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Por: Jonas | 24 Junho 2014

O líder libanês druso – que lutou em uma guerra civil de 15 anos, que redesenhou o mapa do Líbano – acredita que as novas batalhas do jihadismo sunita pelo controle do norte e o leste da Síria e o oeste do Iraque, finalmente destruíram a conspiração anglo-francesa do pós-guerra mundial, forjada por Mark Sykes e François Picot, que dividiu o antigo Oriente Médio otomano em pequenos estados árabes, controlados pelo Ocidente.

A reportagem é de Robert Fisk, publicada pelo jornal Página/12, 23-06-2014. A tradução é do Cepat.

A existência do Califado Islâmico do Iraque e Síria foi disputada – embora temporariamente – pelos combatentes sunitas afiliados ao Al-Qaeda, que não prestaram atenção às fronteiras artificiais da Síria, Iraque, Líbano e Jordânia, ou até mesmo da Palestina, criada pelos britânicos e franceses. A tomada da cidade de Mossul apenas enfatiza o colapso do plano de participação secreta que os aliados elaboraram na Primeira Guerra Mundial. Grã-Bretanha e França queriam Mossul por sua riqueza petroleira.

Todo o Oriente Médio foi alcançado pelo acordo Sykes-Picot, que também permitiu colocar em prática a promessa feita, em 1917, pelo então secretário de Relações Exteriores da Grã-Bretanha, Arthur Balfour, para dar apoio britânico à criação de uma “pátria” judia na Palestina. Talvez só os árabes de hoje (e os israelenses) possam compreender plenamente as profundas mudanças históricas – e o profundo significado político – que as extraordinárias batalhas da semana passada causaram no mapa colonial do Oriente Médio.

O Império Otomano, que caiu em 1918, seria dividido em dois, em uma direção norte-leste e em outro eixo sul-oeste, que iria de mais ou menos perto de Kirkuk – hoje sob o controle curdo – ao outro lado de Mossul, no norte do Iraque, e o deserto sírio, até o que hoje é a Cisjordânia e Gaza. Mossul foi cedida inicialmente aos franceses e seu petróleo foi entregue pelos britânicos em troca do que se tornaria uma área francesa de amortecimento entre Grã-Bretanha e o Cáucaso russo, e assim Bagdá e Bassora estariam a salvo nas mãos britânicas sob as fronteiras francesas. Porém, os crescentes desejos comerciais britânicos pelo petróleo dominaram os acordos imperiais. Mossul foi integrada à região britânica no interior do novo Estado do Iraque (antes Mesopotâmia), para assegurar o fornecimento direto de petróleo para Londres. Iraque, Transjordânia e Palestina estavam sob o controle do Mandato Britânico, enquanto Síria e Líbano sob o domínio francês.

Contudo, o novo mapa geográfico criado pela Al-Qaeda e seus aliados de Al-Nusra e o EIIL não corre de norte-leste a sul-oeste, mas, sim, de leste a oeste, passando pelas cidades de Falluja, Tikrit, Mossul, Raqqa e grandes áreas do leste da Síria.

As táticas jihadistas sugerem a ideia de que a linha foi pensada para ir do oeste de Bagdá ao outro lado dos desertos do Iraque e Síria, para incluir Homs, Hama e Alepo ao Iraque. Porém, o exército do governo sírio – travando com êxito uma batalha quase idêntica a que agora está envolvida um exército iraquiano desmoralizado – reconquistou Homs, apegou-se a Hama e aliviou o assédio a Alepo.

Casualmente, o economista Ian Rutledge acaba de publicar um relato da batalha por Mossul e o petróleo, durante e depois da Primeira Guerra Mundial, e da traição a Sharif Hussein, de Meca (muçulmano sunita), a quem os britânicos prometeram uma terra árabe independente, em agradecimento por sua ajuda na dissolução do Império Otomano. Rutledge investigou a preocupação da Grã-Bretanha pelo poder xiita no sul do Iraque – onde está o petróleo de Bassora -, o que constitui um material pertinente para entender a crise que está fazendo pedaços do Iraque.

A sucessora de Sharif Hussein que tem o poder na Arábia é a família real saudita, que conferiu milhares de dólares aos mesmos grupos jihadistas que atuam sobre o leste da Síria e oeste do Iraque, e agora em Mossul e Tikrit. Os sauditas se levantaram como o poder sunita fundamental na região, controlando a riqueza petroleira do Golfo Pérsico, até que a derrubada do ditador sunita Saddam Hussein, por parte dos Estados Unidos, conduziu inexoravelmente uma maioria xiita ao governo de Bagdá, que é aliado do Irã xiita.

Agora, o novo mapa do Oriente Médio aumenta substancialmente o poder saudita sobre o petróleo da região e a redução das exportações do Iraque, elevando o custo do petróleo (incluindo, é claro, o petróleo saudita) e à custa de um Irã assustado. O petróleo de Mossul é agora petróleo sunita. E as vastas e inexploráveis reservas que se acredita que existe debaixo dos desertos jihadistas, ao oeste de Bagdá, agora também estão em mãos sunitas e não nas do governo de Bagdá.

Esta ruptura pode, é claro, conduzir a uma nova versão da terrível guerra Irã-Iraque, um conflito que causou a morte de 1,5 milhão de sunitas e xiitas muçulmanos, ambos os bandos armados por potências estrangeiras, ao passo que os estados árabes do Golfo financiavam a liderança sunita de Saddam. O Ocidente estava feliz em ver a estas grandes potências muçulmanas lutando entre si. Israel enviou armas ao Irã e observou como seus principais inimigos muçulmanos se destruíam mutuamente. Razão pela qual Walid Jumblatt também acredita que a tragédia atual – ao passo que acabou com o Sr. Sykes e o Sr. Picot – teria Arthur Balfour sorrindo em seu túmulo.

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