ser um perigo mortal. Acredito, porém, que chegará um momento em que ele tomará consciência do fato de que não se pode continuar vivendo sem Deus. Nesse sentido, a África pode ajudá-lo.

No seu livro, o senhor fala muito da África: dos seus sofrimentos, do colonialismo ideológico do qual é objeto, mas também dos seus valores. Na sua opinião, com o que a África pode contribuir hoje com o mundo e a Igreja?

Deus sempre envolveu a África no seu projeto de salvação. Foi a África que salvou Jesus no momento da fuga para o Egito. Foi um africano, Simão de Cirene, que O ajudou a carregar a cruz. A África sofreu muito. Os seus valores foram negados (e ainda o são, através daquilo que Francisco define como o colonialismo ideológico, que diz respeito, por exemplo, à teoria de gênero). Ela conheceu a escravidão. O seu sofrimento fez com que São João Paulo II [que também anunciou que surpreenderia o mundo] dissesse que o nome de cada africano está transcrito "nas palmas das mãos de Cristo, perfuradas pelos pregos da crucificação". Em poucas décadas, a Igreja se desenvolveu muito, com inúmeras vocações sacerdotais e religiosas, a ponto de o bem-aventurado Paulo VI a chamar de "a nova pátria de Cristo". Como o africano é profundamente religioso e não pode ser separado de Deus, é ele que restituirá Deus ao mundo inteiro.

Também poderia dar o próximo papa para a Igreja?

(Risos) Mas esta não é a questão! (Reflete) É Deus quem dá o papa...

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