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16 Janeiro 2011

"Com o homem, inicia-se a grande aventura de um ser que é provido de pensamento e de liberdade, que revela uma transcendência com relação ao animal e remete a uma causa transcendente. O sentido e o fim da evolução pode ser visto no homem."

A análise é do antropólogo, paleontólogo e sacerdote italiano Fiorenzo Facchini, publicada no jornal L’Osservatore Romano, 15-01-2011. O texto é um trecho de um artigo que será publicado no próximo número da revista italiana Vita e Pensiero. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A história do universo registra um crescimento de complexidade a partir do Big Bang. Da "sopa cósmica" (radiações, partículas carregadas eletricamente) dos primeiros 400 mil anos se formaram átomos, moléculas, agregados de matéria que levaram a milhares de galáxias.

A evolução da vida sobre a Terra também é marcada por um crescimento de complexidade a partir das formas ancestrais, os procariontes, de 3-4 bilhões de anos.

A formação dos primeiros unicelulares providos de núcleo há 2 bilhões de anos foi uma passagem fundamental. O desenvolvimento da vida não foi um caminho linear.

Nos últimos 350 milhões de anos, formaram-se as diversas direções evolutivas. Muitas se extinguiram, outras parecem terem sido impedidas em um certo nível e sobrevivem. Entre essas, existe aquela dos hominídeos que levou à humanidade.

Diante do fenômeno do crescimento da complexidade, pode-se fazer dois tipos de perguntas: quais causas a determinaram? Qual sentido ou finalidade pode ter? A primeira pergunta é de ordem científica, embora com algumas implicações filosóficas; a segunda é de ordem filosófica.

A teoria de Darwin reconhece nas inovações genéticas casuais e na seleção operada pelo ambiente o mecanismo pelo qual cresceu a complexidade da vida. Exclui-se qualquer intencionalidade externa. À seleção natural, é reconhecida uma função diretiva.

Esse modo de ver admite, porém, algum princípio finalístico, mesmo que intrínseco à natureza. A relação entre estrutura e função, os programas genéticos que se formam e regulam o desenvolvimento do embrião respondem a um princípio finalístico. Monod não o negava, mas preferia falar de teleonomia. Ayala utiliza o termo de teleologia interna, conexa à natureza. Ambos excluem qualquer intencionalidade externa. Os programas se formam sem que ninguém os tenha pensado.

Por outro lado, o caráter aleatório das mutações não comporta, por si só, que a organização da vida ocorra sem regras ou não seja dependente de propriedades bem definidas que permitem as necessárias relações em nível atômico, molecular, celular.

A teoria darwiniana da evolução é fortemente criticada por Piattelli Palmarini e Fodor em um recente livro (Gli errori di Darwin, 2010). Muitos cientistas admitem que ela não parece adequada e requer integrações. A questão deve ser considerada em aberto.

Com relação à complexidade, há, depois, implicações de caráter filosófico a partir da harmonia da natureza. A racionalidade com a qual o sistema da natureza funciona faz pensar em uma mente superior ou em um Logos ordenador, observou Bento XVI.

Essa dedução não é de tipo científico, mas é uma argumentação racional que, evidentemente, reconecta a realidade a uma causalidade superior, identificável com Deus, e às suas intenções. A questão do fim ou do significado da criação não é de ordem científica, mas filosófica. Mas como pode ser entendida a relação causal de Deus com o universo? E como os eventos casuais podem se conciliar com esse modo de ver?

A causalidade divina e as causas segundas não podem ser postas no mesmo plano, não agem do mesmo modo. A causa divina, ou causa primeira, age por meio das causas segundas (propriedades da matéria, inanimada e viva, fatores da natureza). Mas a sua ação não deve ser entendida como um agente externo que se une aos naturais e guia os eventos genéticos ou geológicos ou os integra no seu resultado.

As novidades biológicas se realizam por meio das causas segundas, sem que se deva pensar em intervenções externas de tipo diretivo. Deve ser reconhecida uma autonomia às causas segundas, que operam pelas suas propriedades ou regras ou mecanismos, que ainda não conhecemos plenamente.

Não é necessário perturbar a causalidade divina para suprir ou guiar de modo direto das mudanças da natureza, como defende a teoria do Design Inteligente. De fato, realizam-se novidades de ordem biológica que adquirem sentido e entram novamente no plano de Deus.

Podemos ver um exemplo na formação do rifte [falha tectônica] africano há cerca de 20 milhões de anos, um evento que foi muito importante para favorecer um ambiente aberto idôneo para o bipedismo ou o desenvolvimento dos hominídeos. Mas não se deve pensar que Deus, com a sua ação direta, provocou a elevação das montanhas do rifte e as sucessivas mudanças de ambiente nas regiões orientais. Houve movimentos tectônicos conexos ao desvio dos continentes.

A causalidade divina pode ser conciliada, portanto, com os fatores da natureza que regulam eventos tanto de tipo determinístico, quanto totalmente casuais. Causalidade e casualidade podem se entrecruzar.

O acaso está incluído na realidade criada e entra no projeto do Criador, que nós vemos a posteriori, diferentemente de Deus, a quem tudo é presente. Seja os eventos casuais, seja os de tipo determinístico são desejados por meio das causas segundas e podem assumir um significado.

Mas se tudo deve ser reconduzido a Deus, mesmo que por meio das causas segundas, qual pode ser a intenção? Qual sentido o crescimento da complexidade pode ter? Esse é o problema de uma finalidade geral que a ciência empíric anão é capaz nem de afirmar e nem de negar, porque a questão de um fim geral não entra nos seus horizontes.

Podemos procurar a resposta olhando para os vários níveis da evolução da vida na terra e em sua sucessão no tempo. Durante 2 bilhões de anos, ela estava limitada a formas bactéricas. A partir dos 2 bilhões, as coisas mudaram, o oxigênio aumentou notavelmente na atmosfera, e uma vida aeróbica com os eucariontes foi possível.

Ao longo de muitos milhões de anos, desenvolveram-se as diversas séries evolutivas em uma sucessão que corresponde às classes dos seres vivos que hoje conhecemos. A vida inteligente é relativamente recente, dos últimos 2 milhões de anos. Do florescimento da vida ao aparecimento do homem, tem-se a impressão de um movimento ascensional na direção dos mamíferos e dos primatas, para culminar no homem. Isso é caracterizado por uma cerebralização crescente. Com o homem, a evolução se prolonga na cultura e na intensificação das relações sociais (Teilhard de Chardin).

Reconhecer no homem o sentido mais alto do movimento evolutivo contrasta radicalmente com a visão do darwinismo, que vê no homem um evento puramente fortuito, assim como em qualquer espécie. Mas esse único modo de ver o "evento homem" não satisfaz uma leitura do desenvolvimento da vida no seu conjunto e do sucesso da espécie humana.

Com o homem, inicia-se a grande aventura de um ser que é provido de pensamento e de liberdade, que revela uma transcendência com relação ao animal e remete a uma causa transcendente. O sentido e o fim da evolução pode ser visto no homem.

 

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