O Vatileaks e as ''guerras vaticanas''

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30 Outubro 2012

No dia 21, o jornalista Enzo Romeo, que cobre o Vaticano para a rede italiana de televisão Tg2, lançou o seu novo livro, Guerre Vaticane, em uma apresentação do outro lado da rua da Sala de Imprensa do Vaticano, na Livraria Ancora, em Roma.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no jornal National Catholic Reporter, 26-10-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O livro foi motivado pelo caso Vatileaks, que parece ter chegado a uma espécie de conclusão com a divulgação da sentença de Paolo Gabriele, a "toupeira" que vazou inúmeros documentos confidenciais do Vaticano ao jornalista italiano Gianluigi Nuzzi.

Romeo tem uma reputação como repórter confiável, e o seu livro fornece um panorama útil sobre a bagunça total do Vatileaks, começando com a publicação, no início de 2012, de duas cartas escritas pelo arcebispo Carlo Maria Viganò, ex-autoridade número dois no governo do Estado da Cidade do Vaticano e o atual embaixador papal em Washington, EUA, sobre a suposta corrupção e nepotismo nas finanças vaticanas.

Para aqueles que não estão a par dos meandros do Vatileaks, o livro também oferece uma perspectiva mais ampla. Em sua apresentação, Romeo disse que ficou impressionado com a forma como o Vaticano parece cada vez mais desconectado do mundo externo.

"O Vaticano está se tornando cada vez mais autorreferencial", disse. "Eles debatem, discutem, falam, pensando apenas em si mesmos. Eles perderam o senso de contato com as pessoas".

Para romper isso, Romeo sugeriu uma proposta intrigante. Os cardeais, observou, são todos nomeados a igrejas romanas pelas quais eles são responsáveis, um lembrete das origens dos cardeais como pastores em Roma. Hoje, disse, a sua relação com essas igrejas é principalmente "heráldica", no sentido de que vemos o seu brasão de armas na entrada, mas não muito mais do que isso. Talvez, afirmou, os cardeais poderiam ser chamados a desempenhar algum tipo de papel pastoral nessas igrejas, como forma de restaurar uma relação direta com as pessoas comuns.

Isso "não é uma utopia", insistiu Romeo, "mas sim um passo pequeno que poderia ser dado" na direção de uma "era pós-guerra no Vaticano", ou seja, um período além dos conflitos internos revelados pelo caso Vatileaks.

* * *

Para os leitores de fora da Itália, talvez o aspecto mais interessante do livro de Romeo é a sua listagem dos prelados que ele considera como papáveis, ou seja, candidatos a ser o próximo papa. Aqui está a forma como ele divide o campo:

Italianos

  1. Cardeal Angelo Scola, de Milão (que Romeo acredita estar claramente no topo da lista);
  2. Cardeal Angelo Bagnasco, de Gênova, presidente da Conferência Episcopal Italiana;
  3. Arcebispo Francesco Moraglia, de Veneza (ainda não cardeal, mas o favorito da ala mais tradicionalista da Igreja);
  4. Cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura (Romeo admite que Ravasi é um intelectual sem experiência pastoral e pergunta se, depois de Bento XVI, "a Igreja pode se permitir outro professor").

Não italianos

  1. Cardeal Marc Ouellet, do Canadá, prefeito da Congregação para os Bispos;
  2. Cardeal Christoph Schönborn, de Viena, Áustria;
  3. Cardeal Peter Erdő, de Budapeste, Hungria;
  4. Cardeal Philippe Barbarin, de Lyon, França;
  5. Cardeal Timothy Dolan, de Nova York, EUA;
  6. Cardeal Odilo Pedro Scherer, de São Paulo, Brasil;
  7. Cardeal Peter Turkson, de Gana, presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz;
  8. Cardeal Robert Sarah, da Guiné, presidente do Pontifício Conselho "Cor Unum".

Como nota de rodapé, Romeo escreveu o livro antes que Turkson aparentemente diminuísse as suas chances ao exibir um vídeo antimuçulmano durante o Sínodo sobre a evangelização, uma apresentação criticada por bispos de diversas partes do mundo por ser alarmista e impreciso.

Quanto a Dolan, Romeo o chama de "um conservador com uma personalidade carismática", dizendo que "aqueles que não o conhecem bem ficam impressionados com a sua personalidade bem-humorada e seu sorriso aberto".

No entanto, Romeo acrescenta: "O seu tom doce não deve enganar ninguém. Dolan é astuto (incluindo em termos de autopromoção, segundo seus críticos), mas determinado. Como presidente da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, ele empreendeu uma batalha até a última gota de sangue contra o governo Obama".

* * *

Finalmente, em uma nota interna, Romeo diz uma coisa em voz alta que eu sempre pensei a respeito: a história do Vatileaks não foi revelada pelos vaticanistas, ou seja, pelos jornalistas especializados na cobertura do Vaticano, mas sim por Nuzzi, um forasteiro no mundo da Santa Sé. Isso é ainda mais impressionante pelo fato de que Gabriele, o mordomo papal que vazou os documentos, realmente conhecia muitas pessoas dos órgãos de imprensa vaticanos.

Romeo se questiona se os vaticanistas não queriam morder a mão que os alimenta, no sentido de que eles são propensos a comedir suas palavras, ou se o seu senso de responsabilidade os impedia de buscar histórias que eles sabiam que seriam exagerada e mal compreendidas. Ele chama isso de "uma questão em aberto".

(Aliás, normalmente eu mesmo sou classificado como um vaticanista, e por isso a reflexão anterior também se aplica a mim.)

Em todo caso, disse Romeo, o fato é que os supostos especialistas nos fatos vaticanos foram em grande parte "ignorados" naquela que acabou sendo a história vaticana mais sensacional dos últimos anos.

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