Papa Francisco mira na imprensa e cultura da “pós-verdade” em discurso aos movimentos populares

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22 Outubro 2021

 

“O discurso do Papa Francisco para o encontro dos movimentos sociais é impressionante. Nenhum outro líder mundial fala assim. Na tradição cristã, precisamos voltar a professores como São João Crisóstomo e Santo Agostinho para encontrar esse tipo de articulação estimulante das consequências sociais do pecado. Com todo o barulho dos tempos da “pós-verdade” em que vivemos, quão abençoada é a Igreja Católica por ter um líder que ataca todas as m* e fala com clareza moral”, escreve Michael Sean Winters, jornalista, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 20-10-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

O Papa Francisco proferiu mais um marcante discurso no último final de semana quando falou para o 4º Encontro Mundial de Movimentos Populares. Os encontros de líderes comunitários são como encontros de teólogos, só que a teologia é mais feita com as mãos do que com as palavras. Parecem convidar Francisco para que mostre ao mundo o lado dele que antes só aqueles que ele visitava nos bairros de Buenos Aires conheciam.

Os encontros mundiais ocasionaram alguns dos mais fortes ensinamentos sociais do Papa, como o testemunhado em 2015 quando ele falou no segundo encontro em Santa Cruz de La Sierra, Bolívia. Lá ele disse:

 

“E por trás de tanto sofrimento, tanta morte e destruição, sente-se o cheiro daquilo que Basílio de Cesareia chamava ‘o esterco do diabo’: reina a ambição desenfreada de dinheiro. O serviço ao bem comum fica em segundo plano. Quando o capital se torna um ídolo e dirige as opções dos seres humanos, quando a avidez do dinheiro domina todo o sistema socioeconômico, arruína a sociedade, condena o homem, transforma-o em escravo, destrói a fraternidade inter-humana, faz lutar povo contra povo e até, como vemos, põe em risco esta nossa casa comum”.

 

Essas palavras deveriam ser inscritas na entrada de todas as Escolas de Negócios das universidades católicas, mas não estão.

Nesta final de semana, os comentários do papa sobre os protestos depois do assassinato de George Floyd corretamente viraram manchete. O papa disse o que ele acha daqueles protestos quando lembra do Bom Samaritano:

 

“É óbvio que as reações deste tipo contra a injustiça social, racial ou machista podem ser manipuladas ou instrumentalizadas para maquinações políticas e manobras semelhantes; mas o essencial é que, neste caso, nesta manifestação contra essa morte, estava o Samaritano Coletivo (que não era nenhum pateta!). Esse movimento não passou ao largo quando viu a ferida da dignidade humana infligida por semelhante abuso de poder. Os movimentos populares são, além de poetas sociais, Samaritanos Coletivos”.

 

Podem me chamar de ultramontano, mas sempre me impressiona que um argentino de 84 anos, que nunca passou muito tempo nos EUA, consiga identificar e nomear um ponto de inflexão na cultura país que tantos católicos estadunidenses falham em conseguir.

O Santo Padre também discutiu o desafio da “trama da pós-verdade”. De fato, ele mencionou isso muitas vezes. No início de sua fala, quando discutindo a pandemia e as respostas do mundo a ela, ele falou:

 

“Nestes meses, muitas coisas que vocês denunciaram tornaram-se totalmente evidentes. A pandemia veio pôr a descoberto as desigualdades sociais que afetam os nossos povos e expôs (sem pedir licença ou desculpa) a angustiante situação de tantos irmãos e irmãs, uma situação que tantos mecanismos de pós-verdade não conseguiram ocultar”.

 

Aqui está uma conexão entre as desigualdades e o mecanismo da pós-verdade e a conexão é a cultura do consumo. Compra-se o nosso silêncio com entretenimento, e nos afirma em nossa ignorância pela fixação da atenção midiática em preocupações efêmeras e dramas hollywoodianos. Isso cria a necessidade de querermos esquecer as verdadeiras necessidades dos nossos irmãos e irmãs que vivem na pobreza.

Depois de discutir que o surpreende o que algumas pessoas expressam quando ele cita a Doutrina Social da Igreja, o Papa falou:

 

“Isso não me aborrece, entristece-me. Faz parte da trama da pós-verdade que procura anular qualquer busca humanista alternativa à globalização capitalista, faz parte da cultura do descarte e faz parte do paradigma tecnocrático”.

 

A palavra “trama” sugere intenção, e a intenção é o returno às velhas formas de fazer dinheiros, formas que requerem a anulação de qualquer humanismo, ainda mais o verdadeiro testemunho cristão. Os críticos do Papa Francisco, é claro, esquecem que João Paulo II e Bento XVI também são citavam explicitamente sobre as exigências do Evangelho em confrontar questões de justiça econômica. Suas maneiras de discursar podem ser menos incisivas, mas o ensino era o mesmo.

O Papa mencionou a “pós-verdade” também em suas palavras para a mídia:

 

“Quero pedir em nome de Deus aos meios de comunicação que acabem com a lógica da pós-verdade, a desinformação, a difamação, a calúnia e esse fascínio doentio pelo escândalo e o sórdido, que procurem contribuir para a fraternidade humana e a empatia com os mais vulneráveis”.

 

Eu desejo corrigir o Supremo Pontífice em apenas uma coisa: se nós na mídia não revelarmos escândalos, quem irá? Há um foco “não saudável” sobre o escândalo, de fato, mas há também um foco saudável sobre os escândalos. Suas outras objeções a forma que a mídia moderna opera não precisa de emendas.

Confrontar estas manifestações de desprezo pela verdade e encontrar formas de centrar a preocupação com a veracidade é parte integrante da tarefa de criar uma cultura indispensável precursora da evangelização. Ideologia e interesses não são amigos nessa empreitada, como você pode ver assistindo a programas de notícias a cabo. Tanto à esquerda quanto à direita, distorções de linguagem e apelos carregados de emoção ofuscam a busca pela verdade, em vez de auxiliá-la. Dito isso, o grau em que um partido político neste país, o partido de Trump, está disposto a engolir grandes mentiras e passá-las adiante como verdade torna qualquer sugestão de equivalência moral impossível.

Esse discurso para o encontro dos movimentos sociais é impressionante. Nenhum outro líder mundial fala assim. Na tradição cristã, precisamos voltar a professores como São João Crisóstomo e Santo Agostinho para encontrar esse tipo de articulação estimulante das consequências sociais do pecado. Com todo o barulho dos tempos da “pós-verdade” em que vivemos, quão abençoada é a Igreja Católica por ter um líder que ataca todas as m* e fala com clareza moral.

 

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