Movimento Familiar Cristão responde ao questionário do Sínodo Extraordinário para a Família

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24 Fevereiro 2014

“Observamos que a maioria das famílias não soube realizar essa vocação (transmissão da fé), em vista do corte cultural profundo entre gerações nas últimas décadas. Mas a visão atual não é pessimista, apenas aponta para novas formas de transmissão da fé e da responsabilidade de anúncio e construção do Reino, para que esse anúncio seja uma realidade ‘assim na terra como no céu’”.

Essa é uma das respostas do Movimento Familiar Cristão do Estado e da cidade do Rio de Janeiro, ao questionário do Sínodo Extraordinário para a Família, o qual publicamos na integra a seguir. O questionário circulou e foi respondido ao longo de 45 dias por membros do MFC.

Eis as respostas.

Os desafios pastorais sobre a família no contexto da evangelização

As seguintes perguntas permitem às Igrejas particulares participar ativamente na preparação do Sínodo Extraordinário, que tem a finalidade de anunciar o Evangelho nos atuais desafios pastorais a respeito da família.

1 - Sobre a difusão da Sagrada Escritura e do Magistério da Igreja a propósito da família

a) Qual é o conhecimento real dos ensinamentos da Bíblia, da "Gaudium et spes", da "Familiaris consortio" e de outros documentos do Magistério pós-conciliar sobre o valor da família segundo a Igreja católica? Como os nossos fiéis são formados para a vida familiar, em conformidade com o ensinamento da Igreja?

Os ensinamentos da Bíblia são hoje repensados para separar o que é permanente do que é provisório, próprio da cultura das épocas em que foram formulados. O desenvolvimento cada vez mais acelerado das ciências físicas e humanas exige sucessivas reformulações dos ensinamentos da Igreja ao longo da história para manter sua credibilidade e acolhida. A GS deu a partida para uma reformulação mais ampla e o melhor entendimento do conteúdo da fé, sem interromper o processo de caminhada do Povo de Deus para a busca permanente de mais integração da fé com a vida nessa dinâmica evolutiva. A encíclica FC procurou acentuar a revalorização desgastada da família. Entretanto adotou ensinamento sobre paternidade que logo se mostrou inconsistente, sendo claramente desconsiderado na prática dos cristãos casados. A pesquisa séria e ampla que precedeu a formulação da encíclica foi desconsiderada pelo papa, causando forte rejeição dos fiéis.

b) Onde é conhecido, o ensinamento da Igreja é aceito integralmente. Verificam-se dificuldades na hora de o pôr em prática? Se sim, quais?

Os ensinamentos da Igreja já não são acolhidos passivamente pelos católicos como no passado já distante. Já não se submetem a doutrinas fechadas e impositivas sob ameaça de castigos eternos. A prática decorrente de seus ensinamentos passa por avaliações críticas dos católicos cada vez mais capazes de ajudar na busca sempre dinâmica da verdade a ser considerada em normas e procedimentos humanos individuais e sociais, iluminados pela fé. A Igreja estendeu por tempo demasiado a sua centralidade pastoral familiar na questão da paternidade responsável e na rejeição do planejamento familiar por meios considerados artificiais. Essa limitação ensinada e subordinada ao conhecimento dos dias férteis da mulher desconsiderava a relação sexual do casal como manifestação sensível do amor conjugal que não pode estar submetida ao calendário. A Humanae Vitae, de Paulo VI, apontava para a continência periódica nos períodos férteis da mulher, justamente períodos de maior indução biopsíquica natural de ambos para a sua realização. Essa posição repressora causou um mal desnecessário para a acolhida a este e outros ensinamentos da Igreja.

c) Como o ensinamento da Igreja é difundido no contexto dos programas pastorais nos planos nacional, diocesano e paroquial? Que tipo de catequese sobre a família é promovida?

São frequentes os eventos de iniciativa de cristãos que promovem a valorização da família e podem ser considerados como catequese familiar: “Semana da Família”, congressos, seminários, programas sociais para famílias, promovidos por movimentos familiares cristãos e apoio a várias organizações assistenciais de inspiração cristã, como os Institutos Familiares (INFAs) do Movimento Familiar Cristão (MFC) que mantêm em várias cidades serviços de atendimento a pessoas ou famílias em crises de natureza psicológica e outros, com apoio de profissionais especializados. Esses serviços e eventos a cargo de cristãos serão sempre evangelizadores mesmo quando não explicitada essa orientação religiosa. A simples convivência é transmissora da fé aos que deles participam.

d) Em que medida – e em particular sob que aspectos – este ensinamento é realmente conhecido, aceito, rejeitado e/ou criticado nos ambientes extra-eclesiais? Quais são os fatores culturais que impedem a plena aceitação do ensinamento da Igreja sobre a família?

O ente família é respeitado e valorizado em todas as instâncias e espaços. Não têm expressão as opiniões ou questionamentos que a tentam desvalorizar. Entretanto são ignorados ou explicitamente rejeitados alguns ensinamentos da Igreja sobre o casal e a família.

São raros os casais que afirmam seguir a continência periódica proposta como aceitável pela Igreja na FC para o planejamento familiar. De fato, essa orientação doutrinária é contrária à sua natureza biopsíquica e à expressão prazerosa do sacramento do amor conjugal, que não deve ser submetida ao calendário. O mesmo ocorre na questão do divórcio e novo casamento dos divorciados, tratados mais adiante neste questionário.

2 - Sobre o matrimônio segundo a lei natural

a) Que lugar ocupa o conceito de lei natural na cultura civil, quer nos planos institucional, educativo e académico, quer a nível popular? Que visões da antropologia estão subjacentes a este debate sobre o fundamento natural da família?

A lei natural rege os comportamentos humanos que agradam a Deus. Não se expressa por leis humanas e normas eclesiásticas mas se subordina à consciência pessoal e coletiva. A família nasce de uma relação amorosa e humanizadora de um homem e uma mulher, não necessariamente condicionada a uma obrigatória procriação, nem sempre biologicamente possível. A não fecundidade do casal, quando previamente diagnosticada, chegava ser, no passado, um impedimento para o matrimônio cristão - só aceitável com vistas à procriação.

b) O conceito de lei natural em relação à união entre o homem e a mulher é geralmente aceita, enquanto tal, por parte dos batizados?

Somente pelo fato de tratar-se de uma disposição da lei natural, não de normas e conceitos culturais ou religiosos sempre provisórios em permanente evolução.

c) Como é contestada, na prática e na teoria, a lei natural sobre a união entre o homem e a mulher, em vista da formação de uma família? Como é proposta e aprofundada nos organismos civis e eclesiais?

A lei natural se desdobra em valores por sua natureza realmente imutáveis, como o direito à vida, o respeito à dignidade da pessoa humana, a igualdade entre homens e mulheres nem sempre acolhida em todas as culturas - e outras desse timbre.

d) Quando a celebração do matrimónio é pedida por batizados não praticantes, ou que se declaram não-crentes, como enfrentar os desafios pastorais que disto derivam?

O matrimônio é um sacramento divino, mesmo para os não-crentes. Não é a celebração ou a bênção do sacerdote que definem a sacramentalidade dessa união, mas o amor do casal, por sua semelhança com o amor de Deus - gratuito, fiel, responsável... É essencial numa celebração deixar clara essa concepção, mesmo se duvidosa essa marca adulta no casal que se apresenta na igreja. Nesse caso, bem conduzida a celebração, pode ser oportunidade de mesmo os não-crentes compreenderem o sacramento ou mesmo motivar a conversão dos participantes crentes mas de fé superficial. Portanto essa abordagem do sacramento na cerimônia do casamento exige sempre atenção e cuidado especiais do celebrante.

3 – A pastoral da família no contexto da evangelização

a) Quais foram as experiências que surgiram nas últimas décadas em ordem à preparação para o matrimónio? Como se procurou estimular a tarefa de evangelização dos esposos e da família? De que modo promover a consciência da família como "Igreja doméstica"?

Há algumas décadas, a preparação para o casamento foi levada a sério pela Igreja, multiplicando-se cursos ou encontros de noivos de media duração, muito bem estruturados e mesmo apreciados pelos futuros casais a princípio relutantes a essa norma pastoral pré-matrimonial. Deve-se reconhecer que essa prática se esgarçou ao longo destes anos: cursos antes extensos e bem estruturados, agora reduzidos a simples entrevistas ou encontros rápidos de fim de semana.

b) Conseguiu-se propor estilos de oração em família, capazes de resistir à complexidade da vida e da cultura contemporânea?

Seguramente, não - nas médias e grandes cidades. Possivelmente episódica em pequenas cidades. Mais frequente é a participação em movimentos cristãos de famílias ou de jovens, muitas vezes fecundos e comprometidos com uma evangelização adulta na fé, vivida efetivamente na ação transformadora da sociedade; outros grupos são mais voltados a celebrações religiosas e práticas intra-eclesiais. Nas famílias de hoje essa prática da oração doméstica ainda tem subsistido na primeira infância, mas progressivamente esgarçada por desinteresse dos jovens.

c) Na atual situação de crise entre as gerações, como as famílias cristãs souberam realizar a própria vocação de transmissão da fé?

Observamos que a maioria das famílias não soube realizar essa vocação, em vista do corte cultural profundo entre gerações nas últimas décadas. Mas a visão atual não é pessimista, apenas aponta para novas formas de transmissão da fé e da responsabilidade de anúncio e construção do Reino, para que esse anúncio seja uma realidade "assim na terra como no céu".

d) De que modo as Igrejas locais e os movimentos de espiritualidade familiar souberam criar percursos exemplares?

São mais visíveis as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e os movimentos familiares e de jovens disseminados pelo país, geralmente com assistência de leigos e religiosos adultos. Há episódios que alimentam a esperança de uma recuperação da mobilização de jovens - também de adultos - como o que testemunhamos no recente encontro mundial dos jovens com o papa Francisco no Rio de Janeiro.

e) Qual é a contribuição específica que casais e famílias conseguiram oferecer, em ordem à difusão de uma visão integral do casal e da família cristã, hoje credível?

Não tem sido expressivo o resultado dos discursos sobre o assunto no âmbito das famílias que se assumem como cristãs. As diferenças culturais entre as gerações no mundo moderno tornam extremamente difícil essa transmissão de conceitos sobre casamento e família na visão integral dos cristãos adultos na fé. O desafio de hoje é a criação e manutenção de um modelo de relacionamento parental amoroso e respeitoso, sem imposições autoritárias, mas de transmissão de valores humanos e cristãos, sendo o adulto capaz de acolher as diferenças e entender o ritmo normal de maturação do adolescente e do jovem, sem criar barreiras para chegar à etapa de relações adultas entre pais e filhos. O êxito dessa transmissão estará sempre ancorada no exemplo e coerência de vida dos pais, mais efetiva do que simples discursos.

f) Que atenção pastoral a Igreja mostrou para sustentar o caminho dos casais em formação e dos casais em crise?

Tradicionalmente, como já mencionado, a preparação dos que vão se casar “na Igreja”, sempre proveitosa se encarada como responsabilidade pastoral irrenunciável, valoriza o sacramento com a mobilização de cristãos casados e, em alguns aspectos, com o apoio adicional de profissionais ou estudiosos das áreas de medicina, psicologia e ciências sociais. Para as crises matrimoniais ou familiares pode tornar-se indispensável apoio profissional especializado. Esse apoio é oneroso por exigir acompanhamento clínico por períodos extensos. O Movimento Familiar Cristão (MFC) no Brasil vem criando e mantendo, há décadas, centros de atendimento a estas situações através de seu Instituto da Família (INFA) em várias cidades do país, com o apoio de profissionais voluntários dedicados. Por ano, estima-se o atendimento terapêutico, apenas pelos cinco INFAs do MFC existentes, de cerca de 50 mil clientes de todas as idades, com predominância de crianças e adolescentes, encaminhados pelos pais ou por escolas públicas. Muitas outras organizações similares atuam no país.

4 – Sobre a pastoral para enfrentar algumas situações matrimoniais difíceis

a) A convivência ad experimentum é uma realidade pastoral relevante na Igreja particular? Em que percentagem se poderia calculá-la numericamente?

Não disponíveis dados estatísticos confiáveis. Essa opção de jovens casais não é ainda relevante no presente em famílias católicas, mas sinaliza crescimento. Exige acompanhamento atento da Igreja e de seus movimentos de laicos, para avaliações sobre se se trata de desvalorização do casamento religioso e civil, ou insegurança numa relação conjugal que poderia resultar em separações traumáticas especialmente de casais jovens ainda pouco amadurecidos, com efeitos duradouros de divórcios que sempre marcarão suas vidas. Por isso mesmo, são denominados “ad experimentum”, uma prática a avaliar com atenção em seu desdobramento no tempo..

b) Existem uniões livres de fato, sem o reconhecimento religioso nem civil? Dispõe-se de dados estatísticos confiáveis?

Sim, existem, mais comuns nas classes sociais mais empobrecidas, de instrução insuficiente, em situação de exclusão social. São também as mais vulneráveis às pressões externas, como o abandono do marido ou pai por falta de estabilidade no trabalho obrigando a migrações forçadas sem retorno, na luta pela sobrevivência física. Torna-se comum a rotatividade na relação conjugal, para a mãe encontrar um relacionamento afetivo novo, também com vistas a um mínimo de segurança financeira. Nas classes médias e privilegiadas essas uniões livres são muitas vezes simples expressões equivocadas de modernidade ou de não subordinação a costumes considerados “ultrapassados”. Mais comuns nestas classes sociais são os casamentos “religiosos” como espetáculos festivos, com repercussão ensaiada na mídia, mas nem sempre duradouros.

c) Os separados e os divorciados recasados constituem uma realidade pastoral relevante na Igreja particular? Em que percentagem se poderia calculá-los numericamente? Como se enfrenta esta realidade, através de programas pastorais adequados?

O conceito cada vez mais difundido, mas ainda não acolhido pela Igreja, pode ser assim resumido: o casamento é um sacramento divino por ser a união de um homem e uma mulher que assumem sua relação de amor tomando como modelo a relação amorosa de Deus com todos os homens e mulheres, amor fiel, gratuito, responsável, construtivo, comprometido com o bem do outro. A ruptura desse vínculo referido ao amor de Deus pode decorrer de uma deterioração irreversível desse amor, que pode passar ao desamor ou a uma relação doentia de ódio e desprezo mútuo, deixando de ser portanto um sacramento, sinal do amor de Deus, porque se transformou no seu oposto. Assim, não subsiste esse matrimônio como sacramento, como sinal do amor de Deus por seu povo. Uma segunda união pode vir a existir e consolidar-se com base numa nova e talvez mais madura relação de amor, mais verdadeira e adulta, referida efetivamente à relação com Deus, portanto, sacramento. Assim deve ser acolhido pela Igreja, como acolhido será pela família e seus amigos. Perde qualquer sentido a proibição de comungar, o que se configura como violência espiritual contra o novo casamento, como se fora o único pecado sem perdão.

d) Em todos estes casos: como vivem os batizados a sua irregularidade? Estão conscientes da mesma? Simplesmente manifestam indiferença? Sentem-se marginalizados e vivem com sofrimento a impossibilidade de receber os sacramentos?

Antes de tudo, retirar do vocabulário do matrimônio a qualificação de “irregular”. Segue-se assim o afastamento do casal da prática religiosa possivelmente desejada, com o entendimento de rejeição da comunidade religiosa a que pertence, por uma discriminação cruel. As afirmações de Jesus sobre a união do casal são referidas à cultura do seu tempo, ainda assim já prevendo exceções com a admissão do repúdio da mulher, fortemente desvalorizada naquele contexto histórico.

e) Quais são os pedidos que as pessoas separadas e divorciadas dirigem à Igreja, a propósito dos sacramentos da Eucaristia e da Reconciliação? Entre as pessoas que se encontram em tais situações, quantas pedem estes sacramentos?

Não é possível quantificar, mas estamos seguros de que pessoas que antes da separação ou divórcio comungavam com maior ou menor frequência, certamente desejam seguir nessa prática se voltarem a casar. Não pedem porque sabem que será recusado pelo sacerdote consultado conforme as normas conhecidas. Se o fizer, ouvirá palavras bondosas orientando à comunhão espiritual ou alternativas que excluem a comunhão. Já mencionado tratar-se do único “pecado” sem possibilidade de perdão para participar da “mesa da partilha do pão”. Essa norma não tem mais sentido, é tempo de ser repensada..

f) A simplificação da praxe canónica em ordem ao reconhecimento da declaração de nulidade do vínculo matrimonial poderia oferecer uma contribuição positiva real para a solução das problemáticas das pessoas interessadas? Se sim, de que forma?

Uma declaração de nulidade do vínculo será falsa por não ter havido um erro original que o tornaria nulo. Serão exceções raras. Os que se casaram estavam seguros, na verdade se uniram por amor, e o vivenciaram por algum tempo, curto ou extenso. Houve então uma ruptura por algum motivo comportamental, abandono por decisão unilateral ou vícios graves adquiridos ao longo do tempo etc. – o que rompe o vínculo de amor recíproco que existiu de fato por algum tempo. O sacramento existiu, mas deixou de existir por falta do seu conteúdo essencial: o amor humano que toma o amor de Deus como modelo. Não mais existe, não obstante os frios registros formais em livros cartoriais ou paroquiais.

g) Existe uma pastoral para ir ao encontro destes casos? Como se realiza esta atividade pastoral? Existem programas a este propósito, nos planos nacional e diocesano? Como a misericórdia de Deus é anunciada a separados e divorciados recasados e como se põe em prática a ajuda da Igreja para o seu caminho de fé?

Ainda que repetitivo, afirmamos que o(a) divorciado(a) ouvirá palavras bondosas do sacerdote, orientando à “comunhão espiritual” ou alternativas que excluem a comunhão comunitária. Consolará o excomungado para que suporte esse sacrifício. Já foi antes mencionado tratar-se do único “pecado” sem possibilidade de perdão para participar da “mesa da partilha do pão”. Reafirmamos que essa norma não tem mais sentido atualmente e deve ser revogada, para o bem dos cristãos recasados que estão reconstruindo suas vidas e permanecem fiéis à sua fé.

5 - Sobre as uniões de pessoas do mesmo sexo

a) Existe no vosso país uma lei civil de reconhecimento das uniões de pessoas do mesmo sexo, equiparadas de alguma forma ao matrimónio?

As uniões de pessoas do mesmo sexo existem e podem ser legalmente formalizadas sem ser qualificadas como matrimônio, mas “união civil” lavrada em cartório de títulos e documentos, estipulando direitos e deveres assumidos de comum acordo, assemelhando-se ao matrimônio definido por lei. Na prática, valerão os termos do acordo livre e formal firmado por ambos. Ao contrário, no casamento civil ou religioso, as leis e obrigações preexistem, definindo direitos e deveres do casal

b) Qual é a atitude das Igrejas particulares e locais, quer diante do Estado civil promotor de uniões civis entre pessoas do mesmo sexo, quer perante as pessoas envolvidas neste tipo de união?

O reconhecimento social desse tipo de união civil vem crescendo nos últimos anos, apontando para uma aceitação tácita, especialmente nas gerações mais jovens, do que antes era execrado.

Permanece estranha para as pessoas mais idosas essa mudança de paradigmas, mas não se confunde com casamento, embora a mídia assim o denomine. Não se trata de desvalorizar e muito menos condenar, por preconceito, essa opção livre de duas pessoas do mesmo sexo porque nada se pode opor à natureza. Trata-se, portanto, de designar corretamente a natureza de cada tipo de relação e aprender que essa atração homossexual não é um desvio antinatural mas, ao contrário, se manifesta “naturalmente” em um percentual conhecido de pessoas que são normais, assim nasceram, ou talvez decorrente do tipo de educação que receberam desde a primeira infância, muito influenciada, portanto, pelos próprios pais. Assim sendo, qualquer forma de discriminação social será fruto da ignorância desses condicionamentos naturais que definiram a natureza sexual de cada pessoa humana, diferença não comum no reino animal.

c) Que atenção pastoral é possível prestar às pessoas que escolheram viver em conformidade com este tipo de união?

Antes de tudo, reconhecer a legitimidade dessa opção de vida em comum conforme os condicionamentos naturais que comandam os comportamentos humanos, com sua designação própria. A partir desse reconhecimento, apoiar a assimilação desse conceito e a superação do preconceito social, o que exige tempo para sua aculturação pelo povo e pelas religiões. O tempo fará o resto.

d) No caso de uniões de pessoas do mesmo sexo que adotaram crianças, como é necessário comportar-se pastoralmente, em vista da transmissão da fé?

Antes de tudo, a “aceitação da união estável” de pessoas do mesmo sexo como natural, impedindo que se manifestem os preconceitos sociais ou religiosos antes mencionados. As escolas terão a obrigação de monitorar a convivência dos filhos adotados por casais homossexuais com os demais colegas, justamente na “idade da crueldade”, para impedir práticas comuns da idade que podem marcar negativamente a personalidade dos que se sintam marginalizados pelo grupo por esse motivo.

6 - Sobre a educação dos filhos no contexto das situações de matrimónios irregulares

a) Qual é nestes casos a proporção aproximativa de crianças e adolescentes, em relação às crianças nascidas e educadas em famílias regularmente constituídas?

Os divorciados que voltam a casar-se, vivem uma situação juridicamente regular conforme a lei, embora não acolhidos como tal pela Igreja, que não reconhece o vínculo sacramental, vedando-lhes o acesso à eucaristia. Pode chegar a um terço os casamentos que terminam em separações informais ou divórcios legais e têm filhos em segunda união. É crescente a proporção de casais nessa situação, no Brasil, mas as estatísticas não são confiáveis e variam sensivelmente entre diferentes status sociais.

b) Com que atitude os pais se dirigem à Igreja? O que pedem? Somente os sacramentos, ou inclusive a catequese e o ensinamento da religião em geral?

Os pais católicos nessa situação ainda denominada irregular, desejam sua plena integração na vida da sua Igreja, o que é atendido apenas parcialmente em vista da impossibilidade de acesso à eucaristia, como anteriormente comentado. Esta é uma das mais criticadas normas eclesiásticas e poderá vir a ser revisada no atual papado.

c) Como as Igrejas particulares vão ao encontro da necessidade dos pais destas crianças, de oferecer uma educação cristã aos próprios filhos?

Quanto à catequese e formação religiosa dos filhos, não há logicamente qualquer impedimento nas paróquias e colégios católicos, já superadas discriminações do passado. Se os pais tiveram uma formação cristã, estarão qualificados e motivados para a transmissão da fé aos seus filhos, Entretanto, o tratamento da Igreja quanto ao acesso desses pais à eucaristia pode vir a ser um desestímulo para exercer essa responsabilidade.

d) Como se realiza a prática sacramental em tais casos: a preparação, a administração do sacramento e o acompanhamento?

Como anteriormente afirmado, já não persistem antigas discriminações que exigiam tratamento diferenciado para essas situações.

7 - Sobre a abertura dos esposos à vida

a) Qual é o conhecimento real que os cristãos têm da doutrina da Humanae vitae a respeito da paternidade responsável? Que consciência têm da avaliação moral dos diferentes métodos de regulação dos nascimentos? Que aprofundamentos poderiam ser sugeridos a respeito desta matéria, sob o ponto de vista pastoral?

Recordando: antes da edição da Humanae Vitae, o papa Paulo VI convocou uma comissão de especialistas de reconhecida competência e formação ética para assessorá-lo nessa matéria. Sobre os métodos adotados para o planejamento familiar, houve divergências insuperáveis nessa Comissão. Decidiram dividir-se em dois grupos: os que aceitavam como moral e ético o uso de anticoncepcionais (maioria) e os que os limitavam à continência periódica com base no estudo Ogino-Knauss (minoria). Ambas conclusões foram encaminhadas ao papa que, surpreendendo, optou pela indicação da minoria. Estima-se ter sido muito baixa a acolhida a essa norma, desde o seu anúncio. A Igreja poderia orientar os cristãos sobre a evolução dos estudos sobre o tema e a avaliação das práticas que se consolidaram ao longo dessas cinco décadas e anunciar que as recomendações anteriores se justificaram pelo contexto sociocultural da época em que foram adotadas. No item 9 deste questionário aduziremos um texto produzido naquele momento que melhor descreve a tensão produzida.

b) Esta doutrina moral é aceita? Quais são os aspectos mais problemáticos que tornam difícil a sua aceitação para a grande maioria dos casais?

Como afirmado antes, essa doutrina foi praticamente ignorada pelos casais católicos desde a divulgação da FC, mas muitas vezes criando conflitos de consciência em casais que se viam como desobedientes à Igreja. Com o tempo, esse conflito se dissipou e há décadas o uso de anticoncepcionais se universalizou, sem problemas de ordem moral para os católicos.

c) Que métodos naturais são promovidos por parte das Igrejas particulares, para ajudar os cônjuges a pôr em prática a doutrina da Humanae vitae?

Não observamos posicionamentos novos da Igreja sobre essa orientação da HV, raramente acolhida pelos católicos desde a sua publicação. Nessa encíclica o papa somente oferecia a alternativa do método “natural” da continência periódica pelo conhecimento dos períodos férteis e não férteis da mulher. Entretanto o ritmo regido pelo calendário não é infalível, resultando frequente a gravidez não planejada. O uso de anticoncepcionais está popularizado há décadas, sem qualquer escrúpulo de natureza moral ou religiosa dos casais cristãos.

d) Qual é a experiência relativa a este tema na prática do sacramento da penitência e na participação na Eucaristia?

Os católicos, de modo geral, não deixaram de utilizar os métodos “artificiais” nem de participar da Eucaristia, caracterizando uma desobediência consciente à HV.

e) Quais são, a este propósito, os contrastes que se salientam entre a doutrina da Igreja e a educação civil?

São frequentes as campanhas públicas educativas dos governos para o uso de preservativos contra a transmissão da AIDS/SIDA. Trata-se de um problema de saúde pública em vista de desordenada prática sexual na sociedade, mas contribui para popularizar o seu uso por casais que precisam programar sua prole de forma responsável.

f) Como promover uma mentalidade mais aberta à natalidade? Como favorecer o aumento dos nascimentos?

Promover a natalidade é um desafio ainda recente para os países europeus que se ressentem da estagnação ou mesmo decrescimento de suas populações, com consequências preocupantes para a sua economia. Temos notícias de campanhas públicas com esse objetivo nesses países. Não é caso do Brasil e da América Latina. No nosso continente é prevalente a divulgação do conceito da paternidade responsável.

8 - Sobre a relação entre a família e a pessoa

a) Jesus Cristo revela o mistério e a vocação do homem: a família é um lugar privilegiado para que isto aconteça?

Sim, naturalmente. Mas as famílias se mostram despreparadas frente à acelerada mutação da cultura, ativada pelo fenômeno dos meios de comunicação, a internet e redes sociais, que geralmente conspiram contra esse desempenho esperado. É cada vez mais necessária a expansão dos múltiplos movimentos cristãos centrados na família, com a formação de grupos, equipes, comunidades eclesiais de casais e de filhos, que criam laços de amizade e confiança, com espaços e tempos para encontros nas próprias casas. A Igreja deve incentivar e oferecer apoio a esses movimentos como desdobramento dos espaços das igrejas, inclusive como ambientes propícios para celebrações domésticas.

b) Que situações críticas da família no mundo contemporâneo podem tornar-se um obstáculo para o encontro da pessoa com Cristo?

Podem-se destacar: as crises conjugais, as situações de conflitos entre pais e filhos, a preocupante disseminação crescente dos tóxicos e do álcool envolvendo jovens e adolescentes, mas também muitos pais, com suas consequências de muito difícil controle. Também ter em conta os efeitos da pornografia cada vez mais sofisticada e presente nos meios de comunicação que invadem os lares, com dificuldade de controle familiar.

c) Em que medida as crises de fé, pelas quais as pessoas podem atravessar, incidem sobre a vida familiar?

A principal é a revolta contra Deus e logo a descrença no seu apoio, não visível, frente a crises de várias naturezas, na família, nas relações sociais, acontecimentos trágicos, doenças, mortes prematuras e outros desafios que levam a duvidar de sua existência ou ante a aparente impassividade divina. A Igreja é desafiada a esclarecer e ajudar os católicos a vencer essa visão irreal de um “deus provedor” a nosso serviço, que mais pareceria uma ama-seca ou “quebra-galhos” nas nossas dificuldades. É necessário a Igreja repensar a educação mais adulta da fé.

9 - Outros desafios e propostas

Existem outros desafios e propostas a respeito dos temas abordados neste questionário, sentidos como urgentes ou úteis por parte dos destinatários?

Com a ajuda das ciências humanas e da pesquisa teológica, a Igreja vai revendo e reformulando velhas concepções e interpretações da vontade de Deus, revisando suas doutrinas, reformulando seus ensinamentos, modificando suas práticas, revogando proibições e punições - e pedindo perdão, como fez João Paulo II no início do seu papado. Em suma, submetendo-se à inspiração divina sempre presente mas à qual tantas vezes a Igreja terá se fechado, ao longo dos tempos.

Essa constatação deveria induzir a mais humildade dos formuladores das doutrinas e normas canônicas ou pastorais, e maior abertura à novidade que surge dos estudos dos teólogos e às interpelações dos cristãos leigos adultos que as questionam. É desses confrontos fraternos e construtivos que lentamente emerge a verdade, purifica-se a doutrina, humaniza-se a Igreja.

A postura repressora do passado ainda se abate sobre teólogos e leigos que contestam questões mal resolvidas na vida da Igreja. O celibato forçado dos sacerdotes, o casamento religioso, a participação na Eucaristia e o reconhecimento da possível sacramentalidade da união de divorciados que voltam a se casar, o uso de contraceptivos que não aqueles equivocadamente chamados métodos naturais e outras orientações ou normas canônicas e pastorais que continuam sendo tratadas como questões fechadas e assim não admitem discussões, não obstante a inconsistência das bases teológicas que as sustentam.

Frente a esses questionamentos, a única reação da autoridade religiosa, em qualquer nível, sempre foi, ainda no passado recente, a ameaça de condenação, os expurgos, proibições de ensinar ou mesmo de falar em espaços controlados pela Igreja - nunca a análise franca e desarmada de argumentos e proposições inovadoras.

Parece-nos interessante recordar, entretanto, o muito que tem mudado nas doutrinas e práticas da Igreja, não apenas nas grandes mudanças ocorridas ao longo de séculos, mas nos tempos de uma vida. Os mais idosos vão se recordar das normas e disciplinas que lhes eram impostas e ensinadas em sua adolescência e juventude, nos excelentes colégios católicos que frequentaram e que não sobreviveram a duas gerações.

Assim, permaneceremos abertos ao muito que seguirá mudando nos próximos anos e décadas, permitindo-nos relativizar as "certezas" que hoje se impõem. É claro que, como antes aqui afirmado, tudo o que se refere ao amor e à justiça, à humanização e à esperança cristã, à caridade e à solidariedade humana, permanecerá como essência da mensagem evangélica. O resto é dinâmico e evolutivo, criações humanas sob influxo da cultura, entendimentos provisórios, sujeitos a revisões em vista do avanço das ciências e da reflexão teológica que nenhum autoritarismo impedirá.

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